III. PANORAMA DE UMA POLÍTICA CIENTÍFICA: A RELAÇÃO ENTRE A TEORIA
3. A síntese das diversas perspectivas como um problema de
Nas páginas anteriores tentamos mostrar concretamente como um mesmo problema, ou seja, o da relação entre a teoria e a prática, assumia uma forma diferente de acordo com as posições políticas diferentes de que era abordado. O que ocorre com esta questão básica de qualquer política científica permanece igualmente válido para quaisquer outros problemas específicos. Pode-se demonstrar em todos os casos que não só diferem as orientações fundamentais, as avaliações e o conteúdo das ideias, mas que a maneira de formular um problema, o tipo de abordagem utilizada, e mesmo as categorias em que experiências são classificadas, coligidas e ordenadas, variam de acordo com a posição social do observador.
Se o decurso das lutas políticas até agora tem demonstrado decisivamente que existe uma íntima relação entre a natureza das decisões políticas e a perspectiva intelectual, a conclusão aparente seria a de que é impossível uma ciência da política. Mas é precisamente neste ponto, em que as dificuldades se tornam mais pronunciadas, que atingimos um momento decisivo.
A esta altura emergem duas novas possibilidades e, neste ponto da formulação do problema, vemos dois caminhos, ambos praticáveis. Por um lado, pode-se dizer: desde que, no campo da política, o único conhecimento que possuímos é um conhecimento limitado pela posição que ocupamos, e, desde que a formação de partidos constitui estruturalmente um elemento irremovível da política, segue-se que a política somente pode ser estudada de um ponto-de-vista partidário e ensinada em uma escola partidária. Acredito, de fato, que este raciocínio se mostre um caminho de que se seguem desenvolvimentos imediatos.
Entretanto, tem-se tornado evidente e promete se tornar ainda mais que, devido ao caráter complexo da sociedade contemporânea, os métodos tradicionais de se preparar a futura geração de líderes políticos, que até então possuíam um caráter largamente acidental, não são mais adequados para suprir o político moderno com o conhecimento necessário. Os partidos políticos acharão portanto necessário desenvolver suas escolas partidárias com um cuidado e uma elaboração sempre crescentes. Não só irão fornecer o conhecimento fatual que habilite os prováveis líderes políticos a formular juízos fatuais quanto a problemas concretos, mas irão igualmente inculcar os pontos-de-vista respectivos, a partir dos quais a experiência possa ser organizada e controlada.
Todo ponto-de-vista político implica, ao mesmo tempo, mais do que a mera afirmação ou rejeição de um conjunto inquestionável de fatos. Implica também uma
políticos vem a se evidenciar nos esforços de todos os partidos em moldar o pensamento das massas, não só de um ponto-de-vista partidário, mas também do ponto-de-vista de uma
Weltanschauung. A pedagogia política significa a transmissão de uma particular atitude
face ao mundo, que irá permear todos os aspectos da vida. A educação política significa, hoje em dia, uma concepção definida da história, um certo modo de interpretar os acontecimentos, e uma tendência a procurar uma orientação filosófica de um modo definido.
Esta clivagem de modos de pensamento e Weltanschauung, bem como esta crescente diferenciação de acordo com posições políticas, vêm-se processando com intensidade cada vez maior desde o início do século XIX. A formação de escolas partidárias irá acentuar esta tendência, e a levará à sua conclusão lógica.
A formação de escolas partidárias e o desenvolvimento de teorias partidárias constituem, no entanto, apenas uma das consequências inevitáveis da situação atual. Consequência que interessa aos que, por ocuparem uma posição extrema na ordem social, devam apegar-se a seu partidarismo, conceber os antagonismos como absolutos, e suprimir qualquer concepção do todo.
A situação atual propicia ainda outra possibilidade, que repousa, por assim dizer, no reverso do caráter fundamentalmente partidário da orientação política. Esta alternativa, pelo menos tão importante quanto a anterior, consiste no seguinte: não só é reconhecido o caráter necessariamente partidário de toda forma de conhecimento político, mas também o caráter peculiar de cada variedade. Tornou-se hoje indiscutivelmente claro que todo conhecimento político, ou que implique uma visão de mundo, é inevitavelmente partidário. O caráter fragmentário de todo o conhecimento é reconhecível claramente. Mas isso implica a possibilidade de uma integração de muitos pontos-de-vista mutuamente complementares em um todo amplo.
Exatamente por nos acharmos, hoje em dia, em uma posição que nos possibilita ver com crescente nitidez que as opiniões e as teorias mutuamente opostas não são infinitas em número, nem produtos de uma vontade arbitrária e sim mutuamente complementares, derivando de situações sociais específicas, é que a política como ciência se torna, pela primeira vez, possível. A atual estrutura da sociedade possibilita uma ciência política que não será apenas uma ciência partidária, mas uma ciência do todo. A Sociologia Política, enquanto ciência que engloba toda a esfera política, atinge assim a fase de realização.
