Nenhuma dedução quanto à data dos oráculos pode ser realizada a partir de sua posição no livro. A atribuição dos materiais não datados aos diversos períodos da vida do profeta pode ser feita somente na base da “adaptação” entre o escrito e a situação geopolítico-social específica em Judá num determinado período. Não obstante, similaridades entre os caps. 7 e 26 do livro de Jeremias podem nos servir de base para inserirmos com boa precisão parte do material encontrado nos caps. 7,1–8,3 dentro de
determinado momento histórico.402
Surge uma indagação pertinente: em que ano teve início a proclamação de Jeremias presente nos caps. 7,1–8,3? Nossa resposta encontra suas raízes na tradicional hipótese de C. W. Eduard Näegelsbach que, desde sua formulação, tem sido
amplamente adotada pelos pesquisadores.403 Nela, Näegelsbach alega que o discurso do
402 Para Nicholson, a pequena seção dos cap. 7,1-15 de Jeremias consiste no núcleo histórico do discurso
do templo, enquanto que o restante dos materiais até o cap. 8,3 seriam unidades separadas que foram sendo agregadas ao longo da transmissão. Procuramos estabelecer o lugar e a data de cada subunidade dos caps. 7,1-8,3 no capítulo anterior de nossa pesquisa. Veja Ernest W. Nicholson, Preaching to the Exiles:
A Study of the Prose Tradition in the Book of Jeremiah, p. 68-70.
403 John Peter Lange; Philip Schaff, Carl Wihelm Eduard Näegelsbach, Commentary on the Holy Scriptures: Jeremiah, Bellingham, Logos Research Systems, 2008, 446p.
cap. 7,1-15 é similar a do cap. 26,1-6, e já que esta passagem é datada, possivelmente
aquela pode ser situada no mesmo momento histórico.404 Vários indícios denunciam a
equivalência entre as duas passagens.
Há similaridades linguísticas entre os dois relatos, das quais se destacam o local
em que Jeremias proclamou o seu discurso,
הָ֔והְי תיֵ֣בּ ֙רַעַ֙שְׁבּ
bᵉšaʻar bêt yᵉhwāh “na portada casa de Javé” (7,2), e
הָוהְי־תיֵבּ רַ֣צֲחַבּ
baḥᵃṣar bêt yᵉhwāh “no pátio da casa de Javé”(26,2); a utilização do termo
הלֹישׁ
šîlōh “Siló” como um advertência em ambos oscapítulos (7,12.14; 26,6.9); a recorrência da expressão
םֶ֑כיֵלְלַעֽ ַמוּ םֶ֖כיֵכ ְרַד וּביִ֥טיֵה
hêṭîbûdarkêkem ûmaʻalᵉlêkem "fazei bom caminhos de vós e as ações de vós" (7,3.5; 26,13); o
teor geral da proclamação, a saber, um chamado ao arrependimento que, se não atendido, conduzirá ao julgamento. Além do mais, é evidente que o conteúdo das duras palavras proferidas contra a elite de Jerusalém no cap. 7 incitariam à reação desencadeada no relato do cap. 26. Portanto, é improvável que os relatos dos caps. 7 e
26 tratem de dois incidentes diferentes, antes, nos remetem ao mesmo acontecimento.401F
405
Todavia, os dois relatos apresentam enfoques diferentes. Enquanto no cap. 7 a ênfase centra-se na pregação de Jeremias, o cap. 26 tem o seu foco na reação à pregação
profética.402 F
406
Sendo assim, a meu ver, o material encontrado no cap. 26 originou-se com Baruque e se concentrou na reação ao discurso proferido pelo profeta, enquanto que a linguagem vívida e o relato mais completo do cap. 7 possui indícios de que teve origem
no próprio profeta.403F
407
A questão da datação do cap. 7,1-15 pode ser solucionada pela presença da frase
תוּ ֛כְלְמַמ תי ִ֗שׁא ֵרְבּ
bᵉreʼšît mamlᵉkût “no início do reinado de” no capítulo correlato deJeremias 26,1. Essa expressão é comumente aceita como equivalente ao termo técnico acadiano reš šarruti “ano da ascensão”, isto é, o período entre a ascensão do rei ao trono e o início do ano novo, quando convencionalmente começava a contagem dos anos do reinado. Sendo assim, no caso de Jeoaquim, esse período começara com a entronização
404 José Javier Pardo Izal, La reacción ante el profeta como respuesta a la palavra de Dios em Jeremías 26,
em Estudios Eclesiásticos, Madrid, Facultades de Teologia de la Compañía de Jesus en España, vol. 82, n. 322, p. 427-459.
