1. Aceitação da perda
Esse é um processo paulatino e que depende de vários fatores, internos e externos.
¼
¼Fatores internos são relacionados a características e crenças individuais
CASO
Por mais de dez anos, a Sra. S. rejeitou a ideia da morte do filho. A sua filha não podia falar desse assunto com ela, mesmo sabendo que o irmão – sequestrado durante um conflito – estava morto. A lâmpada do lado de fora da casa era sempre deixada acesa para o caso de que ele retornasse no meio da noite e a Sra. S. certificou-se de que o seu quarto permanecesse intacto. Mais de dez anos após o desaparecimento do filho (e da sua suposta morte), a Sra. S. fez um bolo no seu aniversário e lhe deu um nome: “Suspiros de Desespero”. Essa foi a sua forma de mostrar que ela estava pronta para estar de luto.
Relatório Interno do CICV, sul do Cáucaso, 2008.
¼
¼Entre os fatores externos, podem-se mencionar:
¼
– Informações de testemunhas sobre a possibilidade de que a pessoa desaparecida esteja morta.
¼
– Declarações oficiais.
¼
– Mudança na situação política: no final do conflito, por exemplo, quando todos os prisioneiros tenham sido libertados e não haja sinal da pessoa desaparecida.
¼
– Decreto religioso (por exemplo, declarar que a pessoa desaparecida é um shahid, “mártir”) ou leis que permitam a aceitação ou a declaração de morte após determinado período.
¼
– Confronto com a possibilidade de morte, quando exumações sejam realizadas ou durante outros momentos específicos (ver Seção 4, p. 129).
¼
– Apoio do ambiente social imediato (grupo de famílias, amigos, unidade familiar).
2. Os desafios do processo de luto
¼
¼O luto é um processo individual e social.
¼
¼Luto na ausência do corpo: Rituais que reconhecem simbolicamente a morte podem ajudar as famílias
e a comunidade a aceitar o fato e a dar início ao luto.
Toda sociedade oferece formas de ajudar as pessoas a dar os primeiros passos para aceitar a perda e dar um significado à sua experiência. Rituais, como funerais e a recepção formal de condolências, contribuem para isso. Marcam a separação final em relação ao morto e proporcionam à família uma oportunidade de dizer adeus, de prestar as suas homenagens e de dar expressão pública à sua dor. Quando tudo é feito conforme o costume socialmente aceito, os familiares podem sentir um pouco de paz de espírito porque cumpriram o seu dever em relação ao morto, à comunidade e, em algumas culturas, aos antepassados.
EXEMPLO
Na Guatemala, acredita-se que aquele a quem é negado um funeral digno gritará debaixo da terra e perturbará os vivos.
Para os hindus nepaleses, a não realização dos ritos funerários condenará a alma a vagar, possivelmente como um fantasma. Ritos finais sem um corpo podem ser realizados somente cem anos após a suposta morte ou desaparecimento. Se a pessoa desaparecida retornar após a realização dos rituais necessários, a família terá de repetir esses rituais após o nascimento de uma criança. No Sri Lanka, acredita-se que a alma de uma pessoa morta que não recebe um funeral tradicional é aprisionada, o que impossibilita a reencarnação, interrompe o ciclo da vida e impede o acesso ao estado de nirvana (libertação plena). Isto explica porque tantas famílias, ao não cumprirem a sua obrigação, continuam fazendo oferecimentos e sacrifícios em troca da benevolência do monge. A incapacidade dos familiares da pessoa desaparecida de realizar os ritos funerais os coloca numa situação muito difícil.
Pristina, Kosovo. Fotografias de pessoas desaparecidas em um muro do lado de fora de um edifício público. As pessoas nas fotos estão desaparecidas desde a guerra que terminou em 1999.
O la v S al tb on es /N or w egi an R ed C ro ss Índice Índice
58 ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DE PESSOAS DESAPARECIDAS 2. FAMILIARES DE PESSOAS DESAPARECIDAS 59
O luto na ausência de um corpo apresenta um novo desafio emocional aos familiares, mesmo que tenham
se reconciliado com a possibilidade de que o seu ente querido esteja morto. Sem o corpo, as famílias de pessoas desaparecidas não podem honrar adequadamente a sua memória ou realizar atos funerários como manda a tradição. Isso pode levá-las a pensar que não garantiram uma pacífica vida a após a morte para o seu ente querido; e isto pode significar ter de lidar com sentimentos de intensa culpa, talvez até mesmo com a sensação de que traíram o seu ente querido, além de todos os difíceis desafios psicológicos que enfrentam.
CASO
“O meu irmão e a família foram sequestrados em Bagdá. A esposa e os seus filhos dele foram soltos depois de pouco tempo. A esposa teve de pagar uma quantia considerável em dinheiro para ter uma prova de que o seu marido estava vivo. Todos nós esperávamos vê-lo de novo, embora não tivéssemos recebido notícias dele por mais de um mês. Semanas após o sequestro do meu irmão, soubemos que ele tinha sido morto. Agora sabemos onde ele está enterrado, mas não podemos visitar o seu túmulo. Tudo o que queremos é ir lá e fazer as nossas últimas preces, dizer adeus”. – Relatório Interno do CICV.
