4.1 Cultivo de mandioca e a fabricação da Farinha de Bragança
4.1.2 A variabilidade genética da mandioca e saberes locais
Historicamente, as sementes constituem uma estratégia de reprodução do banco
genético que por gerações as famílias dominam e transmitem em sistema de rede solidária. A
multiplicação, conservação e melhoria genética das sementes de mandioca seguem sendo uma
prática permanente entre os agricultores, que ao formarem um roçado novo trazem as sementes
do roçado velho e replantam ou multiplicam. Esta prática além da conservação das sementes
mantém viva os costumes das comunidades.
O conhecimento dos povos tradicionais e dos camponeses sobre as sementes os permitiu
uma diversidade inegável, o que os possibilitou diversificar e estabelecer novos sistemas de
relações sociais baseados em trocas. Na memória das comunidades, estão guardadas práticas
antigas. Tratando do cuidado com as sementes, podemos analiticamente dizer que aconteceram
de várias formas, não seguindo um padrão. Este processo é constituído de sistemas que incluem
o acesso, a conservação, a distribuição e multiplicação periodicamente das sementes,
permitindo a continuidade do banco de sementes como bem comum.
A memória individual e/ou coletiva é a principal ponte entre o passado e o presente para
as diferentes gerações. Na agricultura, a memória biocultural (TOLEDO e BASSOLS, 2015)
além de nos situar no tempo como seres sociais conectando-nos ao espaço como espécie
biológica na diversidade de milhões de organismos vivos.
O homem moderno preso no presente envolvido por uma “racionalidade econômica
baseada na acumulação, centralização e concentração de riqueza” (TOLEDO e BASSOLS,
2015, p. 28) negligenciada pela ideologia do progresso é dominado pela amnésia dos
acontecimentos históricos.
A resistência da lembrança torna a memória uma fonte histórica inesgotável de
informação, tornando possível entender os processos como numa linha do tempo imaginário
que se materializa no presente. Os agricultores familiares de forma individual ou coletiva
seguem resistindo voluntaria ou involuntariamente com a memória biocultural através das
experiências constituídas de conhecimentos e saberes ativadas da lembrança e transformadas
em práticas cotidianas.
As experiências e práticas constituem o modo de vida destes sujeitos, que ao longo do
tempo se expressam como bem coletivo. Uma expressão das práticas coletivizadas é o cuidado
com as sementes, com efeito de troca na comunidade por ocasião do plantio, ou mesmo entre
famílias de comunidades diferentes que designam poder sobre este patrimônio genético. As
práticas simples de cuidados, troca e multiplicação são pontes para as autonomias relativas em
relação a dependência de insumos externo controladas por sistemas empresariais e
agroalimentares globais.
O território bragantino é rico em variedade de mandioca. Esse patrimônio genético vem
sendo preservado pelos camponeses por várias gerações. Além do cultivo em roças, diferentes
variedades de mandioca também são encontradas em quintais e até mesmo em áreas urbanas.
Segundo Hohenfeld (2016), pela facilidade de cultivo e fácil adaptação a diferentes condições
ambientais e de fertilidade dos solos, essa espécie é facilmente disseminada entre os agricultores
familiares independente do tamanho de suas áreas. O quadro 3 mostra a diversidade de
variedades cultivadas entre os camponeses entrevistados para fins dessa pesquisa.
Quadro 2. Variedades das manivas cultivadas no Território Bragantino
Variedades de manivas cultivadas
Jabuti Branquinha Pacajá Jacaré Amarelinha
A
gr
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u
ltor
es
e
n
tr
evi
stas
1. José Martins Matos X X
2. Raimundo Gomes Mescouto X X
3. Isolina Cardoso Bezerra X
4. Valdecir e Valmir Silva do Carmo X X X
5. Valcir da Silva Rayol X X X
6. Raimundo Noé da S. Gonçalves X X X
7. Raimunda do Carmo Costa e Luiz do Carmo Costa X X X
8. Benedito Arlindo Padilha
9. José de Jesus de Souza Guimarães X
10. Raimunda da Paixão Oliveira X X
11. Manoel Matos de Oliveira X X X
12. João Maria Elias Fararias e Oneide da Silva Farias X
13. Euclides Guimarães Machado X X
14. Cláudio José da Silva Ramos X X
18. Maria de Nazaré Rodrigues X X
16. Tomé de Sousa Reis X X
17. Benedita Marlene da Silva Padilha X X
Vezes em que as variedades aparecem nas
propriedades 12 07 06 05 04
Fonte: Dados da pesquisa de campo (2017).
De acordo com o quadro a variedade Jabuti teve preferência absoluta entre os
agricultores com 12 declarações de cultivo. Em seguida vem à variedade Branquinha com sete
declarações, depois a variedade Pacajá com seis, acompanhada da variedade Jacaré com cinco
e em quinto lugar a Amarelinha com quatro citações. Além das cinco variedades citadas, outras
36 variedades de manivas foram identificadas como cultivadas pelos agricultores entrevistados,
numa escala de um a dez foram citadas de uma a três vezes. O quadro com os nomes populares
das variedades segue em anexo nos apêndices.
A escolha da variedade da maniva tem a ver como a finalidade pretendida pelo
agricultor, principalmente na questão da qualidade e agregação de valor. Estas finalidades são
influenciadas por dois fatores básicos. O primeiro divide-se em dois, culturalmente tem a ver
com o tipo de farinha ou derivado produzido pela família e o conhecimento sobre os
procedimentos (saber-fazer) da fabricação. Enquanto, o segundo remete-se economicamente ao
valor circulante no mercado consumidor interno e externo.
