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A PESSOA DO PROFETA

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Temos muito mais informações acerca da vida de Jeremias do que de qualquer outro profeta do Antigo Testamento. O nome Jeremias provavelmente significa “Javé

exalta” ou “Javé estabelece”.421 Embora não sendo sacerdote, Jeremias pertencia a uma

família sacerdotal. Seu pai, conforme Jeremias 1,1, chamava-se Hilquias; alguns alegam que esse personagem seria o mesmo sacerdote mencionado em 2Reis 22,8, que encontrou o livro da lei desencadeador da reforma josiânica. No entanto, tal hipótese é

difícil de ser atestada.422

419 John L. Mackay, Mentor Commentary: Jeremiah. Mentor Old Testament Commentary, vol. 2, 2004, p.

605.

420

John L. Mackay, Mentor Commentary: Jeremiah. Mentor Old Testament Commentary, vol. 1, 2004, p. 295.

421 Stelman Smith; Judson Cornwall, The Exhaustive Dictionary of Bible Names, North Brunswick,

Bridge-Logos, 1998, p. 128.

422

A época do nascimento de Jeremias é um dado importante para a reconstrução de sua vida e para determinar o pano de fundo das profecias contidas nos caps. 1–25. Uma das propostas tradicionalmente adotadas é a de que o chamado de Jeremias se deu no décimo terceiro ano de Josias (1,2.4), fato também confirmado em 25,3. Além disso, outras passagens também sugerem que parte do ministério profético de Jeremias se

desenrolou durante os dias do rei Josias (3,6 e 36,2).423

A menção de que Jeremias era um

רַעַנ

naʻar “menino” no período de seu

chamado (Jr 1,6) levou muitos pesquisadores a inferir que ele provavelmente tinha por volta de dezoito anos no momento de seu chamado, tendo nascido entre os anos de 650 e 640 a.C., próximo do final do reinado de Manassés (687-642 a.C.). O uso dessa expressão hebraica no chamado de Jeremias sugere um limite máximo de cerca de vinte anos para o profeta nesse período. Duas são as prováveis razões que favorecem tal afirmação.

Em primeiro lugar, sabe-se que Jeremias descendia de uma família sacerdotal, porém não há evidências de que tenha exercido o sacerdócio, o que indica que Jeremias não havia atingido a idade limite de vinte anos, quando os levitas iniciavam o serviço sacerdotal (Nm 4,3; 8,24, 1 Cr. 23,3. 24). Além do mais, Jeremias não era casado (16,2), o que sugere que o profeta seria menor de vinte anos, pois numa família sacerdotal era esperado que o casamento ocorresse por volta dessa idade.

Baseando-se na alegação de que seria improvável adequar algumas passagens às condições do reinado de Josias, pesquisadores passaram a contestar a hipótese do nascimento e chamado de Jeremias conforme aventada anteriormente. Para eles, o ambiente sombrio descrito nos primeiros capítulos da obra não se enquadraria com as condições vigentes no período de Josias, dada a presunção de que esse rei se empenhou na tarefa de remoção da idolatria de Judá um ano antes do chamado de Jeremias.

Além disso, a ausência de informação referente a acontecimentos importantes, tais como a descoberta do livro da lei em 622 a.C., a celebração da páscoa após alguns meses e, no cenário internacional, a queda de Nínive, associada à alusão à procura pela profetiza Hulda em vez do profeta Jeremias para interpretar o significado das palavras do livro da lei (2 Rs 22,14; 2Cr 34,22), e também a incerteza quanto à identificação do inimigo do norte nos primeiros anos do ministério de Jeremias ofereceriam indícios de

423

que o nascimento e o chamado de Jeremias se deram em uma época posterior, provavelmente no reinado de Jeoaquim.