Com isso, surge a demanda de uma instituição de base mais ampla que uma escola partidária, em que se possa desenvolver esta ciência da totalidade política. Antes de nos dedicarmos à possibilidade e estrutura deste tipo de investigação, é necessário estabelecer com maior firmeza a tese de que cada ponto-de-vista particular necessita ser complementado por todos os demais. Recordemos o exemplo que utilizamos para ilustrar a base partidária de todo problema.
Verificamos que apenas determinados aspectos e áreas limitados da realidade histórica e política se revelam a cada um dos vários partidos. O burocrata restringia seu campo de visão à parte estabilizada da vida do Estado, o conservantismo histórico somente podia ver as regiões em que o Volksgeist, atuando silenciosamente, ainda se achasse em operação e em que, como na esfera dos usos e costumes, na associação religiosa e cultural,
forças orgânicas e não-organizadas estivessem atuando. O conservantismo histórico estava também ciente de que havia lugar para um tipo peculiar de racionalidade nesta esfera de forças orgânicas: tinha de decifrar as tendências inerentes de crescimento. Apesar de sua unilateralidade consistir no exagero da importância dos elementos irracionais na mente e das forças sociais irracionais, a ele correspondentes, na realidade histórica e social, o conservantismo histórico, não obstante, ressaltou um ponto importante que não poderia ser percebido de nenhum outro ponto-de-vista. O mesmo se aplica aos pontos- -de-vista restantes. O pensamento burguês democrático tanto descobriu como desenvolveu a possibilidade de um meio racional de levar avante o conflito de interesses na sociedade, que manterá sua realidade e função na vida moderna enquanto forem possíveis os métodos pacíficos do conflito de classes.
O desenvolvimento desta abordagem dos problemas políticos constituiu uma realização histórica e duradoura da burguesia, podendo-se apreciar o seu valor, muito embora a unilateralidade de seu intelectualismo tenha ficado completamente exposta. O espírito burguês tinha um interesse social vital em ocultar a si mesmo, por meio deste intelectualismo, os limites de sua racionalização. Daí agir como se os conflitos reais pudessem ser plenamente resolvidos pela discussão. Deixou, porém, de compreender que, intimamente ligado ao campo da política, surgia um novo tipo de pensamento em que não se poderia separar a teoria da prática, nem o pensamento da intenção.
Em parte alguma, o caráter mutuamente complementar das visões parciais social e politicamente determinadas será mais nitidamente visível do que aqui. Pois é aqui que se torna mais uma vez manifesto que o pensamento socialista começa onde o pensamento burguês democrático atinge seus limites, e que veio a lançar nova luz precisamente sobre aqueles fenômenos que seus predecessores, devido à conexão íntima com seus próprios interesses, haviam deixado obscurecido. Ao marxismo deve-se reconhecer a descoberta de que a política não consiste simplesmente em partidos parlamentares e nas discussões que mantêm, e que estes, qualquer que seja a forma concreta de que se revistam, são apenas a expressão de superfície de situações sociais e econômicas mais profundas, que podem tornar-se inteligíveis em grande parte, através de um novo modo de pensamento. Estas descobertas assinalam a colocação da discussão em um nível mais alto, de onde se pode obter uma visão mais extensa e inclusiva da história e uma concepção mais clara do que realmente constitui o domínio da política. A descoberta do fenômeno da ideologia se acha estruturalmente associada, de modo íntimo, a esta descoberta. Apesar de bastante unilateral, é a primeira tentativa de definir a posição do pensamento socialmente vinculado em oposição à “teoria pura”.
Finalmente, para voltar à última antítese, enquanto o marxismo dedicava uma atenção exagerada e superenfatizava o fundamento puramente estrutural da esfera política e histórica, o fascismo voltava sua atenção para os aspectos amorfos da vida, para os “momentos” ainda presentes e importantes em situações críticas, em que as forças de classe se tornam desconexas e confusas, quando as ações dos homens, agindo como membros de massas transitórias, assumem importância, e quando o resultado depende inteiramente das vanguardas e dos líderes que momentaneamente dominem a situação. Mas também aqui se trataria de uma superênfase de uma fase isolada da realidade histórica considerar estas eventualidades, muito embora de ocorrência frequente, como a essência da realidade histórica. A divergência das teorias políticas deve-se sobretudo ao fato de que as diferentes
posições e pontos sociais vantajosos, ao emergirem na corrente da vida social, habilitam cada indivíduo a reconhecer, do ponto de observação particular que ocupa naquela corrente, a própria corrente. Assim, em diferentes épocas, emergem interêsses sociais elementares diferentes e, em consonância, diferentes objetos de atenção, na estrutura total, são iluminados e vistos como se fossem os únicos existentes.
