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(3) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. A PALAVRA DE JAVÉ EM JEREMIAS 7,1–8,3: UMA ANÁLISE DA PROFECIA COMO PORTADORA DE UM CONFLITO SOCIAL ORIUNDO DA COBRANÇA EXCESSIVA DE TRIBUTO. Por Samuel de Freitas Salgado Orientador: Prof. Dr. Tércio Machado Siqueira. Tese apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião para obtenção do grau de Doutor. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2014.
(4) FICHA CATALOGRÁFICA SaL32p. Salgado, Samuel Freitas A palavra de Javé em Jeremias 7,1–8,3: uma análise da profecia como portadora de um conflito social oriundo da cobrança excessiva de tributo / Samuel Freitas Salgado -- São Bernardo do Campo, 2014. 337fl. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Faculdade de Humanidades e Direito, Programa de Pós Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo Bibliografia Orientação de: Tércio Machado Siqueira 1.. Bíblia – A.T. – Jeremias – Crítica e interpretação 2. Bíblia – A.T. – Exegese I. Título CDD 224.207.
(5) A tese de doutorado sob o título “A palavra de Javé em Jeremias 7,1–8,3: uma análise da profecia como portadora de um conflito social oriundo da cobrança excessiva de tributo” elaborada por Samuel de Freitas Salgado foi defendida e aprovada em 11 de novembro de 2014, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Tércio Machado Siqueira (Presidente/UMESP), Prof. Dr. José Ademar Kaefer (Titular/UMESP), Prof. Dr. Edson de Faria Francisco (Titular/UMESP), Prof. Dr. Haroldo Reimer (Titular/UEG), Prof. Dr. Landon Booth Jones (Titular/FTBSP).. ________________________________________ Prof. Dr. Tércio Machado Siqueira Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ____________________________________ Prof. Dr. Helmut Renders Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião Área de Concentração: Linguagens da Religião Linha de Pesquisa: Literatura e religião no mundo bíblico.
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(7) AGRADECIMENTOS Nestas breves linhas estendo minha humilde gratidão a todos quantos contribuíram direta ou indiretamente para que eu chegasse a esta etapa de minha jornada acadêmica. Agradeço, sobretudo, ao trino Deus todo-poderoso que até aqui tem me ajudado, com seu poder, graça, misericórdia e amor infinitos. A ele o louvor! Agradeço também a minha amada esposa Márcia, fiel auxiliadora e companheira em minha peregrinação, e a meu filho Israel, grandes incentivadores nas horas difíceis. Sou grato ainda a todos os professores e funcionários da Universidade Metodista de São Paulo pelo empenho e dedicação ao ensino. Não poderia deixar de expressar meu reconhecimento póstumo ao professor Milton Schwantes por sua valiosa contribuição para minha vida acadêmica e ministério pastoral, bem como pelo legado deixado, não somente a mim, mas a todos que tiveram o grande privilégio de conhecê-lo. Minha gratidão se estende ao professor Tércio Machado Siqueira, por sua dedicação e interesse na orientação desta pesquisa. Reconheço o grande e imprescindível auxílio que me foi concedido pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião (IEPG), o qual financiou integralmente meus estudos. A Ana Fonseca, que faz parte dessa importante instituição, agradeço profundamente por tudo e oro para que o Senhor Jesus esteja sempre a seu lado. Finalmente, expresso todo meu carinho e afeto a todos os membros da comunidade Missão Gente de Jesus e a meus amados colegas de ministério, especialmente meu sogro, irmão Nelson, e os pastores Rick e Marcelo, amigos sempre presentes. Que o Senhor abençoe a todos!.
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(9) SALGADO, Samuel de Freitas, A palavra de Javé em Jeremias 7,1–8,3: uma análise da profecia como portadora de um conflito social oriundo da cobrança excessiva de tributo, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2014.. RESUMO. Esta pesquisa privilegia o enfoque histórico ao analisar o texto bíblico, como produto histórico-social, a partir do método sociológico. O material disposto ao longo desta investigação pretende ser uma ajuda para a compreensão de alguns textos do profeta Jeremias. Partindo do princípio de que o texto possui um vínculo com a sociedade na qual foi criado e fazendo uso da metodologia exegética, realiza-se uma análise histórico-sociológica da palavra de Javé em Jeremias 7,1–8,3 como portadora de um conflito social oriundo da cobrança excessiva de tributo em uma sociedade judaíta marcadamente tributária. Busca-se, por esse meio, o sentido do texto dentro do provável cenário histórico-social que permeia o escrito. Para isso, faz-se necessária a investigação dos aspectos preliminares que envolvem tanto o livro de Jeremias, sobretudo, os polêmicos caps. 7,1–8,3, como também a questão do estudo da pesquisa moderna acerca dessa magnífica obra. Vale a pena também salientar o conceito semiótico da poética sociológica que procura estudar a interação causal entre literatura e seu meio social. Além disso, avalia-se o âmbito histórico social da unidade literária alvo de nossa pesquisa, situando-a em seu provável contexto histórico social e determinando a datação, o cenário político e o modo de produção vigente nesse período. Não olvidando, contudo, do fator desencadeador do conflito social e o papel da religião nesse cenário. Além do mais, examina-se o sentido dos textos específicos ou unidades literárias concluídas (perícopes) presentes nos caps. 7,1–8,3, tendo como pressuposto o modelo teórico do modo de produção tributário e os passos da exegese histórico-social. O mecanismo socioanalítico do modo de produção tributário servirá como instrumento de análise da condição socioeconômica, centrando-se nos componentes externos incorporados na coletânea, não em sua história redacional, mas sim em sua formação social.. Palavras-chave: Jeremias, Antigo Testamento, Bíblia, modo de produção tributário, exegese histórico-social, poética sociológica, templo..
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(11) SALGADO, Samuel de Freitas, The Word of Yahweh in Jeremiah 7,1–8,3: An Analysis of Prophecy as Carrier of a Social Conflict Arising from the Excessive Tribute Collection, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2014.. ABSTRACT. This research focuses on the historical approach to analyze the biblical text as a historical-social product, from the sociological method. The material arranged along this research is intended to be an aid to understanding some texts from the prophet Jeremiah. Assuming that the text has a link with the society in which it was created and making use of exegetical methodology, carried out a historical-sociological analysis of the word of Yahweh in Jeremiah from 7,1–8,3 as carrier of a social conflict arising from excessive tribute collection on a Judahite society markedly tributary. It seeks, through this, the meaning of the text within the historical setting likely that permeated the social writing. For this, it is necessary to research the primary aspects involving both the book of Jeremiah, especially the controversial caps. 7,1–8,3, as well as the question of modern research study about this magnificent work. It is also worth highlighting the semiotic concept of sociological poetics that seeks to study the causal interaction between literature and the social environment. Moreover, it evaluates the social historical context of the literary unit target of our research, situating it in its likely social and historical context, determining the date, the political scene and the production mode current at this time. Not forgetting, however, the triggering factor of social conflict and the role of religion in this scenario. Furthermore, it examines the meaning of specific texts or completed literary units (pericopes) present in caps. 7,1–8,3, with the assumption the theoretical model of the tributary production mode and the steps of the social-historical exegesis. The social analytical mechanism of the tributary production mode will serve as a tool for analysis of socioeconomic status, such analysis is focused on the external components incorporated in the collection, not in its editorial history, but in its social formation.. Keywords: Jeremiah, Old Testament, Bible, Mode of Production Tributary, SocialHistorical Exegesis, Sociological Poetics, Temple..
