Aliás, trata-se provavelmente de uma constante no desenvolvimento capitalista79. Desde o século XIX, inicialmente na Europa, a globalização desse desenvolvimento em escala planetária tem sido entendida, já a partir de Marx, como uma transição de uma época em que padrões tradicionais de produzir e consumir bens e serviços – mas também, provavelmente: sons, imagens, espaços, pessoas e símbolos - foram sendo substituídos por formas modernas, atitradicionais, em que a pressão por consumir aliada a um sentido de progresso e inovação tendia cada vez mais a superar um patamar de poupança invariável. Ou seja, patamares estáveis de consumo, bem como a aceitação de históricos pouco modificáveis desses padrões e da renda que os sustentava, teriam tendido a sofrer uma transformação a qual teve sua primeira expressão mais dramática no decorrer do século XIX (CAMPBELL, 2001; RIESMAN, 1979; ROUCHE; VEBLEN, 1988). Como se uma civilização da segurança, sob o ponto de vista das condições costumeiras de vida, estivesse desaparecendo e dando lugar a uma civilização dos aceleramentos e intercâmbios, das rotatividades que forneceriam expectativas tanto ascendentes como descendentes de vida para muitos indivíduos; em suma, a emersão de um tipo de civilização da esperança, o que não deixa de ser, portanto, uma civilização das ansiedades e desespero.
Para David Riesman, por exemplo, tal transição ocorre quando o potencial aquisitivo, antes restrito ao pequeno número de privilegiados pertencentes às elites se dissemina, alcançando parcelas cada vez maiores entre os estratos considerados populares, sobretudo através do elastecimento e diversificação da classe média. Ou seja, dar-se-ia um momento em que determinados bens que anteriormente gozavam de um status absoluto, perdem relativamente seu poder quase místico de atração e, por já não serem mais inacessíveis, a aquisição enquanto finalidade perde relativamente sua importância, ou melhor, naturaliza-se. Todavia, paradoxalmente, tal perda de fascínio não é acompanhada
79
“Em síntese, haviam evoluído três posturas perante a modernidade e a normalização da mudança:
circunscrever o perigo; conseguir a felicidade do gênero humano da maneira mais racional possível;
acelerar a tendência para o progresso enfrentando com vigor as forças que a ele se opunham ferrenhamente. Os termos conservadorismo, liberalismo e socialismo começaram a ser usados para designar essas três posturas durante o período 1815-1848.” (grifos nossos) (WALLERSTEIN, 2002, p. 86)
por uma queda nos índices de consumo individuais, ao contrário, ocorre inclusive a expansão das metas e expectativas pessoais com as quais um indivíduo de classe média poderia contar, ou seja, busca-se uma fronteira mais além, mas que não exclui os bens anteriores, apenas os coloca num lugar abaixo na hierarquia. Dá-se uma expansão e constituição de uma espécie de sociedade de consumidores (AUGÉ, 1994; BAUDRILLARD, 1995; BAUMAN, 1998) ou, melhor seria, uma civilização na qual as práticas de consumo estariam no centro de sua estruturação, formulando e elaborando valores correlativos a esse modelo de mundo. Esse aumento gradual das rendas médias parece ter ocorrido na Europa já entre os séculos XVII e XIX, aponta Daniel Roche. Todavia, ao relacionar os novos movimentos religiosos com tal expansão, estarei bastante interessado no período, fundamental para os países da América Latina e, entre eles, o Brasil, ocorrido após a segunda guerra mundial, sobretudo os últimos 40 anos. Esse período teria sido impulsionado por deslocamentos demográficos, técnicos e produtivos, bem como teria sofrido movimentos estruturais nos patamares de renda, crescentes em valor absoluto, mas acompanhados por processos irregulares mas constantes de concentração; também, pela invasão de novos produtos no mercado, tudo isso associado a inserção - há muito ocorrida nos países europeus e Estados Unidos - recente da mulher no mercado de trabalho.
