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4.3 T ipografia A rtística D o A lgarve (1915-2008)

No documento CAPÍTULO I INTRODUÇÃO (páginas 49-54)

Cinco anos depois, Silves, animada por um grupo de homens dispostos a defender e a propagar a República, voltou a ter uma tipografia fundada para dar letra de forma à ideologia. Henrique Martins (v.) e Julião Quintinha (v. autores) são os rostos mais conhecidos deste grupo, uma vez que são eles a fundar os dois jornais de feição republicana na cidade: o Alma Algarvia («Semanário Republicano») (12/03/1911 – 15/04/1917) e a Voz do Sul («Órgão do Partido Republicano Português») (08/10/1916 – 11/11/1968).

É através do Alma Algarvia, o qual deveria ter recebido a designação Voz do Sul, que temos acesso à data da fundação da Tipografia Artística do Algarve em Silves: Novembro de 1915. O jornal, fundado simultaneamente em Portimão e Silves, teve, no início, o local de composição e impressão em Évora, na tipografia Minerva Comercial de José Ferreira Baptista, rua da República, 73-75. O suplemento ao n.º 222, datado de 08/09/1915 apresenta o local de impressão na Tipografia Artística do Algarve, em Portimão. O número seguinte disponível na colecção da B.N.P. é o n.º 224, de 01/11/1915, 3.ª série, e altera a sua ficha técnica, transferindo a redacção, administração e oficinas para a Rua 5 de Outubro, 10-12, Silves, pelo que se pode concluir que a tipografia começou a trabalhar aproximadamente nesta data.

A neta do proprietário, Gabriela Martins, num estudo dedicado à imprensa no concelho de Silves afiança que a tipografia foi fundada um ano antes, embora o argumento utilizado não coincida com os dados verificados no jornal: “Em Março de

47 JÚDICE, Pedro Paulo Mascarenhas, Atravez de Silves. I PARTE Sé, Castello, Cruz de Portugal e

Pelourinho, Silves, Armando N.[unes] de Mascarenhas, imp. na Tipografia Silvense, 1911. Livro de 144 pp., in-8.º (11x19,50 cm), com capa e contra-capa ilustradas e fotografias dos monumentos da Tipografia “A Editora”.

1914, interrompe a sua publicação [Alma Algarvia] para, de novo, aparecer em Abril do mesmo ano, sendo, a partir de então, composto e impresso na Rua 5 de Outubro, n.º 7, em Silves, onde ficava igualmente a sua administração.” Mais adiante corrobora esta ideia: «Em 1914, então com 23 anos, compra em Portimão, a um alemão proprietário da tipografia onde o jornal começou por ser impresso, todo o seu recheio e abre, em Silves, uma Livraria (o primeiro estabelecimento a vender livros nesta cidade) e uma Tipografia, chamadas “Livraria, Papelaria e Tipografia Artísticas do Algarve”»48.

Ora, o “alemão” a que se refere Gabriela Martins no seu estudo era Antony Guyonnet, que não era de origem alemã, mas sim francesa, e que possuiu uma oficina homónima, onde imprimiu o jornal O Arauto dos Interesses Algarvios, Folha Semanal e o n.º 222 do jornal Alma Algarvia, número de transição entre Évora e a instalação definitiva em Silves. Na verdade, a oficina adquirida por Henrique Martins foi a Tipografia Artística do Algarve, que tinha sido fundada por Antony Guyonnet em Portimão (v.), no ano de 1914.

No que diz respeito à existência da papelaria e livraria, pode confirmar-se, pela consulta do periódico, a existência da papelaria:

“Tipografia Artística do Algarve de Henrique Martins / Rua 5 de Outubro, 10-12, Silves / Nesta tipografia, dotada com material estrangeiro e nacional, executam-se todos os trabalho que lhe confiarem, tanto para o comércio e indústria, artes e ofícios, como para associações, repartições públicas, etc., etc.,

Papelaria

Grande quantidade de papéis nacionais e estrangeiros, comercial e de cartas em variadíssimas qualidades.

Vendem-se às caixas e em separado.

Impressos para arrendamentos de casas, foros, etc., etc..

Vendem-se nesta tipografia.”49

Quanto à existência de uma livraria só encontrei provas da sua existência cinco anos após a sua fundação, a 23/05/1920, no n.º 150 do jornal a Voz do Sul, o qual felicita o seu proprietário por esse melhoramento50. É também a partir desta data que são publicitadas as listas dos livros recebidos na livraria51.

