1 A IGREJA CATÓLICA E A ORDEM DE SÃO BENTO NA BAHIA
1.3 A REFORMA DA IGREJA NO OITOCENTOS E O CLERO REGULAR
Desde o final do século XVIII, Portugal se encontrava sob o Regime do Regalismo e empreendia uma nova reforma nas casas religiosas. O distanciamento em relação ao poder do papa colocou a igreja portuguesa sob o domínio do Estado, conforme o projeto pombalino. O controle do Estado se deu com a submissão dos bispos, que passaram a obedecer à coroa portuguesa, o mesmo ocorrendo com as ordens religiosas, dentre elas, a dos beneditinos. A reforma educacional, em 1772, inspirou o novo plano de estudos da Ordem de São Bento, publicado em 1776 e revisado em 1789, que será analisado no terceiro capítulo.
Para melhor entendermos a transição do século XVIII para o século XIX, a pesquisa empreendida por Candido da Costa e Silva, que trata da formação e da atuação do clero oitocentista na Bahia, constitui importante referência, pois discute conceitos fundamentais para a compreensão das práticas religiosas.75 Na opinião do autor, devoção e espiritualidade se articulam na medida em que as práticas religiosas exprimem “sentimento e serviço que impulsionam o cristão para Deus”.76
Seu estudo partiu do levantamento de questões que buscam identificar os traços que configuram a unanimidade da devoção e o ritmo de suas práticas, atentando para a relação entre a Igreja Católica e o controle social no Brasil, através de uma análise comparativa entre os modelos devocionais dos séculos XVIII e XIX. Silva afirma que, no século XVIII, o alinhamento era quase total entre clérigos e leigos. Mas, na virada deste para o século XIX, ocorreu uma alteração na relação entre a Igreja Católica e a sociedade em razão de fatores históricos como o Iluminismo, a crise do sistema colonial e a montagem do estado nacional no Brasil pós-independência.
O mundo do século XVIII era marcado pelo prestígio social, tão apreciado em sociedades de Antigo Regime em que se destacava o papel do padre como homem letrado. Este também era um mundo marcado pelo ”teatro religioso” em que os santos protetores eram cultuados no ritmo de uma devoção pendular e de caráter intimista com apelos projetados pelo cênico e refirmados pela retórica do convencimento, com o fim de sensibilizar os fiéis,
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A Verdadeira Marmota, 05/11/1851, ed. 86. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/hemeroteca- digital>. Acesso em: 28 mar. 2016.
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SILVA, Os segadores e a messe..., cit.
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conforme as disposições tridentinas.77 Como observa Silva, devoção e liturgia entravam em “comunhão entre os crentes”, porque era a devoção que dava sentido à liturgia, destacando-se, sobretudo, as festas do Natal e da Páscoa como ciclos ricos de celebrações. As relações com o mundo sagrado se evidenciam através das práticas culturais que lastreiam essas relações, influenciando e se deixando influenciar pelo contexto histórico, definindo, ao longo do tempo, sua função social. Entretanto, na opinião do autor, as Luzes passam a provocar uma “desafeição das elites leigas” em relação ao comportamento delineado pela igreja.78
Ao adentrar o século XIX, a Igreja Católica é marcada por uma “dinâmica devocional” definida pelas exigências de reforma, em decorrência da crise do clero, em razão da falta de padres e das restrições ao noviciado, do descumprimento das medidas tridentinas, como a liturgia das horas (Breviário) e do celibato. Além disto, é de se considerar a atuação política do clero. Segundo Silva, o século XIX é recortado por dois marcos históricos significativos para a reestruturação política e institucional do Brasil, a saber, a Independência, em 1822, e a implantação da República, em 1889. Ao analisar as relações entre a Igreja e o Estado ao longo dessa centúria, o autor chama atenção para a realidade da Bahia, em especial de Salvador onde a tradição cristã católica se conserva episcopal. Como já referimos antes, a Igreja alcança o século XIX abalada pela Revolução Francesa e pelos ideais liberais que tomam vulto no Brasil obrigando-a a uma urgente reorganização.79
Kátia Mattoso ressalta que dois projetos se apresentam com esse intento. O primeiro, defendido pelo clero paulista engajado e regalista, era favorável ao controle da Igreja pelo Estado. Liderado pelo padre Feijó, tal projeto reconhecia a incapacidade da Igreja para se reformar por conta própria e subordinava o poder dos bispos não mais a Roma, mas ao Estado nacional. Dentre as várias medidas pretendidas neste projeto, que não foi posto em prática, estavam a suspensão do celibato com a permissão da ordenação de homens casados e a criação de um fundo para pagamento dos serviços eclesiásticos a cargo da fazenda nacional.80
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O Concílio de Trento ocorreu no período de 1545 a 1563, desdobrando-se em três fases, durante os pontificados de Paulo III, Júlio III e Pio IV, em resposta ao movimento da Reforma Protestante. Dentre seus principais objetivos, destacaram-se a formulação dogmática e a reforma disciplinar da Igreja Católica. Os decretos versaram acerca da reafirmação dos sacramentos e do papel dos clérigos como resposta às questões postas pela reforma de Lutero. Para mais informações, consultar o verbete “Concílios Ecumênicos” da autoria de David Sampaio Dias Barbosa. AZEVEDO, Dicionário de História Religiosa de Portugal..., cit., p. 409-411.