No Brasil cresceu, entre as década de 70 e 90, de 2468 Kcal/dia para cerca de 2969 Kcal dia o consumo per capto de energia em alimentos, ainda que a proporção do orçamento gasta nesse setor tenha decaído em cerca de 38%. Ou seja, liberou-se maior parte do orçamento para o investimento em outros setores, sobretudo, moradia, transportes, incluindo aquisição e manutenção de carro próprio, e educação, uma vez que a qualidade da escola pública e gratuita no Brasil teria caído bastante, forçando, inclusive, setores da classe média baixa a tentar as particulares; somando-se a isso a pressão por acesso ao ensino superior que se generalizou no país, acompanhada pela abertura constante de cursos particulares gratuitos estimulou uma demanda crescente no setor, e um conseqüente redirecionamento dos gastos privados. A produção de televisores passou de dois milhões de unidades/ano em 1985, para cerca de nove milhões em 1996, ao mesmo tempo em que o consumo aproximado de energia nos setores têxteis e de mineração, crescia em torno de 300 % entre 1970 e 2000.
Também, pode-se dizer que desenvolveu-se no país num período bastante curto, e em circunstâncias tecnológicas bastante diferenciadas em comparação a Europa e Estados Unidos, o que se poderia chamar de uma pedagogia do consumo em larga escala. Por exemplo, o Brasil atualmente está entre os países do mundo em que as crianças passam a maior parte do tempo em frente aos aparelhos de TV. Segundo dados do IBOPE, as crianças brasileiras entre 4 e 11 anos de idade passaram, no ano de 2005, cerca de quatro horas e cinqüenta e um minutos diários em frente ao aparelho de TV, ao mesmo tempo em que o investimento em publicidade nesse setor país cresce rapidamente. Em 2004, foram investidos R$ 117,353 milhões neste segmento de mercado, contra R$ 68,957 milhões em 2003, segundo dados do Monitor Plus, produto do Ibope Mídia. Assim, apostando-se numa expansão bastante significativa do setor, contribui-se para que um determinado público consumidor passe a ser modelado cada vez mais cedo e mais rapidamente. Inclusive, é interessante o fato de que esse período é normalmente vivido de forma “livre” pelas crianças, ou seja, sem companhia e interferência de adultos. Ou seja, se é inserido numa experiência bastante peculiar de mundo, em que os limites e possibilidades perceptivas já estariam aí sendo definidos, constituindo noções temporais e espaciais singulares, em que o corpo provavelmente irá desenvolver uma noção de mundo cada vez mais dependente do sentido da visão e do sentido de liberdade e mobilidade aí inscrita.
Em contrapartida, tal explosão e difusão de símbolos, espaços, imagens e produtos, acaba também por exigir e reflexivamente fornecer um elemento nivelador ordenador e comunicador das experiências80 e dos fluxos humanos. Assim, se por um lado alteram-se as condições de existências com o despejo constante de mais e mais produtos usos e significados, por outro, produz-se comunicabilidade, homogeneização e entendimento em torno de determinados valores e expressões básicas. Cidades são planejadas em proporções
80 A idéia de sistemas peritos de Giddens, penso, ajuda a interpretar esses processos, de forma semelhante ao
afirma Augé: “[...] o interessante sendo que todos os consumidores de espaço acham-se assim, presos numa espécie de cosmologia objetivamente universal, simultaneamente familiar e prestigiosa [...] Por um lado, essas imagens tendem a constituir um sistema; elas esboçam um mundo de consumo que todo indivíduo pode fazer seu porque é nele incessantemente interpelado. [...] Por outro, como todas as cosmologias, a nova cosmologia produz efeitos de reconhecimento. Paradoxo do não-lugar: o estrangeiro perdido num lugar que não conhece (o estrangeiro ‘de passagem’), só consegue se encontrar no anonimato das auto-estradas, dos postos de gasolina, das lojas de departamento ou das cadeias de hotéis. O outdoor de uma marca de gasolina constitui para ele um sinal tranqüilizador, e ele encontra com alívio nas gôndolas dos supermercados os produtos de limpeza, domésticos ou alimentares consagrados pelas firmas multinacionais.” (AUGÉ, 2005, p. 97)
gigantescas, desenvolvimento de transportes, escolas, fábricas, medicina, padronizando e construindo mapas (BOURDIEU, 1996; FOUCAULT, 1979; HARVEY, 1999), censos, registros etc. Inicialmente, tanto na Europa, quanto nos Estados Unidos e Brasil, sobretudo através do Estado, mas não apenas; precisava-se regular os padrões discursivos, construir pedagogias, civilizar os costumes, qualificar e domesticar a mão-de-obra, expulsar os aspectos bárbaros da cultura. O desenvolvimento de uma demanda progressiva pelo refinamento dos gostos (ELIAS, 1994) estaria inserido justamente nesse movimento. Mas, entre outras coisas, os grupos de cientistas e ideólogos serão fundamentais nesse processo.
