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A SOCIEDADE INTERNACIONAL

No documento DO PODER A POLITICA (páginas 150-160)

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A SOCIEDADE

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cutimos acima, como os eifrikaners da África do Sul, que ao longo de toda sua história buscaram isolamento e liberdade do jugo das obriga­

ções internacionais, não conseguiram ser admitidos nesse sistema inter­

nacional.

Existem outros que não só aceitam a existência de uma sociedade internacional como também acreditam que ela estaria constantemente evoluindo para o gênero mais familiar de sociedade que encontramos na nação-estado. A primeira dessas duas posições, a negação da socie­

dade internacional, leva a uma discussão a respeito de palavras. A se­

gunda leva a uma discussão a respeito de fatos, e conseqüentemente é mais pengosa.

A sociedade internacional é uma sociedade diferente de qualquer outra, pois é a forma de sociedade mais inclusiva na face da Terra. Ela possui quatro peculiaridades:

1 - É uma sociedade única, composta das outras sociedades mais organizadas que chamamos de estados. Os estados são seus membros principais e imediatos, mesmo que possa haver um sentido no qual seus membros fundamentais são homens.

2 - O número de seus membros é conseqüentemente sempre pequeno. Quase todas as sociedades nacionais contam seus membros em milhões; a sociedade internacional não comporta mais de duzen­

tos. Após a Paz de Westfália, em 1648, talvez a sociedade internacio­

nal tenha atingido seu maior número de membros, com quase duzen­

tos. No século XIX, esse número caiu rapidamente. A reorganização da Europa segundo princípios nacionalistas reduziu a Alemanha e a Itália a estados unitários, antes de produzir o efeito oposto no Impé­

rio Otomano, na Áustria-Hungria, na Rússia e no Reino Unido, e an­

tes que houvesse realmente começado a admissão de estados não-europeus. Entre o estabelecimento do Império alemão em 1871 e a primeira Conferência de Haia em 1899, a sociedade internacional tinha menos de cinqüenta membros: um núcleo europeu de vinte, ou­

tros vinte no sistema separado americano, e uma margem duvidosa de dois ou três estados asiáticos, com os quais algumas potência haviam trocado legações, mas que ainda não eram considerados parte da fa­

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mília das nações. Desde a Conferência de Haia o número de estados voltou a crescer. I

3 - Os membros da sociedade internacional são mais heterogêne­

os do que indivíduos, e essa heterogeneidade é acentuada pelo seu pe­

queno número. Existe uma grande disparidade entre eles em tamanho territorial, posição e recursos geográficos, população, ideais culturais e organização social. "Como já foi dito que todo estado possui um terri­

tório, e que todos eles pretendem exercer a soberania sobre sociedades de indivíduos ligadas a eles por intermédio de vínculo legal da naciona­

lidade, não é difícil pensar em outras características comuns a eles to­

dos"." Não há um estado padrão.

4 - Os membros da sociedade internacional são, em conjunto, imortais. Os estados de fato, vez por outra, morrem ou desaparecem, mas na maior parte dos casos eles ultrapassam de muito a duração da vida humana. São parcerias dos vivos com os mortos e com a posterida­

de. Suas políticas são baseadas na expectativa de sobrevivência, e eles consideram seu dever protegerem seus interesses vitais. Nossa mortali­

dade comum nos torna mais interdependentes do que o seríamos caso isto fosse diferente. Como demonstra a descrição do Olimpo por Homero, uma sociedade de imortais será mais frouxa do que uma de mortais. Tal sociedade não pode facilmente coagir um membro recalci­

trante se o consenso deixa de existir, e não pode pedir a seus membros o sacrifício individual que os estados em determinadas circunstâncias pedem a seus cidadãos. Também não lhe é possível atribuir responsabili­

dade moral a seus membros da mesma maneira que ela é capaz de fazer aos indivíduos. Existem dificuldades morais para se acusar toda uma nação, pois isto faz a maioria passiva sofrer pelos atos da minoria crimi­

nosa, e as gerações futuras pelos pecados de seus antepassados.