48 MARTINS, Gabriela, A Imprensa no Concelho de Silves. De Setembro de 1877 a Junho de 1988. Cento

e Onze Anos de Actividades Jornalísticas. Exemplar dactilografado, depositado na Biblioteca Municipal de Silves.

49 Alma Algarvia, n.º 228, 3.ª série, 15/11/1915, p. 1.

50 “Deve abrir na próxima semana nesta cidade, a papelaria e livraria anexa à Tipografia «Artística do

Algarve».

É um melhoramento que se fazia sentir e pelo qual felicitamos o seu proprietário.” (p. 2).

51 O n.º 162, de 05/09/1920, apresenta a primeira lista: O Psalterio [de Mário Artagão], 1$00; Na outra

Na verdade, a oficina apetrechou-se gradualmente para proporcionar novos serviços à cidade. Foi o caso dos serviços de encadernação, atribuídos a João Iglésias Araújo, que apenas chegaram à casa em 1919:

“Melhoramento importante / Secção de Encadernação / O Proprietário da Tipografia Artística do Algarve desta cidade criou mais um novo melhoramento em Silves, inaugurando uma secção de encadernação onde se executa com rapidez e perfeição todos os trabalhos concernentes a esta arte, tais como: encadernações em todo o género: livros em branco; pastas para escritório, para expediente, para arquivo de correspondência, para amostras de comércio (reclame), etc.

O pessoal encarregado desta secção é dos mais competentes de província, tendo sido contratado para chefe o habilitadíssimo e conhecido encadernador João Iglésias Araújo.”

O seu quadro tipográfico foi composto por António Octávio Valdez Marcelo (v.), que aí trabalhou entre 1915 e 1918; por João José de Pilar Matias (v.) que o substituiu e, em 1920, era o encarregado da oficina Joaquim Gonçalves (v.). Este último constituiu uma sociedade por quotas com Henrique Martins, a 30/11/1920, a Henrique Martins & C.ª, com um capital social de 10.000$00. Este colocou a totalidade do Escolhidas, 1$50; A Esperança e a Morte [de Carlos Malheiro Dias], 1$50; Seres e Sombras [de Óscar Lopes], 1$50; Sonetos, $80; Cem cartas de Camilo [de Luiz Xavier Barbosa], 2$50; Conversar [de Augusto de Castro], 1$70; A grande Aventura, 1$50; A verdade Nua [de Carlos Malheiro Dias], 2$00; A mulher e os espelhos, 1$50; A correspondência duma Estação de Cura [de João do Rio], 1$50; Gente d’Algo [de Conde de Sabugosa], 3$00; Um serão nas Laranjeiras [de Júlio Dantas], 2$00; Rosas de Todo o Ano [de Júlio Dantas], $40; 1023 [de Júlio Dantas], $40; O Inquilinato [Decreto de 12 de Novembro de 1910], $50; Turbilhão Vermelho [de Valeriano de Campos], $70; O Descobrimento do Brasil [de César da Silva], $30; Como devemos pensar [de Edward Green], $70; Amor Supremo [de Óscar Vaudin], $80; A Idade de Amar, $70; A Marcha Nupcial, $70; O que devem saber todas as mulheres [de Dr. A. Q. Rovereito], $70; A Arte de ser bela [da Condessa Olga Patrich], $30; O Marquês de Villemer [de George Sand], $90; O modelo vivo, $70; Segredos do Coração [de Perez Escrich], $70; A vida de um rapaz pobre [de Octave Feuillet], $90; O Conde de Farrobo, 2$50; Milionário Artista [de Eduardo de Noronha], 1$80; Audácia, Sensatez e Iniciativa [de Edward Green], $70; A perseverança no Amor [de Edward Green], $70; Segunda mãe [de Óscar Vandin], $80; O Segredo [de Óscar Vandin], $80; O Grilo do Moinho [de Ponson du Terrail], 1$20; A Culpa [de Augusto de Castro], $30; Pó [de Francisco Costa], $80; Figuras do Passado [de Pedro Eurico, pseud. de Pinto Osório], 1$00; Na hora incerta (1.º) [de António Correia d’Oliveira], $50; Na hora incerta (2.º) [de António Correia d’Oliveira], $50; Que vergonha [de Sousa Costa], $30; Adeus [de José Esaguy], $60; Trevas luminosas [de Cândida Ayres de Magalhães], $80; Livro de mágoas [de Florbela Espanca], $80; Torturados [Augusto Isaac d’Esaguy], $80; A vertigem [de Assis Esperança], 1$20; Ressurreição dos Mortos [de Sousa Costa], 1$50; Gambuzins, 1$00; O clarão da Epopeia [de Mário de Almeida], 1$00.