Assim, se já no século XVI, mas principalmente no decorrer do século XIX vinha ocorrendo uma progressiva urbanização da Europa, como já foi assinalado, fato é que em seguida, de modo desigual e oscilante, ela se espalharia pelo mundo inteiro81, reunindo pessoas e objetos variados em um espaço comparativamente muito mais restrito que o do campo82. A cidade se autonomiza e vai adquirindo cada vez mais importância, deixando de ser apenas um centro administrativo sustentado pela zona rural (HOBSBAWM, 2001), e tornando-se produtora em escala fabril de manufaturados. As tensões e aproximações começam a se dar de forma que a cidade, produtora e depositária de uma densidade cada vez maior de imagens, tecnologias, produtos e oportunidades passa a se tornar espécie de vitrine de vida humana, de vida social em permanente passagem, aproximando instantaneamente pessoas distintas na hierarquia social, estranhos entre si que passavam ao mesmo tempo em que se aproximavam, a realizar um esforço crescente de distinção e separação diante dos inferiores, cada vez mais difíceis de identificar. A cidade, como disse Benjamin (2000): “uma multidão a perder de vista, onde ninguém é para o outro nem totalmente nítido, nem totalmente opaco.” Possivelmente, tais transformações devem ter se
81 De fato, esse não foi um fenômeno exclusivo das regiões do planeta consideradas desenvolvidas. Para citar
o estado da Bahia, o qual chegou bastante “atrasado” no processo, o percentual de migrantes na população das cidades era: 27,3% entre 1940-1950; e passa a 53,8% entre 1950-1960. Também, a população rural que era de 3,0 milhões em 1940, passa para 4,8 milhões em 1980; enquanto a urbana, que era minoria absoluta, apenas 0,9 milhões em 1940, praticamente empatará com a rural em 1980 - com 4,6 milhões de habitantes -, ultrapassando-a rapidamente em seguida. Mais ainda, a população total que até a década de trinta não havia aumentado com taxas superiores a 2% por década passou, daí em diante, a apresentar taxas superiores a 3% e 4%, chegando mesmo a 4,9% na década de 50.
82 No Brasil, um acontecimento fundamental nesse sentido será a vinda da família real de Portugal e sua
instalação na cidade do Rio de Janeiro em 1763, tornando-se essa cidade então, a nova sede do governo. Nesse processo, a corte portuguesa irá se empenhar na redefinição da fisionomia urbana, dos serviços e produtos na cidade, dotando-a de espaços e alternativas materiais, arquitetônicas, lúdicas e artísticas que refletissem o refinamento e o gosto de acordo com as propensões da corte portuguesa, esta, bastante influenciada pelos padrões franceses da época.
convertido numa pressão intensa por modos de reagir, maneiras de responder, perceber e interpretar. A multiplicação de lugares, vitrines e espelhos pôs um problema às sociedades quando o sentido tradicional de segurança, abalado fundamentalmente por guerras e desastres naturais, vai se redefinindo em trono da complexidade dos encontros e convivências; a capacidade para avaliar pessoas, bem como para avaliar a si mesmo no interior dessas teias humanas passa a exigir competências cada vez mais aguçadas, sutis e lapidadas. Surge a demanda por refinamento e fluidez. A cidade, e, sobretudo, a grande cidade, expressaria esse sentido de provisoriedade e mudança, na qual cresceriam ao mesmo tempo ainda mais as demandas por segurança e onde, entre outras coisas, a produção de imagens pareceria compor ainda de forma mais fundamental as percepções e memórias: “Aquilo que sabemos que, em breve, já não teremos diante de nós, torna-se imagem.” (BENJAMIN, 2000, p. 85). A própria atividade de flanar só seria possível em lugares e momentos em que o flaneur pudesse se sentir suficientemente seguro para, por assim dizer, esquecer-se do mundo através da entrega ao próprio mundo. Assim, o sentido de transitoriedade das cidades passa a alterar o senso de segurança e estabilidade, ao mesmo tempo em que o mundo vai tornando-se mais e mais acessível ao olhar, a visão; pois, não residiria nisso o valor do flaneur enquanto expressão e ilustração sobre uma época, justamente essa sua obsessão e entrega aos prazeres do olhar como forma pedagógica e cognitiva fundamental, uma atividade de deleite estético capaz de alterar as sensibilidades e definir linhas de uma memória e, mesmo, como afirma Baudelaire, de uma moralidade?
