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POTÊNCIAS DOMINANTES

No documento DO PODER A POLITICA (páginas 64-76)

C!\ P í T l' J, ( ) I I

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Carlos V, ele tornou-se o mais poderoso da Europa, e rapidamente su­

plantou os franceses na Itália. Por ocasião de sua abdicação, a Espanha foi separada da Áustria, mas os dois ramos da família Habsburgo conti­

nuavam a agir juntos como um eixo dinástico e, assim, ocasionaram duas guerras totais. Filipe II lutou na primeira, que durou de 1572 a 1598, contra uma crescente coalizão dos holandeses (para quem esta era sua guerra de independência), franceses e ingleses. A segunda estendeu-se de 1618 até 1659, tendo início com a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) - que foi uma tentativa por parte da Áustria de unificar a Europa Cen­

tral em nome dos princípios da Contra-Reforma - e continuando com a Guerra Franco-Espanhola de 1635-1659.

No século XVII existiam dois sistemas de relações internacionais na Europa, parcialmente independentes um do outro. Na Europa Oci­

dental, as principais potências eram a Espanha, a França, a Holanda e a Inglaterra; ao norte ao redor do Báltico, as principais potências eram a Suécia, a Dinamarca, a Polônia e a Rússia; e os dois sistemas se entrecruzavam na Alemanha, onde a Áustria era predominante. Suas guerras eram separadas mas interligadas, assim como a guerra da Euro­

pa e do Pacífico, que juntas formaram a Segunda Guerra Mundial. A Suécia tornou-se a potência dominante da Europa do Norte quando Gustavo Adolfo lançou-a na Guerra dos Trinta Anos; e perdeu sua su­

premacia na Grande Guerra do Norte de 1700 a 1721, quando Carlos XII lutou contra uma coalização liderada pela Rússia e que incluiu, em momentos distintos, a Polônia, a Saxônia, a Dinamarca, e a Prússia.

Enquanto a Suécia era a potência dominante no Báltico, a prepon­

derância na Europa Ocidental estava sendo transferida da Espanha para a França, e a supremacia francesa, por sua vez, causou duas guerras totais. A primeira foi a guerra de 1688-1713, na qual Luís XIV foi der­

rotado por uma coalizão da Holanda, Inglaterra e Áustria. A segunda foi a guerra de 1792-1815, quando a Europa do Norte e a Ocidental já haviam se fundido em um único sistema, e a França revolucionária e napoleônica lutou contra a Grã-Bretanha, Rússia, Áustria e Prússia. A preponderância continental passou à Alemanha em virtude de sua vitó­

ria sobre a França em 1870-1871 e, no século XX, a Alemanha, por sua

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vez, empreendeu duas guerras totais contra coalizões das outras potên­

cias. A preponderância continental passou à Rússia, como resultado da segunda dessas guerras.

Essa seqüência fornece o esqueleto político das relações internacio­

nais. De maneira a completar esse quadro, devemos observar que hou­

ve, nos oceanos, uma sucessão de potências dominantes diferente da­

quela observada no continente. A Espanha, por si só, deteve o domínio tanto da terra quanto do mar, e a enorme responsabilidade a destruiu. A França herdou a preponderância continental, mas coube à Holanda a supremacia marítima.

Trade, which like Blood sbould circularfy flow

5 topp 'd in their Channels, found its Freedom Lest;

Thither the Wealth of ali the World did go, And seemed but 5hipwreck'ti on so base a Coast.'

Por essa razão a Inglaterra lutou suas três Guerras Holandesas, e Luís XIV lançou seu ataque destrutivo sobre os holandeses em 1672, uma guerra que reduziu em caráter permanente o poder relativo das Províncias Unidas. A Holanda foi suplantada em predomínio marítimo pela Inglaterra. A aliança anglo-holandesa (que, sob Guilherme IH, era virtualmente uma união pessoal das duas potências) é o exemplo mais claro do que ocorreu regularmente em tais sucessões: o predecessor tornava-se um satélite do sucessor. A Grã-Bretanha manteve-se regu­

larmente em guerra com a França desde a época de Luís XIV até Napoleão em virtude de seus objetivos tanto de resguardar sua supre­

macia marítima, quanto de impedir a dominação francesa do continente europeu. "Os malefícios que resultavam do poder vaidoso que a Espanha havia detido em dias longínquos pareciam estar esquecidos", escreveu o historiador americano Mahan; "esquecida também parecia estar a lição mais recente das guerras sangrentas e caras provocadas pela ambição e

