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CONCLUSÕES PARCIAIS

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Ao longo deste primeiro capítulo versamos acerca de algumas questões preliminares referentes ao livro de Jeremias. Porém, o foco de nossa atenção recaiu especificamente sobre a unidade literária de Jeremias 7,1–8,3. Além disso, estabelecemos o método utilizado para captar o sentido das pequenas unidades contidas nos caps. 7,1–8,3.

Logo de início verificou-se que a obra de Jeremias é única e constituída basicamente de quatro etapas, nas quais as circunstâncias internas de Judá e os eventos cruciais no cenário internacional modelaram as palavras e a vida do profeta. O livro desenvolveu-se por meio de um processo longo e complexo, sendo que diversos indícios sugerem a possibilidade de que Jeremias não tenha sido necessariamente o único “autor” de tudo que se encontra na obra que leva seu nome. Além disso, investigou-se a importância do capítulo 36 para a definição do tempo e das circunstâncias de alguns relatos das profecias de Jeremias.

184

William Lee Holladay; Paul D. Hanson, Jeremiah 1: A Commentary on the Book of the Prophet

Jeremiah, Chapters 1-25, 707 p. Nessa obra, o autor advoga que a poesia e a prosa estão conectadas uma

à outra e, por isso, carregam a marca da personalidade do profeta. Assim, Holladay conclui que a maioria do material é “genuíno” do profeta. Veja também Peter C. Craigie, Page H. Kelley; Joel F. Drinkard,

Word Biblical Commentary: Jeremiah 1-25, p. 117-119.

185 J. Bright, The Date of the Prose Sermons of Jeremiah, p. 28-35; John Bright, Jeremiah, AB 21, p. lxxi.

Embora não afirme que temos ipssima verba de Jeremias nesse discurso, o referido autor argumenta que não há distorção na mensagem do profeta. Veja também Ernest W. Nicholson, Preaching to the Exiles: A

Constatou-se que a obra de Jeremias consiste numa antologia das palavras e dos incidentes ocorridos na vida desse profeta contendo diversas coleções menores de materiais que refletem um arranjo por tópicos, introduzidas por seus títulos. Embora essa obra tenha passado por uma longa e complexa história de redação que a aproxima dos questionamentos e dilemas enfrentados pelo compositor final, existe uma profunda e estreita ligação entre ela e o profeta Jeremias, dado que a maior parte do material encontrado nela pode ser do próprio Jeremias ou de seu amanuense Baruque.

Observou-se ainda que os caps. 7,1–8,3 estão situados no grande bloco que engloba os caps. 7,1–10,25, e estes, por sua vez, encontram-se no bojo de outra grande seção, os caps. 1–25 – sendo que os 25 capítulos compõem o primeiro “livro” de nosso profeta. Nele basicamente se encontram palavras proferidas por Jeremias desde seu chamado (627 a.C.) até o quarto ano de Jeoaquim (605 a.C.).

Na análise dos caps. 7,1–8,3 comprovou-se a existência de cinco pequenas unidades que apresentam fortes laços de integridade e coesão interna e externa. Ciente de que cada pequena unidade consiste num acontecimento que se desenrola no âmbito socioliterário procurou-se, de antemão, estabelecer as bases da pesquisa, apresentando o método que será empregado na análise das mesmas. Ao fazer uso da metodologia exegética, duas etapas se mostraram indispensáveis para a aproximação dos textos com o intuito de captar seu sentido, a saber, a análise do texto em sua forma e em sua essência a fim de compreendê-lo como literatura (por meio da análise literária) e a análise do texto como produto histórico-social (por meio da análise sociológica). Além disso, destacou-se que o foco de nossa pesquisa não privilegiaria os últimos redatores, mas sim os que vivenciaram o acontecimento fundante.

Com base na história da pesquisa do livro de Jeremias inferiu-se que a unidade estudada consiste numa prosa elevada, cujos traços poéticos podem ser observados na repetição de frases inovadoras. Tal hibridismo no escrito jeremianico seria a influência do Deuteronômio no estilo de nosso poeta. Presume-se, portanto, que os caps. 7,1–8,3 tenham sido escritos pelo próprio profeta.

