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GRANDES POTÊNCIAS

No documento DO PODER A POLITICA (páginas 76-90)

"Potência dominante" não é um termo diplomático aceitável. Os demais estados do sistema de estados reconhecem uma potência domi­

nante de fato, seja por colaborarem com ela, seja por se unirem para resistir a ela. A hegemonia, contudo, nunca foi aceita em teoria, exceto dentro do campo limitado de influência da potência dominante, assim como os estados-satélites de Filipe Il, Luís XIV, Napoleão e Hitler concederam-lhes a primazia quando estes últimos atingiram o ponto máximo de seu sucesso, ou ainda como o "papel de liderança" da União Soviética tem sido reconhecido entre os países comunistas desde 1945.

A única distinção palpável, nas inter-relações diplomáticas normais, é aquela entre grandes potências e outras potências. O que é uma grande potência?

Esta é uma das questões centrais da política internacional. É mais fácil respondê-la do ponto de vista histórico, enumerando as grande potências em uma época qualquer, do que fornecer uma definição, pois sempre há ampla concordância de opinião em relação às grandes potên­

cias existentes. Desde a Segunda Guerra Mundial, elas têm sido os Esta­

dos Unidos, a Rússia, a Grã-Bretanha, a França e a China. Em 1939, eram os Estados Unidos, a Grã- Bretanha, a França, a Alemanha, a Itá­

lia, a Rússia e o Japão. Em 1914 eram a Grã-Bretanha, a França, a Ale­

manha, a Áustria-Hungria, a Rússia, a Itália, os Estados Unidos e o Japão. Em 1815, eram a Grã-Bretanha, a Rússia, a Áustria, a Prússia e a

França.

O termo "grande potência" pode ser encontrado em escritos polí­

ticos desde o início do sistema internacional, e cinco grandes potências eram reconhecidas na Itália do século XV: Veneza, Milão, Florença, o Estado Papal e Nápoles. Mesmo assim, o statusde grande potência só se tornou regularmente estabelecido na política internacional por ocasião do Congresso de Viena, que marcou também o início de duas novas

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formas de procedimento. Ele abandonou a velha ordem de precedência entre os soberanos, baseada na antigüidade de seus títulos, que havia se tornado obsoleta pelas revoluções americana e francesa e pela abolição do Sacro Império Romano por Napoleão.

Daquele momento em diante, impérios, reinos e repúblicas passa­

ram a ser todos iguais na classificação diplomática, e uma doutrina a respeito da igualdade entre os estados foi amplamente aceita pelos juris­

tas internacionais. Essa doutrina vinha acompanhada de um corolário que mais tarde ficou conhecido como o voto de unanimidade, ou seja, o fato de que um estado não pode estar legalmente atado a decisões às quais ele não consentiu. Mas em termos de política, em oposição à teo­

ria diplomática e ao direito internacional, o Congresso de Viena substi­

tuiu o antigo sistema baseado no poder. Castlereagh acreditava que o controle do Congresso deveria estar nas mãos das "seis potências mais importantes em população e peso", ou seja, Grã-Bretanha, Rússia, Áus­

tria, Prússia, Espanha e a França derrotada, mas a Espanha saiu da cor­

rida. Na prática, os quatro aliados administraram o congresso, e as pe­

quenas potências, após registrarem protestos, concordaram com as decisões tomadas pelas primeiras. Durante os cem anos seguintes, "as potências" passou a significar as grandes potências, e o concerto das potências governou o mundo de maneira titubeante.

Esse é o exemplo mais famoso na história internacional da ten­

dência por parte das grandes potências de se juntarem numa espécie de diretório para impor sua vontade ao sistema de estados. Elas geralmen­

te justificam suas ações alegando a manutenção da paz e da segurança.