Também é nesse sentido que as imagens jogariam um papel importantíssimo, inclusive, os próprios objetos e serviços (VEBLEN, 1988), como signos distintivos, visíveis, objetos de exibição pecuniária, capital honorífico; seja como for, ultrapassando os limites da mera utilidade. Sua produção, e os meios técnicos de sua reprodução rápida e, portanto, barateamento83, conferem à experiência um senso de individualidade diferenciado. Os objetos, inclusive as obras de arte, agora passíveis de reprodutibilidade se democratizam em seus usos em proporções insólitas. A individualidade, que passa a se tornar cada vez mais um valor e uma meta, dependendo ao mesmo tempo de aquisição de
83 Por exemplo, ao mesmo tempo em que a produtividade por operário no Brasil cresceu bastante nos últimos
anos, tendo, como uma de suas contrapartidas o desemprego em uma série de setores, o preço médio de vários produtos, sobretudo os dependentes de tecnologia, como os eletroeletrônicos, tendeu a relativamente descer.
determinados objetos, bens coordenadores de estilos de vida, passa a se confrontar cada vez mais com as dificuldades postas pela reprodutibilidade dos objetos materiais, entendidos, nesse caso, como objetos culturais em seu sentido pleno de comunicadores de sentido, organizadores de mundo. Mais ainda, só se pode avaliar corretamente tal centralidade dos objetos, se se observar aquilo que Colin Campbell (2001) detecta como uma relação fundamental entre gosto e autenticidade. Ou seja, que a avaliação em termos de gosto, prazer e sensibilidade, passa a revelar cada vez mais a interioridade, a autenticidade do ser humano. Pareceria paradoxal, pois; no entanto, se acompanharmos melhor o argumento de Campbell, mas também Elias nesse trajeto, o paradoxo se dissipará um pouco. É nesse sentido que tratarei de identificar uma direção para uma mudança nas sensibilidades que, se por um lado, parece ter recebido um impulso importante da reforma protestante, não se limitou a ela, transbordando seus efeitos para além do movimento religioso, ao mesmo tempo em que recebia influências de outros lugares e direções.
Campbell indica para uma contribuição fundamental fornecida pelo protestantismo reformado às praticas consumistas modernas. Tal contribuição liga-se à busca por interioridade calvinista84, conseqüência do estado de solidão e da busca desesperada pela certeza da própria salvação que os protestantes reformados teriam sofrido. Assim, ao mesmo tempo em que o protestantismo teria impulsionado uma reorientação racional de mundo, de sobriedade e de cálculo, ele teria contribuído para uma individualização dos sentimentos e das emoções, uma racionalidade das emoções mais individualizada, solitária e angustiada, permitindo a emersão do tipo de religião do coração, como aconteceu de fato com muitos dos desdobramentos do protestantismo – o metodismo, como anteriormente indicado, e mais tarde o pentecostalismo, estariam relacionados a essa direção. Todavia, tal contribuição teria ido além dos limites do próprio protestantismo, se autonomizando e laicizando, persistindo ainda quando uma motivação puramente religiosa estivesse ausente. Teria permanecido na cultura ocidental a relação entre a capacidade de adiamento e devaneio, e a busca constante por novos produtos e sensações:
84 “O que é interessante e de especial interesse nesse relato é que uma experiência intensamente pessoal e
subjetiva está em aqui sendo utilizada como a prova crucial do mérito religioso. Não é tanto o conhecimento ou a conduta do indivíduo que estão sob investigação, mas a natureza e qualidade de sua própria vida interior.” (CAMPBELL, 2001, p. 185)