As passagens que demonstravam o contrário foram consideradas adições ou emendas. Ainda sugeriu-se uma troca da expressão “décimo terceiro” para "vigésimo terceiro" em 1,2, remetendo, dessa forma, o início do ministério de Jeremias para uma década mais tarde. Todavia, tal proposta não desfrutou de longa aceitação entre os pesquisadores. Em seu lugar cogitou-se a manutenção da expressão “décimo terceiro” (1,2), mas, o ano de 627 a.C. não seria tomado como o início do ministério público de Jeremias, e sim como o ano de seu nascimento, dado que ele teria sido separado para o

ministério desde o ventre de sua mãe. 424

Consequentemente, o ministério profético de Jeremias eclodiria por volta do ano de 615 a.C., quando teria doze anos. Admitindo a existência de uma cerimônia septenal de renovação do pacto iniciada em 622 a.C. em que se recitava o Deuteronômio, inferiu- se que os sermões de Jeremias foram proclamados durante essas cerimônias em 615,

608, 601, 594 e 587 a.C.425

Outra proposta baseada na análise literária do cap. 1 sugere a divisão dos vv. 4- 19 em dois blocos (vv. 4-12 e 13-19), mantendo o ano de 627 a.C., período em que Jeremias teria cerca de treze anos, como a provável data para seu chamado profético, tendo sido aceito somente depois que o livro da lei fora encontrado no templo, quando tinha dezoito anos. Entrementes, Jeremias é comissionado pela segunda vez (1,13-19),

dando início, de fato, a seu ministério profético em 622/21 a.C.426 Ele teria a mesma

idade do profeta Samuel em sua comissão.427

Das propostas elencadas anteriormente, inclino-me a aceitar a ideia de que Jeremias nasceu entre os anos de 650 e 640 a.C. e tinha por volta de dezoito anos na época de seu chamado em 627 a.C., porquanto não haja argumentos suficientes no texto que atestem a ocorrência de um desenvolvimento gradual no ministério de Jeremias após o ano de 627 a.C., nem tampouco que situem o início de seu ministério nos anos finais do reinado de Josias. Com respeito à ausência de informação sobre acontecimentos importantes ocorridos no período do profeta, é necessário desvincular Jeremias da percepção crítica moderna, de que ele era um historiador ou analista

424 John L. Mackay, Mentor Commentary: Jeremiah. Mentor Old Testament Commentary, vol. 1, p. 51-

54.

425 William Lee Holladay; Paul D. Hanson, Jeremiah 1: A Commentary on the Book of the Prophet Jeremiah, Chapters 1–25, p. 1-10.

426 Jack R. Lundbom, Jeremiah 1–20: A New Translation with Introduction and Commentary, p. 107-109. 427

político, a fim de resgatarmos sua real função, de profeta portador da mensagem de Javé.

Além do mais, a questão da falta de identificação do inimigo do norte não deve ser considerada entrave para a elucidação da data do chamado e ministério de Jeremias. É provável que Jeremias não tivesse nenhuma nação específica em mente, visto que o norte não representaria uma localização geográfica, antes, seria a fonte de tudo que fosse considerado ameaçador e misterioso. O norte seria o lugar de onde viria a desgraça, e o profeta estaria expressando sua convicção de que Javé enviaria uma onda

devastadora de destruição do norte para se vingar de seu povo e de sua terra.428 Por fim,

a preferência por Hulda em vez de Jeremias para interpretar o significado das palavras do livro da lei pode ser explicada por sua proximidade com a corte de Jerusalém. Ela residia na cidade capital de Jerusalém e era provavelmente uma profetiza da corte,

casada com um de seus membros (2 Rs 22,14).429

Jeremias, por sua vez, era natural de Anatote, região no interior de Judá situada 6

km a nordeste da capital Jerusalém, no antigo território de Benjamin.430 A pequena

distância entre a cidade capital e Anatote levou o profeta Jeremias a atuar preferencialmente em Jerusalém após certo momento de sua vida. Tal como Jerusalém, Anatote também faz parte das cidades e aldeias que se situam nos caminhos de Amã (Transjordânia) até Geser (na planície oeste, nos arredores do Mar Mediterrâneo), os quais na altura de Jerusalém se tornam um corredor privilegiado de passagens de pessoas, animais, carroças e mercadorias em seu trânsito pela parte central da terra de Israel. Diante disso, Anatote não pode ser considerada uma aldeia qualquer; seria um lugar de grande circulação de informação e comunicação, um espaço aberto para o “mundo”. Não é sem razão que Jeremias é denominado o “profeta das nações/goyim”.

