CAPÍTULO III – A FINALIDADE DAS NORMAS JURÍDICAS TRIBUTÁRIAS
III. 1.3 – A teoria absoluta, retributivista ou retributiva
Por sua vez, a teoria retributiva, retributista ou absoluta propõe que o objetivo maior das normas sancionadoras é devolver ao criminoso o mal causado à sociedade. É neste sentido, por exemplo, a definição sobre tal teoria da catedrática JANAÍNA PASCHOAL164, abaixo transcrita:
163 É mais adequado usar a terminologia dimensão, em detrimento de geração ou onda, para caracterizar a primeira leva de direitos humanos, em razão de sua essência comum de indivisibilidade e interdependência, seguindo os ensinamentos de CARLOS WEIS (CARLOS WEIS. Direitos humanos contemporâneos. 2ª Ed. São Paulo. Malheiros. 2006. p. 47-54).
60 A teoria que vislumbra na pena a função retributiva parte do pressuposto que o crime é um mal, devendo ser retribuído (pago) com outro mal, que é a pena. Outra definição acerca do tema é a de FERNANDO CAPEZ165:
a) Teoria absoluta ou da retribuição: a finalidade da pena é punir o autor de
uma infração penal. A pena é a retribuição do mal injusto praticado pelo criminoso, pelo mal justo previsto no ordenamento jurídico (punitur quia peccatum est).
A definição de CAPEZ é semelhante àquela adotada no manual conjunto de JULIO MIRABETE e RENATO FABBRINI166. Vejamos:
As teorias absolutas (de retribuição ou retribucionistas) têm como fundamento da sanção penal a exigência de justiça: pune-se o agente porque cometeu o crime (punitur quia peccatum est).
Poderiam ser transcritas outras centenas de definições da teoria167, mas aquelas acima destacadas são suficientes para indicar o propósito das sanções para os retributivistas: de troco ao indivíduo por sua conduta delituosa.
O viés teleológico é retrospectivo, voltando a finalidade da sanção ao passado, já que retribui com outro mal o antigo mal antes praticado, se permeia por um quê de vingança mesquinha, se não do próprio indivíduo lesado, do Estado, ao mesmo tempo como seu titular e como instrumento da represália. Tal foco finalístico se mostra míope, se considerarmos como objetivo da Justiça, enquanto instituição, superar a vingança particular, já que a pena como retribuição se traduz em resposta ao problema da Justiça com retroalimentação do próprio problema, pressuposto paradoxal bem notado por RICOUER.
165 FERNANDO CAPEZ. Curso de direito penal, parte geral. 12ª Ed. De acordo com a Lei n.º 11.466/2007. São Paulo. Saraiva. 2008. p. 359.
166 Cf. MIRABETE; FABRINI. 2007. p. 244.
167 A definição de GRECO em seu Curso de direito penal: parte geral (ROGÉRIO GRECO. Curso de direito penal: parte geral. 11ª Ed. Rio de Janeiro. Impetus. 2009. p. 489), onde também aponta a definição de ROXIN. Em doutrina estrangeira, a definição de ZAFFARONI se encontra em seu Manual (RAUL EUGENIO
61 Nos dizeres do próprio autor168:
Neste sentido, a punição como pena reabre o caminho para o espírito de vingança, a despeito de ter ela passado por uma mediação, de ter sido prorrogada e filtrada por todo o procedimento da ação judicial, mas não suprimida, abolida.
Seguindo a senda trilhada por RICOUER169, percebemos que a norma sancionadora concebida com fundamento retributivista condenará a própria justiça institucional à não superação do paradigma da violência, já que irá aplicá-la no fim de reduzi-la.
De outra banda, há quem, apesar de não adotá-la, aponte os aspectos positivos propiciados pela teoria ora tratada no percurso evolutivo da finalidade da norma sancionadora, como o reconhecimento da pena como um mal ao condenado e a consagração da proporcionalidade entre pena e ato ou omissão praticado170.
Ainda sobre o tema, é fundamental indicar as dessemelhantes contribuições de KANT e HEGEL por seus estudos acerca dos fins das penas. É que ambos reconheciam nelas uma certa finalidade retribuitiva171, porém concebiam suas teorias sobre fundamentos diferentes entre si e diversos daqueles já apresentados.
HEGEL reconhecia na pena um fundamento jurídico ao afirmar ser ela um direito do criminoso. Para ele, a pena confirmava o Direito pela negativa que expressava à outra negativa, do delito cometido pelo criminoso. Assim, como numa operação matemática, a soma das duas referências negativas, a do mal praticado pelo apenado e a do mal a ele imposto, se prestava a formar uma referência positiva para a sociedade.
168 PAUL RICOUER. Justiça e vingança. In: O justo 2: justiça, verdade e outros estudos. São Paulo. Martins Fontes. 2008. p. 258.
169 Cf. RICOUER. 2008. p. 258-260.
170 Cf. PASCHOAL. Direito Penal: parte geral. 2003, p. 98-99.
171 Não é toda a doutrina que acredita que KANT era adepto da teoria absoluta ou retribucionista. Há autores que sustentam que KANT o tenha sido na fase inicial de sua obra, a pré-crítica, defendendo que na última fase dela o filósofo teria caminhado para a teoria mista, compondo as teorias retribucionista e preventiva das penas.
62 A importância do trabalho de HEGEL foi de trazer o tema da razão jurídica para o debate da finalidade das normas sancionadoras. Contudo, fica a ressalva de que a teoria de HEGEL, apesar de apontar para a defesa da retribuição como finalidade, em muito se aproxima da teoria prevencionista especial, que será apresentada na sequência.
Por outro lado, KANT admitia a pena como um fundamento de retribuição moral. A punição àquele que descumprisse um comando normativo representava um imperativo categórico, ou, nos dizeres de MIRABETE172, era:
(...) consequência natural do delito, uma retribuição jurídica, pois ao mal do crime impõe-se o mal da pena, do que resulta a igualdade e só esta traz a justiça. O castigo compensa o mal e dá reparação à moral.
Ou seja, uma razão moral, e não ideológica, fundamentava a pena imposta pela norma sancionadora, que era necessária ao indivíduo para que este se tornasse igual e coberto pelo manto da justiça. A retribuição ao criminoso seria então indispensável.
Destaca-se, por fim, que a teoria retribucionista dialoga dialeticamente com a teoria prevencionista para compor os dois grandes grupos teóricos sobre a finalidade das penas, havendo quem entenda que todas as outras teorias seriam subespécies destas duas, o que nos motiva a então tratar do grupo da teoria prevencionista em suas variadas matizes.