A 23 de Junho de 1909, Gustavo Cabrita faleceu e Jaime Quirino Chaves (v.) assumiu a continuidade da laboração da Tipografia Democrática, da qual, julgo, já seria
II.I. 10.1 T ipografia G uadiana (I) (1893 – 1961)
A Tipografia Guadiana foi fundada em Vila Real de Santo António, no ano de 1893147, por Joaquim António Socorro (v.) e Joaquim António Socorro Júnior (v.), ambos tipógrafos.
A 26 de Novembro de 1893, a oficina deu à estampa O Petiz («Órgão Semanal, Independente, Litterario, Noticioso, Charadístico e Recreativo»), que pretendia colmatar o déficit intelectual de Vila Real de Santo António, já tão conhecida pelo seu movimento industrial e comercial. Todavia, poucas são as informações que podemos extrair deste jornal acerca da oficina, uma vez que a colecção da Biblioteca Nacional apenas dispõe do primeiro número. Ainda assim, ficamos a saber que em anexo à oficina funcionava “os ateliers de relojoeiro, gravuras em borracha, metal e encadernações”, que a acompanhará ao longo de vários anos. Em 1894, por transferência, a Tipografia Guadiana foi deslocada para Lagos (v.), mais precisamente para a rua da Laranjeira, 22, onde foi montada e dirigida por Joaquim António Socorro Júnior.
Em 1895, ainda em Lagos, a designação da oficina foi alterada para Tipografia Rocha, provavelmente pela entrada de M. A. Rocha Socorro (v.), que nos finais de 1896 a transportou, total ou parcialmente, para Portimão, onde deu à estampa O Eco Militar («Órgão Militar Independente. Independência e Ordem. Equidade e Justiça»), (15/08/1897 – ?). Com o novo nome, a oficina regressou ao seu berço entre 1897 e 1899, ficando situada na rua Real de S. José, 85 (actual rua Almirante Cândido dos Reis). Mudou depois para o n.º 91 da mesma rua. Em data não apurada e até à sua extinção, foi transferida para a Rua Pinheiro Chagas, n.º 21 (actual Avenida Ministro Duarte Pacheco).
Em Vila Real de Santo António, imprimiu A Voz do Guadiana («Folha Semanal Defensora dos interesses moraes e materiaes do círculo do Guadiana. Imparcial –
147 Esta é a data em que surge a primeira publicação, mas é também aquela que A Voz do Guadiana, n.º 2,
datado de 25/06/1899, aponta como data da fundação da oficina. Todavia, em 1956, o Notícias do Algarve, propriedade da Tipografia Socorro, afirma que a data de fundação foi em 1891. Tendo em conta o distanciamento temporal a que se situa o Notícias do Algarve, considerei como correcta a data apontada pelo A Voz do Guadiana.
Independente, literária, noticiosa e recreativa»)148, entre 18/06/1899 e 26/08/1900, e O
Algarve («Semanário Popular-Independente, litterario, agrícola, noticioso e
anunciador»)149, entre 06/01 e 24/10/1901. Da consulta do primeiro jornal é possível
percebermos que a Tipografia Rocha se encontrava bastante bem equipada e em condições para competir com qualquer oficina de Lisboa, Porto ou Coimbra, em quaisquer trabalhos, à excepção de jornais diários, assegurando apenas a composição e impressão de jornais semanais e bissemanais.
Quanto ao segundo periódico, propriedade da casa, era dirigido e editado por Joaquim António Socorro, administrado por M. A. Rocha Socorro e secretariado por João Severino Rocha da Conceição, todos tipógrafos. Embora de elevado interesse para este trabalho, apenas nos foi possível consultar o n.º 1, pelo que tivemos de recorrer à obra de José Carlos Vilhena Mesquita que o conseguiu consultar até ao n.º 36, datado de 24/10/1901. Segundo este investigador, “o seu espírito e carácter era puramente literário, contendo dezenas de artigos, contos, novelas, poesias e dezenas de folhetins assinados pelo monografista Francisco Xavier de Ataíde Oliveira que, igualmente, subscreveu uma importante secção sobre a história da vila pombalina, da qual veio a aproveitar-se para escrever a sua célebre e única Monografia do Concelho de Vila Real de Santo António, editada em 1908.”150 Segundo o autor, foi também durante a
existência d’ O Algarve que a oficina voltou a mudar de designação, assumindo a designação Tipografia Socorro, assim permanecendo até 1961, data da sua extinção. Devo, no entanto, salientar que o jornal Guadiana (26/03/1903 – 02/01/1910) continuou a publicitar a Tipografia Rocha até 1910 e que de Maio a Agosto de 1914 a oficina imprimiu o jornal farense O Sul («Semanário Republicano – Defensor dos Interesses da Região») sob a designação Rocha.
