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A Frame Theory é, como já vimos, uma abordagem possível de análise dos movimentos sociais, incidindo, especialmente, e de forma aprofundada, nos elementos e processos culturais. Com especial desenvolvimento na área da comunicação, a Frame Theory tem como referencial teórico de base o conceito de frame, desenvolvido pelo sociólogo americano Goffman (1976). No entanto, desde a publicação de Frame Analysis, em 1974, que a teoria tem vindo a ser desenvolvida e aplicada em estudos de várias áreas, nomeadamente no estudo do jornalismo e do agenda-setting, dos mass media, mas também no estudo dos movimentos sociais e da ação coletiva. Com influência teórica do Interacionismo Simbólico (Mead, Dewey, Bateson, Goffman) e do Construtivismo (Berger e Luckmann), a Frame Theory tem sido muito aplicada, como metodologia e análise, nos estudos realizados na Europa, especialmente sobre os Novos Movimentos Sociais.

Frame refere-se a uma construção mental que está associada à interpretação e, por isso, influencia, e simultaneamente, depende de processos culturais. Um outro conceito pertinente para se entender esta teoria, é a “representação”. Associado ao fenómeno da linguagem e da comunicação, o conceito foi explorado por Moscovici (1981) quando o aplica à Psicologia Social, surgindo, assim, o conceito de “representações sociais”, procurando estudar o processo de construção e de interação entre as dimensões individual (Self) e coletiva. O conceito de “representação”, como já tratado anteriormente, foi amplamente explorado pelas ciências sociais e humanas, especialmente pela Linguística (Kristeva, Bakhtin, Saussure), Filosofia (Wittgenstein, Focault, Derrida, Deleuze, Baudrillard, Barthes, Laclau), Psicologia e Sociologia (Moscovici, Bourdieu, Lacan, Hall, Strauss, Mead).

Os desenvolvimentos nas Ciências Sociais e Humanas motivados pelo pós-estruturalismo, leva cientistas a procurarem explorar os fenómenos da linguagem e do discurso, como base de entendimento para o desenvolvimento de teorias sociais, o conhecido linguistic turn de que alguns autores falam, como Habermas (2010a).

No domínio dos estudos da ação coletiva e dos movimentos sociais, David Snow é um dos investigadores que mais contribuiu para o desenvolvimento da Frame Theory enquanto metodologia e análise, aplicando os seus princípios nos estudos realizados, como por exemplo na pesquisa sobre o movimento religioso de orientação budista Nichiren Shoshu, nos EUA. Além de Snow, também Robert Benford (1997), Scott Hunt e outros desenvolveram pesquisas recorrendo à Frame Theory.

Tendo o construtivismo como base, o framing defende que o significado e o sentido não são propriedades inerentes às coisas, mas sim uma construção possível pelo contexto cultural (crenças, valores, normas, etc.) e que, através destes “quadros” cognitivos, é possível dar respostas e obter compreensão sobre o mundo que nos rodeia. De acordo com Snow, esta abordagem, associada ao estudo dos movimentos sociais desde os anos 80, orienta a sua atenção no processo de significação ou da construção de sentido levados a cabo por ativistas e militantes de grupos e movimentos sociais, partes

interessadas e participantes (antagonistas, elites, media, contramovimentos) que são relevantes para os interesses dos movimentos sociais e para os objetivos que preconizam.

Ao contrário da tradicional perspetiva dos movimentos sociais enquanto portadores de ideias e crenças pré-estabelecidas, a abordagem do framing considera os movimentos como agentes de significado envolvidos em processos de produção e manutenção do sentido para protagonistas, antagonistas e observadores. Como os governos locais, o Estado, representantes de outras estruturas de autoridade, os media, públicos interessados, os movimentos sociais são vistos como parte integrante de sistemas de significação. O verbo framing é utilizado para conceptualizar o processo de significação, que é uma das atividades que os movimentos sociais e seus líderes fazem regularmente, ou seja, enquadrar, atribuir sentido e interpretar fenómenos e acontecimentos relevantes. Esta atividade, com os pressupostos descritos, é conhecida por colection action frames (Snow, 2004: 384).

