A complexidade crescente da sociedade necessitou de uma linguagem musical que pudesse representá-la em sua profundidade e movimento.
A chamada música tonal35, que melhor define a música no Ocidente, remonta à polifonia medieval e desenvolveu-se ao longo dos séculos XVI e XVII para se consolidar no século XVIII, com a música de Domenico Scarlatti, de Vivaldi, de Bach e Handel36, compositores do período Barroco37. A música tonal destaca-se pelo contraste entre o modo maior e o menor, pelo conceito de função harmônica (tônica, subdominante, dominante) e pela melodia acompanhada por acordes formados pela superposição de tríades, sendo bem representada nas obras de Mozart, Beethoven, Schumann e Wagner, e na música popular que escutamos hoje em dia.
Nesse novo ambiente musical, onde predominavam contrastes e tensões evitados na música dos períodos anteriores, a música instrumental conheceu grande desenvolvimento, o que acabou por exigir a formação de grupos instrumentais estáveis.
33 Escultura do acervo do Musée Rodin em Paris. http://www.musee-rodin.fr
34 “Dans ces murs voués aux merveilles/J'accueille et garde les ouvrages/De la main prodigieuse de l'artiste/Égale et rivale de sa pensée/L'une n'est rien sans l'autre”. Em tradução livre: “Nesses muros consagrados às maravilhas; Eu acolho e guardo as obras da mão prodigiosa do artista; Igual e rival de seu pensamento; Uma não é nada sem o outro.”
35 Para maiores informações: Carpeaux, 1977 e Wisnik, 2009.
36 Giuseppe Domenico Scarlatti (1685 – 1757), Antonio Lucio Vivaldi (1678 – 1741), Johann Sebastian Bach (1685 – 1750) e Georg Friedrich Händel (1685 – 1759).
37 “As observações de Suzanne Clercx e a periodização de (Manfred) Bukofzer permitem enquadrar a música barroca na evolução do Barroco como estilo das artes plásticas, estilo de pensar e estilo social do século XVII e do começo do século XVIII.” (CARPEAUX, 1977, p. 91)
A orquestra sinfônica, cuja importância e trajetória serão expostas nesta seção, faz parte da evolução da música ocidental.
A orquestra, como é hoje conhecida, foi fruto da evolução da música. Na Idade Média, não havia ainda noção de um conjunto orquestral equilibrado: “levou muito tempo para que houvesse certa unanimidade” (RAYNOR, 1981, p. 36). As partituras dessa época eram escritas para vozes humanas, que podiam ser reforçadas ou mesmo substituídas por instrumentos musicais. Os compositores não podiam escolher os instrumentos a serem usados, pois dependiam das condições locais e da disponibilidade de instrumentos e de músicos, que tinham como função primordial o acompanhamento e o apoio às vozes do canto (RAYNOR, 1981). O surgimento da orquestra está ligado à autonomia gradual da música instrumental, à padronização dos grupos instrumentais e, principalmente, à importância social que os compositores começam a alcançar a partir do século XVIII, seguindo a tendência de desenvolvimento da cultura urbana burguesa e do processo de individuação.
Pode-se entender o gradativo aumento da importância social dos compositores através do pensamento de Norbert Elias (1994). Este pensador demonstra que o uso dos conceitos individual e social de forma antitética, com a balança nós-eu com inclinação para a identidade-eu, é relativamente recente. São as sociedades mais desenvolvidas que passaram a expressar a diferença entre o individual e o social, vendo o ser humano como entidade autônoma e valorizando suas habilidades. Neste novo contexto emerge gradativamente a figura do compositor em toda a sua individualidade e representatividade. Os compositores do final do século XVI e início do XVII passaram a adquirir notoriedade e a não mais deixar a definição do timbre dos grupos instrumentais a cargo dos executantes, institucionalizando, progressivamente, uma formação instrumental. As orquestras barrocas foram os primeiros grupos instrumentais com instrumentos definidos, onde os compositores procuraram obter um conjunto de timbres e sonoridade desejado. A ideia de família de instrumentos foi sedimentada e a orquestra toma como base os instrumentos da família das cordas. Mas o período barroco não definiu de maneira definitiva e homogênea a orquestra, pois, mesmo entre as diferentes obras de um mesmo compositor, havia grande variação
entre as formações empregadas. “By the 1730s and 40s the ‘orchestra’ – by that time called by its own name – was recognizable as an institution in most parts of Europe” 38.
Importante acontecimento foi a criação da primeira empresa organizadora de concertos públicos na década de 1760, em Londres, por Johann Christian Bach (1735 – 1782). Inicia-se a transição para um novo capítulo na história da música. “A Igreja, a corte monárquica e o palácio do aristocrata perdem (progressivamente) a função de mecenas que encomenda obras ao artista” (CARPEAUX, 1977, p. 131), e o compositor passa a enfrentar um público diferente, desconhecido, que nada encomendou e espera novidades. A definição das formas musicais – sonata, sinfonia, concerto, que assumiram significado mais preciso no período clássico – , aumentou a importância da orquestra sinfônica e exigiu a instituição de uma formação mais definida. Surge, no século XVIII, a ideia de música absoluta como valor estético e, nesse período, a orquestra de Mannheim, dirigida por Johann Stamitz (1717-1757), adquiriu o reconhecimento por seu elevado nível de execução e de inovações técnicas, tornando-se modelo para os compositores do período clássico. A orquestra então utilizada, baseada nos instrumentos de cordas de arco acrescidos das madeiras a dois (flautas, oboés, clarinetes e fagotes) e de trompas, ocasionalmente tímpanos, trompetes e trombones, institucionalizou-se e é a formação básica que se mantém até os nossos dias.
A música de concerto, especialmente a sinfônica, por suas características técnicas, por se valer de notação precisa e por seu repertório “universal”, facilita a circulação dos artistas que fazem dela sua profissão. Famosas foram as viagens de Bach, Haendel, Mozart, Mendelssohn e Beethoven (apenas para citar os mais famosos) entre cortes e cidades europeias à procura das melhores condições para compor e executar suas músicas. Esse é um importante aspecto para se compreender tamanha quantidade de músicos estrangeiros atuando nas orquestras brasileiras (também observado nas orquestras de outros países), que torna transnacional a cultura da
38 Em tradução livre: “Pelas décadas de 1730 e 1740 a ‘orquestra’ – nessa época chamada por seu próprio nome – era reconhecida como uma instituição na maior parte da Europa”. O livro The Birth of the Orchestra – History of an Instituition, 1650 – 1815 de John Spitzer e Neal Zaslaw foi a fonte principal de consulta para esta seção.
música erudita e alimenta a sensação de que a música de concerto no Brasil é uma incrustação estrangeira.