• Nenhum resultado encontrado

POTÊNCIAS

No documento DO PODER A POLITICA (páginas 54-64)

A política do poder é um termo coloquial para designar Política Internacional. Teremos chance, mais adiante, de ponderar até que ponto é um termo apropriado, mas comecemos por considerar seu valor nominal. Ele tem o mérito de apontar para uma verdade central a respeito das relações internacionais, ainda que deixe certas outras coisas fora de foco. Mesmo que possa ter outras nuanças, "a política do poder" sugere as relações entre potências independentes, e consi­

deramos este estado de coisas como existente. () termo implica duas condições. Em primeiro lugar, existem unidades políticas independen­

tes que não reconhecem superior político e que se consideram "so­

beranas"; em segundo, existem relações contínuas e organizadas entre elas. Isto constitui o sistema de estados moderno. I Temos as unidades independentes, que chamamos de estados, nações, países ou potên­

cias, e temos um sistema de relações contínuas altamente organizadas entre elas: relações políticas e econômicas, diplomáticas e comerciais, ora a paz ora a guerra.

Lembrar que este estado de coisas não constitui, de forma alguma, a regra na história nos ajudará a compreendê-lo. O atual sistema de estados existe desde aproximadamente o início do século XVI, e temos a ilusão de que isto é normal. Se olharmos para o período que antece­

deu aquele século, contudo, perceberemos que foi precedido por algo diferente. Nos séculos Xl ou XII não havia estados soberanos que re­

pudiassem qualquer poder político superior, pois a concepção de sobe­

rania não era conhecida. Ao invés disso, existia, em teoria, uma única unidade jurídica conhecida como Cristandade, e presidida, nos assuntos eclesiásticos (que incluía grande parte daquilo que hoje constitui a

"po-I ( ) autor define ()sistema de estados com mais profundidade em ,\)'.Ikll/J 0/ \'taIeJ, lciccstcr l'ni\'ersity

Prcss e London School of I':c0!10mICS, 1977, Capítulo I, "De Systematibus Civitarum".

2 MARTIN WIClIT

lítica"), pelo sucessor de São Pedro em Roma. Os inumeráveis reinos, feudos e cidades que compunham a Cristandade medieval não reivindi­

cavam - talvez por estarem organizados de maneira demasiadamente imperfeita para reivindicar - sua independência política nos termos ab­

solutos do estado soberano moderno. A Cristandade possuía, mesmo assim, relações externas de comércio e guerra com as potências maometanas além do mar Mediterrâneo e com o Império Bizantino do outro lado do mar Jônico. Esses relacionamentos demonstravam, em grande parte, seguir os mesmos princípios daqueles do moderno siste­

ma de estados, mas não eram contínuos e organizados na mesma escala.

Se olharmos para períodos ainda mais distantes, após um intervalo de confusão e migrações, veremos mais uma vez algo diferente: outra uni­

dade jurídica individual, ocupando uma posição geográfica um pouco diferente da Cristandade - o Império Romano. Era um estado centrali­

zado com um soberano único, absoluto e divino, ao invés de uma con­

federação frouxa e de autoridades limitadas. Possuía também relações diplomáticas e fazia guerra com os Impérios da outra margem do Eufrates, e até comerciava com a longínqua China, mas esses contatos eram ainda mais intermitentes e irregulares do que aqueles que a cris­

tandade mantinha com bizantinos e muçulmanos.

Voltando-nos para períodos anteriores ao do Império Romano, vemos o panorama familiar de um grupo de estados independentes em guerra, cidades resplandecentes e reinos vastos, cada qual cioso de sua liberdade e com ambições de expansão, lutando e conspirando, fazendo alianças e promovendo conferências, para serem todos finalmente con­

quistados, pacificados e engolidos pelo mais poderoso dentre eles: a República Romana. Esse caleidoscópio político das eras grega e helenística parece moderno aos nossos olhos, ao passo que a imensa majestade da paz romana e da unidade cristã do mundo medieval pare­

cem remotas e estranhas. As obras políticas do período grego da Anti­

güidade permaneceram clássicas pois sua relevância e permanência fo­

ram, sucessivamente, reconhecidas por cada nova geração. Uma das obras de suprema importância sobre a política do poder é a história da grande guerra entre Atenas e Esparta, comumente conhecida como a Guerra do Peloponeso relatada por Tucídides. Era isso que o General Marshall

Potências 3

tinha em mente quando discursou na Universidade de Princeton, em 1947:

"Tem sido dito que devemos nos interessar pelo passado so­

mente como um guia para o futuro. Eu não estou plenamente de acor­

do com essa posição. Geralmente, após a compreensão profunda do passado, com suas liçôes e sua sabedoria, vemo-nos munidos de con­

vicções que inflamam nossa alma. Eu me pergunto seriamente se um homem pode refletir com total sabedoria e com convicções profundas em relação a certas questões internacionais básicas de hoje, sem ter pelo menos revisto em sua mente o período da Guerra do Peloponeso e da queda de Atenas." 2

A política do poder no sentido de política internacional surgiu, pois, quando a Cristandade medieval se dissolveu e nasceu o estado moderno e soberano. No mundo medieval, existiam autoridades tribais e nacionais nascentes que modelaram as nações modernas da Europa e que constantemente lutavam entre si. No auge da Idade Média, os dois maiores potentados - o Papa e o Imperador - trava­

ram, entre si, uma guerra de duzentos anos pela supremacia (1076-1268). Este conflito por si só destruiu o equilíbrio da socieda­

de medieval, e levou a uma revolução na política que culminou na Reforma. Obviamente, foi uma revolução das lealdades. O homem medieval mantinha uma lealdade costumeira em relação ao seu supe­

rior imediato feudal, com cuja autoridade ele estava em contato constante. O homem medieval mantinha também uma obediência religiosa costumeira à Igreja, dirigida pelo Papa, e que governava cada aspecto de sua vida; mas a lealdade desse homem junto ao Rei - a quem ele provavelmente nunca tinha visto e raramente sabia de seu paradeiro - era mais fraca do que as duas anteriores. Em seu devido tempo, o Rei eliminou os barões feudais e desafiou o Papa, tornando-se o protetor e paladino da luta contra a desordem e a opressão internas e contra um sistema eclesiástico exigente e cor­

~ Discurso em 22 de fevereiro de 1947, 1Il Depar/!JIen! 0/S!a/f 13u//dill, \'01. 16, p. 391.

4 MARTIN Wl(;/IT

rupto, cujo quartel general estava localizado no exterior. Expandiu-se o círculo interno e diminuiu o círculo externo de lealdades do ho­

mem comum, de maneira que ambos se encontraram na região onde a lealdade era anteriormente difusa.

Dessa forma, surgiu o estado moderno; um vínculo de lealdade mais estreito e ao mesmo tempo mais forte do que na época da cris­

tandade medieval. Em geral, o homem moderno tem demonstrado maior lealdade ao estado do que à Igreja, à classe social, ou a qualquer outro laço internacional. Uma potência é um estado moderno e sobe­

rano em seu aspecto externo, e quase pode ser definido como a lealda­

de máxima em defesa da qual os homens hoje irão lutar. De forma mais fundamental, houve uma mudança na estrutura moral da políti­

ca. A política medieval estava calcada num sentimento profundo de unidade política e social, que enfatizava a importância do todo, em oposição à parte. A política medieval preocupava-se em definir ou interpretar uma hierarquia onde cada indivíduo possuía, teoricamen­

te, seu lugar, desde o Papa e o Imperador até o barão feudal mais desprezível. "A história medieval", disse o historiador Stubbs, "é uma história de certos e errados; a história moderna, se comparada com a medieval, é uma história de potências, forças, dinastias e idéias ... As guerras medievais são, via de regra, guerras por direitos. Raramente são guerras não-provocadas, e nunca são por agressão absolutamente injustificável; não são guerras por idéias, liberação, glória, nacionalida­

de, ou ainda por propagandismo"." No moderno sistema de estados, o sentimento de unidade passou a ser rarefeito pois formou-se um grande número de estados independentes uns dos outros, e o entendi­

mento a respeito dos padrões morais tem sido enfraquecido pelas dis­

putas doutrinárias na Europa e pela expansão do sistema de estados para além da Europa. Parece que a "sociedade internacional" não pas­

sa de uma etiqueta para os estados soberanos, e que o todo nada mais é além da soma das partes. O panorama político medieval via o abis­

mo entre os ideais e os fatos como uma condenação de tais fatos, não

\ W Srubbs, Xereutea: I .cctures 01/ tbeStudy o/Aledie/'{//andAlodem f listory, Clarcndon Prcss, Oxford, 1886, pp. 209-217.

