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A variabilidade genética da mandioca e saberes locais

No documento Universidade Federal do Pará (páginas 45-49)

4.1 Cultivo de mandioca e a fabricação da Farinha de Bragança

4.1.2 A variabilidade genética da mandioca e saberes locais

Historicamente, as sementes constituem uma estratégia de reprodução do banco

genético que por gerações as famílias dominam e transmitem em sistema de rede solidária. A

multiplicação, conservação e melhoria genética das sementes de mandioca seguem sendo uma

prática permanente entre os agricultores, que ao formarem um roçado novo trazem as sementes

do roçado velho e replantam ou multiplicam. Esta prática além da conservação das sementes

mantém viva os costumes das comunidades.

O conhecimento dos povos tradicionais e dos camponeses sobre as sementes os permitiu

uma diversidade inegável, o que os possibilitou diversificar e estabelecer novos sistemas de

relações sociais baseados em trocas. Na memória das comunidades, estão guardadas práticas

antigas. Tratando do cuidado com as sementes, podemos analiticamente dizer que aconteceram

de várias formas, não seguindo um padrão. Este processo é constituído de sistemas que incluem

o acesso, a conservação, a distribuição e multiplicação periodicamente das sementes,

permitindo a continuidade do banco de sementes como bem comum.

A memória individual e/ou coletiva é a principal ponte entre o passado e o presente para

as diferentes gerações. Na agricultura, a memória biocultural (TOLEDO e BASSOLS, 2015)

além de nos situar no tempo como seres sociais conectando-nos ao espaço como espécie

biológica na diversidade de milhões de organismos vivos.

O homem moderno preso no presente envolvido por uma “racionalidade econômica

baseada na acumulação, centralização e concentração de riqueza” (TOLEDO e BASSOLS,

2015, p. 28) negligenciada pela ideologia do progresso é dominado pela amnésia dos

acontecimentos históricos.

A resistência da lembrança torna a memória uma fonte histórica inesgotável de

informação, tornando possível entender os processos como numa linha do tempo imaginário

que se materializa no presente. Os agricultores familiares de forma individual ou coletiva

seguem resistindo voluntaria ou involuntariamente com a memória biocultural através das

experiências constituídas de conhecimentos e saberes ativadas da lembrança e transformadas

em práticas cotidianas.

As experiências e práticas constituem o modo de vida destes sujeitos, que ao longo do

tempo se expressam como bem coletivo. Uma expressão das práticas coletivizadas é o cuidado

com as sementes, com efeito de troca na comunidade por ocasião do plantio, ou mesmo entre

famílias de comunidades diferentes que designam poder sobre este patrimônio genético. As

práticas simples de cuidados, troca e multiplicação são pontes para as autonomias relativas em

relação a dependência de insumos externo controladas por sistemas empresariais e

agroalimentares globais.

O território bragantino é rico em variedade de mandioca. Esse patrimônio genético vem

sendo preservado pelos camponeses por várias gerações. Além do cultivo em roças, diferentes

variedades de mandioca também são encontradas em quintais e até mesmo em áreas urbanas.

Segundo Hohenfeld (2016), pela facilidade de cultivo e fácil adaptação a diferentes condições

ambientais e de fertilidade dos solos, essa espécie é facilmente disseminada entre os agricultores

familiares independente do tamanho de suas áreas. O quadro 3 mostra a diversidade de

variedades cultivadas entre os camponeses entrevistados para fins dessa pesquisa.

Quadro 2. Variedades das manivas cultivadas no Território Bragantino

Variedades de manivas cultivadas

Jabuti Branquinha Pacajá Jacaré Amarelinha

A

gr

ic

u

ltor

es

e

n

tr

evi

stas

1. José Martins Matos X X

2. Raimundo Gomes Mescouto X X

3. Isolina Cardoso Bezerra X

4. Valdecir e Valmir Silva do Carmo X X X

5. Valcir da Silva Rayol X X X

6. Raimundo Noé da S. Gonçalves X X X

7. Raimunda do Carmo Costa e Luiz do Carmo Costa X X X

8. Benedito Arlindo Padilha

9. José de Jesus de Souza Guimarães X

10. Raimunda da Paixão Oliveira X X

11. Manoel Matos de Oliveira X X X

12. João Maria Elias Fararias e Oneide da Silva Farias X

13. Euclides Guimarães Machado X X

14. Cláudio José da Silva Ramos X X

18. Maria de Nazaré Rodrigues X X

16. Tomé de Sousa Reis X X

17. Benedita Marlene da Silva Padilha X X

Vezes em que as variedades aparecem nas

propriedades 12 07 06 05 04

Fonte: Dados da pesquisa de campo (2017).

De acordo com o quadro a variedade Jabuti teve preferência absoluta entre os

agricultores com 12 declarações de cultivo. Em seguida vem à variedade Branquinha com sete

declarações, depois a variedade Pacajá com seis, acompanhada da variedade Jacaré com cinco

e em quinto lugar a Amarelinha com quatro citações. Além das cinco variedades citadas, outras

36 variedades de manivas foram identificadas como cultivadas pelos agricultores entrevistados,

numa escala de um a dez foram citadas de uma a três vezes. O quadro com os nomes populares

das variedades segue em anexo nos apêndices.

A escolha da variedade da maniva tem a ver como a finalidade pretendida pelo

agricultor, principalmente na questão da qualidade e agregação de valor. Estas finalidades são

influenciadas por dois fatores básicos. O primeiro divide-se em dois, culturalmente tem a ver

com o tipo de farinha ou derivado produzido pela família e o conhecimento sobre os

procedimentos (saber-fazer) da fabricação. Enquanto, o segundo remete-se economicamente ao

valor circulante no mercado consumidor interno e externo.