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SILVA, Os segadores e a messe..., cit., p. 99.
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SILVA, Cândido da Costa. Religião e sociedade baiana do século XIX. In: MUSEU EUGÊNIO TEIXEIRA LEAL. Palestras. Salvador: Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2009.
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MATTOSO, Kátia M. de Queiroz. Bahia, século XIX: uma provincia no imperio. Livro V: a Igreja. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.
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O projeto de reforma da Igreja no Brasil, que foi implementado, contrariava, em princípios e práticas, esse primeiro projeto. Capitaneado por D. Romualdo Antônio de Seixas, primeiro brasileiro a assumir a Arquidiocese da Bahia, o projeto de “revitalização” eclesiástica pretendia alcançar um clero ilustrado e probo, mantendo a aliança entre a Igreja e o Estado como um privilégio e o fortalecimento da ligação com Roma, por força do reconhecimento do Catolicismo, como nos lembra Silva, de que deveria ser “a religião inspiradora do trono e não a serva do trono. Deveria, de certa maneira, exercer um controle sobre toda vida nacional, mas um controle que nascia de uma prerrogativa sua”.81
O fortalecimento do poder papal conduzia a Igreja a um movimento de espiritualização do clero, pois passava a se preocupar mais com a moralização dos costumes do que com as condições de vida de seus fiéis. Como se implantou na Bahia este projeto vertical e hierárquico? Segundo Silva, após a Independência, D. Pedro I efetivou a integração do Bispado brasileiro, desligando as dioceses do Maranhão e do Grão-Pará do Patriarcado de Lisboa e subordinando-as à Arquidiocese da Bahia. A definição geográfica e eclesiástica da Bahia é indicadora do caráter centralizador do novo arcebispo, D. Romualdo Seixas que, além de garantir toda uma ação educativa a cargo das ordens religiosas, cria jornais e semanários de cunho confessional para fomentar os ideais religiosos no seio da sociedade baiana e fiscaliza, também, as irmandades leigas. Essas medidas devem ser compreendidas como um movimento da Igreja para fazer frente à oposição do Estado que proíbe o noviciado, levando muitas ordens religiosas a fenecerem. Este foi o caso da ordem beneditina, por exemplo. Assim, era urgente mostrar os valores do clero e demonstrar uma importância social que, no primeiro momento, é legada à educação.
Entretanto, esse projeto entra em choque com os ideais liberais que tangenciam o século XIX e começam a anunciar a liberdade de culto, a separação da Igreja e do Estado, o ensino leigo, o casamento civil e a secularização dos cemitérios. Tida como baluarte do conservadorismo, a Igreja começa a perder seu espaço de referência também no plano cultural, pois as elites se tornam mais sensíveis ao discurso cientificista, com o surgimento das gerações acadêmicas da Faculdade de Medicina e pelo debate das lojas Maçônicas, além da oposição dogmática de novas crenças, como o Protestantismo e o Espiritismo, na Bahia, em fins do século XIX. É nessa centúria, em 1826, que ocorre a separação da província beneditina do Brasil em relação à casa-mãe portuguesa.
