II. IDEOLOGIA E UTOPIA
9. O problema da falsa consciência
Através do processo dialético da história ocorre inevitavelmente a gradativa passagem da concepção de ideologia não-valorativa, total e genérica à concepção valorativa (cf. anteriormente). A valoração a que agora aludimos, entretanto, difere bastante da que encaramos e descrevemos anteriormente. Não mais aceitamos os valores de um dado período como absolutos, e já não podemos, daqui por diante, desconhecer a compreensão de que as normas e os valores se achem histórica e socialmente determinados. A ênfase ontológica se transfere agora para outro conjunto de problemas. Sua finalidade será a de distinguir o verdadeiro do não-verdadeiro, o autêntico do espúrio dentre as normas, modos de pensamento e padrões de comportamento existentes lado a lado em um dado período histórico. O perigo da “falsa consciência” não está, em nossos dias, no fato de esta não poder captar uma realidade absoluta imutável, mas, antes, no de obstruir a compreensão de uma realidade que é o resultado da constante reorganização dos processos mentais que compõem os mundos em que vivemos. Torna-se portanto compreensível porque, impelidos pelos processos dialéticos do pensamento, seja necessário concentrarmos com maior intensidade nossa atenção sobre a tarefa de determinar quais, de todas as ideias em curso, são as realmente válidas em uma dada situação. À luz dos problemas com que nos defrontamos na atual crise do pensamento, vai-se encontrar a questão da “falsa consciência” em um novo contexto. A noção da “falsa consciência” já aparecera em uma de suas mais modernas formas quando, deixando de se referir aos fatores religiosos transcendentais, transferiu sua procura do critério da realidade para o campo da prática e, em especial, para o da prática política, de uma maneira que evocava o pragmatismo. Mas em oposição à sua formulação moderna, falta-lhe ainda um sentido do histórico. Ainda se encaravam o pensamento e a existência como polos fixos e separados, mantendo uma relação estática um com o outro em um universo imutável. Somente agora é que o novo sentido histórico começa a ter penetração e que se pode conceber um conceito dinâmico de ideologia e realidade.
Em consequência, em nosso ponto-de-vista, uma atitude ética não seria válida se estivesse orientada para normas com as quais a ação, em um dado ambiente histórico, ainda que com as melhores intenções, não pudesse concordar. Seria então inválida quando não se pudesse mais conceber a ação não eticamente aceita do indivíduo como devida a sua transgressão pessoal, devendo-se antes atribuí-la à compulsão de um conjunto de axiomas
morais de bases erradas. A interpretação moral de uma de nossas próprias ações é inválida quando, por força dos modos de pensamento e concepções da vida tradicionais, não permita a adaptação da ação e do pensamento a uma situação nova e cambiante e, afinal, obscureça e entrave realmente este ajustamento e esta transformação do homem. Uma teoria será portanto errada se, em uma dada situação prática, usar conceitos e categorias que, utilizados, impediriam o homem de se adaptar àquele estágio histórico. Normas, modos de pensamento e teorias antiquados e inaplicáveis tendem a degenerar em ideologias, cuja função consiste em ocultar o real significado da conduta, ao invés de revelá-lo. Nos parágrafos seguintes citamos uns poucos exemplos característicos dos mais importantes tipos de pensamento que acabamos de descrever.
