2.1. O DELINEAMENTO DO PERFIL DO PRIMEIRO BLOCO
2.1.4. Situando lugar e data
A data dessa profecia é disputada.277 Uma possibilidade é que a passagem
encontre-se no ambiente do reinado de Josias. Alguns sugerem a existência de certas similaridades entre o cap. 7,1-15 e os caps. 3–6 e, assim, atribuem a mesma data para
ambos os escritos, a saber, antes do décimo oitavo ano do reinado de Josias.278 No
entanto, há dificuldades para aceitar essa hipótese, uma vez que do ponto de vista retórico nenhuma das passagens contidas nos caps. 3–6 faz referência direta ao templo, enquanto que no cap. 7,1-15 o templo recebe grande atenção.
Além disso, a questão socioeconômica vigente no cenário do rei Josias não favorece situarmos o cap. 7,1-15 nesse período, antes, nos leva a declinar de tal ideia, tendo em vista que durante esse período a tributação arrecadada pelo templo de Jerusalém não era considerada abusiva, graças à política empreendida por Josias e à ausência de tributação por parte de um império internacional. Dessa forma, fica evidente que esta proposta não oferece subsídios suficientes para a constatação de uma provável data para o escrito.
Outros pesquisadores, a meu ver de forma coerente, levando em consideração as questões retóricas veem grande semelhança entre tal passagem e o cap. 26,1-6, considerando a ocasião como a mesma e situando essas palavras no início do reinado de
Jeoaquim.279 Além do mais, como proporemos mais adiante, o contéudo das palavras
proferidas no cap. 7,1-15 se encaixa como luva no contexto da política internacional e
276 Marvin Sweeney, Isaiah 1-39: With an Introduction to Prophetic Literature. The Forms of the Old Testament Literature, p. 530. Consulte também as obras de K. Koch, The Growth of Biblical Tradition, p.
210-213 e de Michael Floyd, Minor Prophets: Part 2. The Forms of the Old Testament Literature, p. 635.
277 S. R. Driver, An Introduction to the Literature of the Old Testament, New York, Meridian Books,
1956, p. 254. Devido ao escopo de nossa pesquisa, não abordaremos a proposta que atribui essa passagem ao editor deuteronomista em 550 a.C. Veja informações sobre esta questão em Robert P. Carroll,
Jeremiah: A Commentary, p. 207-211; James Philip Hyatt, Jeremiah, p. 867-868.
278 R. K. Harrison, Introduction to the Old Testament, Grand Rapids, p. 816. Confira também John Guest;
Lloyd J. Ogilvie, The Preacher's Commentary Series: Jeremiah, Lamentations, Nashville/Tennessee, Thomas Nelson Inc., vol. 19, 1988, p. 66-72; Edward J. Young, An Introduction to the Old Testament, Grand Rapids, William B. Eerdmans Publishing Co., 1977, p. 235.
279
F. B. Huey, The New American Commentary: Jeremiah, Lamentations, p. 103-104. Consulte ainda as obras de Peter C. Craigie, Page H. Kelley; Joel F. Drinkard, Word Biblical Commentary: Jeremiah 1–25, p. 119 como também Clyde T. Francisco; Juan Juan Lacue, Introduccion al Antiguo Testamento, p. 199; Robert Davidson, Jeremiah. The Daily study Bible Series, Louisville, Westminster John Knox Press, vol. 1, 2001, p. 71; John Bright, Jeremiah, AB 21, p. 58; como William Lee Holladay; Paul D. Hanson,
Jeremiah 1: A Commentary on the Book of the Prophet Jeremiah, Chapters 1–25, p. 239-240; Helga
Weippert, Die Prosareden des Jeremiabuches, p. 27-48; Jack R. Lundbom, Jeremiah 1–20: A New
das questões que envolviam o ambiente socioeconômico em Judá durante o tempo do reinado desse tirano. Sem contar que também corrobora a concepção do templo de Jerusalém como importante centro de arrecadação de tributo para o pagamento tanto das extravagantes despesas da corte como também da dívida externa de Judá. Diante disso, baseado nas informações contidas no cap. 26,1-6, optaremos pela aceitação da hipótese
de que Jeremias proferiu essas palavras no lugar identificado como
הָ֔והְי תיֵ֣בּ ֙רַעַ֙שְׁבּ
bᵉšaʻar bêt yᵉhwāh “na porta da casa de Javé” (7,2) e
הָוהְי־תיֵבּ רַ֣צֲחַבּ
baḥᵃṣar bêt yᵉhwāh“no pátio da casa de Javé” (26,2), no período definido como
םי ִ֥קָיוֹהְי תוּ ֛כְלְמַמ תי ִ֗שׁא ֵרְבּ
bᵉreʼšît mamlᵉkût yᵉhôyāqîm “início do reinado de Jeoaquim (26,1).276F
280
Os oráculos possivelmente foram inicialmente transmitidos ao profeta num local privado (v. 1-2), todavia, foram repassados publicamente à audiência durante uma festa no santuário central ou alguma outra ocasião em que os representantes de toda a comunidade judaíta compareciam ao templo. Alguns sugerem tratar-se da Festa dos Tabernáculos, mas não há evidências suficientes para tal afirmação. O discurso aconteceu num lugar público conhecido como “portão da casa de Javé”, situado entre o
pátio interior e o exterior do templo (36,9).277F
281
No tocante à questão da autoria da unidade dos caps. 7,1-15, é importante lembrar que esse texto é parte de um conjunto literário maior unificado posteriormente, portanto, os acontecimentos mencionados dificilmente refletem a ordem estabelecida na unidade. Não se trata de um discurso coerente marcado por uma linha lógica e progressiva. É provável que seja um texto complexo compilado de várias unidades menores amalgamadas em um único discurso.