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Segundo Riolando Azzi, após a independência do Brasil, os beneditinos solicitaram o desligamento da província brasileira em relação à congregação lusitana, no que foram atendidos pelo Papa Leão XII, em 7 de julho de 1827, através da publicação da bula Inter
gravissima cura.82 A bula foi encaminhada para o beneplácito do imperador D. Pedro I e designava o Mosteiro de São Sebastião da Bahia para a realização do primeiro capítulo da Ordem. Também lembrava a necessidade da criação de escola nos mosteiros beneditinos.
Para melhor compreender a história da Igreja Católica no contexto brasileiro do século XIX, Kátia Mattoso a divide em dois momentos: um primeiro, que engloba os anos de 1822 a 1840, marcado pela organização do estado brasileiro e pelo contexto histórico do pós- independência; e um segundo, que se estende pelo período de 1840 a 1888, marcado pelo surgimento do liberalismo e do positivismo que agravam os conflitos entre o Estado e a Igreja na segunda metade da centúria. Nas palavras de Mattoso:
O catolicismo era religião única e oficial, as autoridades eclesiásticas cuidavam da educação, saúde e assistência pública, e até meados do século XIX, os padres exerciam, em nome do Estado, numerosas funções civis. Além de responsabilizar-se pelos registros paroquiais – tarefa que lhe era confiada desde a época colonial – o padre-funcionário se encarregava, por exemplo, de organizar a lista de eleitores locais, convocá-los nas épocas de eleições e fazer o cadastro das terras.83
Em 1822, o Brasil tinha cerca de quatro milhões de habitantes, sob a liderança religiosa de um arcebispado sediado na Bahia, seis bispados (Olinda, Rio de Janeiro, São Luís, Belém, Mariana e São Paulo), duas prelazias (Goiás e Cuiabá), cerca de 700 paróquias e algumas centenas de capelas. Já em 1870, os mesmos dados de Kátia Mattoso apresentam uma Igreja Católica brasileira formada por uma arquidiocese e onze dioceses. Nesta altura, a população brasileira já passava de quatorze milhões de habitantes. Na organização eclesiástica da Igreja oitocentista no Brasil, destaca-se o papel dos bispos, que representavam mais o interesse da Corte que os interesses pastorais. O Estado só lhes exigia que mantivessem a disciplina do clero e a obediência do povo. Considerados nobres, exerciam funções administrativas as quais eram regulamentadas pelo direito canônico assim como as obrigações do abade.
A Igreja Católica se organizava em três instituições distintas e nem sempre complementares, formadas pelo clero secular, estrutura de base responsável por manter o
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AZZI, Riolando. A Sé Primacial de Salvador: a igreja católica na Bahia (1551-2001). Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
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culto e zelar pela fé dos fiéis; pelo clero regular, composto pelas diferentes ordens religiosas estabelecidas no Brasil desde o século XVI; e, por fim, pelos leigos, organizados em irmandades e ordens terceiras. O Alto Clero, formado tanto por alguns membros do clero secular quanto por certos integrantes do regular, compunha o Tribunal Eclesiástico ou Tribunal da Relação Eclesiástica que, durante a colônia, era composto por dois juízes e treze examinadores sinodais. Em meados do século XIX, esse tribunal passou a ser constituído por doze juízes e dezoito examinadores. Dentre suas atribuições, destacava-se a incumbência de examinar os candidatos ao sacerdócio. Assim, Mattoso observa a existência de um corpo privilegiado – o arcebispo, o Cabido da Sé e o Tribunal de Instância – que formavam o governo do arcebispado, “detendo o prestígio, os cargos e as dignidades”.84
O Regalismo Lusitano, no contexto da formação dos Estados modernos, é definido por Italo Santirocchi como uma tentativa de diminuir o poder da Igreja através de alterações unilaterais, por parte do Estado, baseadas em princípios jurídicos para o controle da Igreja. Foi uma reafirmação de direitos religiosos por parte dos príncipes que passaram a tratar a religião como um departamento da administração e a exercer um maior controle sobre a Igreja que ocorreu através do uso do Beneplácito, pelo rei, como demonstração do direito do Estado de aceitar ou recusar, no próprio território, as bulas, breves, encíclicas e leis canônicas e disciplinares promulgadas pelo papa e pelos concílios. Além da sobreposição da autoridade do rei sobre os assuntos eclesiásticos, fazia parte do Regalismo a defesa da reafirmação do poder dos bispos, nomeados pelo rei, contribuindo sobremaneira para a autonomia da igreja nacional85.
