• Nenhum resultado encontrado

4 O PROCESSO PENAL JUVENIL NA PRÁTICA

4.3 A OITIVA INFORMAL PELO PARQUET E O OFERECIMENTO DE

Após o encerramento do procedimento policial, o caso é encaminhado ao Ministério Público para a oitiva informal do adolescente. Em Porto Alegre, o adolescente foi ouvido pelo Parquet em 65,4% dos eventos; no Rio de Janeiro, em 70,3% dos casos. As razões para não ouvir o adolescente, geralmente, envolvem situações em que não houve apreensão em flagrante, ou que o adolescente foi imediatamente liberado pela autoridade policial, ou, ainda, casos em que, em nome da celeridade e considerando haver elementos suficientes para o oferecimento de representação, o MP opta por não proceder à oitiva e dar início ao processo.

Na imensa maioria dos casos, não há defensor presente durante essa etapa informal. Na capital carioca, 93,7% das oitivas informais foram realizadas sem a presença de advogado e, em 6,3% dos casos, não foi possível verificar se houve ou não acompanhamento. Já em Porto Alegre, em 87% dos casos, os adolescentes foram ouvidos sem assistência de defensor, tendo sido acompanhados em 8,7% dos casos. Não foi possível verificar o acompanhamento em 4,3% das situações. Um membro da Defensoria Pública gaúcha afirmou, informalmente, que a Defensoria não acompanha as oitivas informais, por não reconhecer a constitucionalidade desse procedimento.

Quanto à necessidade de acompanhamento por advogado durante a audiência com o Ministério Público, os Tribunais de Justiça carioca341 e gaúcho342 afirmaram que a presença de defensor no ato não é obrigatória e não enseja nulidade do ato, haja vista que a oitiva informal se trataria de procedimento meramente administrativo, seguindo a mesma orientação

341 “APELAÇÃO. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Ato infracional análogo ao delito

previsto no artigo 33, caput da Lei n. 11.343/06. Provas inequívocas de autoria. Confissão informal e em juízo. Procedência da representação. Aplicação de medida socioeducativa de liberdade assistida. Apelo defensivo que visa, preliminarmente, à nulidade absoluta da confissão informal por ausência de defesa técnica, e da confissão em juízo por violação aos princípios da isonomia processual, contraditório, ampla defesa e legalidade. Rejeição. A oitiva informal do adolescente, prevista no artigo 179 da Lei n. 8069/90, tem natureza de procedimento administrativo - por isso não está submetido aos princípios do contraditório e da ampla defesa - e visa dar suporte ao Parquet para confirmar sua convicção sobre a conveniência do oferecimento da representação ou da proposta de remissão, ou, ainda, de pedido de arquivamento, e não há exigência da presença de defensor. Possibilidade de oitiva do menor antes do depoimento das testemunhas, uma vez que a não adoção do rito comum previsto no Código de Processo Penal, não tem o condão de eivar de nulidade o ato processual realizado no processo socioeducativo, que tem rito próprio, ainda mais quando não foi demonstrado por parte da Defesa qualquer prejuízo eventualmente sofrido. (...) Recurso desprovido” (RIO DE JANEIRO. Tribunal de Justiça. Apelação Criminal 0004037-78.2015.8.19.0054. Câmara julgadora: Primeira Câmara Criminal. Relator: Antonio Jayme Boente. Julgado em 17/11/2016.)

342

RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça. Apelação Cível 70068606359. Câmara julgadora: Sétima Câmara Cível. Relator: Jorge Luís Dall'Agnol. Julgado em 18/05/2016.

122

manifestada nos casos de interrogatório policial sem a presença de advogado, inclusive quando o adolescente confessou a autoria do ato.

Verificou-se que a presença dos pais ou de responsável é mais frequente em Porto Alegre (58% dos casos) do que no Rio de Janeiro (36,7%) – sublinha-se que não foi possível verificar a presença dos pais em pouco mais que 20% das situações, em ambas as capitais. Nas atas das oitivas informais, todas reduzidas a termo e geralmente assinadas pelo adolescente, pelo responsável – quando presente –, e pelo representante do MP, constou a cientificação do adolescente quanto a seus direitos, inclusive o de permanecer em silêncio, em apenas 9% dos casos, em Porto Alegre, enquanto, na capital carioca, o índice foi de 70,5%. Como tais oitivas não são gravadas, prevalecem as informações contidas no termo, não sendo possível verificá-las in concretu.

