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1 A O rigem E A E volução D a A ctividade

No documento CAPÍTULO I INTRODUÇÃO (páginas 169-173)

A 23 de Junho de 1909, Gustavo Cabrita faleceu e Jaime Quirino Chaves (v.) assumiu a continuidade da laboração da Tipografia Democrática, da qual, julgo, já seria

II.II. 1 A O rigem E A E volução D a A ctividade

Após três séculos sem quaisquer indícios de actividade tipográfica no Algarve, é em oitocentos que a província volta a introduzir esta arte no seu quotidiano. Data de 1833 o documento mais antigo que conhecemos: Chronica do Algarve, assim se designou o folheto. Tratou-se de um prospecto, apresentado como órgão oficial das tropas liberais e do partido constitucionalista de D. Pedro, que publicitava o surgimento de um periódico com o mesmo nome. Dizia-se impresso na “Imprensa do Governo”. Conquanto esta informação nos conduza a uma conclusão óbvia, a de que a primeira oficina da época moderna foi de iniciativa pública, as circunstâncias envolventes levam- nos a uma suspeita, a qual, infelizmente, não podemos, por enquanto, ver dissipada: a de que seria uma oficina ambulante que acompanhava as tropas liberais, para fazer a sua própria propaganda, não estando limitados, portanto, às contingências das zonas por onde passavam.

Ainda assim, temos o mote dado para o reaparecimento da tipografia no Algarve: o seu carácter ideológico155 e a sua relação embrionária com a imprensa

155 Para uma apresentação mais objectiva dos dados, classifiquei as oficinas como de origem “industrial”,

quando a sua motivação foi a de exercer uma actividade profissional com vista ao lucro, e de origem “ideológica”, quando a sua motivação foi subsidiária da fundação de um periódico. Nas de origem ideológica, enquadram-se sete tendências: a constitucionalista, a progressista, a regeneradora, a republicana, a religiosa, a noticiosa e a regionalista. Permita-se-me acrescentar que entendi como periódico de feição “noticiosa”, os que surgiram a partir da década de 90 do século XIX, sem filiação partidária, cujo objectivo era apenas o de informar o público e combater o sectarismo da imprensa coeva. As notícias aí publicadas têm normalmente o limite geográfico do local (cidade ou vila) onde o periódico é publicado e, por vezes, transcrevem dos principais jornais da capital, notícias de interesse nacional (sobre este tipo de imprensa, consulte-se TENGARRINHA, José, História da Imprensa Periódica Portuguesa, 2.ª ed. rev. e aum., Lisboa, Editorial Caminho, pp. 211 e segs.). Distinguem-se estes dos de índole “regionalista”: surgiram a partir dos anos 20 do século XX e, embora tenham também um carácter noticioso, predominam as preocupações relacionadas com o desenvolvimento da região onde se inserem. Publicam estudos regionais sobre arqueologia, história, etnografia, literatura, artes, etc., entrevistas com

periódica, que, como veremos, foram particularidades que se mantiveram em quase todos os concelhos.

Dos dez concelhos trabalhados, a causa do aparecimento da actividade em oito deles é ideológica. Apenas Tavira, em 1882, e Vila Real de Santo António, em 1893, viram surgir as suas primeiras oficinas tipográficas por razões industriais. Analisando os dados compilados numa perspectiva diacrónica, esta é uma marca que acompanhou a fundação das várias oficinas. Das oitenta e nove (89) inventariadas, quarenta e sete (47) tiveram uma motivação industrial e as restantes quarenta e duas (42) apresentaram uma motivação ideológica. A marca ideológica registada na origem da actividade só começou a ser invertida a partir de 1950, data a partir da qual as doze (12) tipografias fundadas tiveram um carácter industrial.

Quanto à evolução cronológica do aparecimento de oficinas, pudemos constatar que durante o século XIX existem dois concelhos que se diferenciam: Faro, com a instalação de doze (12) tipografias, e Lagos, com oito (8) oficinas. Não será de estranhar a liderança de Faro, uma vez que o seu estatuto é a de capital do distrito; no entanto, o posicionamento de Lagos pode suscitar alguma surpresa, tendo em conta que se situa a dezenas de quilómetros daquela, dilatados pelas débeis vias de comunicação, o que dificultava o usufruto da sua actividade administrativa, comercial e intelectual, cuja dinâmica se desvanecia, normalmente, à medida que se afastava deste centro, que é a sede de distrito.

