A política do poder é um termo coloquial para designar Política Internacional. Teremos chance, mais adiante, de ponderar até que ponto é um termo apropriado, mas comecemos por considerar seu valor nominal. Ele tem o mérito de apontar para uma verdade central a respeito das relações internacionais, ainda que deixe certas outras coisas fora de foco. Mesmo que possa ter outras nuanças, "a política do poder" sugere as relações entre potências independentes, e consi
deramos este estado de coisas como existente. () termo implica duas condições. Em primeiro lugar, existem unidades políticas independen
tes que não reconhecem superior político e que se consideram "so
beranas"; em segundo, existem relações contínuas e organizadas entre elas. Isto constitui o sistema de estados moderno. I Temos as unidades independentes, que chamamos de estados, nações, países ou potên
cias, e temos um sistema de relações contínuas altamente organizadas entre elas: relações políticas e econômicas, diplomáticas e comerciais, ora a paz ora a guerra.
Lembrar que este estado de coisas não constitui, de forma alguma, a regra na história nos ajudará a compreendê-lo. O atual sistema de estados existe desde aproximadamente o início do século XVI, e temos a ilusão de que isto é normal. Se olharmos para o período que antece
deu aquele século, contudo, perceberemos que foi precedido por algo diferente. Nos séculos Xl ou XII não havia estados soberanos que re
pudiassem qualquer poder político superior, pois a concepção de sobe
rania não era conhecida. Ao invés disso, existia, em teoria, uma única unidade jurídica conhecida como Cristandade, e presidida, nos assuntos eclesiásticos (que incluía grande parte daquilo que hoje constitui a
"po-I ( ) autor define ()sistema de estados com mais profundidade em ,\)'.Ikll/J 0/ \'taIeJ, lciccstcr l'ni\'ersity
Prcss e London School of I':c0!10mICS, 1977, Capítulo I, "De Systematibus Civitarum".
2 MARTIN WIClIT
lítica"), pelo sucessor de São Pedro em Roma. Os inumeráveis reinos, feudos e cidades que compunham a Cristandade medieval não reivindi
cavam - talvez por estarem organizados de maneira demasiadamente imperfeita para reivindicar - sua independência política nos termos ab
solutos do estado soberano moderno. A Cristandade possuía, mesmo assim, relações externas de comércio e guerra com as potências maometanas além do mar Mediterrâneo e com o Império Bizantino do outro lado do mar Jônico. Esses relacionamentos demonstravam, em grande parte, seguir os mesmos princípios daqueles do moderno siste
ma de estados, mas não eram contínuos e organizados na mesma escala.
Se olharmos para períodos ainda mais distantes, após um intervalo de confusão e migrações, veremos mais uma vez algo diferente: outra uni
dade jurídica individual, ocupando uma posição geográfica um pouco diferente da Cristandade - o Império Romano. Era um estado centrali
zado com um soberano único, absoluto e divino, ao invés de uma con
federação frouxa e de autoridades limitadas. Possuía também relações diplomáticas e fazia guerra com os Impérios da outra margem do Eufrates, e até comerciava com a longínqua China, mas esses contatos eram ainda mais intermitentes e irregulares do que aqueles que a cris
tandade mantinha com bizantinos e muçulmanos.