428

Victor J. Eldridge, Jeremiah, Prophet of Judgment, em Review & Expositor, Louisville, Southern Baptist Theological Seminary/ Review and Expositor, vol. 78, n. 3, 1981, p. 325-326. Katleen M. O’Connor não pressupõe um inimigo histórico, mas sim um inimigo de natureza mítica. Veja Kathleen M. O’Connor, The Tears of God and Divine Character in Jeremiah 2–9, em A. R. Pete Diamond; Kathlen M. O’Connor; Louis Stulman (eds.), Troubling Jeremiah, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1999, p. 392. Para um aprofundamento nesse assunto confira B. S. Childs, The Enemy from the North and the Chaos Tradition, em Journal of Biblical Literature, Atlanta, Society of Biblical Literature, vol. 78, 1959, p. 187-198; Henri Cazzelles, Sophonie, Jérémie, et les Scythes en Palestine, em Revue Biblique, Paris, J. Gabalda et Cie, vol. 74, n. 1, 1967, p. 24-44; Edward Silver, The Prophet and the Lying Pen: Jeremiah’s Poetic Challenge to the Deuteronomic School, Chicago/Illinois, The University of Chicago, 2009, 359 p. (tese de doutorado).

429 Brad E. Kelle, Essential Histories: Ancient Israel at War 853-586 B.C., New York, Osprey Publishing,

2007, p. 72.

430 David Noel Fredman, The Anchor Yale Bible Dictionary, New

York/London/Toronto/Sidney/Auckland, Bantam Doubleday Dell Publishing Group, vol. 1, 1996, p. 227- 228. Veja também Avraham Negev, The Archaeological Encyclopedia of the Holy Land, New York, Prentice Hall Press, 1996, verbete: Anathoth.

O livro de Josué 21,18 descreve essa localidade como uma das regiões herdadas pelos sacerdotes e levitas. Em 1 Reis 2,26, Anatote aparece como local de exílio para o sacerdote Abiatar por ter apoiado o grupo político derrotado na sucessão ao trono de

Davi.431 A ligação de Abiatar com essa região levou alguns pesquisadores a inferirem

que Jeremias seria descendente desse sacerdote.432 Todavia, não existe nenhuma

evidência bíblica ou extrabíblica que comprove semelhante hipótese, visto que outras

famílias levíticas teriam residido em tal cidade sacerdotal.433

Embora unida politicamente a Judá, essa localidade mantinha fortes laços com as tribos do norte. Tais vínculos são notórios pela ênfase do profeta nas tradições

nortistas, em detrimento das tradições de Jerusalém.434 Nesse sentido, Schwantes faz a

seguinte declaração:

Como benjaminita, está próximo a Israel, às tribos do norte. Conhece suas tradições, entre elas, a do êxodo libertador. Anuncia o retorno dos deportados do norte, levados cativos em 732 e 722 (Jr 30–31). Como pertencente a uma família sacerdotal, tinha acesso à cultura de sua gente. Até nos podemos perguntar se não teria conhecido os conteúdos do livro de Oséias. Como nascido em Anatote, vem do mundo camponês. Está ligado às tradições das pessoas da roça.435

A procedência de Jeremias pode explicar seu posicionamento crítico em relação

à capital e ao templo. Ele não era homem da capital e sim do interior.436 Como se sabe,

sua aldeia estava localizada no território tribal de Benjamim, fora dos limites de Jerusalém e fora de Judá, e por isso fora da esfera imediata de influência real do templo. Seu posicionamento crítico parece ser determinado basicamente pela economia real de Jerusalém; as aldeias serviam como fornecedora dos tributos necessários para a manutenção da instituição central. É provável que por conta disso, as aldeias nutrissem um profundo ressentimento em relação à opulenta vida urbana. Além disso, a passagem