No n.º 177, de 25/12/1920, é publicitada nova lista:

D. João Tenório, de Júlio Dantas, 2$00; Envelhecer, de Marcelino Mesquita, 1$10, Eurique [i.é., Eurico] de A. Herculano, 3$10; Sangue Português, de H. Lopes de Mendonça, 3$00; O Último Senhor de S. Geão, de Vicente Arnoso, 1$00; Mulheres, de Júlio Dantas, 3$00; Fruto Proibido, de Sousa Costa, 3$00; Como elas amam, de Júlio Dantas, 2$00; A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas (Filho), 1$50; Amar Sofrer, de José Forbes Costa, 1$20; Nostalgias, de Camilo Castelo Branco, $50; Exemplo Americano, de E. Servam, 1$50; Eça de Queiroz, de António Cabral, 3$00; Quo-vadis, de Henryk Sien- kiewicz, 1$90; Manon Lescaut, do Abade Prévost, 1$10; Nerto, de Frederico Mistral, 1$00; A Estrela, de António de Campos Júnior, 7$00; A senhora Infanta (2 volumes), de António de Campos Júnior, 7$00; Aventuras de Gil Blas de Santilhana, de Le Sage, 1$60; Casta Suzana, de Victor José, 1$60; Elogio crítico e biográfico a Augusto Carlos Pinto Osório, de António Ferreira, 1$20.

capital, assumindo a gestão da casa, e Joaquim Gonçalves colocou a indústria, recebendo 25% dos lucros anuais e auferindo mensalmente um vencimento de 120$00. Na década de 30, a oficina empregava mais dois tipógrafos: Joaquim Sequeira (v.) e Silvestre Maria da Conceição (v.).

Após a morte do primeiro proprietário, a 25/05/1959, a tipografia foi herdada por uma irmã, Merceana Callapez da Silva Martins Nobre de Oliveira, auxiliada na gestão por outro irmão, Henrique Callapez Martins. O jornal A Voz do Sul, entretanto criado – a sua existência data de 08/10/1916 a 11/11/1968 – foi assumido pelo filho de Henrique Martins, José Júlio Martins (v.).

Algum tempo depois, a oficina passou a ser gerida pelos filhos de Merceana Nobre de Oliveira e Henrique Callapez Martins, respectivamente Eugénio Henrique Martins Nobre de Oliveira e José Júlio das Fontes Callapez Martins, que a conduziram a uma situação financeira difícil. Foi também durante estes anos que a oficina perdeu o seu carácter ideológico e passou a ser uma casa meramente comercial.

Mais tarde, a oficina foi adquirida por José Jóia (v.), que hoje a dirige.

Para além dos periódicos, propriedade da Tipografia, esta oficina imprimiu outros jornais da província, nomeadamente: entre 23/04/1916 e 28/05/1916, imprimiu O

Imparcial («Semanário Literário, Noticioso e Recreativo», de Loulé; de 11/06/1916 a

01/10/1916, imprimiu o semanário A Verdade («Semanário Literário e Noticioso»), de Lagos; neste ano deu também à estampa o segundo periódico do concelho de Silves: A

Voz do Sul («Órgão do Partido Republicano Português») (08/10/1916 – 11/11/1968); de

28/04/1921 a 08/09/1921, imprimiu o semanário, também de inspiração republicana

Terra Algarvia, de Silves; em 1921, imprimiu os primeiros cinco números do jornal A Ideia Nova («Semanário Integralista»), de Silves e os primeiros seis números do jornal O Portimonense, que teve a sua fundação em 10/11/1921, tendo transferido a impressão

a 15/02/1922 para a Tipografia Central, em Olhão; a 19/01/1925, imprimiu O Eco de

Silves, número único, comemorativo e propagandístico da Associação dos Empregados

do Comércio e Indústrias de Silves; de 29/11/1925 a 1926 (até ao n.º 19), imprimiu O

Povo de Silves; de 1926 a 08/09/1927 deu à estampa o semanário Ecos de Loulé; e em

04/04/1930 compôs e imprimiu Silves, propriedade do Silves Futebol Clube, de que era director e editor Luís Gonçalves.