Foi a partir de 1986 que a abordagem de framing foi associada a trabalho empírico no campo dos movimentos sociais e da ação coletiva, de acordo com trabalhos de Snow e Benford. Segundo Snow é possível organizar os estudos em categorias, de acordo com o seguinte:

1) Alargamento e clarificação da arquitetura conceptual dos frames da ação coletiva e processos de framing, como com a elaboração concetual de ações de framing (ex. diagnóstico, prognóstico e framing motivacional), determinantes para a ressonância do frame (ex. credibilidade e saliência), os componentes dos frames da ação coletiva (ex. injustiça, agência, identidade), e o carácter e funções dos master frames;

2) Estudos empíricos que investigam a aplicação e utilidade analítica de vários conceitos de framing (ex. funções nucleares do framing, master frames) e processos (ex. alinhamento de frames, contestação de frames ou debates, counterframing) para compreender vários movimentos sociais ou episódios da ação coletiva;

3) Exploração da associação entre processos de framing e outros fatores relevantes para a dinâmica dos movimentos sociais, como a oportunidade política, campo discursivo e estrutura de oportunidade, os media, ideologia, narrativas, identidade, emoção;

4) Aspetos metodológicos e técnicas relevantes à condução de estudos de framing;

5) Apreciação crítica sobre a abordagem do framing, e sobre alguns trabalhos que a empregaram, sobre as suas negligências, falhas e omissões.

No que compete à metodologia, nos trabalhos de H. Johnston, especialmente num artigo intitulado Verification and Proof in Frame and Discourse Analysis (2002: 62-91), o autor descreve vários métodos para desenvolver uma pesquisa na área do framing (Klandermans e Staggenborg, 2002). Durante algum tempo não se conheciam estudos com dados empíricos sobre framing e ação coletiva específicos de determinados movimentos sociais, mas um dos estudos que marcou de forma profunda a tradição desta abordagem metodológica foi, sem dúvida, a análise que Gerhards e Rucht (1992) fizeram dos protestos contra a visita em 1987 do presidente Regan a Berlim, e o protesto sobre o congresso do Banco Mundial e do FMI em Berlim, em 1988, tendo-se focado no papel do framing no

âmbito do processo de mobilização, analisando os eventos nas dimensões individual e coletiva, com a adoção da“micromobilização” e a introdução de um novo conceito referente à mobilização e associação entre grupos, a “mesomobilização”.

Os frames podem ser operacionalizados e estudados como estruturas cognitivas individuais, mas também podem ser entendidos como propriedades das organizações, e neste sentido estarem presentes no discurso da organização através de suportes de comunicação como folhetos e sítios na internet, nas redes sociais ou em cartazes e materiais usados durante as manifestações. Alguns investigadores defendem mesmo que as formas organizacionais podem constituir frames elas mesmas, que servem para influenciar ações coletivas posteriores.

Este estudo tem por base a tradição da mobilização de recursos, pois a grande preocupação de Gerhards e Rucht foi compreender a forma como o framing pode ser usado nos processos de mobilização, tendo por isso analisado os estudos de caso de acordo com os master frames de “Ideologia do Imperialismo” e de “Poder hegemónico da ideologia”, no âmbito dos protestos contra a visita a Berlim de Ronald Reagan, em 1987, e contra a reunião anual do FMI e Banco Mundial, em 1988. Todavia, os autores são da opinião de que é mais completa uma análise que compreenda as dimensões não só estruturais, o hardware como lhe chamam, mas também, e acima de tudo, as questões do domínio da cultura, o software dos movimentos sociais. Para compreender o fenómeno da mobilização e as ações de protesto por parte de movimentos sociais é necessário, segundo Gerhards e Rucht, analisar o contexto cultural em que se desenvolvem estes movimentos. Isto só se torna possível através da análise dos processos de framing e tematização.

Apesar dos obstáculos e das contingências apontadas pelos investigadores sobre a aplicação da metodologia do framing aos objetos empíricos, Gerhards e Rucht analisaram um panfleto de cada movimento, através de análise de discurso, desenvolvendo um esquema gráfico que tem por base o modelo do processo de decisão de Robert Axelrod.

