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POTÊNCIAS MENORES

No documento DO PODER A POLITICA (páginas 98-106)

CAPÍTULO V

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membros da sociedade internacional não respondem ipsofacto pela maio­

ria da espécie humana, pois em geral possuem populações exíguas em relação às das grandes potências.

A pequenez a que estamos nos referindo quando falamos dos pe­

quenos estados é a relativa à sociedade internacional à qual pertencem.

Argumenta-se freqüentemente que as culturas mais elevadas e duradou­

ras só foram produzidas por unidades políticas pequenas. "É um fato que os grandes legados da herança do Ocidente foram muitas vezes obra dos povos menores - de uma Atenas ou de uma Florença, da In­

glaterra elizabetana, ou da Holanda Unida do século XVII."2 Estes últi­

mos constituem exemplos infelizes. Cada qual era um grande povo, em termos de poder, riqueza ou população, em relação ao sistema de esta­

dos do qual fazia parte. Atenas, durante seu apogeu cultural sob Péricles, era a potência dominante da Hélade, possuía território muito mais am­

plo do que qualquer outro estado à exceção de sua rival Esparta, e era muito superior a Esparta em população, energia social e poderio econô­

mico. A Florença dos Médici era uma das cinco grandes potências da Itália do século Xv, a mais adiantada do ponto de vista industrial e fi­

nanceiramente a mais forte, ainda que militarmente a mais fraca. A In­

glaterra estabeleceu-se como grande potência sob Elizabeth I, seé que já não o tivesse feito anteriormente. Ainda que menos populosa do que a França ou a Espanha, ela era a mais rica e a mais segura das potências protestantes, além de ser reconhecidamente a campeã da causa protes­

tante no âmbito internacional. As Províncias Unidas no século XVII eram, como já vimos, a potência marítima dominante da Europa, e ob­

jeto de amargos ciúmes por parte da Inglaterra e da França:

Rebaixando-se em casa, e cruéis quando fora:

A escassez dando-nos os meios de reclamar nossos bens.

Dar valor intrínseco ao tamanho político constitui com certeza um erro de ordem política. É certo que os pequenos estados têm a capacidade de ser os membros mais felizes e civilizados da comunidade internacional. Alguns estados muito pequenos - Genebra no século XVI, Weimar no final do século XVIII, a Suíça nos séculos XIX e XX (o

2 Ao Cobban, National Sei/ Deterunnation. o.U.P, Londres, 1944, po 1390

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grande exemplo da democracia multinacional e da filantropia internacionalista) têm exercido influência benevolente ou culturalmen­

te estimulante em todo o sistema de estados. Existe, contudo, um senti­

mentalismo não-histórico na asserção de que "todas as grandes coisas foram feitas pelas pequenas nações"." Qualquer generalização a respei­

to de valores culturais parecerá duvidosa se não levar em consideração o Grand 5ieefe da França, o barroco da Áustria sob Carlos VI e Maria Teresa, a ciência da Grã-Bretanha vitoriana, e a literatura da Rússia do século XIX, para não falar da Roma imperial de Cícero e Virgílio, Gaio e Ulpiano. Pode ser bem verdade que, em certos períodos, haja um ta­

manho político ideal para o florescimento cultural, mas os exemplos mencionados sugerem que esse tamanho ideal aumenta ao longo dos séculos. Parece, outrossim, que a alta cultura é fomentada por certas concentrações de poder político e, talvez mais claramente, de poder econômico, em relação à comunidade internacional onde o fenômeno ocorre.

Dois tipos de potência menor atingem uma eminência que as dis­

tinguem das demais: as grandes potências regionais e as potências mé­

dias. Pressões políticas não agem de maneira uniforme por todo o siste­

ma de estados e, em algumas regiões culturalmente unidas mas politicamente divididas, uma sociedade internacional subordinada entra em cena, com um sistema de estados que reproduz em miniatura as caraterísticas gerais do sistema de estados. A Itália e a Alemanha antes de se unificarem constituem exemplos disso na Europa; o mundo árabe e a América do Sul são exemplos num mundo mais amplo. Haverá, em subsistemas como esses, alguns estados com interesses gerais em rela­

ção à região limitada e à capacidade de agirem por si sós, o que lhes confere a aparência de grandes potências locais. O Egito, o Iraque e talvez a Arábia Saudita têm sido grandes potências no mundo árabe; a Argentina e o Brasil têm desempenhado papel semelhante na América do Sul. Dessa mesma forma, a África do Sul pode ser considerada uma

1 B. Disraeli, Tancred. Longmans, Londres, 1871, p. 229; esse é um relato espirituoso do assun­

to. Ver também R. Cobdcn, Discurso em Rochdalc, 29 de outubro de 1862, em J. Bright e T.

