Após a recuperação adequada dos restos, eles devem ser enviados para a análise laboratorial e reconciliação. O primeiro passo para a análise em laboratório é o exame dos restos. Isto deve ser feito por peritos especificamente capacitados (patologistas, antropólogos, odontólogos, etc.), que reúnem informações – dados post mortem (PM) – sobre os próprios restos e todas as provas circunstanciais.
Os dados PM podem incluir as seguintes informações:
y Informações gerais sobre os restos (faixa etária, gênero, altura, etc.);
y Fatos médicos e dentários incluindo as características singulares dos restos (sinais de fraturas antigas ou marcas de cirurgia, condições dos dentes e presença de tratamento dentário como obturações, etc.);
y Impressões digitais;
y Roupas e objetos pessoais encontrados com os restos;
y Informações circunstanciais sobre os restos (onde foram encontrados e como foram parar nesse lugar, incluindo depoimentos de testemunhas, etc.).
Os dados PM devem ser então comparados com os dados AM de uma pessoa desaparecida (comparação AM-PM), o que deve também ser efetuado por peritos qualificados. Por exemplo: Os familiares de um homem desaparecido informam que ele:
y Tinha 21 anos quando desapareceu, media 1,75 cm, possuía uma coroa de ouro no dente médio superior, quebrou o braço esquerdo quando tinha 12 anos;
y Vestia uma camisa listrada azul e branca, calça preta com botões dourados e um relógio de ouro quando desapareceu.
y Foi visto pela última vez em dezembro de 1992. Os peritos e investigadores forenses sabem que:
y Os restos pertencem a um homem com idade entre 18-25 anos e altura entre 1,72 e 1,78 cm quando morreu, tinha uma coroa de ouro no dente incisivo esquerdo central superior e que há marcas de que tenha quebrado o úmero esquerdo (osso da parte superior do braço) vários anos antes de ter morrido.
y Uma testemunha relata que viu o corpo do desaparecido enterrado no povoado XX em fevereiro de 1993.
y Os restos foram achados com uma camisa listrada azul e branca, uma calça negra com botões dourados e um relógio de metal amarelo, em um túmulo no povoado XX que os moradores dizem que foi cavado em fevereiro de 1993.
4. ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DURANTE A RECUPERAÇÃO E A IDENTIFICAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS 145
144 ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DE PESSOAS DESAPARECIDAS
Dados AM Dados PM
Masculino Masculino 21 anos 18-25 anos
175 cm 172-178 cm
Coroa de ouro no dente superior central
Coroa de ouro no incisivo esquerdo central superior
Quebrou o braço esquerdo aos 12 anos Fratura antiga, calcificada no úmero esquerdo
Vestia uma camisa listrada azul e branca, uma calça preta com botões dourados e um relógio de ouro quando desapareceu
Encontrado com uma camisa listrada azul e branca, uma calça negra com botões dourados e um relógio de metal amarelo
Visto pela última vez em dezembro de 1992
Uma testemunha relata que viu o corpo do desaparecido enterrado no povoado XX em fevereiro de 1993/ restos encontrados em um túmulo no povoado XX que, segundo os moradores, foi cavado em fevereiro de 1993.
Comparação de dados AM-PM
Quanto maior o número de características coincidentes entre os dados AM e PM, maior a possibilidade de que os restos pertençam a quem se supõe. Por exemplo, se a única característica que é coincidente entre os dados AM com os dados PM diz respeito às informações gerais, como as que estão listadas acima em preto, então é muito provável que muitas pessoas desaparecidas se encaixarão no perfil dos restos mortais não identificados. Obviamente, porém, somente uma das comparações será a correta. As comparações coincidentes podem ser muito comuns e problemáticas se muitos dos Desaparecidos forem soldados desaparecidos em ação. No entanto, se houver características de comparação adicionais, como as listadas acima em azul, então a probabilidade de que uma equivalência AM-PM seja correta aumenta muito*. Pode-se complementar a comparação AM-PM de várias formas, como a reconstrução facial e a comparação de fotografias com os restos mortais. * Bases de dados de pessoas desaparecidas, como a Base de Dados Ante Mortem/Post Mortem (AMPM) do CICV, podem auxiliar na comparação automática preliminar, especialmente se houver grande número de pessoas desaparecidas.
FICHA INFORMATIVA 4.3 Comparação ante mortem e post mortem
Após a recuperação adequada dos restos, eles devem ser enviados para a análise laboratorial e reconciliação. O primeiro passo para a análise em laboratório é o exame dos restos. Isto deve ser feito por peritos especificamente capacitados (patologistas, antropólogos, odontólogos, etc.), que reúnem informações – dados post mortem (PM) – sobre os próprios restos e todas as provas circunstanciais.