…to analyse the leaflets, we draw on a method for analyzing decision-making processes developed by Robert Axelrod (1976). Using this method, the internal structure of frames can be invested with the help of a graphic presentation of the argumentative structure of the frames. The graphic presentation takes the form of a directed graph of points and arrows between the points. The total information of the texts is thus reduced to the bare bones of the argumentation. The degree of abstractness of the frame, the range of the topics addressed, and the logical connection of the arguments thus become visible and comparable between different frames. (Gerhards e Rucht, 1992: 574)

Segundo esta perspetiva, existe maior ou menor grau de potencial mobilizador, pelo que atores coletivos ao fazer o frame de diagnóstico, devem identificar e tornar público um problema, apontar causas e culpados. Quanto maior for o número de grupos que se identifiquem com o problema, maior a

possibilidade de participarem, logo aumentar a capacidade de mobilização do frame. Um outro aspeto, apresentado pelos autores, é o grau de interligação entre os problemas identificados e o frame, isto é, quanto maior for o grau de afinidade, maior o potencial mobilizador. O frame de prognóstico, por sua vez, propõe soluções e aponta direções, e o frame de motivação funciona, de alguma forma, como um pedido de ajuda para melhorar e corrigir a situação, havendo um consenso sobre os problemas, causas e soluções, constituindo, assim, uma predisposição para a mobilização dos grupos. A capacidade de mobilização de um frame não é somente determinada por aquelas três dimensões, mas, acima de tudo, pela forma como estão interligadas e combinadas.

Para que uma mobilização seja bem-sucedida, segundo os autores, os fatores de mesomobilização devem não só ligar-se e coordenar com grupos heterogéneos numa dimensão organizacional, mas também integrar esses grupos sob um eixo ideológico. Neste sentido, alguns autores desenvolvem o conceito de masterframe, nomeadamente Snow e Benford, que consiste na capacidade de integrar vários grupos de micromobilização sob a égide do mesmo tema/ causa, pelo que se criaram frames que vão para além daqueles que são inerentes e específicos de cada grupo ou movimento. O estudo de Gerhards e Rucht revelou a funcionalidade de masterframes relativamente aos efeitos de integração e da ampla mobilização que podem permitir, especialmente quando há heterogeneidade nos grupos e interesses apontados para mobilização.

Na medida em que mobilizações de grande escala baseadas na coligação tornaram-se o mais comum aspeto no panorama mundial da ação coletiva, podemos refletir acerca da função de masterframes em termos de dinâmica da atividade futura dos movimentos sociais, em termos de continuidade temporal ou em determinados ciclos do protesto.

Além disso, torna-se pertinente refletir também sobre a mudança e transformação dos frames ao longo do tempo. Os frames são também como um “organismo vivo” e sofrem alterações ao longo do tempo, adaptam-se e transformam-se, de acordo com o contexto, dependendo dos acontecimentos e em função do processo político e social. A intervenção de movimentos sociais num determinado frame tem o objetivo de provocar mudança. Sensibilizar, alertar consciências, propor soluções, influenciar a opinião pública, suscitar discussão de assuntos na esfera pública, de forma a permitir a mudança social benéfica para os membros e participantes de um determinado movimento social, é este o objetivo dos movimentos sociais e da ação coletiva.

O processo de framing pode compreender várias dimensões, quer ao nível da sua ampliação e da sua extensão, mas também a nível da sua transformação. Os processos de frame bridging não são propriamente uma alteração e transformação do frame, mas sim uma estratégia de amplificação e extensão, de forma a atingir mais grupos e indivíduos a mobilizar.

Snow (2004) demonstra como se desenvolve o processo de transformação de frames. As transformações capturadas em ambas as células A e B englobam significantes mudanças na consciencialização individual acerca de algum assunto ou problema, mas eles variam consoante a mudança e é limitada a um segmento particular ou domínio da vida social ou é mais penetrante no

sentido de ser generalizado ao longo de situações e domínios. Ambos tipos de transformações podem ser utilmente conceptualizados e analisados como conversões, mas um envolve a transformação de pensar e sentir sobre um conjunto particular de atividades ou domínio da vida (como saúde, escolaridade, auto-estima, e uso de substâncias), se a mais generalizada transformação, enquanto ser ancorada num particular domínio como a religião e a política, implica conversões que transcendem qualquer domínio individual e afeta a sua perspetiva com respeito a uma série de assuntos e situações.