Não se trata de uma unidade retórica, mas de uma composição literária. Devido à falta de coerência estilística e de conteúdo entre os blocos, os quais transitam da exortação ao anúncio incondicional de julgamento, alguns tem atribuído os vv. 3.5-7 à autoria dos deuteronomistas, por presumirem que Jeremias não fez uso da mensagem com teor condicional. No entanto, tal como Nelson Kirst, entendemos que:
De fato, tal argumento seria convincente se pudéssemos constatar na mensagem de Jeremias a ausência completa do elemento condicional, se
280 A expressão “início do reinado de Jeoaquim” provavelmente indica uma data entre setembro de 609
a.C. e março de 608 a.C. Veja maiores informações sobre esse termo no terceiro capítulo de nossa pesquisa.
281 John L. Mackay, Mentor Commentary: Jeremiah. Mentor Old Testament Commentary, Scotland,
Mentor, vol. 1, 2004, p. 297. Confira também H. D. M. Spence-Jones (ed.) The Pulpit Commentary:
pudéssemos provar que Jeremias anunciou o juízo incondicional, sem dar jamais margem ao arrependimento do povo e a um câmbio de atitude de Javé. No entanto, parece-nos que não foi esse o caso, conforme atestam passagens como 18,1-10, especialmente os vv. 7-8. Portanto, Jeremias também conhece o arrependimento, de modo que o conteúdo de vv. 3b + 5-7 não é incompatível com sua mensagem. Outro argumento apresentado é o estilo dos vv. 3b + 5-7, semelhante ao de uma prédica e que seria contrário ao modo de falar de Jeremias. O argumento não chega a convencer, sobretudo porque uma fala com tal conteúdo dificilmente poderia ter outro estilo... O resumo de 26.4-6 acolhe justamente o aspecto condicional de 7.1-15 e lhe dá ênfase. E, mais uma vez, só poderíamos atribuir 26.4-6 a círculos dtr, se pudéssemos provar que Jeremias não conhece o elemento do arrependimento. Como esse não é o caso, no nosso entender, preferimos não acompanhar os que optam pela inautenticidade dos vv. 3b + 5-7.282
Assim, presumimos que o cap. 7,1-15 seja compatível com a proclamação de Jeremias, todavia, não se refere a um único evento, uma vez que parece existir uma
combinação de vários oráculos independentes.283 É também provável que os dois
primeiros versos tenham sido escritos por um redator que poderia ser o próprio Baruque
(v. 1-2).284 Todavia, o restante, como já mencionado, são ditos supostamente entregues
por Javé a Jeremias para que fossem passados adiante. O processo de transmissão aos destinatários encontra-se implícito nas entrelinhas.
Finalmente, vale a pena destacar também a hipótese de que os vv. 13-15 refletem uma etapa posterior na proclamação de Jeremias, já que houve uma transição para um tempo em que evitar o arrependimento e a catástrofe já não seria possível, e restava apenas a certeza da expectativa do julgamento. A possibilidade é que esses versos foram acrescentados no tempo do segundo rolo, uma vez que o discurso original do templo parece terminar no v. 12. Provavelmente tais palavras foram ditadas por Jeremias a Baruque como resposta à atitude reprovável do monarca a fim de serem acrescentadas no segundo rolo, logo depois da obstinada recusa e queima do primeiro pelo rei Jeoaquim por volta do ano de 604 a.C.
282
Nelson Kirst, Jeremias, p. 93-94.
283
Para um aprofundamento acerca desse assunto consulte as obras de Jack R. Lundbom, Delimitation of Units in the Book of Jeremiah, em Raymond de Hoop; Marjo Korpel; Stanley Porter (eds.), The Impact of
Unit Delimitation on Exegesis (Pericope 7): Scripture as Written and Read in Antiquity, p. 167-169; Jack
R. Lundbom, Jeremiah 1–20: A New Translation with Introduction and Commentary, p. 454-459; William Lee Holladay; Paul D. Hanson, Jeremiah 1: A Commentary on the Book of the Prophet
Jeremiah, Chapters 1–25, p. 238-239; Peter C. Craigie, Page H. Kelley; Joel F. Drinkard, Word Biblical Commentary: Jeremiah 1-25, p. 118.
284
O cenário da política externa naquele ano também favorece essa afirmação, uma vez que Judá fazia parte da coalisão liderada pelo Egito que tinha a intenção de resistir
ao avanço de poder babilônico.285 O clima de provável ameaça e iminente invasão
vivenciada em Judá por conta da derrota do Egito e a tomada de Ascalom pelos babilônicos deve ter contribuído para que o profeta transmitisse as palavras desse
anúncio de castigo contra a audiência judaíta.286
Caso levemos em consideração o fato de que o rei Jeoaquim também decretou a prisão do profeta e de Baruque e que ambos haviam se escondido (Jr 36,26), seria possível conjecturar que os vv. 13-15 foram formulados num ambiente doméstico, quiçá numa casa nos arredores de Jerusalém que lhes serviu de esconderijo durante a implacável perseguição do rei.
2.2. OS TRAÇOS MARCANTES DO SEGUNDO BLOCO