As cinco variedades mais citadas (Jabuti, Branquinha, Pacajá, Jacaré e Amarelinha) são

destinadas especialmente à fabricação de farinha. A preferência pelas cinco variedades se dá

em função da coloração dos tubérculos que chega a ser um amarelo médio intenso, característica

determinante para a farinha de aparência “creme” como popularmente é conhecida no mercado.

A coloração creme favorece a boa aceitação nos mercados interno e externo, tornando o produto

mais valorizado e mais procurado pelos consumidores.

Entre as 41 variedades de manivas cultivadas pelos agricultores entrevistados apenas a

cultivar BRS foi desenvolvida pela Embrapa. Esta variedade foi recém-introduzida e vem sendo

disseminada pela Secretaria de Agricultura do Município de Bragança (SEMAGRI) nas

comunidades rurais do município. A distribuição das sementes aconteceu de forma seletiva e

discreta pela instituição para agricultores previamente selecionados. As sementes (maniva) da

variedade BRS são multiplicadas no campo experimental de propriedade do empresário da

região Sr. Dutra, local onde é realizado VCU (Unidade Demonstrativa) e visitas de campo de

estudantes e agricultores.

Na propriedade, onde se localiza o VCU as sementesvem sendo comercializada pelo

empresário a um valor de R$ 1,25 (um real e vinte e cinco centavos) por cada muda

7

.

Informações detalhadas do deste processo e da comercialização não foram possíveis coletar no

período da pesquisa.

A introdução da cultivar BRS, ocorre em função do aumento da podridão da mandioca

que tem impactado fortemente os agricultores familiares do território. No entanto, segundo o

agricultor Cláudio José a variedade nativa Maria Viúva tem se mostrado resistente a podridão

da mandioca. Mas, como bem podemos observar, a Maria Viúva não aparece entre as preferidas

dos agricultores (Cláudio José, 44 anos, entrevista concedida em 23 de setembro de 2018).

Os agricultores tiveram acesso a cultivar BRS por meio da parceria entre o empresário

local, secretarias de agricultura e a Embrapa. Aos agricultores as sementes foram repassadas

7 O valor real da comercialização da muda de maniva não foi declarado pela prefeitura, porém os agricultores

informaram que para adquirir diretamente do empresário o custo é de R$ 1,25 (um real e vinte e cinco centavos) a

unidade.

pela secretaria de agricultura sem custo financeiro, no entanto, não obtivemos informações se

na tri parceria a secretaria de agricultura pagaram ao empresário pelas sementes distribuídas.

Durante as entrevistas, foi identificado que os agricultores tiveram acesso as sementes

de maniva de quatro formas: i) banco de semente na propriedade (na terra) constituída de

conservação e multiplicação anual; ii) sistema de troca com vizinhos e parentes; iii) doação de

variedade BRS pela Embrapa e SEMAGRI; e, iv) compra de semente de outras comunidades e

regiões.

A ordem das questões corresponde a posição hierárquica das vezes que se repetiram as

respostas por ocasião da aplicação do questionário semiestruturado. Nos casos i, ii e iv as

sementes de manivas são nativas à região, conhecidas como semente comum. Este tipo de

semente tem forte presença nas comunidades locais, por vezes, são as únicas sementes possíveis

e com grande circulação entre as famílias.

Variedades introduzidas como a cultivar BRS desenvolvida pela Embrapa é bem vinda

pelos agricultores, no entanto, os mesmos resguardam comentários exaustivos, demonstrando

a observação e preocupação com a introdução da variedade. Apesar da novidade até certo ponto

atrativa devido à propaganda, o cultivo de variedades crioulas é dominante no território.

A quantidade das variedades e a maneira de multiplicação das sementes de maniva

refletem a transmissão de conhecimento, das técnicas adquiridas e desenvolvidas, das memórias

sobre as práticas dos antepassados que desafiam o tempo e a história entre as gerações de

agricultores. Essa diversidade é possível principalmente pelo cuidadoso trabalho de

conservação das sementes, sendo as mulheres as principais responsáveis.

Entre as diversas maneiras de socialização das sementes, e consequente multiplicação

entre as comunidades está a atividade da troca. O processo de troca das sementes também tem

por finalidade a melhoria e aumento da produtividade da mandioca, que resvala no aumento da

farinha e outros derivados. Uma das maneiras de melhorar a produção é a introdução e/ou

adaptação de variedades resistentes as doenças como a podridão da mandioca responsável por

imensuráveis impactos econômicos e sociais no Brasil (SERRA, et al., 2009).

A prática da troca de sementes é uma iniciativa de valorização das relações sociais das

comunidades camponesas, que refletem as dinâmicas do modo de vida das comunidades e a

resistência a invasão das sementes transgênicas, como também constituem direitos a

reivindicação por:

... as redes de agricultores guardiões da agrobiodiversidade, sistemas locais e

regionais de conservação, intercâmbio e para a conservação da diversidade genética

da agricultura brasileira (BRASÍLIA, 2015, p.141)

Associado a isto, a troca de sementes tem relação direta com o calendário agrícola das

comunidades, pois o plantio e a colheita ocorrem em sintonia (respeito) com o ciclo das fases

lunares, permitindo que tais valores ultrapassem os horizontes econômicos, inspirados em

crenças e conhecimentos.

No documento Universidade Federal do Pará (páginas 45-49)