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(13) SALGADO, Samuel de Freitas, La palabra de Javé en Jeremías 7,1–8,3: un análisis de la profecía como portadora de un conflicto social oriundo de la cobranza excesiva de tributo, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2014.. RESUMEN. Esta pesquisa privilegia el enfoque histórico para analizar el texto bíblico, como un producto histórico-social, a partir del método sociológico. El material dispuesto a lo largo de esta investigación pretende ser una ayuda para la comprensión de algunos textos del profeta Jeremías. Partindo de principio que el texto posea un vínculo con la sociedad en la cual fue creada y haciendo uso de la metodología exegética, se realiza un análisis histórico-sociológico de la palabra de Javé en Jeremías 7,1–8,3 como portadora de un conflicto social oriundo de la cobranza excesiva de tributo en una sociedad judaíta marcadamente tributaria. Busca, por este médio, el sentido del texto dentro del probable escenario histórico social que impregnaba el escrito. Para esto, es necesario investigar los aspectos preliminares que invuelven tanto el libro de Jeremías, sobre todo, los polémicos caps. 7,1–8,3, así como la cuestión del estudio de la pesquisa moderna sobre esta magnífica obra. También vale la pena resaltar el concepto semiótico de la poética sociológica que busca estudiar la interacción causal entre la literatura y su medio social. Además de esto, se evalúa el ámbito histórico-social de la unidad literaria objeto de nuestra pesquisa, situándola en su probable contexto histórico-social y determinando la datación, el escenario político y el modo de producción vigente en este período. No olvidando, todavia, del factor desencadenante del conflicto social y el papel de la religión en este escenario. Además, se examina el sentido de los textos específicos o unidades literarias concluidas (perícopas) presentes en los caps. 7,1–8,3, tomando por supuesto el modelo teórico del modo de producción tributario y los pasos de la exégesis histórico-social. El mecanismo socio analítico del modo de producción tributario servirá como una herramienta de análisis de la condición socioeconómica, centrándose en los componentes externos incorporados en la colección, no en su historia redaccional, pero si en su formación social.. Palabras clave: Jeremías, Antiguo Testamento, Biblia, modo de producción tributario, exégesis histórico-social, poética sociológica, templo..
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(15) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 19. CAPÍTULO 1 A PALAVRA DE JAVÉ QUE ACONTECEU EM JEREMIAS 7,1–8,3 ............ 25 1.1. QUESTÕES PRELIMINARES........................................................................... 25 1.1.1. O livro de Jeremias, suas etapas e seus dilemas ............................................... 25 1.1.2. A questão do arranjo e estrutura do livro de Jeremias ...................................... 29 1.2. DEMARCANDO OS LIMITES DA UNIDADE PESQUISADA ...................... 37 1.2.1. A palavra de Javé como marco introdutório..................................................... 37 1.2.2. A coletânea de Jeremias 7,1–10,25 e seu entorno ............................................ 40 1.2.3. Delimitação e associação das pequenas unidades de Jeremias 7,1–8,3............ 43 1.2.3.1. Dificuldades quanto à divisão da unidade ..................................................... 44 1.2.3.2. Relacionamento e coesão interna .................................................................. 46 1.2.4. De olho nas pequenas unidades de sentido....................................................... 52 1.2.5. Em busca do sentido das pequenas unidades.................................................... 53 1.3. O ESTUDO DA QUESTÃO: ESTILO E AUTENTICIDADE .......................... 58 1.3.1. O dilema literário do “discurso do templo” nos caps. 7,1–8,3 ......................... 59 1.3.2. Um olhar sobre a história da pesquisa de Jeremias .......................................... 59 1.3.2.1. Duhm e Mowinckel ....................................................................................... 59 1.3.2.2. Hyatt e Bright ................................................................................................ 63 1.3.2.3. Weippert e Thiel ............................................................................................ 66 1.3.2.4. Thompson ...................................................................................................... 69 1.3.2.5. Carroll, Mckane, Holladay e Clements ......................................................... 70 1.3.2.6. Craigie ........................................................................................................... 77 1.3.2.7. Huey .............................................................................................................. 78 1.3.2.8. Lundbom ........................................................................................................ 80 1.3.2.9. Sharp .............................................................................................................. 81 1.3.3. Parâmetros norteadores da unidade dos caps. 7,1–8,3 ..................................... 82 1.4. CONCLUSÕES PARCIAIS ................................................................................ 87 CAPÍTULO 2 O “ROSTO” DA PALAVRA DE JAVÉ EM JEREMIAS 7,1–8,3....................... 91 2.1. O DELINEAMENTO DO PERFIL DO PRIMEIRO BLOCO ........................... 92.
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(17) 2.1.1. A provável tradução de Jeremias 7,1-15 .......................................................... 92 2.1.2. Observações sobre questões gramaticais .......................................................... 94 2.1.2.1. Primeira subunidade (v. 1-2) ......................................................................... 97 2.1.2.2. Indicadores de assuntos (v. 3-4) .................................................................... 99 2.1.2.3. Segunda subunidade (v. 3. 5-7) ................................................................... 101 2.1.2.4. Terceira subunidade (v. 4. 8-12).................................................................. 103 2.1.2.5. Quarta subunidade (v. 13-15) ...................................................................... 107 2.1.3. Uma variedade de gêneros e fórmulas ............................................................ 110 2.1.4. Situando lugar e data ..................................................................................... 116 2.2. OS TRAÇOS MARCANTES DO SEGUNDO BLOCO .................................. 119 2.2.1. Enveredando na tradução de Jeremias 7,16-20 .............................................. 119 2.2.2. Apontamentos gramaticais ............................................................................. 120 2.2.3. Desvendando gêneros e fórmulas ................................................................... 126 2.2.4. A indicação do lugar e data ........................................................................... 127 2.3. VISLUMBRANDO A APARÊNCIA DO TERCEIRO BLOCO ..................... 128 2.3.1. Uma proposta tradutiva para Jeremias 7,21-28 .............................................. 128 2.3.2. Principais características gramaticais ............................................................. 129 2.3.3. Estudo dos gêneros e fórmulas ....................................................................... 137 2.3.4. A determinação do lugar e data ..................................................................... 138 2.4. A CONFIGURAÇÃO EXTERIOR DO QUARTO BLOCO ............................ 140 2.4.1. Traduzindo a porção de Jeremias 7,29-34 ...................................................... 140 2.4.2. Questões gramaticais ...................................................................................... 141 2.4.3. Detalhamento dos gêneros e fórmulas ............................................................ 146 2.4.4. A investigação do lugar e data ....................................................................... 146 2.5. A FISIONOMIA DO QUINTO BLOCO .......................................................... 148 2.5.1. O texto traduzido de Jeremias 8,1-3 ............................................................... 148 2.5.2. Análise dos principais elementos gramaticais ................................................ 149 2.5.3. Gêneros e fórmulas em destaque .................................................................... 153 2.5.4. Lugar e data do evento.................................................................................... 153 2.6. CONCLUSÕES PARCIAIS .............................................................................. 154 CAPÍTULO 3 O AMBIENTE HISTÓRICO-SOCIAL DA PALAVRA DE JAVÉ EM JEREMIAS 7,1–8,3 ...................................................................................................................... 157 3.1. PROVÁVEL DATAÇÃO INICIAL ................................................................. 157.