Estas são, contudo, duas palavras de significado ambíguo na política do poder: temos de nos perguntar a quem pertence a segurança em ques­

tão, e à custa de quem ela é obtida. A partilha da Polônia pela Prússia, Rússia e Áustria (1772-95) teve como desculpa o fato de que preserva­

ria a paz entre as potências que executaram tal divisão. A partilha da Tchecoslováquia com o consentimento francês e britânico, em Muni­

que, em 1938, foi descrita por Chamberlain como "a paz com honra".

Quando a Alemanha e a Rússia fizeram a quarta partilha da Polônia em 1939, assinaram um tratado de amizade declarando que haviam criado

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"uma base segura para uma paz duradoura na Europa Oriental". Quan­

do a Grã-Bretanha e a França atacaram o Egito em 1956, justificaram-se de várias maneiras, alegando que estariam separando as forças egípcias e israelenses, protegendo o Canal de Suez, e impedindo que a guerra entre Egito e Israel se alastrasse. A história pouco oferece para susten­

tar a asserção, defendida pelas grandes potências, de que elas são mais controladas e responsáveis do que as potências menores. Ao invés dis­

so, a história sugere que as grandes potências desejam monopolizar o direito de criar conflitos internacionais. O concerto das potências é freqüentemente apontado como o responsável por não ter havido guer­

ra total na Europa de 1815 a 1914 e, de fato, seria insensato censurar os padrões de moderação diplomática e de boa-fé que o concerto ajudou a desenvolver. A pacificação da Europa, contudo, deve-se menos à atua­

ção do concerto do que à existência, naquela época, de oportunidades aparentemente ilimitadas de expansão independente fora da Europa para a Grã-Bretanha, a Rússia e a França, enquanto a Prússia mantinha-se ocupada na conquista da Alemanha. Quando a expansão externa come­

çou a chegar ao fim, as grandes potências lançaram-se umas sobre as outras na Europa, e o concerto desmoronou nas crises que levaram à Primeira Guerra Mundial.

A Conferência de Paris de 1919 repetiu a experiência do Congres­

so de Viena. As principais potências aliadas e associadas (como intitulavam-se os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França, a Itália e o Japão) tomaram as decisões principais antes de submetê-las aos demais participantes da conferência, pois se trinta potências, ao invés de cinco, tivessem a oportunidade de discutir, não se teria chegado a decisão al­

guma. Na primeira sessão plenária, as pequenas potências protestaram, e Sir Robert Borden, o Primeiro-ministro canadense, indagou em nome delas: "quem chegou a essas decisões, e sob que autoridade?".

Clemenceau, presidente da conferência, respondeu com desprezo às reclamações das pequenas potências. Em primeiro lugar, ele lembrou a elas que a decisão tanto de patrocinar uma conferência de paz quanto de convidar as nações interessadas havia sido tomada pelas grandes potências, e, em segundo lugar, que estas últimas possuíam doze mi­

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lhões de homens em armas ao final da guerra: "isto lhes dá o direito de serem respeitadas".' De forma que se justificasse esse procedimento, foi efetuada uma distinção entre potências com "interesses gerais", ou seja, as grandes potências, e potências com "interesses limitados", ou seja, o resto. O statusde grande potência obtinha primeiro o reconheci­

mento legal, o que conferia, ao mesmo tempo, o direito de possuir um assento permanente no Conselho da Liga das Nações. Como as grandes potências têm interesses mais amplos e maiores recursos do que as pe­

quenas, o dever de resolver assuntos internacionais deve também ser delas; e esperava-se que de grandes potências passariam a ser, como já foi dito, grandes responsáveis. Dessa forma, a Liga das Nações possuía dois órgãos: a Assembléia, onde todos os estados-membros estavam representados, e o Conselho, destinado primeiramente a ser um comitê executivo das grandes potências; mas além dos assentos permanentes das grandes potências, havia quatro assentos não-permanentes destina­

dos às pequenas potências eleitas pela Assembléia. Esses assentos pro­

visórios foram objeto de muitos ciúmes diplomáticos pois, após o Acordo de Paz de 1919, existiam várias potências semigrandes, cada qual que­