Rogers (cds.), SpeecheJ b)' /{.ichilrd Cobde», M/~ Vol. l l, Macmillan, Londres, 1870', pp. 305-37, para um tratamento menos brilhante.

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grande potência em relação à África negra. Essas grandes potências re­

gionais provavelmente serão candidatas a serem inseridas na categoria de potências médias no sistema de estados considerado como um todo.

A classificação das potências, como uma forma distinta das ques­

tões de precedência mais antigas, tornou-se pela primeira vez um assun­

to para discussões diplomáticas no acordo de paz de 1815.4 Uma cate­

goria de potências menores foi então pela primeira vez reconhecida, dentre os estados da Alemanha. A história da Alemanha forneceu, de várias maneiras, um microcosmo de todo o sistema de estados europeu e, no caso a seguir, a Alemanha estabeleceu um precedente que o siste­

ma de estados até agora ainda não seguiu. Na assembléia ordinária da Dieta da Confederação Germânica, onze de seus trinta e nove mem­

bros possuíam delegados separados: os vinte e oito estados restantes eram agrupados em seis curiae, com um delegado para cada curia. Os onze estados eram: a Áustria e a Prússia, que eram grandes potências do sistema europeu, e só entraram para a Confederação Germânica após reconhecimento expresso de seus direitos superiores; Hanover, cujo so­

berano era o Rei da Grã-Bretanha; Holstein, cujo soberano era o Rei da Dinamarca; Luxemburgo, cujo soberano era o Rei da Holanda; e a Baviera, Saxônia, Württerrlberg, Baden, a Hesse eleitoral e a Hesse do Grão-ducado. O termo "estados médios" era geralmente utilizado para designar esse último grupo. Existiam, contudo, dentre eles, graduações de influência e diferenças de interesse. Os estados do Sul da Alemanha - a Baviera, o Württemberg e Baden - às vezes tentaram juntos levar adiante uma política independente da Áustria e da Prússia, e eram con­

siderados os "estados médios" por excelência.

Durante a Conferência de São Francisco, em 1945, houve alguns pedidos para que potências de segunda categoria fossem reconhecidas nas Nações Unidas pela concessão a elas de prioridade nas eleições para as cadeiras não-permanentes do Conselho de Segurança. As nações con­

sideradas potências médias eram o Canadá, a Austrália, o Brasil, o Méxi­

co, a Polônia, a Holanda, e a Bélgica. Uma lista semelhante a essa hoje

4 Veja o Apêndice I para as tentativas anteriores de classificaçào das potências.

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em dia provavelmente omitiria as duas últimas e, com certeza, incluiria várias potências que desde então melhoraram seu status, tais como a Índia, que em 1945 ainda não era independente (se de fato não lhe fosse concedida uma classificação honorária como grande potência), a Suécia (que em 1945 encontrava-se no crepúsculo da falta de prestígio que envolve todo país neutro ao final de uma grande guerra), a Iugoslávia e o Egito. De fato, é mais difícil distinguir potências médias do que gran­

des potências, e aquelas não encontraram lugar nos arranjos das Nações Unidas. O reconhecimento diplomático da existência de tal categoria geraria muitos ciúmes; assim como para a classe média da Inglaterra seria odioso mostrar que um indivíduo não faz parte dela. Poder-se-ia argumentar que uma potência média se revela, assim como uma grande potência, pela afirmação bem-sucedida de independência por um Tito ou por um Nasser, pela diplomacia de um Lester Pearson ou de um Krishna Menon, pelo papel benevolente de um Conde Bernadotte ou de um general Burns. Com mais precisão, pode ser argumentado que uma potência média é uma potência com poderio militar, recursos e posição estratégica de tal ordem que em tempos de paz as grandes po­

tências desejam ter seu apoio. Em tempos de guerra, contudo, mesmo não tendo chance de sair vitoriosa, ela pode esperar infligir a uma gran­

de potência danos bem maiores do que esta última pode esperar causar caso ataque a potência média. É um cálculo desse gênero que rege a política de defesa da Suécia, e que pode levá-la a produzir suas próprias armas atômicas.

As potências médias surgem quando estão sendo revistas as qualifi­

cações necessárias para que se atinja o status de grande potência. O núme­

ro de potências médias varia inversamente em relação ao das grandes potências. No século XIX, quando as grandes potências representavam um grupo estável e relativamente numeroso, não havia nenhuma potência média reconhecida. (Mas, como já vimos, existiam na Confederação Germânica entre 1815 e 1866 duas grandes potências - a Áustria e a Prússia - nove nações reconhecidas como estados médios, e vinte e oito pequenos estados.) Reclamantes do status de potência média reaparece­

ram em 1919, quando a aristocracia das grandes potências havia sido gra­

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vemente abalada. As potências médias mais óbvias, hoje em dia, são aque­

las que perderam o status de grandes potências em decorrência de duas guerras mundiais: a Grã-Bretanha a França, a Alemanha e o Japão.