Mas foi no século XVIII, com a centralização política do governo de D. José I, que se estendeu de 1750 a 1777, sob influência do Iluminismo, que o Regalismo ganhou mais força, em particular, com a política do marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, que promoveu a reforma da sociedade e do governo através do fortalecimento do poder estatal.86
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MATTOSO, Bahia, século XIX..., cit., p. 336.
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SANTIROCCHI, Ítalo Domingos. Questão de consciência: os ultramontanos no Brasil e o regalismo do Segundo Reinado (1840-1889). Belo Horizonte: Fino Traço, 2015. Importante trabalho acerca da Igreja no Brasil do século XIX. Do ponto de vista teórico, o autor propõe uma discussão em torno dos conceitos de Catolicismo Popular ou Tradicional e discute o processo de Romanização. Contudo, Santirocchi prefere usar o termo Reforma Ultramontana para explicar esse movimento da Igreja Católica no Brasil do século XIX, porque está em conformidade com a terminologia que aparece nos discursos do próprio período.
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Pombal (1699-1782), como exemplo de homem letrado do século XVIII, frequentou a Universidade de Coimbra, foi membro da Academia Real de História e familiar do Santo Ofício. Como diplomata, cumpriu missão na Inglaterra e na Áustria. Como ministro de estado do reinado de D. José, realizou a reforma dos estudos e idealizou o Colégio dos Nobres. Em seu governo, no âmbito das reformas políticas e econômicas, fez sérias restrições às ordens religiosas. Ao morrer
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Para Santirocchi, a diminuição do poder da Igreja com a limitação do papel do pontífice e maior autonomia para os bispos em relação a Roma são marcas deste fortalecimento, mas, por sua vez, os bispos passaram a depender do Estado nacional. A principal marca dessa política foi a diminuição da participação das ordens religiosas, que culminou com a expulsão dos Jesuítas, em 1759, e a extinção da ordem, em 1773. A Igreja passou a ser um departamento do governo e os clérigos seus funcionários.
À medida que o Iluminismo favoreceu a laicização da cultura religiosa e clerical, os padres assumiram o lugar de instrutores, professores e exemplos de conduta moral, distanciando-se de seu papel mais religioso. Em um cenário mais amplo, um conjunto de ideias estava em ebulição, nesta época, relacionado à contestação da centralidade da figura do papa e da hegemonia de Roma sobre o mundo católico. Vindas das regiões da Bélgica, Alemanha, Áustria e França, estas ideias ecoavam em Portugal. Definido por Santirocchi como iluminismo lusitano, a ressonância destas ideias de contraposição ao poder papal, levou o marquês de Pombal a conduzir a reforma da Universidade de Coimbra, em 1772. Tal reforma tem repercussões também no Brasil que empreendeu a reforma dos estudos, inclusive nos seminários e nas ordens religiosas.87
Para explicar o Padroado e o Regalismo no contexto do Brasil independente, Santirocchi relembra o retorno de D. João VI para Portugal, em 1821, após a Revolução do Porto e a manifestação do liberalismo. Em 1822, D Pedro I proclamou a independência do Brasil, ocasionando as aproximações entre o Clero e o Estado dentro de um enquadramento político marcado pelo nacionalismo e pela formação de uma Igreja brasileira. De 1827 a 1843, os padres seguiram desempenhando as mesmas funções civis e religiosas do tempo da colônia. Previsto na Constituição de 1824, o Catolicismo seguiu como religião oficial, tolerando as demais religiões como cultos domésticos ou particulares. O predomínio do clero na cena política brasileira, em especial, na Assembleia Constituinte de 1823 cujo debate sobre a Soberania Nacional lhe rendeu a dissolução, é destacado por Santirocchi como emblemático, por conter dezesseis padres e ser presidida pelo bispo D. José Caetano da Silva Coutinho.88
no exílio, durante o reinado de D. Maria I, foi enterrado trajando um hábito franciscano. Sobre o Marquês de Pombal e seu governo em Portugal, ver: SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O marquês de Pombal: o homem, o diplomata e o estadista. Lisboa: Heska Portuguesa, 1987.
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SANTIROCCHI, Questão de consciência..., cit., p. 52-58.