rendo ser reconhecida como grande potência. A Polônia, com uma po­

pulação superior a trinta milhões, se considerava mais próxima da Grã-Bretanha, da França e da Itália, cada qual com aproximadamente 40 milhões de habitantes, do que da Lituânia com seus dois milhões. O Brasil, com uma população de tamanho semelhante à da Polônia, era a mais importante potência americana em Genebra, uma vez que os Esta­

dos Unidos haviam decidido não fazer parte da Liga. A Espanha era uma ex-grande potência e, de certa forma, o líder dos estados hispano­

americanos. Quando a entrada da Alemanha na Liga foi negociada em Locarno em 1925, com a promessa de um assento permanente no Con­

selho, o que seria próprio para uma grande potência patente, a Polônia, a Espanha e o Brasil declararam que se oporiam à admissão do ex-inimigo, a não ser que lhes fossem também conferidos assentos permanentes no

l ord Hankey, Tbe SupmJle COIJ/IJ/and, Allen & Unwin, Londres, 1963, p. 46; H.Wv. Tcmpcrley (ed.), A Historv 0/lhe Peace Confirma 0/Paris, Vol. 1,o.u.P, Oxford, 1920, p.249; veja também H.J.

Mackinder, Democratic /deal.r and Realzjy, Holt, Nova York, 1950, Apêndice, pp. 207-8.

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Conselho. A China, por sua vez, já pensando no futuro, levantou o ar­

gumento que "ao considerar uma nação uma grande potência, devemos levar em conta exclusivamente suas potencialidades econômicas e posi­

ção geográfica". Essa querela indigna terminou com a renúncia do Bra­

sil à Liga, com o afastamento da Espanha dos trabalhos da Liga, e com a pacificação da Polônia pela criação de assentos quase-permanentes no Conselho, dos quais ela ocupou o primeiro. Mesmo assim, dentro de poucos anos a Alemanha transferiu os argumentos para obter status de grande potência da sala de conferências para o campo de batalha, e reivindicações enfadonhas acabaram sumindo rapidamente - no final, até mesmo as suas próprias.

A Segunda Guerra Mundial acentuou a preeminência diplomática e legal das grandes potências. Durante a guerra, os Estados Unidos, a Rússia e a Grã-Bretanha concordaram em criar uma nova organização internacional, que entraria em funcionamento quando a guerra acabas­

se. Eles convidaram a China para a Conferência de Dumbarton Oaks em 1944, onde foi elaborada a Carta das Nações Unidas, e convidaram tanto a China quanto a França para juntarem-se a elas como potências patrocinadoras da Conferência de São Francisco de 1945, onde a Carta foi assinada. A título de prestígio, a França recusou-se a ser uma potência patrocinadora) mas, assim como as outras quatro potências, aceitou um assento permanente no Conselho de Segurança, A Organização das Nações Unidas confere às grandes potências uma posição mais forte do que gozavam na Liga, e também elimina a regra de unanimidade) que havia sido mantida na Liga das Nações de forma a conciliar a opinião americana. A Carta das Nações Unidas estabelece o voto de maioria tanto no Conselho de Segurança quanto na Assembléia Geral e, ao con­

ferir às grandes potências o poder de veto no Conselho de Segurança, restringe exclusivamente a elas a proteção da regra de unanimidade." As doutrinas da igualdade e da unanimidade haviam sempre sido fictícias,

2 A Convenção modificou ligemlmcntl' a regra da unanimidade ao impedir que um partido disputas­

se voto em dcrcrrmnadas circunsráncms: ver artigos 1S e 16 da Convcncào, e compare com os Artigos, 3, 4 e 11. Nas Nações t 'nidas, o Conselho de Segurança decide por uma maioria de sete de um total de onze membros, com o voto harmonioso dos membros permanentes; a Assembléia Geral decide por maiona de doIS terços. Ver i\rt1goS I H (2) e 27 (3) da Carta.

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mas eram moralmente superiores a qualquer outra doutrina que colo­

casse as grandes potências acima da lei que deveriam impor às demais.