As cinco variedades mais citadas (Jabuti, Branquinha, Pacajá, Jacaré e Amarelinha) são
destinadas especialmente à fabricação de farinha. A preferência pelas cinco variedades se dá
em função da coloração dos tubérculos que chega a ser um amarelo médio intenso, característica
determinante para a farinha de aparência “creme” como popularmente é conhecida no mercado.
A coloração creme favorece a boa aceitação nos mercados interno e externo, tornando o produto
mais valorizado e mais procurado pelos consumidores.
Entre as 41 variedades de manivas cultivadas pelos agricultores entrevistados apenas a
cultivar BRS foi desenvolvida pela Embrapa. Esta variedade foi recém-introduzida e vem sendo
disseminada pela Secretaria de Agricultura do Município de Bragança (SEMAGRI) nas
comunidades rurais do município. A distribuição das sementes aconteceu de forma seletiva e
discreta pela instituição para agricultores previamente selecionados. As sementes (maniva) da
variedade BRS são multiplicadas no campo experimental de propriedade do empresário da
região Sr. Dutra, local onde é realizado VCU (Unidade Demonstrativa) e visitas de campo de
estudantes e agricultores.
Na propriedade, onde se localiza o VCU as sementesvem sendo comercializada pelo
empresário a um valor de R$ 1,25 (um real e vinte e cinco centavos) por cada muda
7
.
Informações detalhadas do deste processo e da comercialização não foram possíveis coletar no
período da pesquisa.
A introdução da cultivar BRS, ocorre em função do aumento da podridão da mandioca
que tem impactado fortemente os agricultores familiares do território. No entanto, segundo o
agricultor Cláudio José a variedade nativa Maria Viúva tem se mostrado resistente a podridão
da mandioca. Mas, como bem podemos observar, a Maria Viúva não aparece entre as preferidas
dos agricultores (Cláudio José, 44 anos, entrevista concedida em 23 de setembro de 2018).
Os agricultores tiveram acesso a cultivar BRS por meio da parceria entre o empresário
local, secretarias de agricultura e a Embrapa. Aos agricultores as sementes foram repassadas
7 O valor real da comercialização da muda de maniva não foi declarado pela prefeitura, porém os agricultores
informaram que para adquirir diretamente do empresário o custo é de R$ 1,25 (um real e vinte e cinco centavos) a
unidade.
pela secretaria de agricultura sem custo financeiro, no entanto, não obtivemos informações se
na tri parceria a secretaria de agricultura pagaram ao empresário pelas sementes distribuídas.
Durante as entrevistas, foi identificado que os agricultores tiveram acesso as sementes
de maniva de quatro formas: i) banco de semente na propriedade (na terra) constituída de
conservação e multiplicação anual; ii) sistema de troca com vizinhos e parentes; iii) doação de
variedade BRS pela Embrapa e SEMAGRI; e, iv) compra de semente de outras comunidades e
regiões.
A ordem das questões corresponde a posição hierárquica das vezes que se repetiram as
respostas por ocasião da aplicação do questionário semiestruturado. Nos casos i, ii e iv as
sementes de manivas são nativas à região, conhecidas como semente comum. Este tipo de
semente tem forte presença nas comunidades locais, por vezes, são as únicas sementes possíveis
e com grande circulação entre as famílias.
Variedades introduzidas como a cultivar BRS desenvolvida pela Embrapa é bem vinda
pelos agricultores, no entanto, os mesmos resguardam comentários exaustivos, demonstrando
a observação e preocupação com a introdução da variedade. Apesar da novidade até certo ponto
atrativa devido à propaganda, o cultivo de variedades crioulas é dominante no território.
A quantidade das variedades e a maneira de multiplicação das sementes de maniva
refletem a transmissão de conhecimento, das técnicas adquiridas e desenvolvidas, das memórias
sobre as práticas dos antepassados que desafiam o tempo e a história entre as gerações de
agricultores. Essa diversidade é possível principalmente pelo cuidadoso trabalho de
conservação das sementes, sendo as mulheres as principais responsáveis.
Entre as diversas maneiras de socialização das sementes, e consequente multiplicação
entre as comunidades está a atividade da troca. O processo de troca das sementes também tem
por finalidade a melhoria e aumento da produtividade da mandioca, que resvala no aumento da
farinha e outros derivados. Uma das maneiras de melhorar a produção é a introdução e/ou
adaptação de variedades resistentes as doenças como a podridão da mandioca responsável por
imensuráveis impactos econômicos e sociais no Brasil (SERRA, et al., 2009).
A prática da troca de sementes é uma iniciativa de valorização das relações sociais das
comunidades camponesas, que refletem as dinâmicas do modo de vida das comunidades e a
resistência a invasão das sementes transgênicas, como também constituem direitos a
reivindicação por:
... as redes de agricultores guardiões da agrobiodiversidade, sistemas locais e
regionais de conservação, intercâmbio e para a conservação da diversidade genética
da agricultura brasileira (BRASÍLIA, 2015, p.141)
Associado a isto, a troca de sementes tem relação direta com o calendário agrícola das
comunidades, pois o plantio e a colheita ocorrem em sintonia (respeito) com o ciclo das fases
lunares, permitindo que tais valores ultrapassem os horizontes econômicos, inspirados em
crenças e conhecimentos.
No documento
Universidade Federal do Pará
(páginas 45-49)