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(19) 3.2. A PESSOA DO PROFETA ............................................................................... 161 3.3. A UNIDADE DOS CAPS. 7,1–8,3 NO CURSO HISTÓRICO-SOCIAL ........ 167 3.3.1. A supremacia assíria e seus efeitos em Israel e Judá...................................... 167 3.3.2. O reino de Judá no vácuo das potências ......................................................... 172 3.3.2.1. O “povo da terra”......................................................................................... 173 3.3.2.2. A reforma josiânica ..................................................................................... 177 3.3.3. Supremacia egípcia e babilônica e seus efeitos em Judá ................................ 180 3.3.4. Um breve balanço dos acontecimentos .......................................................... 182 3.4. ABORDAGEM MATERIALISTA DA SOCIEDADE .................................... 185 3.4.1. A definição de modo de produção .................................................................. 187 3.4.2. A definição de economia sagrada ................................................................... 192 3.4.2.1. Comunidade aldeã, complexo templo-cidade e Estado despótico. .............. 193 3.4.2.2. Trabalho e classe ......................................................................................... 199 3.4.2.3. Sistema de partilha versus extração ............................................................. 200 3.5. A TRIBUTAÇÃO NO ANTIGO ISRAEL ....................................................... 206 3.5.1. As consequências da tributação em Judá........................................................ 210 3.6. CONCLUSÕES PARCIAIS ............................................................................. 211 CAPÍTULO 4 AS PALAVRAS DE REJEIÇÃO AOS SETORES SOCIAIS CIRCUNSCRITOS AOS SENHORES DO PODER ............................................................................. 215 4.1. JEREMIAS 7,1-15: OUVI A PALAVRA DO SENHOR ................................. 215 4.1.1. Instrução para o profeta (Jr 7,1-2) .................................................................. 215 4.1.2. Eu deixarei morar a vós neste lugar (Jr 7,3.5-7). ............................................ 219 4.1.3. Eu vi (Jr 7,4.8-12). .......................................................................................... 233 4.1.4. A chegada do castigo (Jr 7,13-15) .................................................................. 245 4.2. JEREMIAS 7,16-20: NÃO VÊS O QUE ESTÃO FAZENDO ......................... 248 4.2.1. Não te ouvirei (Jr 7,16) ................................................................................... 248 4.2.2. Eles provocaram a minha ira (Jr 7,17-19) ...................................................... 250 4.2.3. Minha ira será derramada (Jr 7,20)................................................................. 255 4.3. JEREMIAS 7,21-28: FALARÁS E ELES NÃO OUVIRÃO ........................... 258 4.3.1. A desobediência dos pais (Jr 7,21-24) ............................................................ 258 4.3.2. Tais pais, tais filhos (Jr 7,25-26): ................................................................... 266 4.3.3. Eles não responderão a ti (Jr 7,27-28) ............................................................ 268 4.4. JEREMIAS 7,29-34: CESSARÁ A VOZ DO NOIVO E DA NOIVA ............. 270.
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(21) 4.4.1. “Corte” a corte (v. 29) .................................................................................... 270 4.4.2. Eles fizeram a maldade (Jr 7,30-31) ............................................................... 273 4.4.3. Não haverá quem espante (Jr 7,32-34) ........................................................... 280 4.5. JEREMIAS 8,1-3: OS DIGNITÁRIOS SEM DIGNIDADE ............................ 284 4.5.1. A violação das sepulturas como castigo (Jr 8,1-3) ......................................... 284 4.6. CONCLUSÕES PARCIAIS .............................................................................. 292 CONCLUSÃO GERAL ......................................................................................... 295 BIBLIOGRAFIA BÁSICA .................................................................................... 301.
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(23) INTRODUÇÃO. Esta pesquisa de cunho exegético tem como ponto central investigar os textos proféticos disponibilizados nos caps. 7,1–8,3 do livro de Jeremias como reflexo de um conflito social desencadeado pela cobrança excessiva de tributo na perspectiva dos que vivenciaram o acontecimento fundante. A análise deste material pode contribuir para o esclarecimento de algumas questões concernentes a obra de Jeremias. Parte da dificuldade na investigação deste livro profético está na desordem de seus materiais. A obra está disposta numa lógica de difícil compreensão e pouquíssimos materiais são datados. Além do mais, o debate crítico histórico tem levantado a questão da relação entre Jeremias, o homem, e o livro que leva o seu nome. Na tentativa de superar estes e outros obstáculos, analisaremos o texto em sua forma e essência a fim de compreendê-lo como literatura (por meio da análise literária) e como produto histórico-social (por meio da análise sociológica). No entanto, não se pode olvidar que as palavras do profeta nasceram da situação pragmática extraverbal e mantém a conexão com essa situação. Tal discurso está vinculado com a vida e não pode ser dissociado dela sem perder seu significado. Na avaliação dos passos importantes da interpretação dos caps. 7,1-8,3 de Jeremias faremos uso da metodologia exegética a fim de aclarar o sentido que tinha o relato para o local, a época e a comunidade em que fora formulado originalmente e permitir que transpareça a intenção original do escrito. O foco de nossa investigação não privilegiará os últimos redatores, mas sim os que vivenciaram o acontecimento fundante. Ao fazermos tal abordagem, estamos cientes da limitação e parcialidade de nossa pesquisa por não enfatizarmos a natureza das palavras de Jeremias e sua relevância para o povo de Judá no período do exílio e do pós-exílio. Ambos os aspectos das implicações da mensagem profética são importantes. O fechamento em uma época não permite compreender a futura vida da obra nos séculos subsequentes. Embora tal ponto de vista tenha certa coerência é salutar também entender que uma obra não pode viver nos séculos futuros se não reúne em si, de certo modo, os séculos passados. É esse passado que procuraremos analisar em nossa pesquisa. Embora sabedor da relevância dos seguidores do profeta em sua obra, neste trabalho. 19.
(24) procuraremos privilegiar a pregação do próprio Jeremias para o povo de Judá em seus dias. Muito já se tem escrito sobre Jeremias destacando a relevância de sua mensagem para o povo de Judá no período do exílio e pós-exílio, em detrimento de sua importância para o povo de Judá no período pré-exílico. Nesta pesquisa procuraremos enfatizar a origem e importância da mensagem do profeta Jeremias durante esse período turbulento da história de Judá. Dessa forma, nossa abordagem estende-se além do texto e seu entorno imediato a fim de captar as tensões sociais, econômicas e políticas das quais o escrito originou-se e faz parte. A unidade dos caps. 7,1–8,3 de Jeremias está permeada por essas tensões, e nelas essa unidade desempenha um papel decisivo. Para compreendê-las é preciso situar os ditos de Jeremias no tempo e no espaço a fim de não depreciar o seu verdadeiro significado como também fazer uso da teoria e ferramenta fornecida pela ciência social. Sobre esse aspecto seria importante aplicar o conceito do “modo de produção tributário”, que nos auxiliará na identificação da causa e dos envolvidos no conflito. Nosso objetivo ao estudar a unidade dos caps. 7,1–8,3 é analisar os componentes do conflito social que se encontram emaranhados no relato testemunhal do profeta. Diante disso, o estudo proporá que a unidade consiste fundamentalmente de autênticos ditos proféticos de Jeremias, reunidos num grande conjunto literário unificado e dispostos em estilo de prosa elevada, caracterizada por frequentes paralelismos. Ademais, a pesquisa ressaltará também a importância da centralidade da abordagem materialista histórica na interpretação do conteúdo da mensagem profética. O conceito do modo de produção tributário como mecanismo de análise da sociedade judaíta contribuirá para a fundamentação da hipótese de que as duras palavras do profeta expressas nessa unidade tiveram seu nascedouro em um conflito social entre campo e cidade, por conta da cobrança excessiva de tributo numa sociedade caracterizada pela tensão entre a economia de partilha e a economia extrativa. Afora o interesse pessoal do pesquisador, o tema se impõe pela sua relevância para a pesquisa acadêmica do Antigo Testamento na América Latina. A análise sociológica da referida unidade nos permite entender o cenário socioeconômico, político e ideológico donde emergiu o relato. Tal abordagem interpretativa, por um lado, desperta a sensibilidade em relação a questões que, embora não tão aparentes, devido a seu caráter teológico, são de fundamental importância para o seu entendimento. Por outro lado, contribui para uma análise científica do material bíblico, libertando-o do 20.
