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A SOCIOLINGUÍSTICA INTERACIONAL E OS CONCEITOS DE

No documento priscilafernandessantanna (páginas 88-93)

Excerto 10- “Quinta-feira da semana que vem? O que a senhora acha?”

4. FERRAMENTAS DE ANÁLISE

4.3 A SOCIOLINGUÍSTICA INTERACIONAL E OS CONCEITOS DE

Erving Goffman (1922-1982), sociólogo canadense, considerado um dos precursores da microssociologia e uma das principais influências teóricas para a Sociolinguística Interacional, desenvolveu conceitos de fundamental importância para o entendimento de como são construídas, negociadas e mantidas as relações no jogo da interação.

Diante da relevância de Goffman para os estudos linguísticos de base interacional, apresentamos, nesta seção, alguns postulados do autor que são recorrentemente cotejados na análise dos dados deste trabalho. A Teoria dos Papéis, as noções sobre Self, Face, Footing e Estrutura de Participação são conceitos importantes para este trabalho e são trabalhados nesta seção.

O sociólogo, em seu primeiro livro “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” ([1956], 2009), discute, por meio da metáfora do teatro, as práticas rotineiras dos sujeitos sociais utilizadas para terem êxito nas relações sociais. Tendo em vista que, para o autor, interação é a reciprocidade das influências que a ação de um sujeito exerce sobre a ação do outro, Goffman ([1956], 2009) dedica-se a

discorrer sobre os processos interacionais construídos pelos usuários de uma língua.

Segundo o autor, quando interagimos, não estamos apenas enviando uma mensagem a alguém, dando apenas uma informação, ou relatando um fato vivenciado por nós, mas estamos, também, dizendo sobre nós mesmos toda vez que assumimos a condição de falante. Mesmo que de forma inconsciente, revelamos sobre nossas identidades, personalidades, projeções e representações, oferecendo ao outro o recorte sobre como queremos ser vistos. Em nossas interações, estamos engajados em apresentar uma imagem positiva de nossos "selves" a fim de alcançar o objetivo pretendido na situação comunicativa em curso. A respeito do conceito de self, elaborado por Goffman ([1956], 2009), apresentamos a leitura de Martins (2008), a qual julgamos pertinente:

O self não constituiu uma propriedade da pessoa, mas reside no padrão de controle social que é exercido pela pessoa e por aqueles que a cercam. Sua análise trouxe, com isso, o self para o centro da ordem interacional. Nas situações de encontros sociais, o que está em jogo não é a totalidade da pessoa humana, mas uma de suas dimensões, tal como o status social que é exercido naquele momento, enfim, um self específico (MARTINS, 2008, p. 140, grifos no original).

Em outras palavras, construímos uma imagem social que é controlada por nós e é, a todo o momento, negociada com os participantes na interação. E é nesse sentido que é compreendida, também, outra noção muito importante trazida por Goffman: o conceito de face, elaborado a partir da imagem social que é construída e demonstrada nas situações de fala-em-interação.

De acordo com o autor, “face é o valor social positivo que uma pessoa reivindica para si, através da linha que os outros pressupõem que ela assumiu em um contato particular” (GOFFMAN [1967], 2012, p. 12, grifo no original). É com base nesse pressuposto de Goffman que Brown e Levinson (1978) desenvolvem a Teoria da Polidez, detalhando as estratégias utilizadas pelos falantes para desempenharem suas imagens pessoais em diferentes contextos comunicativos. Contudo, nesta pesquisa, nos restringimos às noções primeiras, visto não ser nosso objetivo analisar as estratégias de polidez e impolidez, mas, de modo mais tímido, apontar de que forma o trabalho de face é realizado pelos participantes da pré-mediação e

em que fase dessa atividade há um maior engajamento em torno da busca por imagens pessoais positivas.

A mediação representa um contexto institucional de uso da linguagem, com pessoas em disputa, ou seja, geralmente, com participantes que pretendem comprovar os seus pontos de vista, a fim de saírem “vitoriosos” da interação. Nesse sentido, as noções de face e trabalho de face mostram-se de extrema relevância. Segundo Goffman ([1956], 2009), sobre o trabalho de face na interação, o falante, ao mesmo tempo em que defende sua face, protege a face dos outros. Segundo o autor, em alguns momentos, nossas práticas são essencialmente defensivas e, em outros, essencialmente protetoras. Contudo, esses movimentos podem ser apresentados ao mesmo tempo.

A partir da percepção da interação como algo dinâmico, o autor desenvolveu o conceito de papel social. Os participantes, em sua relação uns com outros, são identificados por suas posições dentro dos grupos sociais aos quais pertencem. Dessa forma, numa instituição de ensino, por exemplo, conseguimos localizar várias posições – que se constroem relacionalmente –, ou, nas palavras de Goffman, status, tais como o de professor, o de aluno, o de diretor, entre outros. Cada status apresenta um conjunto de regras e posturas éticas que se concretizam no desempenho de sua função. Assim, entende-se, em nossa cultura, que o aluno precisa utilizar uniforme, pedir permissão para sair da sala, tratar o professor e o diretor com respeito, fazer provas, entre outras ações. Essas normas convencionadas socialmente e destinadas a uma determinada posição social são o que Goffman ([1979], 2002) chama de papéis sociais.