Quadro n.º 1: Evolução cronológica do aparecimento da actividade tipográfica

DÉCADAS LAGOS PORTIMÃO LAGOA SILVES LOULÉ S. BR.

ALPORTEL FARO OLHÃO TAVIRA V.R.S.A. TOTAIS

S ÉC U LO X IX 1830 1 1 1840 1 3 4 1850 0 1860 2 2 1870 1 2 1 5 9 1880 1 1 1 2 1 2 8 1890 3 1 1 1 1 1 1 9 S ÉC U LO X X 1900 1 1 2 3 1 1 1 10 1910 2 1 2 1 2 2 1 11 1920 1 3 1 2 3 1 1 2 14 1930 1 3 4 1940 2 1 1 1 5 1950 1 1 1 3 personalidades importantes do ou para o meio, dão a conhecer e promovem factos e acontecimentos que visam a valorização da região.

1960 1 3 4

1970 1 1

1980 1 1 1 1 4

TOTAIS 12 13 1 4 9 1 26 11 7 5 89

Lamentavelmente, não foram ainda empreendidos estudos aprofundados sobre a vida comercial e industrial de Lagos durante o século XIX, que nos permitam afirmar de modo indiscutível o seu dinamismo e justificar assim os dados agora apresentados sobre a actividade tipográfica no concelho. Não obstante, a consulta dos periódicos lacobrigenses desta época permitiu-nos perceber que existia aqui um escol intelectual que promoveu e alimentou a indústria tipográfica. Lembro que o concelho de Lagos foi o primeiro a defender os ideais republicanos através do jornal O Echo do Algarve (09/09/1868 – 23/05/1869), o primeiro a publicar um jornal diário, o Diário do Algarve (Dez./1872 – 1873), aventura que apenas cinquenta anos decorridos Faro teve a ousadia de repetir, e, finalmente, o primeiro concelho a entender a arte tipográfica como uma actividade que exigia profissionalismo, tendo, em 1872, Augusto Feio Soares de Azevedo (v.) contratado os primeiros tipógrafos profissionais para trabalhar na província156. De salientar que foram estes profissionais, primeiramente instalados em

156 Parece-me de interesse registar aqui alguns acontecimentos culturais que marcaram a vida do concelho

de Lagos, durante o século XIX, dos quais tive notícia, quer na imprensa periódica, quer no Arquivo Histórico de Lagos. Trata-se de um pequeno registo apenas, organizado por ordem cronológica:

1862 – foi constituído o Teatro Gil Vicente, propriedade da Companhia Teatral Lacobrigense. Esta sociedade foi constituída a 03/06/1862, localizando-se na Rua do Assento (actual Rua Cândido dos Reis), e os seus sócios fundadores foram: Joaquim Saturninho de Oliveira Soares da Rocha (dir.), António Francisco Ribeiro Guimarães (vice-dir.), António José da Cunha (vogal), Sezinando Augusto Ferreira (secretário) e Joaquim José Marques Ferreira (tesoureiro).

1868 – foi inaugurada a primeira escola de instrução primária, através dos fundos deixados em testamento pelo Conde Ferreira;

1869 – estava em actividade a Comissão Artística Lacobrigense, cuja data da fundação me foi impossível determinar. Estava aberta ao público a livraria de António Augusto Lobo de Miranda, agente da livraria Enciclopédia que proporcionava: “quaisquer obras literárias ou científicas quer francesas ou nacionais, bem como quaisquer objectos para escritório ou desenho, álbuns, fotografias, estampas, passe-partouts, mapas geográficos, assim como também nela se assina para todos os jornais portugueses ou franceses.” (Echo do Algarve, n.º 22, 31/01/1869);

1872 – foi fundado o Clube Artístico Lacobrigense, que criou, em Outubro desse ano, a escola nocturna para o sexo masculino;

1873 – estava em actividade por conta própria um encadernador, instalado na travessa do Mineiro, n.º 15; 1875 – a 22 de Janeiro, o Centro União – sociedade de recreio e instrução, cuja data de fundação não consegui determinar, inaugurou a sua escola, assim como um gabinete de leitura e biblioteca. O professor responsável era Luís de Azevedo.

1880 – quarenta e dois cidadãos associaram-se às comemorações do centenário de Camões, criando a Biblioteca Popular Camões, que foi inaugurada com toda a pompa a 01/06/1880 nas instalações da escola Conde Ferreira. Os livros tiveram proveniências distintas, nomeadamente, em maior percentagem foram procedentes do governo, depois de associações, academias, redacções de periódicos, escritores, e, finalmente, outros não especificados. (Livro da Criação da Biblioteca Luís de Camões. Registo de Factos, 1880. Livro depositado no Arquivo Históricos de Lagos, com a cota 264.)