A comprovação mais essencial da existência de uma sociedade internacional é a existência do direito internacional. Toda sociedade pos­

sui o direito, que é o sistema de regras que estabelece os direitos e os deveres de seus membros. Em conseqüência disso, aqueles que negam a

Números dessa cvoluca« podcm ser vistos, no Capítulo 5, p. CJ1.

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existência da sociedade internacional começam por negar a realidade do direito internacional. Eles dizem que o direito internacional não é o

"verdadeiro" direito (pois eles definem "direito" de maneira a excluir o direito internacional), ou ainda argumentam que o direito internacional é algo de abstrato, constantemente ignorado na prática pelos estados. E, por outro lado, aqueles que crêem que a sociedade internacional está rapidamente se transformando em algo parecido com a sociedade do­

méstica consideram o direito internacional um tipo de direito "primiti­

vo", rapidamente se tornando mais parecido com o direito interno dos estados." E aqui, mais uma vez, os primeiros ignoram os indícios, e os segundos exageram de forma a que se moldem a suas idéias. () direito internacional é um tipo peculiar de direito; o direito de uma sociedade politicamente dividida em um grande número de estados soberanos. É possível que a lógica histórica do direito internacional seja a de ser ele eventualmente sustentado por um governo internacional, assim como o direito municipal. Mas muitos autores que tendem para esta conclusão apressam-se a acrescentar que um governo internacional está fora de questão e que o direito internacional sempre deve ser o direito entre estados soberanos.

1 - Os objetos do direito internacional são estados, e não indiví­

duos. Somente os estados constituem "pessoas internacionais". A socie­

dade internacional é o total do somatório de todos aqueles que pos­

suem personalidade internacional.

2 - O objetivo do direito internacional é definir os direitos e deveres de um estado que age em nome de seus cidadãos em relação a outros estados. Em outras palavras, esse objetivo não é o de regula­

mentar todo intercurso internacional entre indivíduos, mas sim o de delimitar as respectivas esferas dentro das quais cada estado está habi­

litado para exercer sua própria. Isto significa dizer que ele nunca pode cobrir os assuntos mais importantes relacionados à manutenção do poder político. Estes estão reservados à jurisdição doméstica dos esta­

dos."

\ ()s advogados chamam a isso de lei "municipal" para distingui-la da lei internacional

I Convenção da LIga das Nações, Artigo 15; Carta das Naçóes Unidas, Artigo 2.

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3 - O direito internacional é um sistema de direito costumeiro. É a somatória dos direitos e das obrigações estabelecidas entre os estados por tratados, convenção tácita e costume; e até um tratado, em última instância, depende da regra costumeira para estabelecer que as duas partes comprometem-se a obedecer os seus termos.

4 - A maior parte do direito internacional é constituída por trata­

dos. Estes últimos, contudo, são contratos entre aqueles que os assina­

ram. Se a legislação for definida como a criação de leis por uma pessoa ou por uma assembléia detentora do poder de fazer leis válidas para toda a comunidade, então não existe algo chamado legislação internacio­

nal, pois os tratados somente são obrigatórios para aqueles que os assi­

naram. A sociedade desenvolveu algo comparável à legislação sob for­

ma de tratados multilaterais, que podem tanto se referir a assuntos de interesse geral quanto criar órgãos internacionais. Assim são as conven­

ções de Haia e Genebra a respeito da lei da guerra; mas esses compro­

missos são somente obrigatórios para aqueles que os aceitaram, e de fato muitas vezes não são ratificados por estados cujos representantes já os haviam assinado.

S - O direito internacional não possui agentes para o seu cumpri­

mento, excetuando-se os próprios estados. Ele carece de um executivo, o que significa dizer que a ajuda mútua cooperativa é o máximo de que disporá, para se tornar eficaz. Os membros da sociedade internacional nunca atingem o ponto onde, assim como os bons homens das comuni­

dades de fronteira do faroeste esperando a volta do xerife, precisam

"fazer justiça com as próprias mãos", pois não há xerife e a justiça não se encontra em nenhuma outra mão a não ser as suas. Este é o assunto da famosa piada publicada na revista Punch durante a crise de 1914, quando disseram à velhinha que a guerra parecia iminente e ela retru­

cou: "Ah não, as potências vão intervir".