Os dados PM podem incluir as seguintes informações:
y Informações gerais sobre os restos (faixa etária, gênero, altura, etc.);
y Fatos médicos e dentários incluindo as características singulares dos restos (sinais de fraturas antigas ou marcas de cirurgia, condições dos dentes e presença de tratamento dentário como obturações, etc.);
y Impressões digitais;
y Roupas e objetos pessoais encontrados com os restos;
y Informações circunstanciais sobre os restos (onde foram encontrados e como foram parar nesse lugar, incluindo depoimentos de testemunhas, etc.).
Os dados PM devem ser então comparados com os dados AM de uma pessoa desaparecida (comparação AM-PM), o que deve também ser efetuado por peritos qualificados. Por exemplo: Os familiares de um homem desaparecido informam que ele:
y Tinha 21 anos quando desapareceu, media 1,75 cm, possuía uma coroa de ouro no dente médio superior, quebrou o braço esquerdo quando tinha 12 anos;
y Vestia uma camisa listrada azul e branca, calça preta com botões dourados e um relógio de ouro quando desapareceu.
y Foi visto pela última vez em dezembro de 1992. Os peritos e investigadores forenses sabem que:
y Os restos pertencem a um homem com idade entre 18-25 anos e altura entre 1,72 e 1,78 cm quando morreu, tinha uma coroa de ouro no dente incisivo esquerdo central superior e que há marcas de que tenha quebrado o úmero esquerdo (osso da parte superior do braço) vários anos antes de ter morrido.
y Uma testemunha relata que viu o corpo do desaparecido enterrado no povoado XX em fevereiro de 1993.
y Os restos foram achados com uma camisa listrada azul e branca, uma calça negra com botões dourados e um relógio de metal amarelo, em um túmulo no povoado XX que os moradores dizem que foi cavado em fevereiro de 1993.
4. ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DURANTE A RECUPERAÇÃO E A IDENTIFICAÇÃO DOS RESTOS MORTAIS 145
146 ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DE PESSOAS DESAPARECIDAS
Lembrar-se de uma pessoa desaparecida pode reviver um estado de sofrimento psicológico ligado a experiências pessoais (p.ex., um acontecimento específico durante a guerra, o próprio desaparecimento, etc.). Isto pode desencadear reações emocionais (p.ex., choro) e físicas (p.ex., tremores).
Raiva: Quando as famílias expressam raiva, pode ser simplesmente porque ainda não tiveram a
oportunidade de fazê-lo. Isto muitas vezes tem relação com a falta de apoio e reconhecimento e com a frustração criada pela falta de respostas. Poderia se dizer que, de certo modo, a pessoa que coleta os dados ante mortem dá as famílias o espaço e a oportunidade para que expressem a sua raiva e a sua frustração.
Altas expectativas são causadas pelo fato de que alguém está finalmente tentando tomar uma ação
concreta: isto pode dar à família um alívio repentino. Podem ver nisso a possibilidade de acabar com o seu longo período de incerteza. É fundamental ser transparente e realista quanto a possíveis resultados do processo de identificação, sem criar expectativas falsas ou não realizáveis.
Medo de cometer um erro: As pessoas podem ter medo de dar a resposta errada, pensando que isto
poderia levar a uma identificação equivocada ou indicar um conhecimento insuficiente sobre o ente querido. As famílias também se sentem culpadas por não saberem as respostas a certas perguntas. Supõem que outros sabem as respostas porque, caso contrário, a pergunta não seria feita. Se esse for o caso, tranquilize a família, dizendo que é normal não se lembrar dos detalhes e tente obter as informações de outra forma.
Vergonha: Determinadas perguntas que devem ser formuladas durante a entrevista ante mortem
são bastante íntimas e podem deixar tanto o coletor como a família em situação incômoda: por exemplo, perguntar aos pais se a sua jovem filha estava grávida ou questões sobre peças de roupa íntima ou certas doenças que são consideradas tabus.
RESULTADOS POSITIVOS
Sentir-se reconhecido: a maioria das famílias sente-se confortada quando alguém reconhece o seu
sofrimento e está pronto para lhes dar atenção ou propiciar respostas.
Prestar informações sobre o seu parente desaparecido também pode dar às famílias a oportunidade
de expressar pensamentos e emoções pessoais, o que talvez ainda não tenham feito. Ao contar a sua história pessoal e fornecer uma amostra, os familiares também sentem que estão contribuindo para a identificação dos seus entes queridos de uma forma muito concreta.
Encontrar coragem para encarar o passado: Se a condução desses procedimentos for
suficientemente delicada, pode dar aos familiares a coragem de encarar o passado, assim como encarar um ao outro.
“Eu não sabia o que tinha acontecido com o meu pai (...). Quando eles vieram coletar sangue, a minha mãe finalmente nos contou a história do seu desaparecimento.” - Jovem mulher, 24 anos.
Estar preparado: Algumas pessoas podem ter dificuldade em aventar a possibilidade de que o seu
ente querido já não esteja vivo. Mas é importante ter em mente que os procedimentos, quando realizados com compreensão e compaixão, também podem ajudar as famílias a se preparar gradualmente para notícias dolorosas sobre a sorte do seu parente desaparecido.