Quanto ao seu parque gráfico, das poucas informações que conseguimos recolher, sabe-se que em 1924 comprou o parque da Tipografia Democrática (II) (v.), de Tavira; na década de 50, adquiriu a Tipografia Tenório, Campas & C.ª, Lda. (v.) de Vila Real de Santo António e investiu numa máquina impressora Atena para imprimir jornais a várias cores; e, em Fevereiro de 1960, aumentou as oficinas e remodelou a secção de composição. Segundo o testemunho de Armando António Mendonça Rocha Cruz (v.), a
148 A colecção da Biblioteca Nacional dispõe apenas do número 2 deste periódico, datado de 25/06/1899. 149 Das duas cotas existentes na colecção da Biblioteca Nacional, uma tem apenas o número 1 e a outra
não está acessível ao leitor, devido ao seu avançado estado de degradação.
150 MESQUITA, José Carlos Vilhena, História da imprensa do Algarve – II, Faro, Comissão de
oficina dispunha de máquinas de grandes formatos, o que fazia de si uma casa única no sul do país. A própria Imprensa Nacional, sempre que se deslocava ao Algarve, fazia questão de visitar as suas oficinas pela quantidade e variedade de caracteres que a casa dispunha
Ilustração n.º 43: aspecto do sector de impressão da Tipografia Socorro. Fonte: colecção particular de Armando António Mendonça Rocha Cruz.
Ilustração n.º 44: aspecto do sector de composição da Tipografia Socorro. Fonte: Catálogo da fábrica a vapor de carimbos de borracha de J.A.Socorro. Colecção particular de Armando António Mendonça Rocha Cruz.
Após a impressão de O Algarve e até à década de 20, a Tipografia Socorro não imprimiu jornais, quer fossem da vila pombalina, ou de outra zona da província, nem se lhe conhece produção de livros. Porém, a partir de 1920, a oficina ganhou um novo vigor, com o seu auge nas décadas de 20 e de 30, imprimindo ao todo vinte e três periódicos da província151.
151 A saber: do concelho de Monchique: 01/02/1926 – 12/10/1928, O Monchiquense (começa por ser
impresso na Tipografia Socorro, mas depois muda a impressão para a Tipografia Lumen, em Portimão.); do concelho de Silves: 01/02/1924 – 25/12/1925 – O Messinense (até ao n.º 17, depois passa a ser impresso em Évora), 26/04/1931 – 23/08/1931 – Vibração, 08/12/1935 - 02/02/1936 – A Rajada; do concelho de Faro: 31/10/1934 – 10/04/1935 – O Mocho (a partir do n.º 4); do concelho de Olhão: 12/02/1948 – 1957 – Correio Olhanense (impresso até ao n.º 26), 23/08/1951 – 17/04/1952 – Gazeta de Olhão; do concelho de Tavira: 31/01/1929 – 29/06/1930 – O Gilão (a partir do n.º 30), 21/11/1929 – 15/03/1931 – Povo Algarvio (a partir de 25/05/1930), 27/05/1934 – 20/05/1978 – Povo Algarvio (foi aqui impresso até ao n.º 937, de 22/06/1952, e, posteriormente, adquiriu tipografia própria); do concelho de Vila Real de Santo António: 01/02/1920 – 18/04/1920 – O Sotavento, 24/12/1922 – 01/06/1924 – Os Novos (a partir do n.º 8, mudou a impressão para Évora), 05/06/1924 – 19/06/1924 – Notícias do Sul, 02/11/1924 – 27/03/1927 – A Nossa Terra, 1.º semestre de 1927 – Nov./1928 – Eu e o Outro, 22/05/1927 – A Verdade, 29/01/1928 – 23/05/1935 – Notícias do Sul (com o n.º 88, mudou a impressão para Évora), 01/12/1930 – 16/01/1931 – Jornal de Cinema, Mai./1931 – A Nossa Terra (rev.), 20/01/1935 – 18/10/1936 – Foz do Guadiana, 22/08/1937 – 27/03/1952 – Ecos do Sul, 14/06/1953 – 21/05/1961 – Notícias do Algarve e de 22/11/1958 – 26/02/1961 – O Pinto Calçudo.
Ilustração n.º 45: “Antiga Tipografia Socorro”
Fonte: Aspectos Antigos de Vila Real de Santo António (1): Fotografias dos Arquivos Barbosa e Havaneza, Vila Real de Santo António, Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e ADIPACNA, s.d..
Da frente para trás: Armando Rocha Cruz, Joaquim António Socorro, não identificado, Maria Amélia Socorro.
Como jóia da coroa desta oficina em termos gráficos não posso deixar de referir a revista A Nossa Terra («Revista Algarvia»)152 aqui composta e impressa em Maio de 1931, que pôs à prova a habilidade dos compositores da casa.