Voltando-nos para períodos anteriores ao do Império Romano, vemos o panorama familiar de um grupo de estados independentes em guerra, cidades resplandecentes e reinos vastos, cada qual cioso de sua liberdade e com ambições de expansão, lutando e conspirando, fazendo alianças e promovendo conferências, para serem todos finalmente con
quistados, pacificados e engolidos pelo mais poderoso dentre eles: a República Romana. Esse caleidoscópio político das eras grega e helenística parece moderno aos nossos olhos, ao passo que a imensa majestade da paz romana e da unidade cristã do mundo medieval pare
cem remotas e estranhas. As obras políticas do período grego da Anti
güidade permaneceram clássicas pois sua relevância e permanência fo
ram, sucessivamente, reconhecidas por cada nova geração. Uma das obras de suprema importância sobre a política do poder é a história da grande guerra entre Atenas e Esparta, comumente conhecida como a Guerra do Peloponeso relatada por Tucídides. Era isso que o General Marshall
Potências 3
tinha em mente quando discursou na Universidade de Princeton, em 1947:
"Tem sido dito que devemos nos interessar pelo passado so
mente como um guia para o futuro. Eu não estou plenamente de acor
do com essa posição. Geralmente, após a compreensão profunda do passado, com suas liçôes e sua sabedoria, vemo-nos munidos de con
vicções que inflamam nossa alma. Eu me pergunto seriamente se um homem pode refletir com total sabedoria e com convicções profundas em relação a certas questões internacionais básicas de hoje, sem ter pelo menos revisto em sua mente o período da Guerra do Peloponeso e da queda de Atenas." 2
A política do poder no sentido de política internacional surgiu, pois, quando a Cristandade medieval se dissolveu e nasceu o estado moderno e soberano. No mundo medieval, existiam autoridades tribais e nacionais nascentes que modelaram as nações modernas da Europa e que constantemente lutavam entre si. No auge da Idade Média, os dois maiores potentados - o Papa e o Imperador - trava
ram, entre si, uma guerra de duzentos anos pela supremacia (1076-1268). Este conflito por si só destruiu o equilíbrio da socieda
de medieval, e levou a uma revolução na política que culminou na Reforma. Obviamente, foi uma revolução das lealdades. O homem medieval mantinha uma lealdade costumeira em relação ao seu supe
rior imediato feudal, com cuja autoridade ele estava em contato constante. O homem medieval mantinha também uma obediência religiosa costumeira à Igreja, dirigida pelo Papa, e que governava cada aspecto de sua vida; mas a lealdade desse homem junto ao Rei - a quem ele provavelmente nunca tinha visto e raramente sabia de seu paradeiro - era mais fraca do que as duas anteriores. Em seu devido tempo, o Rei eliminou os barões feudais e desafiou o Papa, tornando-se o protetor e paladino da luta contra a desordem e a opressão internas e contra um sistema eclesiástico exigente e cor
~ Discurso em 22 de fevereiro de 1947, 1Il Depar/!JIen! 0/S!a/f 13u//dill, \'01. 16, p. 391.
4 MARTIN Wl(;/IT
rupto, cujo quartel general estava localizado no exterior. Expandiu-se o círculo interno e diminuiu o círculo externo de lealdades do ho
mem comum, de maneira que ambos se encontraram na região onde a lealdade era anteriormente difusa.
Dessa forma, surgiu o estado moderno; um vínculo de lealdade mais estreito e ao mesmo tempo mais forte do que na época da cris
tandade medieval. Em geral, o homem moderno tem demonstrado maior lealdade ao estado do que à Igreja, à classe social, ou a qualquer outro laço internacional. Uma potência é um estado moderno e sobe
rano em seu aspecto externo, e quase pode ser definido como a lealda
de máxima em defesa da qual os homens hoje irão lutar. De forma mais fundamental, houve uma mudança na estrutura moral da políti
ca. A política medieval estava calcada num sentimento profundo de unidade política e social, que enfatizava a importância do todo, em oposição à parte. A política medieval preocupava-se em definir ou interpretar uma hierarquia onde cada indivíduo possuía, teoricamen
te, seu lugar, desde o Papa e o Imperador até o barão feudal mais desprezível. "A história medieval", disse o historiador Stubbs, "é uma história de certos e errados; a história moderna, se comparada com a medieval, é uma história de potências, forças, dinastias e idéias ... As guerras medievais são, via de regra, guerras por direitos. Raramente são guerras não-provocadas, e nunca são por agressão absolutamente injustificável; não são guerras por idéias, liberação, glória, nacionalida
de, ou ainda por propagandismo"." No moderno sistema de estados, o sentimento de unidade passou a ser rarefeito pois formou-se um grande número de estados independentes uns dos outros, e o entendi
mento a respeito dos padrões morais tem sido enfraquecido pelas dis
putas doutrinárias na Europa e pela expansão do sistema de estados para além da Europa. Parece que a "sociedade internacional" não pas
sa de uma etiqueta para os estados soberanos, e que o todo nada mais é além da soma das partes. O panorama político medieval via o abis
mo entre os ideais e os fatos como uma condenação de tais fatos, não
\ W Srubbs, Xereutea: I .cctures 01/ tbeStudy o/Aledie/'{//andAlodem f listory, Clarcndon Prcss, Oxford, 1886, pp. 209-217.