431 Dan G. Kent, Jeremiah: the Man and His Time, em Southwestern Journal of Theology, Fort Worth,

Southwestern Baptist Theological Seminary, vol. 24, n. 1, 1981, p. 7-18. Também Franz Josef Stendebach, Introducción al Antiguo Testamento, Barcelona, Editorial Herder, 1996, p. 244.

432

Antony R. Ceresko, Introdução ao Antigo Testamento numa perspectiva libertadora, p. 213.

433 Ernest Sellin; Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, p. 549.

434 José Luís Sicre, Introdução ao Antigo Testamento, Petrópolis, Vozes, 1994, p. 246. 435

Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI

a. C., p. 42.

436 S. Amsler; J. Asurmendi; J. Auneau; R. Martin Archad, Os profetas e os livros proféticos, São Paulo,

Paulinas, 1992, p. 186; Carlos Mesters, O Profeta Jeremias: boca de Deus, boca do povo: uma

de Jeremias 32,1-15 deixa claro que a noção tribal tradicional de terra como herança familiar era uma das preocupações do profeta. Dessa forma, presumimos que Jeremias foi nutrido por uma perspectiva campesina antagônica às pretensões urbanas da

instituição política, econômica e teológica.437

Essa sua relação com o campo e com a terra terá nosso especial interesse. É enfoque que cabe em nosso contexto. Embora o profeta mantivesse fortes laços com o ambiente rural e apresentasse uma linguagem rica de referências à natureza, o contexto

urbano não lhe era estranho. Ele estava familiarizado com a atmosfera da capital.438

Com o decorrer do tempo, parece que encontrou novos abrigos em Jerusalém graças ao apoio dos membros de uma família politicamente influente no reino de Judá, a família

de Safã (Jr 26,25; 36,9ss.; 40,7ss.).439

É provável que não por acaso o profeta atribua um papel secundário à tradição de Davi e de Sião, ou nem mesmo a inclua na expectativa de salvação apresentada aos

exilados fora de Jerusalém (29,7).440 Sua ascendência campesina teve importante papel

na formulação do conteúdo de suas palavras, as quais criticavam os desmandos cometidos devido à postura do rei e da elite citadina e ressaltavam as duras consequências econômicas e sociais para a vida dos empobrecidos pela cobrança abusiva de tributo em Judá. Jeremias e seus seguidores avaliaram a situação em que viviam na ótica dos empobrecidos pela política opressora denunciando o culto oficial desvinculado da vida e legitimador da violência e da opressão.

No capítulo 44 de seu livro encontram-se suas últimas palavras pronunciadas no Egito, local em que se encontrava na companhia de alguns judeus refugiados que se dirigiram a esse país depois do assassinato de Godolias em 587 a.C. Portanto, Jeremias testemunhou os dramáticos acontecimentos desde a queda do império assírio em 612 a.C. até a derrocada de Jerusalém em 587 a.C., quando o império neobabilônico, depois de um pequeno intervalo de domínio do Egito sobre a Palestina, pôs fim ao Estado

judeu.441

437 Walter Brueggemann, The Theology of the Book of Jeremiah, New York, Cambridge University Press,

2007, p. 28-29.

438

Dan G. Kent, Jeremiah: the Man and His Time, p. 2.

439 Nelson Killp, Jeremias diante do tribunal, p. 62.

440 Werner H. Schmidt, Introdução ao Antigo Testamento, p.229.

441 Aage Bentzen, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Aste, vol. 2, 1968, p. 130-131. Também

3.3. A UNIDADE DOS CAPS. 7,1–8,3 NO CURSO HISTÓRICO-SOCIAL

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