Mesmo assim, existe geralmente um maior abismo entre as gran­

des potências e as potências menores (incluindo-se as potências mé­

dias) do entre potências médias e as demais pequenas potências. As potências menores (incluindo-se as potências médias) somente possu­

em os meios de defender interesses limitados e é bem verdade que a maioria delas, de fato, somente possuem interesses limitados. Elas têm disputas territoriais ou marítimas com seus vizinhos (como a Iugoslávia tem com a Bulgária e a Grécia a respeito da Macedônia), ou seu meio de sobrevivência depende da pesca ou ainda têm de vender suas matérias-primas (como a Islândia, no caso da pesca, e os estados árabes produtores de petróleo). Elas não podem, contudo, unificar continen­

tes, ou dominar os mares, ou ainda controlar o mercado internacional.

Mesmo assim, pode ser dito que algumas pequenas potências possuem uma política externa tão limitada que não chegam a ter interesses senão na preservação de sua independência.

Assim como o status de grande potência tem se tornado cada vez mais rígido e definido, o status de potência menor também o tem. O lado oposto do Concerto da Europa era que as potências menores não desempenhavam nenhum papel internacional. As Conferências de Haia de 1899 e de 1907 foram os primeiros encontros internacionais onde as potências menores estavam em geral representadas e constituíam outro aspecto da inclusão de estados não-europeus na comunidade interna­

cional. As guerras dos Balcãs de 1912-1913, quando Montenegro, Bulgária, Sérvia e Grécia pela primeira vez desmembraram a Turquia européia e depois, junto com a Romênia, lutaram entre si pelos despo­

jos, contra a vontade do Concerto, constitui também um raro exemplo de um grupo de pequenas potências desafiando com sucesso o conjun­

to das grandes. A Liga das Nações trouxe o que pode ser chamado de libertação das potências menores. Elas agora possuíam um meio regu­

lar de se fazerem ouvir na Assembléia, onde todas as nações eram igual­

mente representadas. E aqui, como por um paradoxo, foi demonstrado que as potências, que por definição não possuíam "interesses gerais",

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eram mais capazes do que as grandes potências de seguirem consisten­

temente o que poderia ser considerado o interesse universal na manu­

tenção da lei e da ordem. A Assembléia da liga (diferentemente de sua sucessora nas Nações Unidas) detinha direitos iguais aos do Conselho para lidar com "qualquer assunto dentro da esfera de ação da liga ou que afete a paz mundial" e, sob as primeiras lideranças por parte de homens como Hymans, da Bélgica, Branting, da Suécia, Nansen, da Noruega, Benes, da Tchecoslováquia, Politis, da Grécia, Motta, da Suí­

ça, e Lord Robert Cecil, da África do Sul, assemelhava-se, na década de 20, a um parlamento internacional embrionário. Quando sanções foram impostas à Itália em 1935-6 para restringir sua agressão à Abissínia, as pequenas potências demonstraram resolução e prontidão para sacrifíci­

os, atitude que muito fez para sustentar o argumento de que elas podem ser as paladinas dos ideais internacionais porque não têm a responsabi­

lidade de impô-los. Foram as grandes potências que destruíram o siste­

ma da Liga, por uma combinação de agressões e defecções.

A Assembléia Geral das Nações Unidas até agora teve uma histó­

ria menos impressionante do que sua predecessora. Isto ocorre em par­

te porque ela é menos poderosa, e porque o caráter das pequenas po­

tências mudou. Na Liga das Nações, as pequenas potências eram em geral conservadoras em sua visão internacional; nas Nações Unidas sua visão é predominantemente descontente e revolucionária. A Liga ainda era uma instituição basicamente européia, e as pequenas potências eram, em sua maioria, as pequenas potências satisfeitas e sedentárias da Euro­

pa Ocidental, em conjunção com as pequenas potências satisfeitas e vitoriosas da Europa Oriental, que tinham como objetivo a manuten­

ção da difícil liberdade obtida com o acordo de Versalhes. Nas Nações Unidas, as pequenas potências são quase sempre as potências asiáticas, africanas e latino-americanas, que se vêem como os primeiros frutos de uma revolução contínua que tem de ser estendida a todos os povos sem autogoverno e levada adiante de forma a atingir uma redistribuição da riqueza mundial às custas das grandes potências ocidentais."

, I~ste capítulo aparentemente fOI concluído em 1972.

CAPÍTllLO VI

PODER MARÍTIMO E

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