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SANTIROCCHI, Questão de Consciência..., cit., p. 60. De nacionalidade portuguesa e Bispo do Rio de Janeiro. Para dados biográficos do primeiro presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, ver: Presidentes da Câmara dos Deputados (Fase Imperial): 1º Dom José Caetano da Silva Coutinho. Boletim da Biblioteca da Câmara dos Deputados. Brasília, v. 17, n. 2, maio/ago.
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Após a dissolução da Constituinte, D. Pedro I convocou uma “comissão” composta por juristas formados na Universidade de Coimbra para elaborar a Constituição do Brasil. Outorgada em 1824, a carta magna, de natureza liberal, instituía a Monarquia Constitucional e, ao mesmo tempo, mantinha a tradição lusitana, ao reafirmar o padroado nos moldes portugueses. Cabia ao imperador, pela força do poder executivo e também do poder moderador, nomear bispos e prover os benefícios eclesiásticos, além de manter o Beneplácito para a confirmação dos documentos apostólicos e dos decretos dos concílios. Essa decisão foi unilateral por parte do Império do Brasil e a ausência de uma discussão prévia com a Sé Romana deu margem a uma série de conflitos e manifestações diplomáticas dos lados brasileiro e romano, ao longo do tempo do Império.
Ainda que haja muitas semelhanças entre os dois sistemas de Padroado, Santirocchi destaca algumas características que oferecem um caráter específico ao seu congênere no Brasil. Em primeiro lugar, a unilateralidade ou implantação sem anuência de Roma; em segundo, a tolerância a outros cultos religiosos; e, em terceiro, a extinção do Tribunal da Junta da Bula da Cruzada, da Mesa da Consciência e Ordens e do Desembargo do Paço, em 1828. As questões religiosas passaram a ser tratadas pelo poder civil através do Supremo Tribunal da Justiça. Como medida diplomática, D. Pedro I enviou monsenhor Francisco Correia Vidigal a Roma para o reconhecimento da independência do Brasil e a assinatura de uma concordata que concedesse ao Imperador e seus herdeiros os mesmos direitos dos soberanos portugueses, inclusive o título de Grão Mestre das ordens militares e o Padroado ligado à Ordem de Cristo.
No Brasil, D. Pedro procurou se revestir de poder através da aclamação como imperador, em 12 de outubro de 1822, e pela sagração, em 1 de dezembro. Tal prática foi seguida pelo seu filho quando subiu ao trono como D. Pedro II, no ano de 1840. A legitimação do poder real estava, portanto, garantida por dois artifícios: a soberania popular e a sanção divina. Passados quatro anos desde a independência, em 23 de janeiro, a Sé Romana reconheceu a emancipação política do Brasil e concedeu uma bula a D. Pedro I, estabelecendo os mesmos direitos da coroa portuguesa. A bula foi confirmada pelo beneplácito do Imperador, mas recebeu um parecer contrário da Comissão Eclesiástica da Câmara de Deputados por acreditar que a bula ofendia a constituição brasileira que pregava a tolerância aos cultos religiosos. Esse princípio liberal tornava inválida a existência das ordens militares e
1968, p. 335-346. Disponível em: <http://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/12757>. Acesso em: 4 out. 2016.
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de seus privilégios, criados para um tempo de combate aos inimigos da fé. Iniciava-se, assim, o primeiro conflito entre o Estado e a Igreja no Brasil independente.
Para Santirocchi, no caso do Brasil, desenvolveu-se um “Regalismo Liberal”, pois o Padroado era civil e estava lastreado na soberania popular e na constituição, em que o imperador buscava legitimar seu poder com base na competência e nos direitos do poder civil e não mais nos privilégios eclesiásticos. O Brasil Império se apresentava como um Estado Confessional baseado nas ideias de Nação, de Soberania e de Constituição. Em 1830, a aprovação do Código Criminal do Império do Brasil contava com artigos que dificultavam o contato direto com o papa para pedido de privilégios sem a autorização do estado brasileiro. Era negada qualquer interferência de autoridades ou instituições estrangeiras sem o aval do Imperador. Com a abdicação de D. Pedro I, em 1831, tem início o período regencial, marcado pela instabilidade política e sacudido por uma onda de revoltas, caracterizado também como uma época de expressiva presença do clero no cenário político e de conflitos diplomáticos