• Nenhum resultado encontrado

Definição de conceitos

No documento KARL MANNHEIM - Ideologia e Utopia (páginas 56-59)

II. IDEOLOGIA E UTOPIA

1. Definição de conceitos

A fim de se compreender a situação atual do pensamento, torna-se necessário começar com os problemas da “ideologia”. Para a maioria das pessoas o termo “ideologia” se acha intimamente ligado a marxismo, associação esta que determina em ampla medida as suas reações ao termo. Sendo assim, precisamos desde logo declarar que, apesar de o marxismo haver contribuído em muito para a colocação inicial do problema, tanto a palavra quanto seu significado se situam na história bem mais remotamente do que o marxismo, e, desde que este surgiu, novos significados da palavra têm emergido, tomando forma independentemente dele.

Não existe melhor introdução para o problema do que a análise do significado do termo “ideologia”: temos primeiramente que isolar todos os diferentes matizes de significado aqui combinados em uma pseudo-unidade, e um estabelecimento mais preciso das variações dos significados do conceito, como é usado hoje em dia, preparará o caminho para sua análise sociológica e histórica. Tal análise mostrará que em geral existem dois significados distintos e separáveis do termo “ideologia” — o particular e o total.

A concepção particular de ideologia é implicada quando o termo denota estarmos céticos das ideias e representações apresentadas por nosso opositor. Estas são encaradas como disfarces mais ou menos conscientes da real natureza de uma situação, cujo reconhecimento não estaria de acordo com seus interesses. Essas distorções variam numa escala que vai desde as mentiras conscientes até os disfarces semiconscientes e dissimulados. Esta concepção de ideologia, que veio gradativamente sendo diferenciada da noção de mentira, encontrada no senso comum, é particular em vários sentidos. Sua particularidade se torna evidente quando é contrastada com a concepção total, mais inclusiva, da ideologia. Referimo-nos aqui à ideologia de uma época ou de um grupo histórico-social concreto, por exemplo, a de uma classe, ocasião em que nos preocupamos com as características e a composição da estrutura total da mente desta época ou deste grupo.

Os elementos comuns bem como os específicos a estes dois conceitos são de imediato evidentes. O elemento comum a estas duas concepções parece consistir no fato de que nenhuma delas depende exclusivamente do que foi efetivamente dito pelo opositor para atingir uma compreensão de seu significado real e intenção.1 Ambas se voltam para o

sujeito, seja indivíduo ou grupo, procedendo a um entendimento do que foi dito pelo método indireto de analisar as condições sociais do indivíduo ou de seu grupo. As ideias expressadas pelo indivíduo são dessa forma encaradas como funções de sua existência. Isto significa que opiniões, declarações, proposições e sistemas de ideias não são tomados por seu valor aparente, mas são interpretados à luz da situação de vida de quem os expressa. Significa, ainda mais, que o caráter e a situação de vida específicos do sujeito influenciam suas opiniões, percepções e interpretações.

Consequentemente, ambas as concepções da ideologia fazem das chamadas “ideias” uma função de quem as mantém, e de sua posição em seu meio social. Apesar de terem algo em comum, existem igualmente entre elas diferenças relevantes. Destas últimas, mencionaremos apenas as mais importantes:

a) Enquanto a concepção particular de ideologia designa como ideologias apenas uma parte dos enunciados do opositor — e isto somente com referência ao seu conteúdo — a concepção total põe em questão a Weltamchauung total do opositor (inclusive seu aparato conceptual), tentando compreender estes conceitos como decorrentes da vida coletiva de que o opositor partilha.

b) A concepção particular da ideologia realiza suas análises de ideias em um nível puramente psicológico. Se, por exemplo, pretende-se que um adversário esteja mentindo ou que esteja ocultando ou destorcendo uma dada situação de fato, pressupõe-se, não obstante, que ambos partilham critérios comuns de validade; pressupõe-se, também, que é possível refutar mentiras e desfazer fontes de erro tendo por referência critérios aceitos de validade objetiva comuns a ambos os lados. A suspeita de que um opositor seja vítima de uma ideologia não vai tão longe a ponto de excluí-lo da discussão com base em um quadro de referência teórica comum. Com a concepção total da ideologia, a questão é diferente. Quando a uma época histórica atribuímos um mundo intelectual e a nós mesmos atribuímos outro, ou quando um certo estrato social, historicamente determinado, pensa com categorias diferentes das nossas, não nos estamos referindo a casos isolados de conteúdo de pensamento, mas a modos de experiência e interpretação amplamente diferentes e a sistemas de pensamento fundamentalmente divergentes. Atingimos a um nível teórico ou noológico sempre que consideramos não apenas o conteúdo, mas igualmente a forma, e, mesmo, a estrutura conceptual de um modo de pensamento, como uma função da situação de vida de um pensador. “As categorias econômicas nada mais são do que as expressões teóricas, as abstrações, das relações sociais de produção... Os mesmos homens que estabelecem relações sociais em conformidade com sua produtividade material produzem os princípios, as ideias e as categorias igualmente em conformidade com suas relações sociais.” (Karl Marx, The Poverty of Philosophy, tradução para o inglês da Misère de la