Sarangi (2010) faz uma releitura do trabalho de Goffman e define papel como um conceito dinâmico e híbrido, uma vez que, para o autor, é possível se falar de hibridismo a partir de um viés comunicativo. Sendo assim, como os tipos de atividades são formados por várias vozes e configurados por tipos de discursos distintos, é possível pensar em um hibridismo de papéis.

A partir dessa perspectiva, Sarangi (2010) diferencia conjunto de papéis de múltiplos papéis. Entende-se por conjunto de papéis a mudança nos papéis que estão inseridos num mesmo status. Por exemplo, um professor pode exercer a função de examinador, orientador e palestrante sem que, apriori, haja conflito entre essas funções. Já o conceito de múltiplos papéis está relacionado ao desempenho

de papéis que não são do mesmo status, como exercer a função de mãe, esposa e mulher por exemplo. Segundo o autor, o mover através dos múltiplos papéis pode ser problemático, uma vez que quanto mais o falante estiver comprometido com um papel, mais falhas ele pode ter no outro.

Sarangi (2010) sugere, ainda, que olhemos para a linha de ações dos participantes nas interações, considerando o papel no qual o falante se investe para realizar determinada ação.

O conceito de estrutura de participação, estabelecido por Goffman ([1979], 2002), é também cotejado na análise de nossos dados. O autor compreende que o modelo diádico de comunicação apresentava falhas e mostrava-se ineficiente diante das diferentes posições assumidas pelo participante dentro da situação de comunicação. Nesse sentido, repensou a noção de falante e de ouvinte e, assim, criou categorias que ampliassem essas noções.

Diante da perspectiva do falante, Goffman ([1979], 2002) postulou os termos animador, autor e responsável. De maneira simplificada, podemos dizer que o animador é aquele que produz a fala; o autor é o dono do script, aquele que cria a fala; e o responsável é aquele que pode ser responsabilizado pela posição assumida na fala. É comum as três noções recaírem sobre a mesma pessoa, mas não necessariamente26.

Já para a posição de ouvinte, o autor considerou a condição de participante ratificado ou não do encontro social. Os participantes ratificados são os endereçados, ou seja, aqueles que têm a “atenção visual” do falante e, ainda, têm a possibilidade de assumir o papel de falante em outro momento da interação.

A partir do exposto acima e, ainda, diante da dinamicidade dos papéis assumidos na interação, Goffman ([1979], 2002) estabelece as noções de alinhamento, footing e enquadre. Os footings podem ser introduzidos, sustentados ou modificados no decorrer de um determinado encontro social. Nesse sentido, podemos dizer, de acordo com o autor, que o footing é uma mudança do alinhamento, da postura, da projeção do “eu” de um participante na sua relação com o outro, consigo próprio e com o discurso a ser construído. A natureza do footing,

26 Para uma descrição mais detalhada de cada um desses “tipos de falante”, ver Goffman ([1979], 2002,p. 133-138).

assim como a do enquadre, é dinâmica. Assim, muitas vezes, os participantes precisam reconstruir o seu entendimento sobre a situação.

Silveira (2016) reformula os conceitos apresentados por Goffman ([1979], 2002), salientando as relações e distinções entre eles. Vejamos a explicação da autora:

O footing caracteriza o aspecto dinâmico dos enquadres ao sinalizar os alinhamentos, as posturas dos interagentes, enquanto que o enquadre filtra os possíveis sentidos /interpretações das elocuções, funcionando como um foco de luz que atuaria sobre os sentidos que são co-construídos e negociados no curso das interações (SILVEIRA, 2016, p. 7).

As modificações de footing podem ser sinalizadas, por exemplo, via alternância de código, de registro, mudança de tom, de postura corporal, entre outras. Essas mudanças podem ocorrer por aspectos pessoais ou de estilo (uma fala afável ou rígida), papéis sociais (a fala da mediadora, a fala de mãe, entre outras) e papéis discursivos (por exemplo, o papel de entrevistador, respondedor e outros). Essas características do footing colaboram para o estabelecimento do enquadre da situação.

Para um tratamento mais elaborado sobre o conceito de enquadre, utilizamo- nos das palavras de Ribeiro e Pereira (2002) que conceituam enquadre da seguinte maneira “enquadres constituem a maneira como construímos e sinalizamos o contexto da situação em curso. Interpretar a fala de um amigo enquanto piada ou enquanto um ato comunicativo para ser levado a sério depende de como enquadramos o que está acontecendo” (RIBEIRO E PEREIRA, 2002, p.53).

Por mobilizarmos esses conceitos em nossa análise de dados, considerando que as ações de linguagem dos participantes só podem ser devidamente interpretadas quando compreendidas de forma situada, esperamos que a breve explanação dos conceitos da Sociolinguística Interacional possa iluminar nossa interpretação sobre os fenômenos linguístico-interacionais presentes nas entrevistas analisadas nesta pesquisa.

No documento priscilafernandessantanna (páginas 88-93)