Potências 5
das idéias. A atitude política moderna está melhor expressa nas pala
vras de Bacon: "Muito devemos a Maquiavel e outros, que escrevem sobre aquilo que os homens fazem e não sobre o que eles deveriam fazer.t"
O poder que faz uma "potência" é composto de muitos ele
mentos. Seus componentes básicos são o tamanho da população, posição estratégica e extensão geográfica, recursos econômicos e produção industrial. Temos de acrescentar, a esses últimos, elemen
tos menos tangíveis, tais como a eficiência administrativa e financei
ra, o aprimoramento educacional e tecnológico e, acima de tudo, a coesão moral. Grandes potências do passado que sofreram um declínio, como a Grã-Bretanha e a França, ou potências que ainda não atingiram grande poder, como a Índia, naturalmente enfatizam o valor da maturidade política e da liderança moral, ainda que essas expressões provavelmente tenham mais peso dentro de suas pró
prias fronteiras do que fora delas. Em períodos de tranqüilidade internacional esses fatores imponderáveis podem exercer grande in
fluência. Apesar disso, assim como na política interna influência não significa governo, na política internacional influência não significa poder. No final, é o poder concreto que resolve as grandes questões in ternacionais.
Quando indivíduos têm aversão a Bismarck por causa de seu realismo, o que realmente lhes desagrada é a realidade. Tomemos sua frase mais famosa: "As grandes questões de nossa época não serão solucionadas por resoluções e votos majoritários - este foi o erro dos homens de 1848 e 1849 - mas por sangue e ferro". Quem pode negar que isto seja verdadeiro como uma declaração de fatos?
() que solucionou a questão da dominação nazista da Europa resoluções ou os exércitos aliados? () que solucionará a questão da Coréia - votos majoritários em Lake Success ou o poderio america
no? Isto é muito diferente do que dizer que os princípios e as convicções são ineficazes. Eles podem ser extremamente eficazes se
~ l-rancis Bacol1, /ldl'ilI/iPI//I'I/! 0/ l.l.'rlrJliJ{i!,. I.ivro 11, XXI, 9.
6
traduzidos em termos de sangue e ferro e não só em termos de resoluções e votos majoritários.'
A coesão moral das potências é freqüentemente discutida em termos de nacionalidade ou de nacionalismo. Isto pode, contudo, pro
vocar confusões, pois essas palavras possuem vários significados. Em primeiro lugar, uma nação, em seu significado mais antigo, significa um povo que supostamente possui ascendência comum e está organi
zado sob um mesmo governo. Aqui a palavra nação é quase intercambiável com as palavras estado ou poder; era anteriormente possível considerar nações a República de Veneza ou o reinado da Prússia. Esta acepção é ilustrada pela frase "a lei das nações", e ainda sobrevive no adjetivo "internacional". Em segundo lugar, após a Re
volução Francesa, a palavra nação passou a designar, na Europa, uma nacionalidade, ou seja, um povo com a consciência de uma identidade histórica expressa por uma língua distinta. A Itália, a Alemanha ou a Polônia eram nações segundo essa acepção, ainda que cada qual esti
vesse dividida em muitos estados; e os impérios habsburgo e russo eram potências "multinacionais". O princípio da autodeterminação nacional afirma o direito de cada nacionalidade formar um estado e transformar-se numa potência, e o acordo de paz de 1919 procurou reorganizar a Europa de acordo com tal princípio. Em terceiro lugar, desde a Primeira Guerra Mundial, na África e na Ásia, a palavra nação passou a significar uma unidade política defendendo seu direito à condição de estado independente em oposição à dominação européia.
Algumas dessas unidades são antigas civilizações, como a Índia ou a China; algumas são reinos históricos, como a Etiópia ou a Pérsia;
outras - os estados árabes, por exemplo - são fragmentos de um grupo lingüístico mais amplo, e a maioria delas, como a Indonésia e Gana, foram criadas por administradores coloniais europeus. Em ter
mos de nacionalidade, contudo, um maior número dessas unidades se parece mais com o Império Habsburgo do que com a Irlanda ou a Dinamarca. Elas possuem tanto as paixões do segundo tipo de nação,
-, A.J. P. Taylor, RullJours o/lftU; Hamish Hamilton, Londres, 1952, p. 44.
Potências 7
quanto a diversidade social do primeiro. Das cinco grandes potências nominais que sobrevivem até hoje, somente a França chega perto de constituir uma nacionalidade homogênea; o Reino Unido é a união política das nações inglesa, escocesa, galesa e norte-irlandesa, e os Estados Unidos representam uma tentativa única de se criar uma nova nação a partir de imigrantes de todas as nacionalidades européias.