'John Drvdcn, "/ lllll/{J ,\ flrabllú: FI)(' ) ear 0/ Ifí'J!ldC/:r I ooo", 111 I':.N. Hookicr c H, 1'. Swcdcnberg (cds)., File lI'orKJ 0/ [oh» Drvden, Vo1. 1. l 'ruvcrsirv of Califorrna Prcss, 1956, pp. 59-W.

14 MARTIN W]C;HT

pelo poder exagerado de Luís XIV Sob os olhos dos estadistas da Eu­

ropa, havia uma terceira e devastadora potência sendo construída segu­

ra e visivelmente, destinada a ser usada com tanto egoísmo e agressividade, ainda que não tão cruelmente, e com muito mais sucesso do que qualquer um de seus antecessores.":'

A história da predominância da Grã-Bretanha, assim como aquela da maioria das outras potências dominantes, atravessou dois ciclos. O primeiro estendeu-se da derrota de Luís XIV à Revolução Americana.

Conheceu seu ponto máximo durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), quando a Índia e o Canadá foram conquistados, e a . Grã-Bretanha atingiu maior grau de poder relativo do que em qualquer época posterior. Sua supremacia naval e comercial, contudo, despertou tanto inimizades estrangeiras quanto rebeliões coloniais, e, na Guerra de Independência Americana, ela teve de lutar contra uma coalizão com­

posta pelos Estados Unidos, França, Espanha e Holanda, com a Rússia, a Suécia, a Dinamarca, a Prússia e a Áustria numa neutralidade armada hostil para defenderem os direitos das potências neutras. A Grã-Bretanha estava isolada e derrotada, e o seu primeiro Império em frangalhos. Ela recuperou seu predomínio oceânico nas guerras revolucionárias e napo­

leônica. Para os ingleses, tratava-se de um luta generosa para libertar a Europa da tirania de Napoleão. Do ponto de vista descompromissado do Presidente americano, isto parecia diferente. "Duas nações de poder excessivamente grande", escreveu Jefferson em 1807,"estão se esfor­

çando para estabelecer, uma, um domínio universal por mar, a outra, por terra";" e foi contra a primeira, e não a última, que os Estados Uni­

dos eventualmente entraram em guerra. O século XIX foi a idade de ouro da supremacia naval e econômica britânica. Seu capital e seus pro­

dutos manufaturados, bem como o exemplo de suas instituições se es­

palharam por todo o mundo, e a marinha britânica mantinha uma or­

dem mundial rudimentar em praticamente qualquer ponto fora do

1 AT Mahan, Tbe Injluence of Sea POli lerupon J[istory, 1660-1783, Sampson Low, Londres 1890, p.

63.

4 Carta a Jones Maury, 21 de novembro, 1807, em A.E. Bergh (ed.), Tbe W17'tinJ~J ol Tbonras JejJér.ron, Vol. XI, Washington

o.e.

1907, p. 397

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continente europeu. A segunda fase de predominância terminou, con­

tudo, assim como a primeira, no isolamento diplomático. A conquista britânica das repúblicas Boer na Guerra da África do Sul (1899-1902) provocou hostilidade geral na Europa, e a França, a Alemanha e a Rússia estudavam o projeto de uma liga continental para impor limites ao Im­

pério Britânico.