Mesmo assim, é igualmente fictício falar-se hoje das grandes po­

tências em termos dos membros permanentes do Conselho de Segu­

rança. Em primeira instância, é óbvio que as grandes potências não são grandes potências pelo simples fato de possuírem o direito de veto no Conselho de Segurança, mas o são justamente porque foram capazes de dar a si próprias o direito do veto. Em segundo lugar, é também óbvio que todas elas não possuem forças comparáveis. O homem comum é da opinião prática de que só existem duas grandes potências no mundo - os Estados Unidos e a União Soviética - e evita a denominação for­

mal ao inventar novos termos - tais como "superpotência" - para des­

crever aquelas potências que a ele parecem indubitavelmente ser as maiores. Dizer que uma grande potência é aquela que é reconhecida como tal por seus contemporâneos só revela parte da verdade. Esse reconhecimento poderá conter um elemento de desejo ou convencio­

nal, da mesma forma que as Três Grandes cooptaram a China e a Fran­

ça no final da Segunda Guerra Mundial. A verdade que faltava foi expri­

mida pelo jovem Napoleão, quando afirmou que a República Francesa revolucionária no auge de suas vitórias precisava "tanto ser reconhecida quanto o Solo precisa",' e ainda pelo estadista russo do século XIX que afirmou que "uma grande potência não espera pelo reconhecimento, ao invés disso, revela-se"." Assim sendo, Kruschev comentou, após uma visita a Pequim em 1958, que a política de ignorar a China não fazia sentido: "Esta grande potência existe, se fortalece, e está se desenvol­

vendo alheia ao fato de ser ou não reconhecida por certos governos".s A existência daquilo que é reconhecido determina o ato de reconheci­

mento, e não vice-versa. Dessa forma, a classe das grandes potências pode ser vista por dois enfoques diferentes, dependendo de como as consideramos: formal ou substantivamente. Em decorrência disso, é

; Hegel, PIJi/OJojJfJy 0/ ~~fJt, Additions, T.M.I'-nox (trad.), Clarcndon Prcss, Oxford, 1942, pará­

grafo .1.11, p. 297.

4 Cortchakov, "une grande puissance nc se rcconnait pas, cllc se revele", em O, von Bismarck, RtjlediollJand RelllinúcenceJ, Vol. I, A.J. Buflcr (rrad), Smith Elder, 1R98, p. .102.

, "J'IJe C;uardian, C> de agosto de 1l)5R, p. 1.

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provável que em qualquer momento existam potências em ascensão ou em declínio e, numa época de mudanças revolucionárias, que o reco­

nhecimento formal siga atrás do aumento ou do declínio do poder.

A auto-revelação de uma grande potência é completada pela guer­

ra. Se nos perguntarmos quando as grandes potências mais antigas ­ tais como a França, a Espanha e a Áustria - obtiveram suas posições, encontraremos a resposta mais satisfatória no lento processo de amalgamação territorial decorrente das heranças dinásticas. Apesar dis­

so, pelo menos desde a época da Paz de Westfália, tem sido verdade que, assim como os caçadores de cabeças de Bornéu tornam-se adultos após caçar sua primeira cabeça, uma potência atinge o nível de grande potência por intermédio de uma guerra bem-sucedida contra outra gran­

de potência. A Inglaterra desempenhou o papel de uma grande potên­

cia sob Elisabeth 1 e sob Cromwell, mas caiu na dependência da França sob os Stuarts restaurados, até que, em 1688, Guilherme III os depôs e colocou a Inglaterra à frente da coalizão contra Luis XIV A Revolução Gloriosa não só estabeleceu as liberdades inglesas mas também iniciou a guerra que fez da Grã-Bretanha uma grande potência. A Rússia tornou-se uma grande potência por intermédio do ataque de Frederico, o Grande, à Áustria em 1740 e da bem-sucedida defesa de seus ganhos na Guerra dos Sete Anos (1756-63). A Itália tornou-se uma grande po­

tência por cortesia após sua unificação e contraiu um complexo de inferioridade nacional por nunca ter conquistado tal lugar por intermé­

dio de uma guerra (Bismarck comentou que a Itália "tem dentes tão ruins e um apetite tão grande"). A conquista da Abissinia em 1935-1936 foi um ato desesperado de auto-afirmação, e a ênfase de Mussolini no