Lagos, que iniciaram a arte noutros concelhos do Algarve, nomeadamente, Portimão, Silves e Tavira, aí transmitindo os seus conhecimentos e as bases da sua profissão.

Foi somente a partir da década de 70 que a actividade se começou a disseminar pela província, estando generalizada apenas na década de 90. O período compreendido entre 1870 e 1920 foi o que registou maior número de instalação de tipografias por década, entre nove a catorze, assinalando-se um pico na década de vinte, com catorze novas oficinas fundadas em toda a província. Na década seguinte, decaiu para quatro, não recuperando mais esta pujança. Estes números estão relacionados, em primeiro lugar, com motivações políticas: no que diz respeito ao período compreendido entre 1870 e 1890, podemos constatar que foram instaladas nesta época quatro (4) das seis (6) tipografias de partidários do Partido Progressista, uma (1) das cinco (5) instaladas por adeptos do Partido Regenerador e sete (7) das treze (13) oficinas fundadas sob a ideologia republicana; em segundo lugar, esteve o crescimento da indústria piscatória e conserveira no virar do século, que constituiu um dos principais clientes das oficinas situadas nos concelhos do litoral; finalmente, a forte consciência regionalista, desencadeada pelo I Congresso Algarvio, realizado em 1915. O Congresso originou uma onda de entusiasmo regionalista por toda a província, em especial entre os alunos do Liceu de Faro, que participaram nesta iniciativa como espectadores, mas cuja mensagem viria a entranhar-se na sua formação e a materializar-se a partir da década de 20157. Ao abrigo deste estímulo, associaram-se grupos de indivíduos que instalaram

oficinas para publicarem jornais de propaganda regionalista, livros de autores algarvios,

157 De modo a ilustrar esta afirmação, parece-me importante lembrar o testemunho de Mário Lyster

Franco sobre o modo como viveu o I Congresso Algarvio: “Apesar da minha tenra idade [13 anos] confesso que avidamente acompanhei todas as sessões. Reuni caprichosamente uma colecção das teses, visitei todas as exposições que então se realizaram, e algumas foram bem interessantes, as quais curiosamente tiveram os seus pavilhões na avenida, que pouco depois tomou o nome de Tomás Cabreira, julgo que em homenagem ao seu labor desenvolvido neste Congresso, onde justamente pugnou pelo desenvolvimento turístico do Barlavento Algarvio. (…)

(…) É claro que a timidez da idade não me permitia discutir nem tomar parte nas sessões. Contudo, bebia as palavras pronunciadas por Tomás Cabreira que foi, sem sombra para dúvidas, o grande orador de todo o Congresso defendendo várias teses e magníficos pontos de vista do mais alto interesse para o Algarve. Do mesmo modo me interessei pelas lições realizadas por outros congressistas, como por exemplo Luís Mascarenhas, José Francisco da Silva, Paula Nogueira, José Parreira, António Baião, Aníbal Lúcio de Azevedo, etc..” In MESQUITA, José Carlos Vilhena, Confidências e Revelações de Mário Lyster Franco, Faro, AJEA Edições, 2005, p. 37.

Foi esta experiência que o levou e a José Centeno Castanho a fundar o semanário O Algarvio («Semanário de Propaganda Regionalista»), que se publicou entre 18/05/1919 e 16/11/1919. Era o órgão da Associação Pró-Algarve – Liga Algarvia de Propaganda Regionalista, nascida “duma ideia sublime que brotou do espírito da mocidade do Liceu de Faro” e que pouco depois alterou a sua designação para Pró-Algarve – Liga Algarvia de Propaganda Autonomista, pois para além do “desenvolvimento económico, intelectual e artístico do Algarve”, pretendia a “realização da autonomia administrativa” da região.

estudos regionais, cujo grande propósito assentou no desenvolvimento económico, intelectual e artístico do Algarve. Foi neste período que surgiram as duas primeiras editoras oficiais na região para dar forma a estas aspirações: a Editora Olhanense, Lda. (proprietária da tipografia com o mesmo nome – v.), com sede em Olhão, e a Regional Editora, Lda. (proprietária da tipografia com o mesmo nome – v.), em Faro.

No documento CAPÍTULO I INTRODUÇÃO (páginas 169-173)