Quando o corpo não é entregue às famílias, como às vezes acontece, elas podem sentir que o seu ente querido ainda está entre os inimigos, mantido como refém. Isso pode aumentar a dificuldade de lidar com o passado e seguir em frente.
As alternativas
Na Bretanha, muito tempo atrás, quando os marinheiros não retornavam do mar, as famílias realizavam uma cerimônia, a proella. O corpo do marinheiro desaparecido era substituído por uma cruz feita de cera, que era colocada sobre uma toalha de mesa branca. Em seguida, a cruz era levada a uma igreja onde as cruzes proella ficavam dispostas em conjunto até o primeiro dia de novembro. Nesse dia, as cruzes eram levadas até o cemitério e enterradas em uma mesma vala sob o nome coletivo de proella. A decisão de realizar a cerimônia
Aceitar a perda de um parente sem a prova da morte
1. Aceitação da perda
Esse é um processo paulatino e que depende de vários fatores, internos e externos.
¼
¼Fatores internos são relacionados a características e crenças individuais
CASO
Por mais de dez anos, a Sra. S. rejeitou a ideia da morte do filho. A sua filha não podia falar desse assunto com ela, mesmo sabendo que o irmão – sequestrado durante um conflito – estava morto. A lâmpada do lado de fora da casa era sempre deixada acesa para o caso de que ele retornasse no meio da noite e a Sra. S. certificou-se de que o seu quarto permanecesse intacto. Mais de dez anos após o desaparecimento do filho (e da sua suposta morte), a Sra. S. fez um bolo no seu aniversário e lhe deu um nome: “Suspiros de Desespero”. Essa foi a sua forma de mostrar que ela estava pronta para estar de luto.
Relatório Interno do CICV, sul do Cáucaso, 2008.
¼
¼Entre os fatores externos, podem-se mencionar:
¼
– Informações de testemunhas sobre a possibilidade de que a pessoa desaparecida esteja morta.
¼
– Declarações oficiais.
¼
– Mudança na situação política: no final do conflito, por exemplo, quando todos os prisioneiros tenham sido libertados e não haja sinal da pessoa desaparecida.
¼
– Decreto religioso (por exemplo, declarar que a pessoa desaparecida é um shahid, “mártir”) ou leis que permitam a aceitação ou a declaração de morte após determinado período.
¼
– Confronto com a possibilidade de morte, quando exumações sejam realizadas ou durante outros momentos específicos (ver Seção 4, p. 129).
¼
– Apoio do ambiente social imediato (grupo de famílias, amigos, unidade familiar).
2. Os desafios do processo de luto
¼
¼O luto é um processo individual e social.
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¼Luto na ausência do corpo: Rituais que reconhecem simbolicamente a morte podem ajudar as famílias
e a comunidade a aceitar o fato e a dar início ao luto.
Toda sociedade oferece formas de ajudar as pessoas a dar os primeiros passos para aceitar a perda e dar um significado à sua experiência. Rituais, como funerais e a recepção formal de condolências, contribuem para isso. Marcam a separação final em relação ao morto e proporcionam à família uma oportunidade de dizer adeus, de prestar as suas homenagens e de dar expressão pública à sua dor. Quando tudo é feito conforme o costume socialmente aceito, os familiares podem sentir um pouco de paz de espírito porque cumpriram o seu dever em relação ao morto, à comunidade e, em algumas culturas, aos antepassados.
EXEMPLO
Na Guatemala, acredita-se que aquele a quem é negado um funeral digno gritará debaixo da terra e perturbará os vivos.
Para os hindus nepaleses, a não realização dos ritos funerários condenará a alma a vagar, possivelmente como um fantasma. Ritos finais sem um corpo podem ser realizados somente cem anos após a suposta morte ou desaparecimento. Se a pessoa desaparecida retornar após a realização dos rituais necessários, a família terá de repetir esses rituais após o nascimento de uma criança. No Sri Lanka, acredita-se que a alma de uma pessoa morta que não recebe um funeral tradicional é aprisionada, o que impossibilita a reencarnação, interrompe o ciclo da vida e impede o acesso ao estado de nirvana (libertação plena). Isto explica porque tantas famílias, ao não cumprirem a sua obrigação, continuam fazendo oferecimentos e sacrifícios em troca da benevolência do monge. A incapacidade dos familiares da pessoa desaparecida de realizar os ritos funerais os coloca numa situação muito difícil.
Pristina, Kosovo. Fotografias de pessoas desaparecidas em um muro do lado de fora de um edifício público. As pessoas nas fotos estão desaparecidas desde a guerra que terminou em 1999.
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60 ACOMPANHAMENTO DAS FAMÍLIAS DE PESSOAS DESAPARECIDAS 2. FAMILIARES DE PESSOAS DESAPARECIDAS 61