A Tipografia Democrática, a primeira do concelho de Olhão, foi fundada por Roque Féria (v.), em 1888, para aí imprimir o jornal de cariz republicano O Porvir (28/09 ou 10/1888)86. Roque Féria tinha já experiência na área tipográfica, pois em 1885 havia adquirido a Tipografia Minerva (v.) de João Frederico Tavares Belo, de Faro, para imprimir, em Tavira, A Província do Algarve (30/03/1886 – 01/03/1887?) e
O Combate (05/04/1887 – 04/10/1888), ambos semanários republicanos e ambos
suspensos devido às acusações frequentes de “abuso de imprensa” feitas ao seu proprietário. Roque Féria foi inclusivamente várias vezes chamado às autoridades87. Resolveu mudar-se para Olhão, provavelmente em busca de maior tranquilidade, e instalou a sua oficina na Rua das Lavadeiras, n.º 54.
A oficina, que lhe custou 720$00, segundo dados avançados por José Carlos Vilhena Mesquita, estava instalada na rua Nova Grande, 7, Tavira, e Roque Féria designou-a Tipografia Democrática (v.).
Em Olhão, e com a chama do jornalismo e do republicanismo bem ateada, voltou a fundar um periódico, denominando-o O Porvir («Republicano-Democrata»).
Antero Nobre, n’ A Imprensa Periódica no Concelho de Olhão (1888-1983), afirma que a tipografia responsável pela composição e impressão do primeiro periódico de Olhão não era de Roque Féria, mas sim de Francisco José Alves, o que não me parece correcto, na medida em que Roque Féria era proprietário de uma oficina, a Democrática, como já referi em cima, e, para além disso, a tipografia assumiu em Olhão a designação do jornal O Porvir a julgar pelas informações de Vilhena Mesquita, as quais eu não pude confirmar pelas razões apresentadas na nota n.º 1. No entanto, em
86 Confrontando os trabalhos de Antero Nobre e de José Carlos Vilhena Mesquita, os autores apresentam
diferentes datas para a fundação do periódico: o primeiro indica 28/09/1888 e o segundo 28/10/1888, o que não pude confirmar, visto que a única cota disponível para consulta na Biblioteca Nacional só tem o periódico a partir de 05/01/1890. Cf. NOBRE, Antero, A Imprensa Periódica no Concelho de Olhão (1888-1983), separata de A Voz de Olhão, Olhão, A Voz de Olhão, 1983, p. 7 e MESQUITA, José Carlos Vilhena, História da Imprensa do Algarve – II, Faro, Comissão de Coordenação da Região do Algarve, 1989, p. 204.
87 As diligências junto do Tribunal de Tavira revelaram-se um fracasso, visto que os processos foram
Janeiro de 1890, data a partir da qual consultei o periódico, a oficina era efectivamente denominada Tipografia Democrática, o que corrobora a minha ideia de que se tratava da oficina de Roque Féria e não de Francisco José Alves, embora admita que este pudesse ser seu sócio.
Francisco José Alves surge-nos como editor do jornal a partir de Abril de 1889, momento em que o semanário mudou de proprietário e de director, cargos que passaram a ser desempenhados pelo igualmente republicano Gustavo Cabrita (v.). Após a extinção mais uma vez forçada de um jornal fundado por Roque Féria em Fevereiro de 189188, surgiu a 15/03/1891 o seu substituto intitulado O Futuro: Semanário
Democrático (15/03/1891 – 23/06/1909). Este jornal, que continuou a ser dirigido por
Gustavo Cabrita e editado por Francisco José Alves, “era impresso na mesma
tipografia, a Democrática, que Gustavo Cabrita então adquiriu, se é que já não era
sócio de Francisco José Alves, seu primeiro proprietário”89, diz-nos Antero Nobre.
Quanto a Francisco José Alves, não pude apurar outros dados, visto que ao longo do jornal não há qualquer referência ao editor, nem acerca do momento em que deixa de o ser (08/12/1895), cargo que Gustavo Cabrita passou a acumular. No entanto, suspeito que deveria ser da família de Feliciano José Alves, provavelmente sobrinho deste90.
À semelhança de O Porvir, também O Futuro foi alvo da justiça. Em 1899, o Ministério Público abriu um processo contra Sebastião Pedro dos Santos Cruz, tipógrafo, e contra Gustavo Adolfo Manuel Cabrita, editor, por abuso de liberdade de imprensa91.
88 No n.º 1 do Futuro, datado de 15/03/1891, Gustavo Cabrita declara: “O Porvir foi suspenso na manhã
de sexta-feira, 13 de Fevereiro de 1891, por Manuel Reis Fonseca, administrador do concelho de Olhão, devido ao artigo 2.º do decreto de 32 de Janeiro de 1891, ao qual o requerimento ao governador civil nada serviu, tendo vindo indeferido.”
89 Sublinhados meus.
90 Feliciano José Alves nasceu na freguesia de S. Pedro, Faro, em 1847 e morreu no sítio de Marim,
freguesia de Quelfes, concelho de Olhão, a 24/09/1897, deixando sete filhos, cinco dos quais menores. Era filho de Domingos José Alves, natural de Braga e de Helena das Dores Costa Alves, natural de Faro. Casou com Maria Baptista Morgado Alves e na altura da sua morte residia na Rua de Sto. António em Olhão [Registo de Óbitos da Freguesia de Olhão. 1897, registo n.º 226, cota P000LH/003/Lv038 1897]. Foi o primeiro escrivão da Comarca Judicial de Olhão, tomando posse a 28/10/1875 e sendo primeiro juiz de Direito Francisco Augusto Nunes Pousão, pai do pintor Henrique Pousão e avô do poeta João Lúcio. Feliciano José Alves foi pai de Feliciano José Alves Júnior, que comprou, em Maio de 1911 a tipografia d’ Olhanense (v.) de José Marques Corpas Centeno, ficando a partir daí sempre nas mãos da família Alves. Em entrevista a Feliciano José Iria Alves, seu trineto, este lembrou que a primeira experiência da família na arte tipográfica tinha partido de um antepassado que comprou uma oficina ao sobrinho, “Chico Alves” para este poder trabalhar.
91 Processo depositado no Arquivo Distrital de Faro, sob a designação “Execução da Fazenda Nacional,
O quadro tipográfico da oficina foi constituído por Sebastião Pedro dos Santos Cruz (v.), entre 1889 e 1890, compositor e chefe da tipografia, cargo que passou a ser desempenhado por Augusto da Cruz Falcão (v.) e, finalmente, por Jaime Quirino Chaves (v.).
A 23 de Junho de 1909, Gustavo Cabrita faleceu e Jaime Quirino Chaves (v.)