(25) reducionismo das amarras meramente doutrinárias e de uma leitura bíblica intimista, individualizante e espiritualizante, que procura retirar os assuntos religiosos do âmbito da materialidade concreta da vida. 4 Conforme veremos ao longo desta pesquisa, para Jeremias, Javé não estava aquém da realidade humana, mas desejava inserir-se nela e se tornar presente e transparente nas esferas determinantes da vida como a política, a economia, as relações sociais e as ideologias. Tais abordagens da vida do povo bíblico têm recebido pouca atenção por parte da pesquisa acadêmica e da Igreja na América Latina em nossos dias. Por meio desta pesquisa tentaremos oferecer uma pequena contribuição para o resgate da compreensão da gênese histórica ou a emergência social da palavra profética na unidade dos caps. 7,1–8,3 de Jeremias. É verdade que temos trabalhos acerca do livro de Jeremias disponíveis no Brasil. Todavia, grande parte deles prioriza a dimensão teológica. Tal abordagem não deve ser descartada, uma vez que a perspectiva teológica revela a tendência dos que criaram e colecionaram os materiais bíblicos. Qualquer oposição ao profeta era entendida em termos anti-javistas, anti-proféticos e até mesmo paganistas. Verdade e falsidade dominavam o cenário no antigo Israel. 5 Embora seja importante para a avaliação do conflito profético, a proposta teológica, por si só, como qualquer outro método, limita enquanto ilumina. A fim de examinar aspectos da situação israelita, é interessante que levemos em consideração não somente o interesse teológico, mas também a análise dos componentes socioeconômicos e políticos. Ainda que tais facetas não se apresentem claramente, elas se evidenciam como um subtexto, escondido no meio de outras perspectivas que se encontram no horizonte da unidade dos escritos de Jeremias. Os detalhes que escapam frequentemente ao domínio da teologia podem ser assimilados pelas sugestões de corrente social, econômica e política, as quais nos fornecem uma compreensão histórica e sociológica mais ampla. Isso não quer dizer que a questão teológica seja irrelevante. A questão teológica tem sua relevância para o estudo da literatura profética. No entanto, por si só, representa apenas uma parcela do todo bíblico. É impossível ignorar ou suprimir os aspectos sociais do conflito profético,. 44. Uwe Wegner, A leitura bíblica por meio do método sociológico, em Mosaicos da Bíblia, São Paulo, CEDI, vol. 12, 1993, p. 7-13. 5 James L. Crenshaw, Prophetic Conflict Its Effect Upon Israelite Religion, BZAW 124, Berlin, Walter de Gruyter, 1971, 134 p. 21.
(26) tais como os fatores políticos, sociais e econômicos que fazem parte de qualquer demonstração pública de disputa. 6 É inegável que o discurso profético esteja calcado em termos religiosos e brota de profunda experiência religiosa. Se não atentarmos a esse aspecto depreciaremos o significado daquele e não poderemos entendê-lo de forma plena. No entanto, no discurso profético é preciso valorizarmos também a sua dimensão histórico-sociológica. Porquanto a indignação profética surge da realidade, do sofrimento e da opressão vivenciados em seu contexto histórico.7 Neste trabalho privilegiaremos esse último aspecto. A presente pesquisa procurará servir como complementação e contribuição para a ampliação dos estudos acadêmicos realizados na América Latina sobre o livro profético de Jeremias; como também intentará oferecer uma melhor compreensão da natureza e do impulso inicial ou fator desencadeador da fala do profeta para o povo de Judá no período do próprio Jeremias, e isso é algo de fundamental importância para qualquer exegeta. Uma boa compreensão da forma como as palavras de Jeremias se originaram em seu próprio contexto histórico-social contribuirá para demonstrar a relevância dessas palavras para um período que pouco tem sido pesquisado. A ênfase em demasia na relevância das palavras de Jeremias para Judá no período pós 587 a.C., tem obscurecido a importância das palavras de Jeremias para Judá antes de 587 a.C. Nesta pesquisa procuraremos aclarar tal importância. Nosso trabalho procurará fornecer subsídios de clarificação tanto para estudantes da matéria quanto para leitores em geral que procurem interpretar as palavras e alargar seu conhecimento acerca do contexto histórico-sociológico no qual emergiram os ditos proféticos que se encontram na unidade dos caps. 7,1–8,3 de Jeremias. Esses capítulos constituem um conjunto específico, conforme proporemos no decorrer dos procedimentos exegéticos. Tal unidade de ditos proféticos não somente expressa a voz solitária do profeta, como também formulações da dor e resistência de um povo. Sendo assim, as relações sociais marcadas pelo tributarismo serão mediações hermenêuticas necessárias para sua compreensão. Desse modo, a pesquisa se estrutura em quatro capítulos. O primeiro capítulo concentra-se em alguns aspectos preliminares que darão suporte e fornecerão subsídios 6. Burke O. Long, Social Dimensions of Prophetic Conflict, em Semeia, Atlanta, Society of Biblical Literature Scholars, n. 21, 1981, p. 31-33. 7 Anthony R. Ceresko, Introdução ao Antigo Testamento numa perspectiva libertadora, São Paulo, Paulus, 1996, p. 191. 22.
(27) para a futura análise interpretativa das palavras contidas na unidade literária situada nos caps. 7,1–8,3 de Jeremias. Investiga-se assuntos relativos à origem, composição, autoria, estilo, integridade, coesão e delimitação do material disposto na obra de Jeremias. Verificando, assim, as principais questões que permeiam o escrito, como também indicando propostas adequadas a fim de solucioná-las. No segundo capítulo observar-se alguns elementos formais do texto imprescindíveis para sua identificação, como também para a futura tarefa da interpretação do conteúdo. Todavia, ainda não se trata da interpretação propriamente dita, mas apenas da perscrutação das condições formais dentro das quais se poderão explicar os trechos. Com isso, procura-se indicar caminhos no texto que auxiliem na futura tarefa de sua identificação e interpretação. Primeiramente realiza-se a tradução do hebraico para o português. Em seguida, enfocam-se aspectos formais, porém decisivos para a interpretação de cada texto. Uma vez concluídas essas etapas e a perícope esteja caracterizada em sua forma, prossegue-se no aprofundamento do lugar histórico-social em que o texto se situa. No terceiro capítulo a investigação se foca na tentativa de determinar a provável datação dos ditos e de traçar o perfil sociológico do profeta. Além de analisar os acontecimentos mais relevantes da história que de alguma maneira influenciaram a trajetória de Judá, como também estabelecer a abordagem materialista histórica, por meio do uso do modo de produção tributário, como um instrumental teórico adequado para a análise da sociedade judaíta, com o intuito de situar o profeta e sua mensagem dentro de seu ambiente histórico-sociológico e de se fazer justiça a tal proclamação. O último capítulo da pesquisa concentra-se no exame do conteúdo das palavras de cada perícope da unidade. Para isso, faz-se necessário identificar o assunto básico em torno do qual gravita o assunto da unidade dos caps. 7,1–8,3 de Jeremias. Nesse sentido, investiga-se basicamente o conflito que subjaz o escrito, o local do acontecimento, seus principais personagens, bem como a questão que o motivou. Por fim, a conclusão geral aponta os principais resultados do trabalho. Segue-se, então, no final do trabalho a bibliografia com as obras utilizadas na pesquisa.. 23.
(28) 24.
(29) CAPÍTULO 1 A PALAVRA DE JAVÉ QUE ACONTECEU EM JEREMIAS 7,1–8,3. Neste primeiro momento da pesquisa procuraremos nos concentrar em alguns aspectos preliminares que darão suporte e fornecerão subsídios para a futura análise interpretativa das palavras contidas na unidade literária situada nos caps. 7,1–8,3 de Jeremias. Partiremos em busca de informações que nos permitam descobrir a provável origem, composição, autoria e estilo do material disposto na obra de Jeremias. Diante disso, verificaremos as principais questões que permeiam o escrito, além de indicarmos propostas adequadas a fim de solucioná-las. Serão abordados assuntos que envolvem o livro e suas principais dificuldades, sua composição e estrutura. Delinearemos suas grandes seções em busca daquela em que está situada a unidade literária dos caps. 7,1–8,3. Constatado este fato, seguiremos ao encontro da unidade alvo de nossa pesquisa. Delimitaremos cada uma das pequenas unidades de sentido presentes nos caps. 7,1–8,3, destacando evidências que certifiquem a integridade e a coesão interna da unidade como um todo, e assim também de cada pequena unidade de sentido. Evidenciaremos também a importância das pequenas unidades de sentido, assim como do mecanismo da análise exegética histórico-sociológica para a compreensão da palavra de Javé transmitida pelo profeta Jeremias. Finalmente, por meio da história da pesquisa do livro de Jeremias, discutiremos as principais propostas interpretativas da obra de Jeremias a fim de estabelecermos diretrizes baseadas no estudo acadêmico acerca da autoria, estilo, autenticidade e origem dos escritos expressos na unidade dos caps. 7,1–8,3.. 1.1. QUESTÕES PRELIMINARES. 1.1.1 O livro de Jeremias, suas etapas e seus dilemas Nossa pesquisa de cunho exegético tem como ponto central os ditos proféticos agrupados nos caps. 7,1–8,3 do livro de Jeremias. No texto hebraico, a obra de Jeremias, uma das mais extensas entre os profetas, é única não somente pelo registro prolongado das experiências e palavras de Jeremias, mas também por causa de seus relatos autobiográficos e temas históricos significantes. Encontra-se no centro dos livros comumente conhecidos como “profetas maiores”, entre Isaías e Ezequiel, e seu. 25.