Além do mais, atestou-se que os que mantiveram a tradição do profeta foram camponeses remanescentes em Judá que, após a crise provocada pela invasão babilônica, preservaram e transmitiram suas palavras, pouco interferindo em seus ensinamentos. Tanto Jeremias quanto seus colecionadores tinham raízes fincadas no campo. Esse fato contribuiu para que Jeremias absorvesse o estilo do Deuteronômio, herança de seu treinamento em Anatote. Tal influência contaminou o estilo do profeta e

forneceu alguns conceitos para seus escritos, dos quais ele faz uso em determinados momentos de sua mensagem.

Mesmo depois de sua morte suas palavras não morreram, antes tiveram uma eficácia duradoura para além do ano de 587 a.C. entre os camponeses remanescentes em Judá. Constatamos, neste primeiro capítulo, ainda que de forma provisória, que a unidade dos caps. 7,1–8,3 representa predominantemente a autêntica mensagem de Jeremias formulada em prosa elevada, sendo preservada e colecionada em Judá durante o exílio por seus próprios seguidores, que pouco interferiram em seus ensinamentos.

CAPÍTULO 2

O “ROSTO” DA PALAVRA DE JAVÉ EM JEREMIAS 7,1–8,3

Munidos dos dados coletados até aqui, seguiremos em nossa análise a fim de desvendarmos as palavras contidas na unidade dos caps. 7,1–8,3. Nesta etapa serão observados alguns elementos formais do texto imprescindíveis para a identificação da

perícope186, como também para a futura tarefa da interpretação do conteúdo. Todavia,

ainda não se trata da interpretação propriamente dita, mas tão-somente da perscrutação das condições formais dentro das quais se pode explicar os trechos.

Antes de iniciarmos, convém lembrar que a finalidade não é, em primeiro lugar, realizar uma análise literária exaustiva das subunidades, e sim indicar caminhos no texto que nos auxiliem na futura tarefa da identificação e interpretação das mesmas. Por isso,

arrolaremos em nossa análise apenas elementos que julgamos de maior relevância.187

Na tentativa de identificar o “rosto” de cada bloco da unidade (7,1-15, 16-20, 21-28, 29-34 e 8,1-3) partiremos, primeiramente, em busca da tradução do Texto Massorético para o português. Adicionaremos notas de rodapé, caso necessário, para indicar as raízes verbais e seus sentidos exatos, ou para especificar outros significados. Também serão utilizadas notas caso haja necessidade de apresentar informações do aparato crítico, embora, com relação à Bíblia Hebraica, tenhamos poucas razões para alterar o Texto Massorético.

A seguir, enfocaremos outros aspectos formais, decisivos para a interpretação de cada texto. No item das observações gramaticais, efetuaremos uma breve abordagem de aspectos morfológicos, sintáticos e estilísticos de cada versículo que compõe a subunidade. Também demarcaremos os gêneros e as fórmulas literárias que situam o texto dentro de um conjunto de escritos com características formais idênticas.

Uma vez concluídas essas etapas e a perícope esteja caracterizada em sua forma, passaremos a aprofundar o lugar histórico-social em que se situa o texto. Para isso, partiremos em busca do lugar vivencial (lugar e data). Cada perícope oferecerá suas dificuldades específicas. A identificação do lugar vivencial se dará por meio da datação,

186

Uwe Wegner, Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia, p. 340. Perícope é um pequeno trecho bíblico, delimitado por sua forma e conteúdo, e representando uma unidade de sentido autônoma em relação à anterior e posterior.

187 Para uma análise sintática completa da subunidade, confira Spiros Zodhiates; Warren Baker, The Complete Word Study Bible: King James Version, Chattanooga, AMG Publishers, 2000, s/n.

da localização e do detalhamento que viabiliza minúcias em cada perícope.188 Note-se que não basta apenas datar e localizar. É preciso estabelecer uma sintonia entre o texto e seu ambiente, o lugar em que emerge a palavra contida na perícope.

2.1. O DELINEAMENTO DO PERFIL DO PRIMEIRO BLOCO

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