Após a identificação forense
1. A notificação da morte
Depois que a identidade de uma pessoa desaparecida é determinada, a sua família deve ser informada do fato. A notificação oficial da morte confirmará que o seu parente foi encontrado.
18 Razões para excluir famílias do processo de recuperação incluem a possibilidade de: 1) comprometer a investigação ao influenciar os investigadores; 2) aumentar os riscos de segurança para as famílias e os investigadores; 3) traumatizar ainda mais as famílias; 4) reacender as hostilidades. E outro motivo, que muitas vezes ocorre, é a resistência das autoridades e dos pesquisadores em proceder de uma forma totalmente transparente. Se for decidido, em determinadas áreas, que o envolvimento das famílias não é possível ou não é conveniente (por exemplo, por segurança), isto deve ser claramente explicado às famílias.
19 Para mais informações sobre sistemas de classificação usados na identificação humana forense, ver INTERPOL: Disaster Victim Identification Guide, http://www.interpol.int/ public/DisasterVictim/default.asp.
20 Em algumas situações, a reconciliação (consolidação de dados e identificação final) é uma etapa separada da investigação, conduzida por um painel externo autorizado, chamado, às vezes, de “Comissão de Identificação”.
4. ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DURANTE A RECUPERAÇÃO E A IDENTIFICAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS 137
136 ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DE PESSOAS DESAPARECIDAS
EXEMPLO
“A assistência no âmbito individual pode ser inútil se a pessoa retorna a uma comunidade que está em estado de luto coletivo. No Zimbábue, por exemplo, a família de uma vítima exumada expressou fortemente a opinião de que o assassinato do seu parente não ofendeu apenas a família em si, mas toda a comunidade. E que, portanto, a comunidade também precisava ser incluída no processo e ser curada”. – M. Blaauw, V. Lähteenmäki, “‘Denial and silence’ or ‘acknowledgement and disclosure’”, International Review of the Red Cross, nº. 848, dezembro de 2002.
Para as famílias ¼
¼A recuperação pode ajudar a reconstruir as circunstâncias da morte da pessoa desaparecida.
¼
¼Dá a elas a sensação de estarem envolvidas no processo e mais próximas dos seus parentes desaparecidos.
¼
¼Pode ser – em igual medida – dolorosa e saudável, um estágio necessário na descoberta da verdade. Com algumas exceções, estar presente quando os restos são recuperados é importante para as famílias. Podem ver com os próprios olhos o que temeram e negaram durante tantos anos. Essa pode ser uma maneira de começar a tomar uma atitude sobre o que têm passado. Quando a recuperação é feita de forma profissional, as famílias veem o cuidado com que os restos são tratados e as habilidades técnicas envolvidas. Isso pode facilitar a sua reconciliação com a situação e com os resultados do processo.
Families must be made ready to face this event and properly informed in order to avoid creating false expectations or additional worries. They should be also told of the possibility of no remains, or only some bones, being found, and that some of these bones may be seriously damaged; they should know that the recovery of remains does not necessarily lead to the identification of all the victims.
EXEMPLO
Durante oficinas na Guatemala, os acompanhantes às vezes convidam pessoas que passaram por um processo de exumação de um parente – e que são de outras comunidades – para irem e dividirem as suas experiências com as famílias que ainda passarão por isso. Compartilhar e trocar experiências são maneiras de aumentar a confiança das famílias nesses procedimentos.
Enquanto as exumações eram realizadas em povoados, sessões informativas sobre o processo aconteciam em escolas e outros locais para os moradores. Segundo os acompanhantes, essas sessões ajudaram a aumentar a compreensão da comunidade sobre a importância das exumações e o apoio dado às famílias.
Relatório interno do CICV, 2007.
Decidir se um familiar deve observar ou inclusive participar da recuperação de restos pode criar um dilema para as pessoas que acompanham as famílias. Algumas pessoas podem argumentar que as famílias estão em melhor posição para saber com o que podem lidar. Já outras dizem que isso será traumatizante para os familiares, mesmo que tenham sido plenamente informados sobre o que estão a ponto de ver. No final, a decisão cabe às famílias. Tudo o que um acompanhante pode fazer é assegurar que as famílias sejam suficientemente informadas e preparadas.