(30) ministério profético de aproximadamente quatro décadas testemunhou eventos históricos cruciais associados à queda do reino do Sul, Judá. 8 Jeremias desempenhou seu ministério num período de agitação, no limiar entre o declínio do Império assírio e o surgimento do Império babilônico. A trajetória de Judá foi marcada por curtos períodos de independência e de sujeição, primeiro para o Egito e depois para a Babilônia. O ministério de Jeremias foi exercido contra o pano de fundo do governo de três filhos e um neto de Josias, os últimos dirigentes de Judá. A independência de Judá estava próxima do fim, e Jeremias testemunharia a derrocada da cidade de Jerusalém e de seu templo. 9 A atividade de Jeremias pode ser dividida em quatro fases, nas quais as circunstâncias internas de Judá e os eventos cruciais daquelas décadas no cenário internacional modelaram as palavras e a vida do profeta. A primeira fase se estende desde sua vocação profética (627 a.C.) até um pouco antes da conclusão da reforma de Josias (622 a.C.). A mensagem desse período está contida, grosso modo, nos capítulos 1-6 e termina com uma conclusão desoladora (6,27-30). Logo depois, Jeremias silencia por mais de uma década. Por conta disso, costuma-se declarar que Jeremias deu apoio incondicional à reforma josiânica. Todavia, é improvável que o referido profeta tenha apoiado incondicionalmente a reforma e paralisado suas atividades após o êxito dela, pois nesse caso sua sentença negativa não teria nenhum sentido. Tal evidência demonstra que suas atividades foram interrompidas num período anterior à reforma, e não por sua causa ou consequência. Talvez o profeta estivesse em sintonia com alguns pontos da reforma, tal como o combate ao espírito pagão e o empenho em uma ação social, embora não admitisse os aspectos duvidosos que o levaram mais tarde a rejeitá-la: a ênfase nas leis cultuais e no templo. Diante disso, é possível conjecturar que Jeremias não dera apoio incondicional à reforma josiânica, antes, assumira desde o princípio uma postura bilateral: uma em relação ao Deuteronômio e outra em relação à reforma. No início do reinado de Jeoaquim, o profeta reinicia sua atividade. Essa segunda fase de seu ministério se estende até a primeira conquista de Jerusalém pela Babilônia 8. Roy Lee Honeycutt, Jeremiah, the Prophet and the Book, em Review & Expositor, Louisville, Review and Expositor/ Southern Baptist Theological Seminary, vol. 78, n. 3, 1981, p. 303. 99 C. Hassell Bullock, An Introduction to the Old Testament Prophetic Books, Chicago, Moody Press, 1986, p. 186-194. Também Gary V. Smith, The Prophets as Preachers: An Introduction to the Hebrews Prophets, Nashville, Broadman & Holman, 1994, p. 192-193; William Sanford Lasor; David Allan Hurbard; Frederic William Bush, Panorama Del Antiguo Testamento: Mensaje, Forma Y Trasfondo Del Antiguo Testamento, Grand Rapids, Libros Desafio, 2004, p. 394-421; Clyde T. Francisco; Juan Juan Lacue, Introduccion al Antiguo Testamento, El Paso, Casa Bautista De Publicaciones, 1999, p. 198-201. 26.
(31) (de 609-597 a.C.). Os oráculos e relatos oriundos desse período se encontram divididos em 7-20; 22; 25,1-14; 26; 35s. A terceira fase, por sua vez, compreende o período do reinado de Zedequias, entre a primeira e a segunda conquista de Jerusalém (597-587 a.C.). Os capítulos 21–24; 27–29; 32; 34; 37–39 remontam essa época. A última fase, descrita entre os capítulos 40-44, abrange a queda de Jerusalém até a permanência forçada no Egito (depois de 587 a.C.). 10 O desenvolvimento do livro percorreu um processo longo e complexo evidenciado pela dificuldade de se estabelecer um padrão coerente e unificado para sua estrutura como um todo. Vários indícios apontam à possibilidade de que Jeremias não tenha sido necessariamente o “autor” de tudo que se encontra no livro que leva seu nome. 11 Ao longo de seus escritos, diversos acontecimentos são datados, todavia, as referências cronológicas não são sequenciais. 12 Além disso, aqui e acolá pululam informações na primeira e na terceira pessoa, as quais apontam respectivamente para a existência de relatos do próprio profeta e outros produzidos por alguém que escrevia acerca do profeta. Ambos, ocasionalmente, aparecem na mesma unidade textual. 13 Ademais, na conclusão do livro (Jr 51,64) encontra-se a seguinte declaração: “Até aqui as palavras de Jeremias”, a qual vem acompanhada por um apêndice (Jr 52 = 2Rs 24,18–25,30). O cabeçalho situa as últimas palavras de Jeremias próximo ao final do reinado de Zedequias (Jr 1.1). Todavia, alguns materiais são considerados posteriores (Jr 42-44). 14 Além do mais, as duplicatas 15 corroboram as evidências de que o livro de Jeremias não é obra de uma única mão, mas sim obra agrupada e editada. Por isso, alguns pesquisadores costumam afirmar que o próprio Jeremias editou o livro. Outros admitem que os responsáveis seriam, sobretudo, Baruque ou editores posteriores. 16 No entanto, seria viável admitir que tanto o próprio Jeremias como seu. 10. Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI a. C., São Leopoldo, Oikos, 2009, p. 46-47. Na obra de Ernest Sellin; Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Ed. Academia Cristã, 2007, p. 549-553. Também Werner H. Schmidt, Introdução ao Antigo Testamento, São Leopoldo, Sinodal, 1994, p. 229-230. 11 Joseph Schreiner, Palavra e mensagem do Antigo Testamento, São Paulo, Teológica/Paulus, 2004, p. 239-240. 12 Observe o capítulo 24 datado no período de 597 a.C. e o capítulo 25 durante o ano de 605 a.C. 13 Cf. Jeremias 28,1.5; 25,13.15. 14 É provável que o cabeçalho tenha servido como introdução aos capítulos 1-25 do livro de Jeremias. 15 Duplicatas são versos que aparecem em mais de um lugar. Compare, por exemplo, os seguintes trechos (6,13-15 e 8,10c-12; 10,12-16 e 51,15-19; 15,13-14 e 17,3-4; 16,14-16 e 23,7-8; 23,19-20 e 30,23-24; 30,10-11 e 46,27-28). 16 E. A. Martens, Jeremiah. Believers Church Bible Commentary, Scottdale, Herald Press, 1986, p. 296. 27.