Faltava-lhes, todavia, tanto a força naval para desafiar a Grã-Bretanha quanto um poderoso interesse comum contra ela. A Pax Britannica havia atravessado a transição entre a hegemonia francesa e alemã no continente europeu, e iria desmoronar, não numa segunda guerra total contra a predominância britânica, mas em duas grandes guerras contra a predominância alemã. Já a potência terrestre dominan­

te em 1898, a Alemanha, começou a construir uma grande marinha, de maneira que desafiasse a Grã-Bretanha também no mar. Esta última derrotou a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, ao preço de perder sua própria predominância naval. O diplomata norte-americano Colonel House, enviado pessoal do Presidente Wilson, utilizou, em 1918, lin­

guagem semelhante à de Jefferson, em 1807, ao escrever: "Acredito que os Estados Unidos e outros países não se submeteriam condescenden­

temente à total dominação britânica dos mares assim como não se sub­

meteriam à dominação terrestre alemã, e o quanto antes os ingleses reconhecerem este fato, melhor será para eles".~Na Conferência de Wa­

shington em 1922, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e o Japão puseram-se de acordo quanto a uma força naval à razão de 5:5:3, a Grã-Bretanha aceitando a paridade com os Estados Unidos. O Tratado de Washington expirou em 1936 em conseqüência dos pedidos de pari­

dade advindos do próprio Japão, e, nos anos subseqüentes, os amplos recursos permitiram aos Estados Unidos atingir uma superioridade na­

val somente ameaçada temporariamente pelo ataque a Pearl Harborem 1941. A Segunda Guerra Mundial confirmou os Estados Unidos como potência marítima dominante, e fez da Rússia a potência terrestre domi­

nante.

, C. Scyrnour, Tl« /1//IJJJtI/c fJtljJer.r 0/ CO/OI/e! JlolfJl'. Vol. IV, Lrnest Bcnn, Londres )928, p. 1ú5.

Mas Housc, ao contrário de Jefferson, era capaz de dizê-lo friamente dos brirárucos.

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Se lembrarmo-nos de que uma definição política descreve um mo­

delo, do qual todo exemplo histórico somente se aproxima, poderíamos definir potência dominante como uma potência capaz de medir forças contra todos os rivais juntos. Péricles dizia que o poderio da Atenas imperial, no início da Guerra do Peloponeso, estava no fato de que ela possuía forças navais mais numerosas e eficientes do que aquelas de todo o resto da Hélade." Dessa forma, Luís XIV tomou de Filipe II o orgulhoso lema, Nec Pluribus Impar. um desafio para muitos." No final do século XVII, logo antes do início da Guerra de Sucessão Espanhola,

"a França tinha estado constantemente em pé de guerra, e suas armas haviam sido vitoriosas. Ela havia mantido uma guerra, sem quaisquer aliados, contra as principais potências da Europa aliadas contra ela e havia terminado a guerra com vantagens por todos os lados..."." No momento em que a Holanda se encontrava no auge do seu poderio naquele mesmo século, "estimava-se que eles possuíam mais marinha mercante do que todo o resto da Europa".'> Talvez o exemplo mais per­

feito de potência dominante seja a Grã-Bretanha da metade do século XVIII, que obteve seus triunfos navais por si só contra as marinhas da França e da Espanha juntas, e a França revolucionária e napoleônica, que, sem possuir aliados importantes, derrotou três coalizões militares em quinze anos, antes que a quarta finalmente a derrotasse. Ainda as­

sim, "mesmo que a França seja muito poderosa", disse Pitt em 1802,

"nós temos uma renda igual à de toda a Europa..., uma marinha supe­

rior à de toda a Europa, e um comércio tão formidável quanto o de toda a Europa" - e acrescentou, com ironia, "que isso nos cria, senhores, uma dívida tão grande quanto a de toda a Europa."!"

É um fato extraordinário que Abraham Lincoln, em seu primeiro discurso importante, muito antes de ele próprio ou de qualquer outra

(, B.Jowctt (trads.), Tburydides, Livro I, 143, i, Claredon Prcss, Oxford, 1900, p. 99. Cf. a admissào dos corintos, em Livro I, 122, ii, p. 81.

, Voltairc, nle A.~e oI f .ouisXIf : J.1\1. Dcnt & Sons, Londres 1935, p. 269.

K Bolingbrokc, f etters on lhe Sludy and [ TJe o/ f Iistory, Vol. II, Millar, Londres, 1752, p. 55.

') Jir William Tcrnplc, "( )bsLfvation upon thc Unitcd Provinccs of thc Ncthcrlands"; in The lf'orkJ o/ Jir Willia!l/ Temple. Vol. I, Round, Londres, 1740, p. 60.