"estado de sitio pelos cinqüenta estados sancionadores" consistiu em uma tentativa de colocar o status italiano de grande potência acima de qualquer questionamento posterior por intermédio do prestigio conse­

guido ao haver desafiado uma coalizão mundial. A coalizão e o prestigio mostraram-se, todavia, igualmente espúrios. O Japão tornou-se uma grande potência após sua vitória sobre a Rússia na Guerra Russo-japonesa (1904-1905). A China passou a ser grande potência em virtude de sua indomável resistência ao Japão durante a longa luta de 1931 até 1945, e

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confirmou sua posição pelas derrotas que impôs aos Estados Unidos na Guerra da Coréia (1950-53).

Tanto em relação a isso quanto em outros respeitos, os Estados Unidos são excepcionais. Sua conquista do status de grande potência é às vezes tida como decorrente da Guerra Hispano-Americana de 1898, com o estabelecimento de um protetorado sobre Cuba e a anexação de Porto Rico e das Filipinas. O decadente Império espanhol não constituía, contudo, vítima adequada, e um julgamento mais realista considera o início dessa conquista a partir do gigantesco conflito interno da Guerra Civil (1861-5) uma geração antes da Guerra Hispano-Americana. Alguns anos mais tarde, o maior dos historiado­

res americanos - que durante a Guerra Civil tinha sido secretário particular na legação americana em Londres - relembrou com emo­

ção romântica o momento decisivo da guerra em Gettysbury e Vicksburg em julho de 1863:

"Pouco a pouco, no princípio somente aparecendo como um esboço daquilo que poderia ser se as coisas fossem feitas correta­

mente, começávamos a sentir que, em algum lugar por trás do caos em Washington, o poder começava a tomar forma; que era massificado e guiado como não havia sido anteriormente ... Quando os primeiros grandes golpes começavam a ser dados, contorcíamo-nos na cama no silêncio da noite, para ouvir, cheios de esperança, incrédulos. Quando as enormes massas golpearam, uma após as outras, as massas oponen­

tes, o mundo todo tremeu. Tal desdobramento de poder ainda era desconhecido. A resistência magnífica e os golpes devolvidos aumen­

taram a ansiedade. Durante os dias de julho os londrinos estavam bobos de incredulidade. Os ianques estavam ensinando-os a lutar.?"

A Guerra Civil deixou os Estados Unidos momentaneamente a potência militar do mundo e antes que esse poderio fosse dispersado, já havia obrigado Napoleão In a abandonar sua tentativa de construir um

(, Tbe hducation 0/Henr» Adams, Constablc, Londres, 1919, p. 169. Veja também I,. Oppenheim, lntemationai Lan, Longmans, 1912. Vol. I, pp. 48 c 70, c edições subseqüentes.

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império católico no México. O status de grande potência pode ser perdi­

do, assim como pode ser ganho, por intermédio da violência. Uma grande potência não morre em seu próprio leito. Ela pode às vezes perder sua posição numa guerra que, mesmo fazendo-a vitoriosa, deixá-la-á sobre­

pujada por um aliado mais poderoso. Este foi o caso da Holanda após a guerra contra Luís XIV, quando aquela nação caiu na dependência da Grã-Bretanha, da mesma forma como própria Grã-Bretanha caiu na dependência dos Estados Unidos após a guerra contra Hitler. Mesmo assim, na maioria das vezes, uma grande potência sucumbe após sofrer uma derrota. A Suécia deixou de ser uma potência após sua derrota para a Rússia na Grande Guerra do Norte; assim como a Turquia, após sua derrota também para a Rússia na guerra de 1767-1774. A Espanha nun­

ca voltou a ser uma grande potência após ter sido subjugada por Napoleão em 1808, e a história provavelmente dará o mesmo veredicto à França após sua sujeição a Hitler em 1940. A Itália abandonou qualquer pre­

tensão de ser uma grande potência após a Segunda Guerra Mundial.