(32) companheiro e secretário Baruque; também seus discípulos contribuíram com a redação da profecia jeremiana. 17 A coleção escrita dos oráculos e provérbios provavelmente teve início com Jeremias e foi sendo complementada concomitantemente. Todavia, pesquisadores afirmam que os oráculos poéticos representam palavras originais de Jeremias, enquanto que as narrativas históricas e biográficas seriam de Baruque. Ademais, há supostos sermões e discursos espalhados ao longo do livro e intercalados entre material poético e biográfico. A origem desse material tem sido tema de considerável debate; alguns consideram como material autêntico de Jeremias, outros como composição de Baruque ou de seguidores de Jeremias, e outros ainda como decorrentes dos deuteronomistas. 18 Voltaremos a esse assunto quando investigarmos a história da pesquisa do livro. A obra de Jeremias, além do mais, oscila entre duas posições distintas. De um lado, o julgamento divino e o castigo sobre Jerusalém seriam inevitáveis; de outro, haveria a possibilidade de arrependimento e afastamento do castigo. 19 Entre as várias propostas para solucionar esse dilema, destaca-se a hipótese de William Holladay 20. O autor se baseia na passagem situada em Jeremias 36 que menciona a existência de dois rolos ditados pelo profeta ao escriba Baruque, sendo que o primeiro, escrito no ano de 605 a.C., continha as palavras que Javé havia proferido “sobre Israel, e sobre Judá, e sobre todas as nações, desde o dia que eu te falei a ti, desde os dias de Josias até hoje” (v. 2). Conforme as cronologias disponíveis nas introduções dos caps. 25,1-3 e 1,2 do livro Jeremias, o primeiro rolo continha as palavras pronunciadas durante os anos de 627-605 a.C. Essas duras palavras foram lidas logo em seguida no templo de Jerusalém e culminaram na exclusão do profeta de seus arredores e, posteriormente, de acordo com o MT, provocaram a queima do rolo pelo rei Jeoaquim, um ano depois, em 604 a.C. 21 Após tal fato, o profeta dita um novo rolo a Baruque, repete as palavras contidas no primeiro rolo e acrescenta-lhes novos detalhes (Jr 36,32). 22 17. Ildo Bohn Gass (Org.), Uma introdução à Bíblia: reino dividido, São Leopoldo/São Paulo, Cebi/Paulus, 2005, p. 170. 18 J. A. Thompson, The Book of Jeremiah. The New International Commentary on the Old Testament, Grand Rapids, William B. Eerdmans Publishing Co., 1980, p. 32. 19 Robert Alter; Frank Kermode, Guia literário da Bíblia, São Paulo, Fundação Editora da UNESP, 1997, p. 202. 20 William Lee Holladay, The Identification of the Two Scrolls of Jeremiah, em Vetus Testamentum, Leiden, Brill Academic Publishers, vol. 30, n. 4 O, 1980, p. 452-467. 21 A LXX data a queima do rolo três anos mais tarde, isto é, 601 a.C. 22 Veja discussão sobre o rolo de 605 em Jack R. Lundbom, Jeremiah 1-20: A New Translation with Introduction and Commentary, New Haven/ London, Yale University Press, 2008, p. 92 28.
(33) Embora seja aventado por pesquisadores que o segundo rolo continha o mesmo tamanho e o mesmo conteúdo do primeiro, e que sua ampliação se deu em época posterior a Jeremias 23, Holladay propõe que no primeiro rolo as palavras do profeta continham a possibilidade de arrependimento, mas nos oráculos ampliados no segundo rolo não. 24 É evidente que os conteúdos do segundo rolo escrito por Baruque (36,22) estão preservados no atual livro de Jeremias. Não obstante seja possível afirmar que esse material encontra-se dentro dos capítulos 1–25 do atual livro, é praticamente impossível identificá-lo na referida seção. O rearranjo, o complemento e o posterior desenvolvimento de temas proféticos impossibilitam tal identificação. Por conseguinte, a importância do capítulo 36 está no que ele nos revela sobre o tempo e as circunstâncias do relato das profecias de Jeremias, e não em qual parte do atual livro foi escrita primeiro. 25. 1.1.2. A questão do arranjo e estrutura do livro de Jeremias Como mencionado anteriormente, parte do desafio do livro de Jeremias vem do fato de os materiais não se apresentarem numa sucessão ou estrutura facilmente compreensível. Diante disso, muitos pesquisadores consideram sua estrutura praticamente um mistério. 26 Vários são os entraves que dificultam uma correta compreensão dessa estrutura, a saber, as questões cronológicas, a falta de um desenvolvimento coerente de pensamento, a referência a vários manuscritos e outros escritos, a diferença entre o material encontrado na Bíblia Hebraica e na LXX, bem como a existência de inúmeros gêneros literários e as diferentes teorias acerca da composição e compilação da obra. 27. 23. Ernest Sellin, Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, p. 553-554. William Lee Holladay, The Identification of the Two Scrolls of Jeremiah, p. 452-467. Também E. A. Martens, Jeremiah. Believers Church Bible Commentary, p. 297. 25 R. E. Clements, Jeremiah. Interpretation. A Bible Commentary for Teaching and Preaching, Atlanta, J. Knox Press, 1988, p. 7. 26 Vários pesquisadores esboçam a dificuldade para determinar a estrutura do livro de Jeremias. Entre eles se destacam: Robert P. Carroll, Halfway through a Dark Wood: Reflections on Jeremiah 25, em A. R. Pete Diamond; Kathleen M. O’Connor; Louis Stulman (eds.), Troubling Jeremiah, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1999, p. 73; Terence E. Fretheim, Jeremiah, Macon, Smith & Helwys, 2002, p. 17; A. R. Peter Diamond, Introduction, em A. R. Pete Diamond; Kathleen M. O’Connor; Louis Stulman (eds.), Troubling Jeremiah, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1999, p. 15; Walter Brueggemann, A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming, Grand Rapids, William B. Eerdmans Publishing Co., 1998, p. 7. 27 Veja uma excelente discussão sobre essas questões em S. Jonathan Murphy, The Quest For The Structure of the Book of Jeremiah, em Bibliotheca Sacra, Dallas, Dallas Theological Seminary, vol. 166, n. 663, 2009, p. 306-318. 24. 29.
(34) Tais obstáculos evidenciam que a extraordinária obra de Jeremias, assim como outras obras proféticos, não é um livro no sentido moderno do termo. Na verdade, seria uma coleção de oráculos proféticos e outros materiais que passaram por uma extensa história de transmissão de difícil explicação. Craigie a descreve como uma antologia, ou mais precisamente uma antologia de antologias. Todavia, adverte-nos de que, enquanto a antologia moderna fornece abundante orientação para seus leitores por meio de títulos, notas e cabeçalhos, o livro de Jeremias oferece apenas algumas esparsas instruções. 28 Ainda que existam inúmeras propostas em relação à estrutura e divisão do material no livro de Jeremias 29, é coerente afirmar que essa obra contém diversas coleções menores de material que refletem um arranjo por tópicos. Ou seja, Jeremias é um “livro de livros”, construído a partir da reunião de coleções tópicas menores, várias delas introduzidas por seus títulos.30 Decerto um leitor atento rapidamente descobrirá grandes divisões na obra de Jeremias. Em outras palavras, tal como já afirmamos, esse livro parece conter uma coleção de pequenos livros de Jeremias, acrescido de outros materiais. A crítica retórica, um subconjunto da crítica literária, tem contribuído para desvendar as seções ou “livros” existentes nessa antologia, uma vez que procura não se afastar da crítica histórica, mas destaca as características estéticas e estilísticas do texto a fim de descobrir o arranjo e a estrutura do pensamento do escritor. 31 Sua tarefa é observar as características literárias da obra, tais como as diferentes unidades, a repetição de palavras-chave, frases e temas, jogos de palavras e características estruturais, como por exemplo inclusio e quiasmo.. 28. Peter C. Craigie, Page H. Kelley; Joel F. Drinkard, Word Biblical Commentary: Jeremiah 1-25, Dallas/Texas, Word Books, vol. 26, 2002, p. xxxi-xxxii. 29 Entre as propostas destacam-se J. Andrew Dearman, The NIV Application Commentary: Jeremiah and Lamentations, Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 2002, p. 41; R. K. Harrison, Introduction to the Old Testament, Grand Rapids, William B. Eerdmans Publishing Co., 1969, p. 801. Ambos dividem o livro em duas partes: caps. 1–25; 26–52. David Francis Hinson, The Books of the Old Testament, London, SPCK, vol. 10, 1974, p. 140 assim como F. B. Huey, The New American Commentary: Jeremiah, Lamentations, Nashville, Broadman & Holman Publishers, vol. 16, 2001, p. 24-25. Estruturam a obra em quatro partes: caps. 1–25; 26–45; 46–51; 52. Robert P. Carroll, Jeremiah, London/New York, T&T Clark, 1997, p. 17-19. Divide o livro em cinco partes: 1,1-19; 2,1–25,14; 25,15–38.46-51; 26–36; 37–45; 52,134. S. Jonathan Murphy, The Quest For The Structure of the Book of Jeremiah, p. 306-318. Propõe uma divisão em seis partes: caps. 1; 2–25; 26–35; 36–45; 46–51; 52. 30 Raymond B. Dillard; Tremper Longman III, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 2006, p. 280. 31 James Muilenburg, Form Criticism and Beyond, em Journal of Biblical Literature, Atlanta, Society of Biblical Literature, vol. 88, 1969, p. 1-18. Veja acerca da origem e a importância da crítica literária para os estudos do Antigo Testamento em Paul R. House, The Rise and Current Status of Literary Cristicism of the Old Testament, em Beyond Form Criticism, Winona Lake, Eisenbrauns, 1992, p. 3-22. 30.