Foram registradas, ainda, 45,6% de confissões integrais no Rio de Janeiro, um índice de 20,3% de confissões parciais, 30,4% de negativas de autoria, e, em apenas 3,8% dos casos, o adolescente exerceu o direito ao silêncio. Em Porto Alegre, por outro lado, o exercício do direito ao silêncio foi contabilizado em 40,6% dos procedimentos, além de 26,1% de casos em que o adolescente negou a autoria, contra 18,8% confissões integrais e 14,5% confissões parciais.

Ainda que se possa entender que os depoimentos prestados pelos adolescentes perante a autoridade policial e o Ministério Público não possuam valor probatório, haja vista que decorrem de procedimento administrativo, o que se pôde verificar, na prática, é que, por vezes, as declarações dos adolescentes nessa fase podem vir a prejudicar sua defesa. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro343, por exemplo, decidiu da seguinte forma:

APELAÇÃO CRIMINAL. REPRESENTAÇÃO CONTRA ADOLESCENTE EM FACE DA PRÁTICA DE ATO INFRACIONAL ANÁLOGO AO CRIME DE LATROCÍNIO (CP, ART. 157, § 3º). (...) MATERIALIDADE E AUTORIA DEVIDAMENTE COMPROVADOS PELOS SUBSTRATOS PROBATÓRIOS. CONFISSÃO NA POLÍCIA E NA PROMOTORIA DE JUSTIÇA. VALOR PROBANTE. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA, QUE SE APRESENTA COMO FIEL RESPOSTA À PROVA DOS AUTOS. (...) Malgrado o apelante tenha permanecido em silêncio em juízo, tal fato não tem o condão de invalidar a confissão extrajudicial. Somente na hipótese de restar comprovado que aquelas

343 O TJRS decidiu no mesmo sentido: “(...)Se o infrator confessou a autoria no inquérito policial, ratificando

depois a confissão, confessou perante o agente ministerial e optou por manter silêncio em juízo, e se essa confissão está em consonância com os depoimentos testemunhais, ficando claro que ele era desafeto da vítima, não se pode cogitar de fragilidade da prova (...)”.(RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça. Apelação Cível 70071435127. Câmara julgadora: Sétima Câmara Cível. Relator: Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves. Julgado em 30/11/2016)

123

declarações foram prestadas mediante coação ou sem voluntariedade é que se pode cogitar de nulidade. No caso dos autos, não existe sequer fraco começo de prova de molde a demonstrar que as declarações prestadas pelo apelante tanto em sede policial como na Promotoria de Justiça foram induzidas ou obtidas mediante coação. O próprio apelante não fez menção, em nenhum momento, ao fato dos atos em questão não possuir caráter voluntário, preferindo o silêncio ao ser ouvido em Juízo, o que indica claramente que suas primeiras declarações foram voluntárias, pois, do contrário, o representado certamente as teria desmentido. Observe-se que a detalhada confissão extrajudicial do Recorrente, está em sintonia com o depoimento prestado em sede policial pelos corréus imputáveis. Por outro lado, como destacado tanto na sentença hostilizada, a autoria delitiva está de igual maneira comprovada pelos depoimentos colhidos em audiência, sob o crivo do contraditório e ampla defesa. Ressalte-se que a ausência de testemunha presencial é irrelevante, em face da grande maioria dos crimes praticados contra o patrimônio o serem na clandestinidade, envolvendo, quase sempre, apenas os seus autores e as próprias vítimas, o que implica na busca da verdade real por todos os meios de prova em direito permitido, principalmente a testemunhal. Assim, embora as testemunhas supramencionadas não tenham presenciado o momento do delito, com os seus depoimentos, esclareceram de forma harmônica e coerente os fatos que circundam o latrocínio cometido contra a vítima. Por tudo, é de se concluir que o Juízo de primeiro grau, ao reconhecer comprovada a prática do ato infracional imputado ao apelante, agiu com a segurança e certeza necessárias, não reclamando a hipótese, como pretendido pela Defesa, a anulação do decisum. De frisar, outrossim, que, ao aplicar ao Recorrente medida socioeducativa de internação, com fulcro no art. 122, inciso I, do ECA, o Magistrado de piso o fez fundamentadamente, atento à realidade do adolescente e à gravidade do ato praticado, afigurando-se, tal medida, ao meu sentir, a mais adequada à sua ressocialização. DESPROVIMENTO DO RECURSO.344

Em casos pontuais, tanto no Rio de Janeiro, como em Porto Alegre, alguns adolescentes foram confrontados pelo representante do MP, em razão de suas declarações durante a oitiva informal não coincidirem com as declarações feitas posteriormente em audiência de apresentação perante o juízo. Em um caso, na capital gaúcha, o Parquet, em memoriais, desqualificou o depoimento do adolescente em audiência de apresentação a partir das suas declarações em oitiva informal – ato realizado sem a presença de advogado ou de responsável pelo adolescente.