Philosophie, com um prefácio de Frederick Engels, traduzido por H. Quelch, Chicago,

1910, pág. 119.) São estas as duas formas de se analisar as afirmações como funções de sua base social; a primeira opera apenas no nível psicológico, a segunda, no nível noológico.

c) Correspondendo a esta diferença, a concepção particular da ideologia opera principalmente com uma psicologia de interesses, enquanto a concepção total utiliza uma análise funcional mais formal, sem quaisquer referências a motivações, confinando-se a uma descrição objetiva das diferenças estruturais das mentes operando em contextos sociais diferentes. A primeira pretende que este ou aquele interesse seja a causa de uma dada mentira ou ilusão. A última pressupõe simplesmente que existe uma correspondência entre uma dada situação social e uma dada perspectiva, ponto-de-vista ou massa aperceptiva. Neste caso, embora uma análise das constelações de interesses possa, com frequência, ser necessária, ela nunca o será para estabelecer conexões causais, mas para caracterizar a situação total. Assim, a psicologia de interesses tende a ser substituída por uma análise da correspondência entre a situação por conhecer e as formas de conhecimento.

Uma vez que a concepção particular jamais realmente se afasta do nível psicológico, o ponto de referência em tais análises é sempre o indivíduo. Isto ocorre mesmo quando estamos lidando com grupos, uma vez que todos os fenômenos psíquicos devem ser finalmente referidos às mentes dos indivíduos. É verdade que o termo “ideologia de grupo” aparece frequentemente na linguagem popular. Neste sentido, existência de grupo somente pode significar que um grupo de pessoas, seja por suas reações imediatas a uma mesma situação, seja como resultado de uma interação psíquica direta, reage de forma similar. Em consequência, condicionadas pela mesma situação social estão sujeitas às mesmas ilusões. Se limitarmos nossas observações aos processos mentais que se produzem no indivíduo, encarando-o como o único portador possível de ideologias, jamais conseguiremos captar, em sua totalidade, a estrutura do mundo intelectual de um grupo social, em uma dada situação histórica. Apesar de que este mundo mental como um todo jamais pudesse ter existido sem as experiências e as reações produtivas dos diferentes indivíduos, não se encontrará a estrutura interna de tal mundo em uma mera integração destas experiências individuais. Os membros individuais da classe operária, por exemplo, não experimentam todos os elementos de um horizonte que se poderia chamar de Weltanschauung proletária. Cada indivíduo participa apenas em determinados fragmentos deste sistema de pensamento, cuja totalidade não é de forma alguma a simples soma destas experiências individuais fragmentárias. Sendo uma totalidade, o sistema de pensamento é integrado sistematicamente, e não é um mero ajuntamento casual de experiências fragmentárias dos membros isolados de um grupo. Segue-se, assim, que somente se pode considerar o indivíduo como o portador de uma ideologia, na medida em que lidamos com aquela concepção de ideologia que, por definição, se prende mais aos conteúdos isolados do que à estrutura global de pensamento, encobrindo modos falsos de pensamento e expondo mentiras. Quando utilizamos a concepção total de ideologia, procuramos reconstruir todo o modo de ver de um grupo social, e, neste caso, nem os indivíduos concretos nem o seu somatório abstrato podem ser legitimamente considerados como portadores deste sistema ideológico de pensamento como um todo. O objetivo da análise neste nível é a reconstrução da base teórica sistemática subjacente aos juízos isolados do indivíduo. As análises de ideologias, no sentido particular, que fazem o conteúdo do pensamento individual depender amplamente dos interesses do sujeito, jamais podem realizar esta reconstrução básica do modo de ver total de um grupo social. Podem, no máximo, revelar os aspectos psicológicos coletivos da ideologia, ou conduzir a alguma evolução da psicologia de massa, tratando seja do comportamento diferente do indivíduo na multidão, seja dos resultados da integração na massa das experiência psíquicas de vários indivíduos. E, apesar de que muitas vezes o aspecto psicológico coletivo possa aproximar-se dos problemas da análise ideológica total, ele não responde com exatidão a suas questões. Uma coisa é saber até que ponto minhas atitudes e meus juízos são influenciados e alterados pela coexistência de outros sêres humanos, mas já é outra coisa saber quais sejam as implicações teóricas do meu modo de pensamento idênticas às de meus semelhantes, membros do grupo ou do estrato social.

Contentamo-nos, aqui, em meramente colocar a questão sem tentar uma análise integral dos difíceis problemas metodológicos que ela levanta.

No documento KARL MANNHEIM - Ideologia e Utopia (páginas 56-59)