(35) A aplicação desse método no estudo do livro de Jeremias contribui para o entendimento de como foram combinadas as diversas seções ou “pequenos livros” contidos na obra. A conclusão de um desses livros pode ser vislumbrada em 25,1-13a, “tudo que está escrito neste livro”. A partir desse ponto, o v. 13 é interrompido, conforme atestado pela inserção na LXX dos conjuntos dos caps. 46-51 (em ordem diferente) depois do v. 13a (LXX omite v. 14). Em seguida, a frase do v. 13b, “que Jeremias profetizou contra todas as nações”, aparece como cabeçalho para os vv. 15-38. O conteúdo da conclusão (Jr 25,1-13a) aponta tanto para o alcance original do livro, situando o início do ministério de Jeremias em 627 a.C. (Jr 1,2) como para a grande similaridade entre 25,3-9 e o cap. 1 (especialmente vv. 15-19), sugerindo que o cap. 1 e 25,1-13 formam um inclusio que inicia e encerra uma seção maior. Esses capítulos, portanto, parecem indicar respectivamente o início e o fim desse livro de Jeremias. Nele se encontram palavras proferidas entre seu chamado (627 a.C.) e o quarto ano de Jeoaquim (605). Os materiais oriundos de períodos posteriores a 605 a.C. espalhados ao longo dos caps. 1–24 pode encontrar sua explicação no indício de que, com a circulação separada desse livro, houve inserções de outros materiais de Jeremias. 32 Os caps. 46–51, denominados como “oráculos contra as nações estrangeiras”, consistem em outro livro. 33 Se por um lado existem evidências de que foram proferidos pelo próprio profeta, por outro, parece que a história de sua transmissão ocorreu separadamente, uma vez que sua disposição na LXX está diferente da apresentada na Bíblia Hebraica. 34 A introdução no cap. 30,1-3 indica a existência de mais um livro que abrange os caps. 30–31 e provavelmente os caps. 32–33. Consiste num conjunto da mensagem de esperança proferida pelo profeta que geralmente leva o título de Livro da Consolação. Os caps. 30–31 estão unidos ao tema do cap. 30,3, enquanto que o cap. 32, basicamente um incidente biográfico, tem o mesmo tema do cap. 33 (LXX omite 33,14-26). Toda. 32. R. E. Clements, Jeremiah 1-25 and the Deuteronomistic History, em A. Graeme Auld (ed.), Understanding Poets and Prophets, Sheffield, JSOT Press, 1993, p. 93-113. 33 Compare esse material com coleções proféticas similares. Veja Amós 1,3-2,3; Isaías 13-23, a obra completa de Naum e Obadias; Zacarias 2,4-15; Ezequiel 25-32. 34 H. G. L. Peels, You Shall Certainly Drink!: The Place and Significance of the Oracles Against the Nations in the Book of Jeremiah, em European Journal of Theology, Carlisle, Paternoster Periodicals, vol. 16, n. 6, p. 81-91. 31.
(36) seção seria um bloco separado no meio de uma série de capítulos de caráter biográfico. 35 Portanto, a obra de Jeremias parece conter três “livros” separados [1,1–25,13a; 30–31 (32–33); 46–51]. Entre os três encontram-se dois outros blocos de material (cap. 26–29; 34–45). Eles são compostos em grande parte de narrativas biográficas que relatam incidentes da vida de Jeremias não em ordem cronológica. Ademais, no cap. 52 (como Is 36–39) deparamo-nos com um esboço histórico muito similar ao material disposto em 2Rs 24–25. 36 Em relação à composição e compilação da obra, a pesquisa bíblica moderna apresenta basicamente três propostas, as quais concordam que o livro é uma coletânea de materiais independentes reunidos e organizados por editores posteriores. 37 Porém, discordam quanto ao vínculo entre Jeremias e a obra que leva seu nome. S. Jonathan Murphy define as três propostas da seguinte forma: A primeira abordagem centra-se na historicidade da obra. Ela tenta determinar uma data e configuração precisa para cada unidade literária. Porque essa abordagem incide sobre a historicidade da obra, o papel do profeta Jeremias na composição e compilação da obra é maximizado. A abordagem é sensível a aceitar a origem da obra a partir do profeta Jeremias. A segunda abordagem centra-se na edição deuteronômica da obra no período exílico na Babilônia após a vida de Jeremias. A obra é considerada uma reformulação e transformação do material mais antigo por editores exílicos para o benefício da comunidade exilada. A necessidade de recuperar as palavras de Jeremias é subestimada. A busca histórica é insignificante. O foco está na agenda da comunidade exilada cujas necessidades moldaram o arranjo atual da obra. A terceira abordagem propõe que questões históricas sejam subordinadas à forma canônica final da abordagem da obra – a proposta crítica canônica. Essa visão propõe que o Jeremias histórico foi reformulado pelo Jeremias deuteronômico. A especulação histórica, no entanto, põe-se a serviço da intenção teológica da forma final do texto. Essa agenda teológica canônica molda a forma final da obra. Até mesmo dentro. 35. Bob Becking, Between Fear and Freedom: Essays on the Interpretation of Jeremiah 30-31, Leiden/Boston, Brill Academic, 2004, p. 50-52. 36 John Bright, Book of Jeremiah: Its Structure, Its Problems and their Significance for the Interpreter, em Interpretation, Richmond, Union Theological Seminary and Presbyterian School of Christian Education /Union Theological Seminary in Virginia, vol. 9, n. 3, 1955, p. 262. 37 Mais adiante, ofereceremos uma análise não exaustiva da história da pesquisa acerca da questão da composição e compilação do livro de Jeremias. 32.