I11 Dianes andCorrespondeno: o/ lhef :arlo/ MalmeJbury, Vol. IV, Richard Bcntley, I.ondres, 1844, p. 147.

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pessoa poder prever que ele seria presidente durante a guerra que faria dos Estados Unidos, momentaneamente, a maior potência militar na Terra, tenha descrito a França de maneira semelhante:

"Em que momento devemos esperar a aproximação do perigo?

De que maneira devemos nos fortificar contra ele? Devemos esperar que um gigante militar transatlântico cruze o oceano e nos esmague de um só golpe? Nunca! Todos os exércitos da Europa, Ásia e África jun­

tos, com todo o tesouro do mundo (menos o nosso) em seus baús mili­

tares, com Bonaparte como comandante, não poderiam pela força to­

mar um gole d'água do Ohio ou fazer uma trilha na Blue Ridge em mil anos de tentativas." 11

N a segunda metade do século XIX, quando as rápidas mudanças na construção naval estavam tornando os tradicionais cascos de madei­

ra ingleses obsoletos, a Grã-Bretanha adotou formalmente um padrão em relação a duas potências, almejando uma frota de poderio igual ao da união das duas outras maiores marinhas. A Alemanha, por sua vez, cedeu a esse tipo de comparação. O embaixador alemão observou ao Ministro das Relações Exteriores inglês em 1906 que "a Alemanha se sentia uma nação suficientemente forte para não ser intimidada pela combinação de até duas outras grandes potências.t'" A base dos triun­

fos de Hitler era o fato de que, numa Europa organizada segundo os princípios da nacionalidade, os alemães eram duas vezes mais numero­

sos do que os habitantes da nação a seguir mais poderosa, excetuando­

se a União Soviética. Durante o momento transitório entre a derrota do Japão em 1945 e a primeira explosão atômica russa em 1949, a posição dos Estados Unidos poderia ser descrita em termos similares de supe­

rioridade quantitativa. Os russos, disse um membro do Parlamento bri­

tânico em 1947, sabem que não existem duas grandes potências no mun­

do, mas somente uma. A maior força aérea do mundo, a maior marinha, [, 9.000.000.000,00 em ouro, a bomba atômica, e a maior capacidade

1I Discurso no Young Mcn's I~yceum of Spnngficld, 27 de janeiro de 1838, em P. van Doren Stern (cd.), F!Jc I -iF aut! lY"ritil~!;J 0/ /1/;Tt/!JaIIJ I jllm/JI, Random l Iousc, NO\'a York, 1940, p.

232. I~ssa passagem i: um exemplo do ljUe foi imortalizado por Dickcns no "Program Dcfiancc"

(ver Martin Chuzzlcwit, cap. 34), mas o resto do discurso é muito diferente.

12 (;rey of lallodon, 'JII'I?I!)'-i"iI'C Years, Vol. I, I Ioddcr & Stoughton, Londres, 1925, p. 83.

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produtiva do mundo se concentram nos Estados Unidos, que possuem o maior poderio financeiro, militar e econômico que já existiu em um só país." U

Uma potência dominante, contudo, tem de ser definida em termos de propósitos, assim como em termos de poder. Cada potência domi­

nante está engajada num processo direto de engrandecimento, mas em geral também apela para alguma forma de unidade ou solidariedade in­

ternacional. Henrique V sonhava, como muitos outros conquistadores medievais subseqüentes, em liderar uma cristandade reunificada numa última cruzada contra os turcos. A Casa Habsburgo era, ela própria, uma espécie de organização internacional, uma confederação dinástica de muitos estados (Áustria, Holanda, Espanha, Nápoles, Milão, Boê­

mia, Hungria, Portugal), que defendiam os princípios do catolicismo internacional. Gustavo Adolfo tentou fazer de si próprio o protetor de todos os estados protestantes. Napoleão levou os benefícios da Revolu­