A palavra "nacionalismo" descreve a auto-afirmação coletiva de uma nação em qualquer um desses três sentidos, mas especialmente no segundo e no terceiro. Isto nos leva a mencionar os nacionalismos conflitantes dentro de um só estado. Existe tanto um nacionalismo escocês quanto outro britânico, um sikh e outro indiano, um ucraniano e outro soviético. (A palavra "patriotismo" é geralmente reservada pela classe dominante para designar a lealdade mais ampla e inclusiva).
O estudante da política do poder não será iludido por reivindicações nacionalistas, e lembrará que na maior parte dos casos a liberdade ou os direitos de uma nação ou de uma nacionalidade somente puderam ser comprados mediante a opressão de outra nação ou nacionalidade.
Toda potência interessada criará, ao longo do tempo, lealdades correta
mente chamadas de nacionalistas, mas as potências são melhor descri
tas como um produto de acidente histórico do que como uma encarnação do direito nacional.
O fato de personificarmos as potências conferindo-lhes o gênero feminino" e dizendo que a Grã-Bretanha faz isto, que os Estados Unidos exigem tal coisa, e que a política da União Soviética é de tal forma, é uma conseqüência do nacionalismo do século XIX. Esta linguagem é tão mitológica quanto se falássemos em John Buli, no Tio Sam ou no Urso Russo. Nesse contexto, "Grã-Bretanha" constitui um símbolo para designar um agente político extremamente complexo, formado pelos funcionários permanentes do Foreign OJftceJ e pelas seguintes pessoas ou entidades: o Serviço Diplomático, o Ministro de Estado das Relações Exteriores, o Primeiro-ministro, o Gabinete, a Câmara dos Comuns, o eleitorado, bem como as gerações mortas que criaram
(, () autor refere-se ao fato de que, em inglês, o Lstado soberano é designado pelo pronome feminino "shc" e nào pelo neutro "ir".
as tradições nacionais, todos combinando e interagindo numa infini
dade de variações e de influências mútuas. Esses termos estenográficos são, é claro, inevitáveis nos artigos políticos, mas tornam-se perigosos se nos levam a pensar que as potências são monstros inescrutáveis e temerosos que seguem suas próprias leis predestinadas. Uma potência é simplesmente uma coleção de seres humanos seguindo certas for
mas de ação tradicionais, e, caso um número suficiente deles resolva alterar seu comportamento coletivo, é possível que tenham sucesso.
Não há razão para que se suponha, contudo, que as mudanças mais profundas no comportamento político só podem ser produzidas por atitudes que visem a fins não-políticos.
Devemos assinalar, em conclusão, que o termo "política do po
der" significa, na linguagem corrente, não somente as relações entre potências independentes, mas algo de mais sinistro. De fato, o termo é uma tradução da palavra alemã Machtpolitik} que significa a política da força, ou seja, a condução de relações internacionais por intermé
dio da força ou da ameaça do uso da força, sem consideração pelo direito ou pela justiça. (Durante a época da Primeira Guerra Mundial,
"política de poder" nesse sentido tomava o lugar de um termo mais antigo e elegante, raison d'état, que significava que os estadistas não poderiam prender-se, em assuntos públicos, à moralidade a ser respeita
da na vida privada, e que existia uma "razão de estado" que justificava ações inescrupulosas, em defesa do interesse público). Nas palavras de Franklin Roosevelt em sua última mensagem anual ao Congresso:
"no mundo futuro, o uso impróprio do poder como está implícito no termo 'política do poder' não deverá ser o fator que controlará as relações internacionais".' Seria insensato supor que os estadistas não se deixam levar por considerações de direito e justiça, e que as rela
ções internacionais são governadas exclusivamente pela força. É mais prudente, porém, começar a partir do reconhecimento de que a polí
tica do poder, como nós a definimos no início, está sempre inexoravelmente sendo aproximada à "política do poder" no sentido
- 6 de janeiro de 1945 em S. 1. Roscnman (cd.), TIl(' Publi( Papas aud AddreJJfS 0/ j'rilnklill l ).
/<..OOSf1'e/t, Vo1. IV, Harper & Brorhers, Nova York, 1950, PP 483-507.
Potências 9
imoral, e analisá-la sob esta luz. Quando isto tiver sido feito, podere
mos ponderar com mais proveito o problema moral, pois ele estará todo o tempo ao nosso lado e, neste livro, considerá-la-emas no últi
mo capítulo."
, J .src capítulo foi aparentemente escrito no final da década de ()O, provavelmente em 1967.
C!\ P í T l' J, ( ) I I