6 - () direito internacional não possui judiciário com jurisdição compulsória. A Conferência de Haia de 1907 criou a Corte Permanente de Arbitragem, que passou a ser a Corte Permanente de Justiça Interna­

cional sob a Liga e (por uma mudança de nome cansativa e desnecessá­

ria) a Corte Internacional de Justiça sob a ()NU. Mas sua jurisdição, somente abrange os casos cujas partes concordaram em se referirem a

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ela. É verdade que está previsto que os estados reconheçam sua jurisdi­

ção como ipso facto obrigatório em certos tipos de disputa legal, mas essas disputas têm importância reduzida, e a maior parte dos estados que fizeram tal reconhecimento também tolheram-no com reservas de forma a enfraquecê-lo. De fato, o número de casos apresentados à Cor­

te Internacional tem diminuído de maneira constante.

a

aspecto moral e ambicioso do direito internacional transparece melhor no direito da guerra. Em alguns casos ele estabeleceu um pa­

drão ao qual deve se conformar a anarquia internacional, em outros ele foi condescendentemente dobrado por ela. Até a metade do século XVII a política internacional era perseguida pela tradicional distinção cristã entre guerra justa e injusta. É uma distinção muito difícil de ser aplicada na prática, pois em quase todas as guerras cada combatente está convencido da justiça de sua própria causa, e em poucas guerras o observador neutro é capaz de ver toda a justiça concentrada em um único lado combatente. No século XVIII, portanto, passou a ser aceita a idéia de que cada guerra tinha de ser tratada como se fosse justa para ambos os lados; e o direito internacional passou a aceitar a guerra como um relacionamento legítimo entre estados, independentemente da jus­

tiça de sua origem.

Com a Convenção da Liga das Nações, o pêndulo voltou a oscilar.

a

direito da guerra foi modificado de duas maneiras:

1) A Convenção declarava que "qualquer guerra ou ameaça de guerra, afetando ou não diretamente qualquer um dos membros da Liga, está, por meio desta Convenção, declarado assunto de interesse para toda a Liga" (artigo 11). Isto significava que todos os estados estavam em perigo após qualquer perturbação da paz do mundo, e que tanto a Liga coletivamente quanto qualquer potência individual­

mente poderia intervir para impedir tal perturbação.

a

princípio foi popularizado pelo famoso dito de Litvinov: "a paz é indivisível". Se isto significava que dali em diante não poderiam mais haver guerras locais, porque qualquer guerra local imediatamente se transformaria numa guerra total, então está claro que não é verdadeiro: somente a Guerra Sino-japonesa e a Guerra Alemã-Polonesa, até então, se tor­

naram guerras totais, e pelo menos o dobro desse número foi de guer­

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ras localizadas, incluindo uma - a Guerra do Chaco entre o Paraguai e a Bolívia (1933-35) - que nunca chegou a colocar outras potências em perigo. Se isto significava que qualquer guerra local tinha grandes chances de iniciar uma reação em cadeia que poderia culminar em uma guerra total, então estava simplesmente repetindo aquilo que ha­

via ocorrido nos séculos anteriores.

2) A Convenção estabelecia que os membros da Liga tinham de resolver disputas por meio de certos procedimentos pacíficos, e que se um membro da Liga fosse à guerra em desrespeito a esses procedimen­

tos "ele então será considerado ipso facto como tendo cometido um ato de guerra contra todos os outros membros da Liga" (artigo 16). Isto retomava a antiga distinção entre guerras justas e injustas ao fazer de um simples teste processual a base para uma distinção entre guerras legítimas e ilegítimas. Mas a distinção não tinha efeito a não ser que os demais membros da Liga tratassem, na prática, um estado que tivesse recorrido à guerra em desrespeito à Convenção como se tivesse real­

mente entrado em guerra contra todos eles; e lhes faltava a solidarieda­

de moral para agirem dessa forma.