Mesmo assim, é possível deixar temporariamente de ser uma grande potência. A Prússia perdeu sua posição na catástrofe de lena em 1806, mas recuperou-a na Guerra de Liberação em 1813-14. A França perdeu a sua posição em 1815, mas também recuperou-a quando foi admitida no concerto das potências no Congresso de Aix-la-Chapelle em 1818. A Rússia foi posta fora de ação por sua derrota em 1917, e a Alemanha em 1918; mas a Alemanha recuperou sua posição na Conferência de Locarno em 1925, e a Rússia quando entrou para a Liga em 1934. O Japão pôs em jogo seu status de grande potência, e a Alemanha o seu, pela segunda vez, em virtude de suas derrotas desastrosas na Segunda Guerra Mundial. Acredita-se às vezes que sejam capazes de recuperar suas posições, mas parece claro que o Japão nunca mais representará um desafio para a China, e nem a Alemanha para a Rússia. Não existem exemplos de uma segunda ressurreição após uma derrota total.

A definição de uma grande potência que mais se aproxime da realidade tem de ser uma definição histórica, estabelecendo o fato de que "grande potência" é a potência que fez tais e tais coisas. Uma

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definição científica, que estabeleça os atributos que uma grande po­

tência deve possuir, será, por sua vez, uma abstração até certo ponto fora de nossa complicada e pouca manejável experiência política. Tal­

vez seja considerado óbvio o fato de que uma grande potência é mais forte do que o estado-padrão em relação a pelo menos alguns dos componentes do poder: em população, extensão do território, recur­

sos industriais, organização social, tradição histórica e aspiração à gran­

deza. Mas isto em relação a alguns desses componentes, à maioria, ou a todos? E mais forte até que ponto? E qual é o estado-padrão? Os critérios militares de uma grande potência têm mudado constante­

mente. Na Conferência de Yalta, em 1945, Churchill apoiou a objeção de Stalin em admitir a França nas discussões dos Três Grandes, ale­

gando que estes últimos constituíam "um clube muito exclusivo, cuja taxa de admissão era de pelo menos 5.000.000 de soldados ou o equivalente"." A própria Grã-Bretanha mal possuía tal taxa de admis­

são, mesmo naquela época, e desde então essa taxa tem sido aumen­

tada com uma rapidez desconcertante. As potências ocidentais propu­

seram, nas negociações de desarmamento de 1955, que os Estados Unidos, a Rússia e a China deveriam cada qual possuir 1.500.000 homens em suas forças armadas durante períodos de paz, e que a França e a Grã-Bretanha ficariam bem atrás, não ultrapassando 750.000 homens. Além disso, o Sr. Calvocoressi sugeria que as três potências

"milionárias", como ele as chamava, seriam agora as grandes potên­

cias." Harold Macmillan dizia que a Grã-Bretanha tinha de confirmar sua posição de grande potência mediante a fabricação da bomba-H.') Outros afirmaram que o maior teste para uma grande potência seria sua capacidade de lançar um veículo ao espaço.

Tais declarações nos informam sobre a força militar e os equipa­

mentos mecânicos que uma grande potência deve possuir hoje em dia, mas não nos dizem qual é a característica permanente de uma

J. I'. Byrncs, .\jxakit{g J'ránk/j', fIeincmann, I.ondres, 1947, p. 25.

" P. Calvocoressi, Tt» JLstener. 28 de julho de 1955, p. 132.

') Discurso na Câmara dos Comuns, 23 de fevereiro de 1958, em Parliamentary Debates, 5, Sénes, Vo!. 582, co!. 2305.

No documento DO PODER A POLITICA (páginas 76-90)