Potências 5

das idéias. A atitude política moderna está melhor expressa nas pala­

vras de Bacon: "Muito devemos a Maquiavel e outros, que escrevem sobre aquilo que os homens fazem e não sobre o que eles deveriam fazer.t"

O poder que faz uma "potência" é composto de muitos ele­

mentos. Seus componentes básicos são o tamanho da população, posição estratégica e extensão geográfica, recursos econômicos e produção industrial. Temos de acrescentar, a esses últimos, elemen­

tos menos tangíveis, tais como a eficiência administrativa e financei­

ra, o aprimoramento educacional e tecnológico e, acima de tudo, a coesão moral. Grandes potências do passado que sofreram um declínio, como a Grã-Bretanha e a França, ou potências que ainda não atingiram grande poder, como a Índia, naturalmente enfatizam o valor da maturidade política e da liderança moral, ainda que essas expressões provavelmente tenham mais peso dentro de suas pró­

prias fronteiras do que fora delas. Em períodos de tranqüilidade internacional esses fatores imponderáveis podem exercer grande in­

fluência. Apesar disso, assim como na política interna influência não significa governo, na política internacional influência não significa poder. No final, é o poder concreto que resolve as grandes questões in ternacionais.

Quando indivíduos têm aversão a Bismarck por causa de seu realismo, o que realmente lhes desagrada é a realidade. Tomemos sua frase mais famosa: "As grandes questões de nossa época não serão solucionadas por resoluções e votos majoritários - este foi o erro dos homens de 1848 e 1849 - mas por sangue e ferro". Quem pode negar que isto seja verdadeiro como uma declaração de fatos?

() que solucionou a questão da dominação nazista da Europa ­ resoluções ou os exércitos aliados? () que solucionará a questão da Coréia - votos majoritários em Lake Success ou o poderio america­

no? Isto é muito diferente do que dizer que os princípios e as convicções são ineficazes. Eles podem ser extremamente eficazes se

~ l-rancis Bacol1, /ldl'ilI/iPI//I'I/! 0/ l.l.'rlrJliJ{i!,. I.ivro 11, XXI, 9.

6

traduzidos em termos de sangue e ferro e não só em termos de resoluções e votos majoritários.'

A coesão moral das potências é freqüentemente discutida em termos de nacionalidade ou de nacionalismo. Isto pode, contudo, pro­

vocar confusões, pois essas palavras possuem vários significados. Em primeiro lugar, uma nação, em seu significado mais antigo, significa um povo que supostamente possui ascendência comum e está organi­

zado sob um mesmo governo. Aqui a palavra nação é quase intercambiável com as palavras estado ou poder; era anteriormente possível considerar nações a República de Veneza ou o reinado da Prússia. Esta acepção é ilustrada pela frase "a lei das nações", e ainda sobrevive no adjetivo "internacional". Em segundo lugar, após a Re­

volução Francesa, a palavra nação passou a designar, na Europa, uma nacionalidade, ou seja, um povo com a consciência de uma identidade histórica expressa por uma língua distinta. A Itália, a Alemanha ou a Polônia eram nações segundo essa acepção, ainda que cada qual esti­

vesse dividida em muitos estados; e os impérios habsburgo e russo eram potências "multinacionais". O princípio da autodeterminação nacional afirma o direito de cada nacionalidade formar um estado e transformar-se numa potência, e o acordo de paz de 1919 procurou reorganizar a Europa de acordo com tal princípio. Em terceiro lugar, desde a Primeira Guerra Mundial, na África e na Ásia, a palavra nação passou a significar uma unidade política defendendo seu direito à condição de estado independente em oposição à dominação européia.

Algumas dessas unidades são antigas civilizações, como a Índia ou a China; algumas são reinos históricos, como a Etiópia ou a Pérsia;

outras - os estados árabes, por exemplo - são fragmentos de um grupo lingüístico mais amplo, e a maioria delas, como a Indonésia e Gana, foram criadas por administradores coloniais europeus. Em ter­

mos de nacionalidade, contudo, um maior número dessas unidades se parece mais com o Império Habsburgo do que com a Irlanda ou a Dinamarca. Elas possuem tanto as paixões do segundo tipo de nação,

-, A.J. P. Taylor, RullJours o/lftU; Hamish Hamilton, Londres, 1952, p. 44.

Potências 7

quanto a diversidade social do primeiro. Das cinco grandes potências nominais que sobrevivem até hoje, somente a França chega perto de constituir uma nacionalidade homogênea; o Reino Unido é a união política das nações inglesa, escocesa, galesa e norte-irlandesa, e os Estados Unidos representam uma tentativa única de se criar uma nova nação a partir de imigrantes de todas as nacionalidades européias.