Quanto à produção de livros ou de folhetos, para lá dos que se apresentam no catálogo, imprimiu em 1916, o folheto de Raul Pousão Ramos (v.) Duas conferencias

Fundada sob a necessidade de divulgar e organizar o ideal republicano, esta oficina agregou à sua volta o escol intelectual da cidade de Silves. Por aqui passou a defesa da República, as reivindicações pela Escola de Comércio e Indústria João de Deus, pela Escola de Letras e Artes, idealizada e mais tarde dirigida pelo pintor José Ricardo Júdice Samora Barros (v. autores), reivindicações económico-sociais, como a solução para a crise corticeira na região ou o apoio às reivindicações da classe operária. Também do ponto de vista cultural, a Tipografia Artística Algarvia teve um papel fulcral na região, através da edição da terceira série do jornal Alma Algarvia, na verdade a primeira publicação aqui composta e impressa. Como já dissemos, o nascimento deste periódico foi fundamentalmente político; porém, o tempo transformou-o num órgão mais noticioso e atento às causas regionalistas. Em 1915, ainda que bem redigido, o jornal tornara-se num periódico igual a tantos outros e foi então que, a 01/11/1915, surgiu a terceira série em formato de revista, com doze páginas, definindo-se como publicação “política, literária e artística” (v. catálogo, n.º 20.). Na sua declaração de interesses afirmava:

“Pugnaremos pelos interesses do Algarve, e como nem só de pão vive o homem falaremos, como soubermos, de coisas de arte, enlevo e encantamento do espírito.

No campo político, cada vez com mais consciência e verdade, defenderemos o pavilhão democrático. (…)

Será uma publicação de inquérito permanente à vida económico-social do Algarve, e assim, ouvirá opiniões abalizadas, lançará alvitres e fará a crítica que houver por conveniente.”52

Devo lembrar que o I Congresso Algarvio se realizou no mês de Setembro deste ano, provocando em todo o Algarve a consciência regional e despoletando novas atitudes e entusiasmo no que concerne à defesa dos interesses algarvios. Neste sentido, surgiram várias publicações periódicas que deram forma e projectaram as ideias de um novo regionalismo. Se houve órgãos da imprensa regional que prepararam este acontecimento, não tenho dúvidas em afirmar que a terceira série da Alma Algarvia foi o seu primeiro fruto, uma espécie de síntese do que, de forma, assistemática, se vinha fazendo na imprensa coeva. Repare-se neste pormenor: a colaboração na revista era solicitada pelo seu director, todavia esta estava aberta a “qualquer pessoa que tiver ideias, alvitres, estudos, acerca de melhoramentos ou medidas de fomento, educação, aformoseamento do nosso Algarve” devendo para tal dirigir-se “a esta redacção, visto

que, tanto por intermédio da nossa publicação como directamente junto dos poderes competentes, a Alma Algarvia tratará tudo que represente o progresso desta província.” Eis uma boa síntese do papel que coube à imprensa no período pós Congresso e que a

Alma Algarvia imediatamente começou a colocar em prática.

Embora dirigida e administrada pelas mesmas personalidades que a fundaram, Julião Quintinha e Henrique Martins, e continuando a afirmar-se uma publicação política, esta característica ficou-se pela secção “crónica política”, que ocupava pouco menos de uma página da revista. A literatura, com a publicação de poemas de poetas algarvios, de contos, de “fantasias literárias”, de cantigas populares, ou de artigos sobre literatos, tomou um lugar de destaque no seio da publicação. O aspecto artístico também não foi descuidado e, em praticamente todos os números, deu à estampa desenhos de Boaventura Passos (v.), tendo ainda como colaboradores artísticos Carlos Lyster Franco (v.), Vitorino da Fonseca Dias (fotógrafo) e Armando de Sousa (pintor). No corpo dos restantes colaboradores encontramos os poetas Bernardo de Passos (v.), José Dias Sancho (v.), Mateus Moreno, Joaquim Lança e Reis Varela, os ainda estudantes Maurício Monteiro (Direito), Rodrigues de Passos (Medicina) e Rita da Palma (Direito), os jornalistas Fazenda Júnior, João Barbosa, Maria Pires dos Santos e João Faria, os escritores Carlos Lyster Franco (v.), Percis Franco e João da Ega (pseudónimo), o engenheiro agrónomo Pedro Mascarenhas Júdice, o advogado João Carlos Mascarenhas e o oficial de exército e professor José Guerreiro Fogaça.

A revista publicou o seu último número (247) a 15 de Abril de 1917, mas deixou arraigado um novo estilo no seio da imprensa regional, que terá o merecido desenvolvimento noutros pontos da província, nomeadamente em Faro e em Olhão.

No documento CAPÍTULO I INTRODUÇÃO (páginas 49-54)