Mas, mesmo com crédito, os recursos do consumidor moderno ainda são limitados, enquanto as necessidades não o são. Conclui-se, pois que, em qualquer época um consumidor terá desejos que não podem ser satisfeitos mas devem, ainda que temporariamente, ser adiados. [...] A inexauribilidade das necessidades que caracterizam o comportamento dos consumidores modernos deve ser compreendida como proveniente de seus hábitos sempre desejosos, algo que provém, por sua vez, do inevitável hiato entre os perfeitos prazeres dos sonho e as imperfeitas alegrias da realidade. Seja qual for a natureza do sonho ou, de fato, da realidade, a discrepância entre eles dá origem a um anseio contínuo, de que saltam, repentinamente, desejos específicos. (CAMPBELL, 2001, p. 138)
Dependurar novos objetos no corpo e na casa, consumir novos bens culturais, renovar, estilizar a cotidianidade, fazê-la, inclusive, um espaço importante de exibição de si mesmo, passa a fazer parte de uma lógica incansável de renovação e de experiência com a novidade. Todavia, como já foi indicado, nem, sempre a novidade estaria disponível ao potencial de devaneio de cada um. Enquanto competência estruturada por um processo coletivo, ela fazia parte de uma transformação do olhar sobre o mundo, de capacidades sensório-cognitivas que se transformavam. O argumento que usarei é o de que a relação entre transitoriedade e aceleração da vida urbana e social em geral, no qual a ampliação dos produtos em quantidade e variedade acompanhava a extensão da capacidade de fantasiar e sentir, desvinculando necessidade de utilidade, ou melhor, tornando a restrição à necessidade utilitária um sinal de inferioridade85, realizava uma pressão constante de contenção em que a limitação à apropriação dos objetos mobilizava e concentrava energias em direção daqueles bens mais elevados e desejados – lugar em que estética e ética se cruzavam no combate contra a incivilidade e as pulsões. E, se num grau mais especializado, a arte operava como possibilidade de transcendência e ruptura em relação ao embrutecimento e monotonia do mundo, parece provável que cotidianamente, agentes “leigos” estivessem interessados em refinar seus gostos exibindo a si mesmos através de valores que, se já não haviam interiorizado plenamente, estavam a caminho disso.
Tinha-se que aprender a escolher num espaço relativamente bem mais aberto que em economias tradicionais e, portanto, a sensibilidade aos bens passava a revelar algo ainda mais contundente sobre si mesmo. Se por um lado se podia ver mais, por outro, os objetos não se tornavam disponíveis na mesma medida através do tato olfato, audição e,
85 “Nada é verdadeiramente belo se pode ser usado para qualquer fim; tudo o que é útil é feio, porque é a
expressão de alguma necessidade, e as necessidades do homem são ignóbeis e repulsivas, como a sua pobre e fraca natureza.” (GAUTIER In GAY, 2001, p. 52)
mesmo em alguns casos, o paladar; ou seja, a impossibilidade relativa da apropriação e consumo total dos objetos ressaltou ainda mais e de forma não calculada as competências visuais, através das quais objetos, lugares, símbolos pessoas e serviços adquiriam cada vez mais visibilidade. Uma velocidade, para a grande maioria das pessoas, desproporcionalmente maior que a capacidade, competência e possibilidades de consumo. Ou seja, o olhar, para sobreviver a si mesmo, precisaria ser domesticado na sua relação com a tensão distância-proximidade; o autocontrole cumpriria aqui lugar central na modelação e racionalização dos sentidos, quando expectativas e demandas se inflavam e, portanto, correlativamente se comprimiam, se adensavam num espaço que não poderia nunca crescer suficientemente, apertados pelos limites dos orçamentos e créditos, e pela competição pelos recursos e status que, para se fazer valer, precisaria sempre manter distâncias seguras entre aquelas pessoas que não poderiam ou deveriam nunca se misturar. Para tanto, os clubes, ciclos de colecionadores, contatos com pessoas que legitimavam-se como especialistas do gosto, e que mesmo passavam a viver disso, sendo convidados à festas e eventos promovidos por uma determinada elite que se capitalizava econômica e culturalmente, fazia parte da construção das hierarquias e ordenamentos de mundo para muitos.
IV.4 – A LIBERDADE DOS ELEITOS: SOBRE DISTÂNCIA E PROXIMIDADE