Todos os pontos-de-vista, em política, são apenas parciais, porque a totalidade histórica é sempre demasiado mais ampla para ser apreendida por qualquer dos pontos-de- vista individuais que dela emergem. Contudo, já que todos eles emergem da mesma corrente social e histórica, e já que sua parcialidade existe na matriz de um todo emergente, é possível vê-los em justaposição, e sua síntese se torna um problema que deve ser continuamente reformulado e resolvido. A síntese constantemente revista e renovada dos pontos-de-vista particulares existentes torna-se tanto mais possível quanto as tentativas de síntese, igualmente, possuem uma tradição, da mesma forma que o conhecimento fundado no partidarismo. Não tentou Hegel, chegando ao término de uma época relativamente fechada, sintetizar, em sua obra, as tendências que até então se haviam desenvolvido independentemente? Muito embora estas sínteses se revelassem, repetidas vezes, sínteses parciais que se desintegravam no decorrer do desenvolvimento subsequente, produzindo, por exemplo, o hegelianismo de direita e o hegelianismo de esquerda, muito embora não fossem sínteses absolutas, mas sínteses relativas, não deixavam de indicar uma direção bastante promissora.
A exigência de uma síntese absoluta e permanente viria, segundo nossa opinião, a significar uma recaída na visão de mundo estática do intelectualismo. Numa esfera em que tudo se acha em processo de transformação, a única síntese adequada seria uma síntese dinâmica, reformulada de tempos em tempos. Existe ainda, contudo, a necessidade de solucionar um dos mais importantes problemas que podem ser postos, ou seja, de fornecer a visão do todo mais englobante que seja possível em um dado momento.
Tentativas de síntese não aparecem sem relações umas com as outras, pois cada síntese, ao resumir as forças e opiniões de seu tempo, prepara o caminho para a seguinte. Pode-se notar um certo progresso em direção a uma síntese absoluta, no sentido utópico, no fato de cada síntese tentar alcançar uma perspectiva mais ampla do que a precedente, vindo a última a incorporar os resultados das que a precederam.
Neste ponto da discussão surgem duas dificuldades, mesmo no tocante à síntese relativa.
A primeira provém do fato de não mais podermos conceber a parcialidade de um ponto-de-vista como sendo meramente uma questão de grau. Se a clivagem nas percepções políticas e filosóficas consistisse apenas em que cada uma delas se dedicasse a outro lado ou seção do conjunto, cada uma iluminando apenas um segmento particular dos acontecimentos históricos, uma síntese por adição seria possível sem maiores problemas. Bastaria, tão-só, adicionar essas verdades parciais e reuni-las em um todo.
Mas esta concepção simplificada não é mais sustentável desde o momento em que vimos que a determinação dos pontos-de-vista particulares por suas situações se baseia não apenas na seleção do tema, mas também na divergência dos aspectos e das maneiras de colocar o problema, e, finalmente, na divergência do aparato categórico e dos princípios de
organização. A questão consiste, portanto, no seguinte: será possível a diferentes estilos de pensamento (com o que nos referimos às diferenças nos modos de pensar acima descritas) fundir-se um com o outro e sofrer uma síntese? O curso do desenvolvimento histórico mostra a possibilidade desta síntese. Toda análise concreta do pensamento, que procede sociologicamente e busca revelar a sucessão histórica de estilos de pensamento, indica que estes sofrem uma ininterrupta fusão e interpenetração.
Ainda mais, as sínteses de estilos de pensamento não são efetuadas apenas pelos que sejam basicamente sintesistas e que tentem, mais ou menos conscientemente, englobar em seu pensar toda uma época (Hegel, por exemplo). Fazem-nas também certos grupos contendores, na medida em que tentam unificar e conciliar pelo menos todas as correntes em conflito que encontrem em sua própria esfera limitada. Assim Stahl pretendeu reunir no conservantismo todas as tendências afins de pensamento, até então existentes, ligando, por exemplo, o historicismo ao teísmo. O próprio Marx dedicou-se à fusão da tendência generalizadora do pensamento liberal-burguês com o historicismo hegeliano que era de origem conservadora. Claro está, portanto, que não apenas os conteúdos do pensamento, mas também a própria base do pensamento, estão sujeitos à síntese. Esta síntese de estilos de pensamento, que até então se desenvolviam separadamente, parece tanto mais necessária, já que o pensar deve visar constantemente o aumento da capacidade de seu âmbito categórico formal, quanto pretenda dominar os problemas que crescem diariamente em número e dificuldade. Se mesmo aqueles cujos pontos-de-vistas são partidariamente vinculados constatam a necessidade de uma perspectiva mais ampla, esta tendência deveria mostrar-se ainda mais pronunciada entre os que, desde o início, buscaram a compreensão mais inclusiva possível da totalidade.