A história do tabu levantado contra a cobrança de juros de empréstimos28 pode
servir como exemplo da evolução de uma ética antiga para uma ideologia. O regulamento de que o empréstimo se efetuasse sem juros somente poderia ser posto em prática em uma sociedade que se baseasse econômica e socialmente em relações de intimidade e boa vizinhança. Neste mundo social, o “empréstimo sem juros” é um costume que impõe observância sem dificuldade, porque constitui uma forma de comportamento que corresponde fundamentalmente à estrutura social. Surgindo em um mundo de relações de intimidade e boa vizinhança, este preceito foi assimilado e formalizado pela Igreja em seu sistema ético. Quanto mais, porém, mudava a real estrutura da sociedade, tanto mais este preceito ético assumia um caráter ideológico e se tornava incapaz de aceitação prática. Sua arbitrariedade e irrealidade se tornaram ainda mais evidentes quando, no período do capitalismo ascendente, tendo muda do sua função, poderia ser usado como uma arma nas mãos da Igreja contra a emergente força econômica do capitalismo. No decurso da emergência do capitalismo, a natureza ideológica desta norma, que se exprimia no fato de que, quando muito ela era contornada, mas jamais obedecida, tornou-se tão patente que até a Igreja a abandonou.
Como exemplos da “falsa consciência”, assumindo a forma de uma interpretação incorreta de si mesmo e seu papel, podemos citar aqueles casos em que as pessoas tentam encobrir suas relações “reais” consigo mesmas e com o mundo, e falseiam para si mesmas os fatos básicos da existência humana, deificando-os, romantizando-os ou idealizando-os, recorrendo, em suma, ao artifício de fugirem de si mesmas e do mundo, dando margem a falsas interpretações da experiência. Temos, portanto, um caso de distorção ideológica quando tentamos resolver conflitos e ansiedades recorrendo a absolutos, se bem que já não é mais possível viver de acordo com estes. Tal se dá quando criamos “mitos”, adoramos “a grandeza em si”, invocamos submissão a “ideais”, ao passo que em nossa conduta efetiva seguimos outros interesses, que tentamos mascarar simulando uma retidão inconsciente, que é por demais transparente. Encontramos, finalmente, um exemplo do terceiro tipo de distorção ideológica quando esta ideologia como uma forma de conhecimento não é mais adequada para a compreensão do mundo atual. O que poderíamos exemplificar com o proprietário de terras, cujos bens já se tivessem tornado uma empresa capitalista, mas que ainda tenta explicar suas relações com os seus lavradores e sua própria função na empresa por meio de categorias remanescentes da ordem patriarcal. Se tomarmos uma visão de conjunto de todos estes casos individuais, vemos a noção de “falsa consciência” assumindo um novo significado. Visto deste ponto-de-vista, o conhecimento é destorcido e ideológico
quando deixa de levar em conta as novas realidades ao se aplicar uma situação, e quando tenta ocultá-las ao refleti-las com categorias impróprias.29
Esta concepção de ideologia (o conceito de utopia será tratado na Parte IV)30 pode
ser caracterizada como valorativa e dinâmica. Valorativa porque pressupõe determinados juízos concernentes à realidade das ideias e das estruturas de consciência, e dinâmica porque tais juízos são sempre medidos por uma realidade em constante fluxo.31
Embora estas distinções possam parecer à primeira vista bastante complicadas, acreditamos não serem nada artificiais, porque nada mais são do que uma formulação precisa de implicações já contidas na linguagem cotidiana de nosso mundo moderno e uma tentativa explícita de enquadrá-las logicamente.
Esta concepção de ideologia (e de utopia) sustenta que, para além das fontes de erro comumente reconhecidas, devemos admitir igualmente os efeitos de uma estrutura mental deformada. Reconhece o fato de que a “realidade” que não conseguimos compreender pode ser uma realidade dinâmica; e de que, na mesma época histórica e na mesma sociedade, possam existir vários tipos deformados de estrutura mental interna, uns por ainda não haverem chegado ao presente, outros por já se encontrarem além do presente. Em qualquer dos casos, entretanto, a realidade a ser compreendida se acha deformada e dissimulada, pois esta concepção da ideologia e da utopia trata de uma realidade que se desenrola somente na prática efetiva. Em todo caso, todas as suposições contidas na concepção valorativa e dinâmica de ideologia repousam sobre experiências que, no máximo, poderiam ser entendidas de uma maneira diferente da aqui desenvolvida, mas que em nenhuma hipótese poderiam ser deixadas à margem.