Não se constatou, todavia, que as declarações dos adolescentes na oitiva informal tenham direta interferência no oferecimento ou não da representação pelo Ministério Público. Em Porto Alegre, por exemplo, o Parquet ofereceu representação em 100% dos casos, não havendo sequer um pedido de arquivamento ou oferecimento de remissão nessa etapa pré- processual; no Rio de Janeiro, o índice foi de 81,1%. Nos 18,9% dos casos em que não foi oferecida a representação, 66,7% deles deram-se em razão de pedido de arquivamento do expediente e 33,3% foram em razão de oferecimento de remissão ao jovem.

344 RIO DE JANEIRO. Tribunal de Justiça. Apelação Criminal 0017784-84.2016.8.19.0014. Câmara julgadora:

Sétima Câmara Criminal. Relator: Joaquim Domingos de Almeida Neto. Julgado em 13/12/2016.

124

Os pedidos de arquivamento trouxeram fundamentos como ausência de indícios de autoria e materialidade (42,9% dos casos), ausência de interesse socioeducativo em razão do atingimento da maioridade pelo adolescente (42,9%), princípio da excepcionalidade da intervenção judicial (42,9%), bem como proibição de tratamento mais gravoso ao adolescente que ao adulto em situação similar (35,7%) e a baixa gravidade do ato infracional praticado (28,6%), entre outros fundamentos. Veja-se que os pedidos de arquivamento decorreram, em geral, de questões objetivas, que não guardam direta relação com elementos que só poderiam ser obtidos mediante a oitiva do adolescente. Em todos os casos, o pedido de arquivamento foi homologado pelo Juízo da VIJ/RJ.

A oitiva informal do adolescente parece, portanto dispensável, na medida em que, em grande parte dos casos, é oferecida a representação pelo MP, independentemente da alegação do adolescente. As suas declarações, ao que se verifica, não tiveram o efeito de evitar o início de um processo (com exceção de 6,3% dos casos no RJ). Por outro lado, sua fala foi utilizada em seu desfavor em algumas oportunidades, e a sua confissão foi sopesada para confirmação da autoria delitiva.

Nos casos em que foi oferecida representação contra o adolescente, verificou-se que a narrativa do MP geralmente preenche os requisitos do art. 41 do CPP, descrevendo as circunstâncias do fato imputado ao adolescente em mais de 90% dos casos. Na mesma proporção, observou-se que foram arroladas duas ou mais testemunhas de acusação na representação, sendo que, no Rio de Janeiro, em 43,3% dos casos, as testemunhas foram compostas exclusivamente por policiais envolvidos com a ocorrência ou com a investigação, enquanto em Porto Alegre essa taxa é de 21,1%. Uma explicação possível para essa circunstância é que, em geral, nos crimes relacionados ao tráfico de drogas, as testemunhas cingem-se aos policiais que efetuaram o flagrante. Considerando que, no Rio de Janeiro, a quantidade de processos envolvendo atos dessa natureza superou os eventos de Porto Alegre, é natural que haja mais casos em que policiais figurem como únicas testemunhas de acusação. Os atos mais frequentemente praticados na capital gaúcha, por envolverem emprego de violência ou grave ameaça contra pessoa, geralmente deixaram vítimas, que acabaram sendo arroladas pelo MP na representação.

O intervalo entre a data do fato e o oferecimento da representação pelo MP, nos casos examinados, pode ser assim sistematizado:

125

Gráfico 10 - Intervalo entre o fato e o oferecimento da representação

O grande número de representações oferecidas em menos de 72h após o fato deve-se ao alto número de apreensões em flagrante (68,3% em Porto Alegre e 83,8% no Rio de Janeiro). Nesses casos, logo após a oitiva informal do adolescente pelo MP, este oferece a representação, dando início, de pronto, ao processo de apuração de ato infracional. Há ocasiões, contudo, em que a representação não é oferecida em tão curto espaço de tempo: em alguns deles, a demora deve-se à baixa gravidade do fato, em que o adolescente, após o registro do flagrante, é liberado pela autoridade policial de imediato, de modo que não há urgência no oferecimento da representação; há outros casos em que o processo decorre de investigação policial prévia, havendo maior espaçamento entre o fato e o início da persecução judicial do adolescente.