De acordo com cada movimento ou grupo são definidos problemas e contexto onde intervir. Estes assuntos são constituídos ou reconstituídos como um problema social e são, portanto, o alvo para a atividade de um movimento social ou organização. Por exemplo, o movimento de mulheres no século XIX sobre o direito ao voto, ou, mais recentemente, o direito de grupos LGBT (Gays, lésbicas e transgénero) de ver reconhecidos os direitos de casamento e de adoção. Podemos apontar, como exemplo, o processo de transformação do frame sobre racismo que nos EUA iniciou com Martin Luther- King e grupos que participaram num movimento social além-fronteiras. Muitos dos obstáculos ao processo de desenvolvimento e emancipação de grupos sociais está presente sob a forma de estereótipos que se naturalizam na linguagem, por exemplo, contra preconceitos raciais, a frase “black is beautiful” constitui um índice de transformação do frame associado ao racismo.

Considerados, os quatro tipos de transformação de frame segundo Snow (2004) desenhados no Quadro 7.1.:

Quadro 7.1 - Tipologia das transformações de frame Âmbito da mudança

Nível da mudança

Mudança num domínio

específico

Mudança generalizada

(A) (B)

Transformação Individual Conversão para alguns grupos de

auto-ajuda e movimentos

religiosos (ex. Erhard Seminar Training, Alcoólicos Anónimos, Meditação Transcendental)

Conversão para alguns

movimentos políticos e

movimentos religiosos (ex. Hare

Krishna, “Moonies” –

Unification Church of United States, movimentos racistas e de ódio, Comunismo)

(C) (D)

Transformação coletiva/ Grupo Redefinição do domínio específico de estatuto de uma categoria social ou estatuto de um grupo (ex. Mães Contra Condução com Álcool, NIMBY Movements – “not in my backyards”/questões locais)

Mudança generalizada na

conceção da categoria (ex.

Movimento de Mulheres,

Movimento de Direitos Civis/

Cidadãos, Movimentos

Racistas/Separatistas)

Na presente reflexão acerca da ação coletiva e dos masterframes é oportuno pensar nas questões culturais, como já foi dito, sendo que alguns investigadores associaram este tema ao conceito da ideologia, como conceito central para a discussão. Snow é certamente um dos autores que trata a ideologia como um conceito a ter em conta, em termos de frames de ação coletiva e questões culturais.

Este é o motivo pelo qual a análise de discurso é considerada um dos métodos preferenciais para os estudos neste campo.

Agora revisitada e trazida para o campo dos movimentos sociais, a ideologia já há muito que é estudada e associada às questões culturais, tendo a linguagem e o discurso como principal objeto de análise, sendo estas as estruturas que permitem a relação e, consequentemente, produzir e reproduzir cultura. Na perspetiva da corrente culturalista ou dos Estudos Culturais (Cultural Studies), que iniciou na escola de Birmingham, tem nas teorias críticas e marxistas a sua génese, tendo por isso conhecido grande desenvolvimento e influenciado muitos estudos na europa. Além disso, a perspetiva pós- estruturalista e a conhecida “Escola Francesa” contribuiu, igualmente, para esta visão cultural dos fenómenos sociais e políticos.

No campo do estudo dos movimentos sociais, Melluci é um dos autores referência que desenvolve a sua teoria com recurso aos conceitos de discurso e de ideologia, enquanto abordagens de análise do conceito de identidade coletiva. O framing como modelo de análise desenvolve-se tendo por base a linguagem e o discurso e, neste sentido, a ideologia é conceito a ter em conta porque se manifesta naquelas estruturas e orienta o discurso num determinado sentido, logo a ação social. A ideologia é geralmente invocada como conceito conotado com um conjunto relativo de valores, crenças e objetivos estáveis e coerentes associados com um movimento. A pertinência do seu estudo justifica-se porque alguns investigadores têm defendido os movimentos sociais contendo estruturas que orientam a sua ação ideologicamente.

Segundo Snow (2004), a atividade dos movimentos sociais é ideologicamente estruturada, os participantes dos movimentos sociais são orientados ideologicamente ou subscrevem o mesmo conjunto de crenças e ideias, ou que os frames da ação coletiva são simplesmente vindos de uma ideologia ou de um background cultural existente.