405
John L. Mackay, Mentor Commentary: Jeremiah. Mentor Old Testament Commentary, vol. 1, p. 295; Edgar W. Conrad, Reading the Latter Prophets, London/New York, T&T Clark International, 2003, p. 116.
406
Mark H. McEntire, A Prophetic Chorus of Others: Helping Jeremiah Survive in Jeremiah 26, em
Review & Expositor, Louisville, Review and Expositor/ Southern Baptist Theological Seminary vol. 101,
n. 2, 2004, p. 301-311.
407 Nelson Killp, Jeremias diante do tribunal, em Estudos Teológicos, São Leopoldo, Faculdade de
desse rei por Faraó Neco em setembro de 609 a.C. (2Rs 23,34-35)408 e se estenderia até o mês seguinte ou até o mês de Nisan (Março/Abril) em 608 a.C., dependendo de qual
calendário estava em uso.409
O estudo da cronologia dos reis de Judá e de Israel envolve inúmeros
problemas.410 O debate tem se concentrado na questão do calendário, ou seja, o início
do ano do reinado. Os pesquisadores geralmente asseveram a existência de duas prováveis datas para o início do novo ano, ou seja, o mês de Nisan (Março/Abril), o que implica que o ano começaria na primavera, como convencionado na Babilônia, ou seis meses mais tarde, em Tishri (Setembro/Outubro), durante o outono. O fato de a Bíblia Hebraica não conter nenhuma afirmação sobre o dia do ano novo ou quando o ano novo começava tem contribuído grandemente para aumentar as incertezas quanto a essa
questão.411
Todavia, tal como de Vaux, presumimos que nos primórdios de Israel o ano começava no outono. Esse calendário parece ter vigorado em Judá até o período do rei Josias. O relato acerca da história da reforma de Josias no décimo oitavo ano de seu reinado em 2Rs 22-23 provavelmente aponta para o início do outono como o provável ano do reinado, dado que os numerosos acontecimentos registrados nesse ano dificilmente poderiam ter-se dado durante a quinzena entre a descoberta do livro da lei e a celebração da páscoa no dia 14 de Nisan. Dessa forma, seria mais coerente admitir que o ano novo iniciara no outono, visto que esse fato favoreceria um intervalo de tempo
mais adequado para a organização da páscoa.412
Contudo, depois da morte de Josias o calendário provavelmente sofreu alteração. Alguns textos do Antigo Testamento supõe um cômputo diferente durante esse período.
408 Data proposta por William L. Holladay, The Years of Jeremiah’s Preaching, p. 149. Também David J.
A. Clines, Regnal Year Reckoning in the Last Years of the Kingdom of Judah, em Australian Journal of
Biblical Archaeology, Sydney, Australian Society of Biblical Archaeology, vol. 2, n. 1, 1972, p. 9-34.
John L. Mackay, Mentor Commentary: Jeremiah. Mentor Old Testament Commentary, Scotland, Mentor, vol. 2, 2004, p. 116.
409
William Lee Holladay; Paul D. Hanson, Jeremiah 2: A Commentary on the Book of the Prophet
Jeremiah, Chapters 26-52, p. 103. Também F.B. Huey, Jeremiah, Lamentations. The New American Commentary, p. 234. Há outra proposta que sugere o início do ano em Marheshvan (outubro –
novembro), veja E. Auerbach, Der Wechsel des Jahres-Anfangs in Juda im Lichte der neugefundenen babylonischen Chronik, em Vetus Testamentum, Leiden, Brill Academic Publishers, vol. 9, 1959, p. 113- 121.
410 Jeremy Huges, Secrets of the Times: Mith and History of Biblical Chronology, Sheffield, JSOT Press,
1990, 315 p.
411
John H. Hayes, The Beginning of the Regnal Year in Israel and Judah, em J. Andrew Dearman; M. Patrick Graham (eds.), The Land that I Will Show You, Sheffield, Sheffield Academic Press, 2001, p. 92- 95.