ção Francesa para toda a Europa, e deu nova imagem ao antiquado título de Imperador. A Fax Britannica foi tão eficaz durante o século XIX que era fácil não perceber sua natureza frágil e temporária, e até compará-la ao Império Romano, como se desfrutasse o monopólio do poder. De todas as potências dominantes, Luís XIV e Hitler foram os que menos tiveram a oferecer à humanidade. Ainda assim, Luís XIV era o modelo do monarquismo católico e Hitler (ao lado de quem a arro­

gância de Luís XIV brilha como um sentido soberano do dever) con­

venceu muita gente, mesmo fora da Alemanha, de que seus projetos levariam não só a uma nova ordem na Europa, mas também a uma reconstrução do mundo com base em princípios biológicos. Toda po­

tência dominante aspira, ao pretender dar a unificação política à totali­

dade da sociedade internacional, a se tornar um império universal.

Mesmo assim, as coalizões que destroem as potências dominantes descrevem suas lutas em termos de liberdade e independência. Sua po­

lítica é o equilíbrio do poder; seus atrativos clássicos são "as liberdades da Europa" e "a liberdade dos mares". Elas em geral procuram restabe­

li S.N. lwans, 19 de junho de 1947, na Câmara dos Comuns, Parliamelltar)' Debates, S.ar.Séries,

Vo!. 438, Co!. 2266.

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lecer essas liberdades, ao final de uma guerra total, mediante o patrocí­

nio de um congresso internacional e o estabelecimento de um tratado geral de paz, que permanece a base legal da politica internacional até a próxima guerra generalizada. Congressos dessa ordem têm origem nos conselhos ecumênicos da Igreja. () Conselho de Constança (1414-1418) mostra o moderno sistema de estados sob forma embrionária no ventre da cristandade medieval. Reunido com o objetivo de acabar com o Gran­

de Cisma, esse Conselho preocupou-se tanto com assuntos politicos quanto religiosos; "a última ocasião na qual a totalidade da cristandade latina se reuniu para deliberar e agir como uma única comunidade"!" foi também a primeira ocasião na qual a cristandade organizou-se proces­

sualmente sob a forma de nações. O Conselho de Constança foi a últi­

ma ocasião em que um Imperador presidiu um encontro internacional;

a última vez que o Papa havia presidido tal evento foi no Congresso de Mântua (1459-60), que tristemente falhou em seu objetivo de organizar uma cruzada para libertar Constantinopla dos turcos. O Congresso que criou os Tratados de Westfália entre 1644 e 1648 no final da Guerra dos Trinta Anos foi posteriormente considerado o primeiro dos grandes acordos diplomáticos de paz. Ele concluiu o que ainda é o mais longo período de guerra contínua que o sistema de estados já conheceu. Ao pôr fim à predominância dos Habsburgos, ele deu a independência aos estados da Alemanha, e ao pôr fim às guerras religiosas e retirar o Papa e o Imperador da politica internacional, ele parecia dar a esta última uma base racional. Mesmo assim, ele tinha um precedente no Tratado de Cateau-Cambrésis (1559), que encerrou as guerras contra a hegemonia de Carlos V, e até na pacificação geral de 1516-1518, que pôs fim ao primeiro surto das guerras italianas. Foi seguido pelo Congresso e Tra­

tado de Utrecht (1713) após a derrota de Luís XIV, pelo Congresso de Viena e o Tratado de Paris (1814-1815) após a queda de Napoleão, e pela Conferência de Paris e o Tratado de Versalhes (1919) no final da primeira tentativa de predominância alemã. Não houve acordo geral de paz após a Segunda Guerra Mundial pela mesma razão que não houve

14 J. Brvcc, '['!lc [[0/)' !\Ollltlll [:lIIjJin. National Book Cornpanv, Nova York, 1~~C>, pro 250-51.

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tal acordo após a derrota de Filipe II; em cada um desses casos o final da guerra foi um simples incidente político em meio a um profundo conflito doutrinário, que dividiu o sistema de estados, tornou impossí­

vel um acordo geral sobre sua reorganização, e só permitiu a realização de pequenos ajustes.