O Pacto Briand-Kellog de 1928 (cujo nome correto era Tratado Geral de Renúncia à Guerra) levava o direito da guerra a um plano ainda mais elevado. Foi assinado pela maioria das potências do mundo e por todas as grandes potências, e elas renunciaram à guerra como um ins­

trumento de política nacional. Mesmo assim, isso não "proscrevia" a guerra por tornar toda guerra ilegal. A guerra continuava a ser legítima entre os signatários do Pacto de Paris e os não-signatários, como no caso do Paraguai, que em 1933 declarou guerra à Bolívia, e que não havia assinado o pacto; ou entre signatários e qualquer outro signatário que tivesse violado o pacto, como no caso da Grã-Bretanha e da França quando declararam guerra à Alemanha em 1939. A guerra continuava a ser legítima como um ato de política internacional, como, por exemplo, numa ação coletiva sob a Convenção ou a Carta das Nações Unidas.

Acima de tudo, a guerra permanecia legítima como um ato de autodefe­

sa. Este era um grande meio de se legitimar a guerra. "Toda nação por si

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só possui competência para decidir se as circunstâncias requerem o re­

curso à guerra em autodefesa", declarou o secretário de estado norte­

americano da época.' Os Estados Unidos declararam que a autodefesa englobava a Doutrina Monroe, e a Grã-Bretanha que englobava a defe­

sa do Canal de Suez. Mais tarde, o Japão declarou que havia efetuado a invasão da Manchúria em autodefesa; e os alemães que foram processa­

dos pela violação do Pacto Briand-Kellog pelo Tribunal dos Crimes de Guerra em Nuremberg fizeram essa mesma alegação. A alegação foi rejeitada, pois ficou decidido que eles eram culpados de promover uma guerra agressIva.

Esse foi o primeiro exemplo na história da sociedade internacional de líderes de uma potência soberana serem julgados por planejar e pro­

mover guerra agressiva definida como crime. Não foi o caso de condená-los de acordo com leis feitas após os eventos, mas sim de acor­

do com a lei estabelecida pelo Pacto Briand-Kellog. O significado moral dos veredictos de Nuremberg também não foi invalidado por terem sido impostos pelos vencedores sobre os vencidos por partes interessa­

das. Tal ponto de vista ignora o papel desempenhado por uma potência política no desenvolvimento da lei e da liberdade: a Magna Carta foi imposta por um baronato rebelde de maneira a codificar seus próprios interesses, e a emancipação dos escravos nos Estados Unidos foi im­

posta aos estados escravocratas como um ato de guerra por parte dos estados abolicionistas. O paradoxo do Pacto Briand-Kellog é mais sim­

ples e mais óbvio. Foi necessário lutar e vencer a maior guerra da histó­

ria para decidir com autoridade que o Tratado Geral para a Renúncia à Guerra havia sido violado. Não poderia haver evidência mais marcante do lugar ocupado pela guerra como uma instituição da sociedade inter­

nacional.

As instituições da sociedade internacional variam de acordo com sua natureza. Podemos enumerá-las como sendo a diplomacia, as alian­

ças, as garantias, a guerra e a neutralidade.

'Nota de n de junho de 192H, citada em I': P. Walt<:rs, /1 History of tbe 1~'a..~ue oi Na/10m, Vol. I, o.UP., Londres, 1952, p. 385.

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A diplomacia é a instituição para negociar. As alianças são institui­

ções para efetivar um interesse comum. O arbitramento é uma insti­

tuição para a resolução de pequenas divergências entre os estados. A guerra é a instituição para a decisão final a respeito das divergências."

I, I~~te capítulo fOI elaborado a partir de um esboço inacabado intitulado "/1 soaedad« mternaao­

na]" e de um fragmento de um capítulo incomplcro intitulado "Guerm c I{('ulm/ir/m/c". () primeiro contém uma parte referente à sociedade internacional, (!ue parece ter sido escrita em 19ó7, e outra sobre o direito internacional, que parece ser mais antiga. Alguma~anoraçócs manuscritas indicam (jue o autor pretendia desenvolver a parte sobre o direito inrcrnactonal. () fra.l,rtnento somente lida com o direito da guerra.

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