Nestes processos de transformação de frames, temos de considerar a ideologia e o fato dela não ser tão estável e coerente ao longo do tempo quanto se pensava. Até há alguns anos atrás, a coerência e estabilidade ideológica revelava uma sensação de unanimidade e até a “ilusão” da homogeneidade observadas pelo comportamento, mais ou menos, previsível do comportamento das massas. A sociedade de massas, possível pela hegemonia produzida pelos meios de massa, além da criação de um starsystem favorável ao desenvolvimento do consumismo, também construiu e ampliou “estereótipos”, situações convenientes para as elites do poder, pois permitia uma maior previsibilidade social. Todavia, outros autores, como Turner, acreditam que as massas são raramente compostas de participantes que partilhem características idênticas, demográficas, motivacionais ou que se envolvam em comportamentos idênticos.

No campo dos movimentos sociais, estudos mostram a existência de heterogeneidade, até a existência de grupos e fações no mesmo movimento. Se pensarmos de uma forma macro, é um fenómeno recorrente a existência de uma cultura e de subculturas. A fragmentação de que Hall também defendeu, está presente em vários estudos, como por exemplo em Rochford (1985) sobre o grupo Hare Krishna

nos EUA, tendo observado contradições entre as crenças professadas e as práticas quotidianas entre os membros do grupo. Quando as crenças ideológicas e comportamentos se contradizem, o grupo é ameaçando e assiste-se à fragmentação. Explica-se assim, também, de forma estratégica, que as ideologias dos movimentos e frames de ação coletiva incluam sempre linhas de múltiplas ideologias culturais ou clusters de crenças e valores, aumentando a possibilidade de mobilização em torno de um masterframe que funcione como umbrela. A articulação do frame envolve a conexão e coordenação de eventos, experiências e orientações de uma ou mais ideologias. É através das práticas discursivas que os movimentos marcam um território ideológico e as crenças e as ideias se acentuam e são realçadas em contraste com outras. Os estudos realizados nesta área, como já vimos, analisam os manifestos verbais e documentos textuais presentes em cartazes, panfletos, livros, assim como nos discursos proferidos em situações formais ou informais de membros e líderes dos grupos e movimentos.

Snow (2004) defende também que os frames estão associados às tradições culturais e narrativas. Os processos de articulação de frame e elaboração não são somente facilitados ou limitados por uma amplo contexto cultural ou ação, que muitas vezes se estende para além das fronteiras nacionais ou sociais, mas isso é afetado pelo contexto discursivo em que eles estão envolvidos. Daí falar-se da análise de discurso enquanto forma por excelência de desenvolver estudos neste domínio. Desde o final dos anos 90, que os académicos orientados para a análise dos movimentos sociais a partir das perspetivas cultural e política/ estrutural têm conceptualizado estes contextos como “campos discursivos” e os estruturalistas chamaram-lhe “estruturas discursivas de oportunidade”.

Os campos discursivos são conceptualizados amplamente como territórios em que disputas de significado ocorrem (Steinberg 1999). Nos trabalhos de Steinberg é possível constatar que os significados são alvo de utilização por parte de grupos, orientados para uma verdadeira luta de classes entre proletariado e proprietários. Steinberg utiliza a análise de discurso, com base no conceito de dialogismo inspirado em Bakhtin (1977), e sugeriu a relevância do conceito de campo discursivo para a compreensão das atividades discursivas e de framing associados aos movimentos sociais.

Esta perspetiva permite obter uma ferramenta útil para a análise de movimentos sociais e eventos de ação coletiva como o protesto, através da abordagem do campo discursivo, onde para além dos aspetos culturais a ter em conta; como crenças, valores, ideologia, mitos e narrativas, torna-se pertinente analisar também os atores cujos interesses podem estar ou não alinhados, formando-se, assim, os movimentos e os contramovimentos, que exercem uma ação sobre um determinado tema ou acontecimento. Podemos concluir que os significados não são fixos ou estáticos, mas são sujeitos a alterações, assim como de mudanças nos contextos sociais. Se há mudança nos padrões de interação, o discurso e a identificação são especialmente suscetíveis de alterar o significado que se atribui a pessoas, grupos, nações, eventos, experiências, entre outros, e, portanto, o curso da ação social, seja ele individual