A mudança da predominância entre as potências foi em geral re­

gistrada em assuntos de etiqueta e prática diplomáticas: em precedência e reconhecimento, nos títulos dos governadores, nos locais escolhidos para as conferências e na linguagem diplomática oficial. Alguns dos te­

mas perenes da política internacional já eram visíveis no Conselho de Constança. Os bispos italianos constituíam de longe o maior bloco de votação. De forma a contrabalançar sua superioridade numérica, a dele­

gação inglesa propôs o voto por nação. Quatro nações foram então constituídas: os italianos, os alemães (incluindo os outros povos da Eu­

ropa Central e do Norte), os ingleses (incluindo os outros povos das ilhas britânicas) e os franceses. Quando chegou uma delegação provenien­

te de Aragão, os espanhóis constituíram uma quinta nação. Os france­

ses, que estavam sofrendo sob a agressão de Henrique V, propuseram então que como quatro era o número "natural" de nações, e como os ingleses eram claramente inferiores a todos os outros - eles próprios nações multinacionais - os ingleses deveriam portanto ser incorpora­

dos aos alemães, ou o voto por nações deveria ser abandonado. O argu­

mento foi apresentado por razões de propaganda, e não obteve êxito.

Já na época de Luís XlV, o objetivo da diplomacia francesa era de obter a precedência sobre a Espanha: em 1661 houve uma batalha nas ruas de Londres entre os seguidores rivais do embaixador francês e do embaixador espanhol; os franceses foram derrotados; Luís XIV enviou um ultimatum à corte espanhola, e obteve uma declaração solene de pri­

mazia francesa, mas a disputa continuou durante todo seu reinado. Em 1721 Pedro, o Grande, comemorou o triunfo final da Rússia sobre a Suécia assumindo o título de Imperador, até então reservado exclusiva­

mente ao Sagrado Imperador Romano; mas a França não reconhecia a igualdade diplomática da Rússia até o Tratado de Tilsit em 1807, quan­

do ela própria ostentava o título imperial, e essas eram as duas únicas potências que restavam no continente europeu.

Potências Dominantes 21

N os primeiros dias do sistema de estados, as conferências geral­

mente tinham lugar em alguma cidade neutra na fronteira dos estados em guerra: Noyon, Cambrai, Cateau-Cambrésis, Verrins, a ilha dos Fai­

sões no rio Bidassoa, que foi o local do Tratado dos Pirineus, Oliva, Carlowitz, Passarowitz. Isto ocorria principalmente em virtude da con­

veniência de comunicações e em parte devido ao prestígio. Os suecos propuseram, na década de 1640, que a conferência de paz para acabar com a Guerra dos Trinta Anos se reunisse em Münster e Osnabrück, ao passo que o Imperador teria preferido as cidades da Renânia de Speier e Worms.1'i Tal prática tornou a ocorrer em tempos mais recentes: a Guerra Russo-Japonesa terminou em virtude de um tratado negociado em Portsmouth, New Hampshire; e as conversações de paz entre os Esta­

dos Unidos e o Vietnã do Norte nos anos 60 e 70 foram realizadas em Paris, como local neutro. A diplomacia de Luís XIV, arrogante em ou­

tros assuntos, não insistia em não negociar em solo inimigo. Todas as guerras de Luís XIV terminaram com uma conferência em solo inimi­

go: Aix-Ia-Chapelle, Nijmwegen, Rijswijck, Utrecht; assim como as de Napoleão: Campoformio, Amiens. Somente no século XIX a realização de conferências de paz na cidade capital de uma das potências vitorio­

sas, tornou-se uma prática regular.

No século XIX, Napoleão III buscou seguidamente o prestígio de uma conferência internacional em Paris. Após 1871, contudo, quando a Alemanha sucedeu a França como potência dominante, Berlim tornou-se pela primeira vez a sede de encontros internacionais sediando o Con­

gresso de 1878 sobre a Questão do Oriente e a Conferência de 1884-5 sobre a partilha da África. Washington tornou-se sede de uma grande conferência pela primeira vez em 1922 por ocasião do encontro que marcou o final formal da supremacia naval britânica. Stalin se recusava a viajar ao estrangeiro, e insistia que outros chefes de governo viessem encontrá-lo em solo russo (como em Moscou e Yalta) ou numa cidade sob ocupação soviética.

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No documento DO PODER A POLITICA (páginas 64-76)