152 Para além do esmero na apresentação gráfica, a revista, dirigida por José Temudo e João Centeno, teve
colaboração brilhante: José Guerreiro Murta, Visconde de Vilamoura, Carlos Lyster Franco, Consiglieri Sá Pereira, Conselheiro Luciano Monteiro, Martins Gimenez, Elisa Santos, Eng.º Manuel Roldan, Raul Carneiro, Adelino Mendes, Mário Lyster Franco, Lorjó Tavares, Roberto Nobre, Carlos Selvagem, Rocha Martins, Falcão Trigoso, Dr. Humberto Pacheco, Dr. Júlio Dantas, Dr. Sousa Costa, Dr. Cândido Guerreiro, Capitão-Tenente Jayme do Inso, Luthgarda Guimarães de Caíres, Dr. Afonso Lopes Vieira, Branca de Gonta Colaço, João M. Abecassis, Dr. Maurício Monteiro, Dr. Coelho de Carvalho, Maria Arade, Assis Esperança, Arq.º Raul Martins, Ludovico de Meneses, Jorge de S. Basílio, Dr. Justino de Bívar, Dr. Alfredo de Carvalho e Maria Ponce de Castro Centeno. Os ilustradores foram Carlos Lyster Franco, Martins Gimenez, Samora Barros, Falcão Trigoso, Humberto Martins, Roberto Nobre e Raul Carneiro.
Ilustração n.º 46: Publicidade dos anos 20 à Tipografia Socorro. Fonte: O Sotavento, n.º 3, 15/02/1920.
Ilustração n.º 47: capa de A Nossa Terra (azulejo de Jorge Colaço de um dos bancos do Jardim João Serra em Olhão, retratando a chegada ao Rio de Janeiro do caíque Olhanense com a notícia da expulsão dos Franceses. Fonte: colecção da Biblioteca Nacional.
Em termos de produção literária, a Tipografia Socorro teve nos anos 30 o seu apogeu. Imprimiu nesta década dez livros, quatro deles da autoria de António Vicente Campinas (v.). Foi aqui que foi composto e impresso o seu primeiro livro de poesia, editado pela Livraria Horácio Salvador de Faro, Aguarelas (v. catálogo, n.º 313.), com capa de Roberto Nobre. A proximidade entre a Tipografia e António Vicente Campinas deveu-se ao facto de o autor, entre as várias actividades que teve, ter sido aprendiz de tipógrafo nesta oficina durante um período da sua juventude. Calculo que a edição do
Jornal de Cinema que o autor, com 19 anos, transferiu da Figueira da Foz para aqui,
também só foi possível graças a esta ligação. A 23 de Janeiro de 1936, no jornal Foz do
Guadiana, que António Vicente Campinas fundou e dirigiu, publicou-se um retrato
intitulado “Um grupo de Amigos do Nosso Jornal” e onde podemos identificar alguns dos seus colegas da oficina.
Ilustração n.º 48: Quatro aspectos de A Nossa Terra. Fonte: A Nossa Terra, n.º 1, Mai./1931.
Quando nos anos 50, António Vicente Campinas retomou um ritmo de publicação intenso, percebemos que a sua casa de impressão distinguida já não é esta oficina, mas sim a Tipografia Povo Algarvio (v.) de Tavira. Esta deslocação deveu-se, creio, ao facto de o seu antigo colega e amigo, Diamantino Sousa Cardoso (v.), estar agora ao serviço desta Tipografia Tavirense como chefe de oficina.
De resto, foi Vitória Régia (v.), pseudónimo de Alda Ferreira Mendes, quem escolheu como casa impressora das suas produções a Tipografia Socorro com oito títulos (v. catálogo, n.os).
A oficina apresentava em média dez a doze operários e, na década de 50, eram aí compositores António Dionildo Valério do Brito (v.), Avelino Luís Manuel Fernandes (v.), José Bruno (v.) e José Luís (v.). O proprietário, Armando Rocha Cruz (v.) era tipógrafo e administrador da casa, com a colaboração do seu filho Armando António de Mendonça Rocha Cruz (v.).
Por esta altura, a Tipografia Socorro ganhou uma concorrente igualmente bem preparada e com um suporte financeiro substancial, a Gráfica do Sul (v.). Conseguiu manter-se durante os anos 50, mas em 1961 acabou por fechar, vendendo o seu parque gráfico àquela oficina. Os compositores António do Brito e Avelino Fernandes acompanharam a mudança para a nova proprietária e foram eles que fizeram a transferência das máquinas.
Ilustração n.º 49: Fotografia de “Um Grupo de Amigos do Nosso Jornal”. Podem ver-se Manuel Baptista (v.), Diamantino Cardoso (v.) e Guilherme C. Padesca (v.), todos tipógrafos da Tipografia Socorro. Fonte: Foz do Guadiana, n.º 28, 23/01/1936.