CASO
À medida que os primeiros ossos começam a aparecer, a dor retorna. Rostos tristes, lágrimas e sofrimento são visíveis. Boris Ayala Pallqui é talvez quem descreve mais vividamente os sentimentos dos familiares. “Durante 25 anos, tive a grande dor de não saber o que aconteceu com o meu pai. Sinto dor e frustração reprimida em virtude de anos de incerteza. Isso é bastante traumatizante. E há muitos jovens aqui na mesma situação. Mas, ao mesmo tempo, também temos a esperança de encontrar os restos dos nossos entes queridos para que finalmente possamos enterrá-los e colocar flores nos seus túmulos”, diz Boris, tão triste que tem uma crise de choro.
Do website do CICV, Peru, 2009.
É importante observar que, por diversas razões, a presença das famílias pode nem sempre ser bem-vinda nos lugares de recuperação.18 Em muitos contextos, as famílias têm a possibilidade de ver os restos dos seus entes queridos somente após o processo de identificação (ver o texto “Vendo os restos mortais”, p. 139). Se for decidido, em determinadas áreas, que a participação das famílias não é possível, ou não é desejável, o melhor é ser franco sobre isso e explicar a decisão a elas.
As famílias têm o direito de ser plenamente informadas sobre as investigações, diretamente ou por meio de representantes legais.
3. A identificação dos corpos/restos mortais
Após a recuperação dos restos, eles devem ser enviados para a análise laboratorial e reconciliação, a fim de que sejam examinados e identificados por especialistas. Informações sobre características físicas e objetos de uso pessoal da pessoa desaparecida, assim como sobre as circunstâncias da sua morte (AM) serão comparadas com as informações correspondentes dos restos (dados post mortem ou PM).
Nos casos em que a morte tenha sido bastante recente, as famílias podem ter a possibilidade de reconhecer o seu parente imediatamente, vendo o corpo em si ou fotografias dele. Mas o reconhecimento visual dos restos muitas vezes não é possível e, em muitas circunstâncias, é propenso ao erro.
Consequentemente, é necessário usar meios científicos de identificação, que também são aspectos da coleta de dados AM e PM; eles são conclusivos ao ponto de serem considerados indubitáveis na maioria dos contextos jurídicos.
Esses meios incluem:19
¼
¼Comparação dos dados dentários ante mortem e post mortem;
¼
¼Comparação da impressão digital ante mortem e post mortem;
¼
¼Comparação de outros identificadores, como características físicas e médicas únicas, incluindo radiografias ósseas e implantes cirúrgicos ou próteses numeradas;
¼
¼Comparação de amostras de DNA dos restos mortais com amostras de referência.
O último passo da etapa de análise laboratorial e reconciliação da identificação forense envolve a consolidação de todos os dados disponíveis (dados do terreno, dados de comparação de dados AM-PM, etc.) para conseguir uma identificação positiva pela qual os restos mortais coincidam conclusivamente com uma pessoa desaparecida.20 Quaisquer informações que possam ajudar a identificar um corpo ou um conjunto de restos mortais podem ser consideradas pelos investigadores, mas, como regra geral, quanto mais confiáveis (ou seja, corretos), completos, detalhados e específicos forem os dados, maiores serão as chances de se identificarem corretamente os restos. Depois que os especialistas forenses identificam os restos, um patologista (ou outra autoridade do ramo) assina o atestado de óbito. Para as famílias, a identificação dos restos é a prova que elas estão esperando. Como já foi mencionado, sem a confirmação da morte e sem os restos para enterrar, o processo de luto não pode começar.
Após a identificação forense
1. A notificação da morte
Depois que a identidade de uma pessoa desaparecida é determinada, a sua família deve ser informada do fato. A notificação oficial da morte confirmará que o seu parente foi encontrado.
18 Razões para excluir famílias do processo de recuperação incluem a possibilidade de: 1) comprometer a investigação ao influenciar os investigadores; 2) aumentar os riscos de segurança para as famílias e os investigadores; 3) traumatizar ainda mais as famílias; 4) reacender as hostilidades. E outro motivo, que muitas vezes ocorre, é a resistência das autoridades e dos pesquisadores em proceder de uma forma totalmente transparente. Se for decidido, em determinadas áreas, que o envolvimento das famílias não é possível ou não é conveniente (por exemplo, por segurança), isto deve ser claramente explicado às famílias.
19 Para mais informações sobre sistemas de classificação usados na identificação humana forense, ver INTERPOL: Disaster Victim Identification Guide, http://www.interpol.int/ public/DisasterVictim/default.asp.
20 Em algumas situações, a reconciliação (consolidação de dados e identificação final) é uma etapa separada da investigação, conduzida por um painel externo autorizado, chamado, às vezes, de “Comissão de Identificação”.
4. ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DURANTE A RECUPERAÇÃO E A IDENTIFICAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS 137