A palavra "nacionalismo" descreve a auto-afirmação coletiva de uma nação em qualquer um desses três sentidos, mas especialmente no segundo e no terceiro. Isto nos leva a mencionar os nacionalismos conflitantes dentro de um só estado. Existe tanto um nacionalismo escocês quanto outro britânico, um sikh e outro indiano, um ucraniano e outro soviético. (A palavra "patriotismo" é geralmente reservada pela classe dominante para designar a lealdade mais ampla e inclusiva).

O estudante da política do poder não será iludido por reivindicações nacionalistas, e lembrará que na maior parte dos casos a liberdade ou os direitos de uma nação ou de uma nacionalidade somente puderam ser comprados mediante a opressão de outra nação ou nacionalidade.

Toda potência interessada criará, ao longo do tempo, lealdades correta­

mente chamadas de nacionalistas, mas as potências são melhor descri­

tas como um produto de acidente histórico do que como uma encarnação do direito nacional.

O fato de personificarmos as potências conferindo-lhes o gênero feminino" e dizendo que a Grã-Bretanha faz isto, que os Estados Unidos exigem tal coisa, e que a política da União Soviética é de tal forma, é uma conseqüência do nacionalismo do século XIX. Esta linguagem é tão mitológica quanto se falássemos em John Buli, no Tio Sam ou no Urso Russo. Nesse contexto, "Grã-Bretanha" constitui um símbolo para designar um agente político extremamente complexo, formado pelos funcionários permanentes do Foreign OJftceJ e pelas seguintes pessoas ou entidades: o Serviço Diplomático, o Ministro de Estado das Relações Exteriores, o Primeiro-ministro, o Gabinete, a Câmara dos Comuns, o eleitorado, bem como as gerações mortas que criaram

(, () autor refere-se ao fato de que, em inglês, o Lstado soberano é designado pelo pronome feminino "shc" e nào pelo neutro "ir".

as tradições nacionais, todos combinando e interagindo numa infini­

dade de variações e de influências mútuas. Esses termos estenográficos são, é claro, inevitáveis nos artigos políticos, mas tornam-se perigosos se nos levam a pensar que as potências são monstros inescrutáveis e temerosos que seguem suas próprias leis predestinadas. Uma potência é simplesmente uma coleção de seres humanos seguindo certas for­

mas de ação tradicionais, e, caso um número suficiente deles resolva alterar seu comportamento coletivo, é possível que tenham sucesso.

Não há razão para que se suponha, contudo, que as mudanças mais profundas no comportamento político só podem ser produzidas por atitudes que visem a fins não-políticos.

Devemos assinalar, em conclusão, que o termo "política do po­

der" significa, na linguagem corrente, não somente as relações entre potências independentes, mas algo de mais sinistro. De fato, o termo é uma tradução da palavra alemã Machtpolitik} que significa a política da força, ou seja, a condução de relações internacionais por intermé­

dio da força ou da ameaça do uso da força, sem consideração pelo direito ou pela justiça. (Durante a época da Primeira Guerra Mundial,

"política de poder" nesse sentido tomava o lugar de um termo mais antigo e elegante, raison d'état, que significava que os estadistas não poderiam prender-se, em assuntos públicos, à moralidade a ser respeita­

da na vida privada, e que existia uma "razão de estado" que justificava ações inescrupulosas, em defesa do interesse público). Nas palavras de Franklin Roosevelt em sua última mensagem anual ao Congresso:

"no mundo futuro, o uso impróprio do poder como está implícito no termo 'política do poder' não deverá ser o fator que controlará as relações internacionais".' Seria insensato supor que os estadistas não se deixam levar por considerações de direito e justiça, e que as rela­

ções internacionais são governadas exclusivamente pela força. É mais prudente, porém, começar a partir do reconhecimento de que a polí­

tica do poder, como nós a definimos no início, está sempre inexoravelmente sendo aproximada à "política do poder" no sentido

- 6 de janeiro de 1945 em S. 1. Roscnman (cd.), TIl(' Publi( Papas aud AddreJJfS 0/ j'rilnklill l ).

/<..OOSf1'e/t, Vo1. IV, Harper & Brorhers, Nova York, 1950, PP 483-507.

Potências 9

imoral, e analisá-la sob esta luz. Quando isto tiver sido feito, podere­

mos ponderar com mais proveito o problema moral, pois ele estará todo o tempo ao nosso lado e, neste livro, considerá-la-emas no últi­

mo capítulo."

, J .src capítulo foi aparentemente escrito no final da década de ()O, provavelmente em 1967.

C!\ P í T l' J, ( ) I I

No documento DO PODER A POLITICA (páginas 54-64)