412 Outras passagens que sugerem um ano que começaria no outono são: Ex 23-14-17; 34,18-23; 2Sm
Entre os textos se destaca o cap. 36,22 de Jeremias. Quando se lê a Jeoaquim o rolo das profecias de Jeremias, o rei se encontra em sua casa de inverno e se aquece ao lado de um braseiro, pois “era o nono mês”, evidentemente o nono mês de um ano de
primavera, em novembro-dezembro.413
A menção do número ordinal como designação dos meses reporta a um ano que começa na primavera, uma vez que ambos tiveram sua origem após a morte de Josias, quando seu filho Jeoaquim tornou-se vassalo de Nabucodonosor e teria assim adotado o
calendário babilônico.414 Embora existam tentativas de comprovar o uso dos dois
calendários415 ou mesmo o calendário de outono com pequenas exceções416 no livro de
Jeremias, é mais coerente admitirmos o uso exclusivo do calendário da primavera em
todo o escrito desse profeta.417
Com a adoção do calendário babilônico sob Jeoaquim, a contagem do início do reinado deixou de seguir o antigo sistema da pré-datação, no qual o ano em que morria um rei e em que subia ao trono seu sucessor era contado duas vezes, passando a prevalecer o sistema da pós-datação, em que não se contava os meses que precediam o ano novo, computando o primeiro ano a partir do ano novo que se seguia ao
acontecimento. Por isso, presumimos que a expressão
תוּ ֛כְלְמַמ תי ִ֗שׁא ֵרְבּ
bᵉreʼšît mamlᵉkût“no início do reinado de”, em 26,1, corresponde ao período transcorrido entre o advento do monarca, nesse caso o rei Jeoaquim, e o ano novo que o seguiu.
Como esboçamos nas páginas precedentes, inclinamo-nos a admitir que esse intervalo de tempo teve seu ponto de partida no mês de setembro de 609 a.C. e seu encerramento na primavera de 608 a.C., período em que se passou a computar o início
do ano novo de acordo com o calendário babilônico.414F
418
Tal hipótese vai de encontro à
413 Textos que sugerem o ano da primavera: 2Rs 25,8; Jr 52,12 ressaltam que a destruição do templo
ocorreu no quinto mês, ou seja, no mês de agosto. Veja também Zc 7,3.5; Jr 40,10; 41,8; Ex 12,2.
414 Veja uma bela reconstrução dos eventos durante esse período em Paul K. Hooker; John H. Hayes, The
Year O Josiah’s Death: 609 or 610 BCE, em J. Andrew Dearman e M. Patrick Graham (eds.), The Land
that I Will Show You, Sheffield, Sheffield Academic Press, 2001, p. 96-103.
415 Edwin R. Thiele, The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings, Grand Rapids, Zondervan Publishing
House, 1983, 253p.
416
Cf. Abraham Malamat, The Last Kings of Judah and the Fall of Jerusalem: an Historical- Chronological Study, em Israel Exploration Journal, Jerusalem, Israel Exploration Society and the Institute of Archaeology of the Hebrew University, vol. 18, n. 3, 1968, p. 137-156.
417 David J. A. Clines, Regnal Year Reckoning in the Last Years of the Kingdom of Judah, p. 9-34. Veja
do mesmo autor, The Evidence for an Autumnal New Year in Pre-Exilic Israel, em Journal of Biblical
Literature, Atlanta, Society of Biblical Literature, vol. 93, 1974, p. 22-40. Confira ainda Rainer Albertz, Israel in Exile: The History and Literature of the Sixty Century B.C.E., Atlanta, Society Biblical
Literature, 2003, p. 79.
418
informação de que Jeoaquim reinou por onze anos (2Rs 23,36), ao calcularmos sua
morte no mês de dezembro de 598 a.C.419
Levando em consideração que 26,1 nos remete a um acontecimento descrito entre setembro de 609 a.C. e março de 608 a.C., é possível assegurar que grande parte dos materiais do cap. 7,1-15 pertenceriam ao primeiro rolo queimado pelo rei Jeoaquim em 604 a.C. Como o objetivo desse rolo centrava-se numa tentativa de reverter a situação adversa ocasionada pela mensagem de Jeremias, é óbvio que tal situação seria enfatizada no escrito. Contudo, a menção à resposta da instituição religiosa às palavras do profeta precisaria ser omitida a fim de que o rolo fosse aceito. O que importava era
apresentar a advertência de Javé.420
Embora nem todas as outras perícopes da unidade provenham desse exato momento histórico ou do mesmo cenário, não há indícios que desabonem a ideia de que elas tenham sido proferidas pelo profeta Jeremias nos arredores de Jerusalém ao longo do reinado de Jeoaquim. Assim, a seguir, procuraremos delinear alguns traços característicos tanto desse profeta como do rei Jeoaquim, dando também destaque às questões políticas e socioeconômicas que não somente influenciaram a vida desses dois personagens, mas sobretudo de toda a população judaíta. Será de vital importância ainda o entendimento do instrumental teórico do modo de produção tributário como mecanismo de análise da sociedade judaíta durante aquele momento histórico.