(37) das três abordagens da composição e compilação não há consenso sobre a questão da estrutura do livro. 38. Para o propósito de nossa pesquisa a primeira abordagem que enfoca a historicidade da obra parece ser a mais adequada. Entendemos, tal como John Bright, que a interpretação da mensagem profética inicia com a exegese baseada no princípio histórico-gramatical. Esta procura entender o significado das palavras contra o pano de fundo da situação histórica em que foram proferidas; isso envolve um estudo preciso do texto a fim de se desvendar a intenção do escritor e a relevância das palavras de Javé proclamadas por Jeremias para a antiga Judá. Bright alerta contra o erro de se considerar a composição dos livros proféticos como um simples problema de crítica literária. O livro de Jeremias, por exemplo, esteve envolvido num processo literário iniciado por Jeremias e Baruque, porém, ao lado desse processo encontrava-se também em plena atividade a tradição oral. Seja como for, o livro de Jeremias como o encontramos hoje representa a coligação gradual de correntes de tradição de Jeremias. No entanto, tais tradições são tão antigas quanto o profeta, surgem a partir de suas próprias palavras e são transmitidas lado a lado em seu círculo de seguidores. Os detalhes acerca de como essas correntes de tradição convergiram só podem ser inferidos. Todavia, gradualmente, no decurso da transmissão seja oral, escrita ou ambas, seja pela própria mão do profeta ou de outro, os materiais começaram a serem reunidos em pequenos complexos tradicionais e complexos editoriais maiores. A base sobre a qual isso ocorreu parece ter sido a do tema comum, ocasião comum, ou mesmo palavra de ordem. O livro de Jeremias, na verdade, seria uma criação antiga que teve início a partir das palavras ditadas pelo próprio profeta no ano de 605 a.C. (cap. 36). 39 Há grande probabilidade de que muitos dos complexos do material básico existentes nas seções dos caps. 1–25 representem combinações e unidades editoriais compostas pelo próprio profeta. Ao mesmo tempo em que o material dos caps. 1–25 estava tomando forma, uma. 38. S. Jonathan Murphy, The Quest For The Structure of the Book of Jeremiah, p. 311-312. Confira uma discussão sobre a literalização da profecia em Martti Nissinen, How Prophecy Became Literature, em Scandinavian Journal of the Old Testament, Philadelphia, Taylor & Francis, vol. 19, n. 2, 2005, p. 153-172. 39. 33.
(38) grande quantidade de material de Jeremias continuava a circular separadamente ou em pequenas coleções. 40 A mensagem de Jeremias apresenta-se numa forma literária ou estrutural que deve ser recuperada para se entender o que o texto quer dizer. O texto se encontra atualmente numa forma final que não corresponde à enunciação histórica original. 41 Ele tende a se aproximar mais dos questionamentos e dilemas enfrentados pelo compositor final. 42 A proclamação profética de Jeremias não se encerra em sua primeira produção, mas se desencadeia num continuum de releituras. Para seu entendimento faz-se necessário um discernimento crítico do processo das releituras hermenêuticas que acompanham as distintas situações vividas, a “distância” entre o ponto de partida do texto de Jeremias e seu ponto de chegada redacional. Cada etapa não é mais do que um novo momento da revelação continuada de Javé na história. O texto de Jeremias é produto de um longo processo hermenêutico caracterizado pelo contínuo acréscimo de fragmentos devido à necessidade de atualização. 43 O profeta proclamou a palavra de Javé em um dado momento histórico; ao longo do tempo, outras vozes foram sendo-lhe acrescentadas. 44 O livro de Jeremias, à primeira vista, parece de Jeremias, mas na realidade a “memória de Jeremias” se fez texto e, como tal, é a produção de outras mãos que a foram relendo. 45 Ele não é um todo homogêneo: com a mudança da situação, a palavra de Javé não se manteve a mesma, todavia, continuou sendo a palavra de Jeremias. A obra de Jeremias em sua forma atual é uma composição que pretende ser um texto final. Ela poderia ter sido retrabalhada outras vezes, mas, como a temos, é sua forma final. Se as 40. John Bright, Book of Jeremiah: Its Structure, Its Problems and their Significance for the Interpreter, p. 259-278. 41 Cf. H. W. Wollf, The Kerygma of the Deuteronomic Historical Work, em W. Brueggemann; H. W. Wolff (eds.), The Vitality of Old Testament Traditions, Atlanta, John Knox Press, 1985, p. 83-100. Também R. E. Clements, Jeremiah 1–25 and the Deuteronomistic History, p. 93-113, destaque para a página 108. 42 Milton Schwantes, A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós, São Paulo, Paulinas, 2004, p. 146. 43 O mesmo processo de acréscimo de fragmento se dá no livro do Cântico dos Cânticos. O autor da obra compõe uma série de grandes poemas utilizando pequenos poemas ou cantos de amor. Confira o artigo de David A. Dorsey, Literary Structuring in the Song of Songs, em Journal for the Study of the Old Testament, London, Sage Publication, n. 46F, 1990, p. 81-96. 44 Cf. James R. Linville, Amos Among the “Dead Prophets Society”: Re-Reading the Lion’s Roar, em Journal for the Study of the Old Testament, London, Sage Publication, n. 90, 2000, p. 55-77. 45 Destacam-se dois processos nessa etapa: a atualização, que consiste em um processo mais linear, uma vez que supõe continuidade entre a palavra originária e a redacional, e a releitura, que indica uma ação mais profunda sobre a proclamação original, podendo transformá-la radicalmente invertendo seu sentido original, por exemplo, na justaposição de mensagens de salvação ao lado de oráculos de salvação. 34.
(39) redações do Jeremias TM ou do Jeremias da LXX representam dois textos distintos, cada um é “final” dentro de sua própria tradição. 46 Como sabemos, há grandes diferenças entre as várias tradições textuais do livro de Jeremias. Entre a Septuaginta (LXX) e o Texto Massorético (TM) destacam-se basicamente duas delas: a Septuaginta é aproximadamente 1/8 menor do que o Texto Massorético, e está disposta numa ordem diferente, com os oráculos para as nações situados depois do cap. 25,13. 47 Surgiram, a partir daí, duas propostas sobre a relação entre esses dois textos. A primeira centra-se na existência de apenas um livro de Jeremias. A versão grega em comparação com o Texto Massorético representaria o estágio mais antigo do texto hebraico, ou seja, a partir da LXX seria possível realizar a reconstrução de um Vorlage 48 hebraico mais antigo. A outra conjectura admite a existência de mais do que uma tradição do livro de Jeremias em circulação, e que a LXX representa uma tradição diferente do Texto Massorético. 49 Nossa pesquisa tende a se harmonizar mais com a proposta que sustenta a possibilidade de várias tradições textuais coexistentes do que com aquela que destaca a primazia de uma tradição sobre a outra. O texto de Jeremias em sua forma atual não é uma simples recopilação de materiais já existentes. Estes serviram como base sobre a qual o autor final erigiu sua obra, sendo que o objetivo final da obra difere do propósito de cada um de seus componentes isolados. A proclamação final do texto completo não repete a dos oráculos recopilados, mas exprime algo novo. A redação final do livro de Jeremias não produz uma obra literariamente homogênea, mas, de certo modo, preserva o caráter de recopilação, uma vez que os materiais de origem são geralmente preservados em sua forma prévia. 50 São nestes materiais de origem, situados nos caps. 7,1–8,3, que 46. José Severino Croatto, A estrutura dos livros proféticos. As releituras dentro do corpus profético, em Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis, Vozes, n. 35/36, 2000, p. 7-27. 47 Duane L. Christensen, In Quest of the Autograph of the Book of Jeremiah: A Study of Jeremiah 25 in Relation to Jeremiah 46–51, em Journal of the Evangelical Theological Society, Lynchburg/Wheaton, Evangelical Theological Society, vol. 33, n. 2, p. 145-153. 48 A expressão alemã Vorlage denota uma fonte literária ou modelo por trás de uma composição extensa de um texto bíblico. Confira Arthur G. Patzia; Anthony J. Petrotta, Pocket Dictionary of Biblical Studies, Downers Grove, InterVarsity Press, 2002, p. 122. 49 Rannfrid I. Thelle, Babylon in the Book of Jeremiah (MT): Negotiating a Power Shift, em Hans M. Barstad; Reinhard G. Kratz (eds.), Prophecy in the Book of Jeremiah, Berlin/New York, Walter de Gruyter, 2009, p. 191. Veja Emanuel Tov (ed.), The Greek and Hebrew Bible: Collected Essays on the Septuagint, Leiden/Boston/köln, Brill Academic, 1999, p. 363-384. Anneli Aejmelaeus, Jeremiah at the Turning-Point of History: The Function of Jer. XXV 1-14 in the Book of Jeremiah, em Vetus Testamentum, Leiden, Brill Academic Publishers, vol. 52, n. 4, 2002, p. 459-482. 50 José Severino Croatto, A estrutura dos livros proféticos. As releituras dentro do corpus profético, p. 910. 35.
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