Capítulo II – Privacidade e Interoperabilidade
2.2 Interoperabilidade
2.2.2 Abordagens à interoperabilidade
A investigação no domínio da interoperabilidade não consiste apenas na identificação de barreiras e soluções, mas também no estudo da forma como estas barreiras podem ser removidas (Chen, 2008; Chen et al., 2008).
A abstração e a separação de conceitos com base em vários pontos de vista são usadas para analisar ambientes complexos e em evolução, dando origem ao desenvolvimento de várias escolas de frameworks, modelos e arquiteturas de interoperabilidade, integração e desenho de soluções. Duas abordagens populares de interoperabilidade são as frameworks de interoperabilidade e as arquiteturas de interoperabilidade (NETHA, 2005). O termo “framework” refere-se a um mecanismo de organização para estruturar e categorizar “coisas” relacionadas com um domínio. Uma
framework não fornece uma solução operacional para resolver um problema
empresarial (Chen, 2008). Constitui uma abstração técnica (NETHA, 2005), um instrumento útil para posicionar, relacionar e comparar entre si, conceitos, princípios, métodos, padrões, modelos e ferramentas num determinado domínio de interoperabilidade (Vernadat, 2010).
Um modelo, por seu lado, identifica o espaço de um problema particular e define uma análise de requisitos, independente da tecnologia. O desenho ou arquitetura, mapeia os requisitos do modelo com uma determinada família de soluções, baseadas em
standards e abordagens técnicas. Uma solução relaciona o projeto com o fornecedor
da tecnologia, garantindo a adesão ao desenho, modelo e framework (NETHA, 2005).
Os modelos são descrições dos componentes essenciais e relevantes numa área de especial preocupação. Estes não duplicam a realidade, mas são aproximações limitadas do subconjunto da realidade em consideração. O nível apropriado de detalhe de um modelo é indicado pelo seu uso pretendido, isto é, o objetivo do modelo. Uma descrição completa de qualquer modelo inclui declarações do seu objetivo, premissas e restrições. Os modelos podem ter efeitos muito diferentes. Eles podem ser usados para estruturar uma área de preocupação para: ilustrar ou esclarecer o conhecimento sobre uma área; definir a estrutura, lógica e de comportamento de um sistema; apoiar o processo de resolução de problemas através da análise de diferentes opções ou soluções; ajudar a projetar, construir ou operar um sistema (ISO 14258, 1999).
Uma arquitetura de interoperabilidade define o desenho específico para a conectividade e partilha com base nos standards, políticas e especificações disponibilizadas pela framework, como são exemplo as arquiteturas orientadas a serviços, armazenamento e envio, ou fluxos de informação (NETHA, 2005).
De um modo geral, podemos classificar estas abordagens utilizando uma hierarquia, em que de uma forma progressiva cada nível apresenta medidas mais concretas para o desenho da solução, como apresentado na Figura 2.
Framework
Modelo
Arquitetura
Solução
Figura 2 - Implementação com base numa framework (Adaptado de NETHA, 2005)
A abordagem mais comum, utilizada pelos governos, para promover a resolução dos problemas de interoperabilidade consiste em estimular o uso de standards na atualização e no desenvolvimento de novas TI. Os governos, em geral publicam normas técnicas/standards, princípios e diretrizes de desenvolvimento na forma de
frameworks de interoperabilidade (Ray, Gulla, & Dash, 2007).
A Framework de Interoperabilidade Europeia (EIF) é o projeto de maior relevância do programa IDABC21, uma das iniciativas (Figura 3) mais importantes para o desenvolvimento da interoperabilidade, promovido pela Comissão Europeia, para apoiar a estratégia da UE para a prestação de serviços públicos eletrónicos centrados no cidadão (Vernadat, 2010).
A primeira versão da EIF (IDABC, 2004) pretendeu suportar o desenvolvimento de serviços de governação eletrónicos, através: (1) do suporte ao desenvolvimento no espaço europeu de serviços eletrónicos (eServices) centrados no cidadão, contribuindo para uma interoperabilidade entre serviços públicos; (2) do completar das frameworks de interoperabilidade nacionais em áreas que não podem ser
21 Decisão 2004/387/EC “Decision of the European Parliament and of the Council on Interoperable
Delivery of pan-European Services to Public Administrations, Businesses and Citizens (IDABC) (http://europa.eu.int/idabc/).
adequadamente tratadas através de uma abordagem puramente nacional, como é o caso da Saúde, através do projeto epSOS; e (3) da promoção da interoperabilidade, tanto dentro como entre diferentes áreas políticas, nomeadamente no âmbito do programa IDABC e quaisquer outros programas e iniciativas comunitárias. Contemplou 17 recomendações22 estruturadas nas três dimensões de interoperabilidade: organizacional, semântica e técnica.
Figura 3 - Iniciativas na União Europeia no domínio da interoperabilidade (IDABC, 2010)
A versão 2.0 da EIF (IDABC, 2010) manteve a linha de orientação do programa IDABC. Se numa fase inicial foi importante promover o desenvolvimento de plataformas de interoperabilidade para os vários serviços públicos em cada Estado- Membro da UE, o desafio seguinte consiste em promover a interoperabilidade transfronteiriça (cross-border). Ou seja, alinhar as plataformas existentes com a plataforma europeia. Esta segunda abordagem por parte do programa IDABC, sugere
22 As recomendações foram construídas tendo por base os seguintes princípios: (a) a garantia de
acessibilidade a todos os cidadãos sem qualquer discriminação; (b) a disponibilidade dos serviços em várias línguas; (c) a necessidade de segurança das comunicações e trocas de informação; (d) a necessidade de preservar a privacidade dos dados; (e) a subsidiariedade, em que as decisões da UE são tomadas tão próximo quanto possível do cidadão, mas apenas em situações em que estas são mais eficazes que as decisões tomadas a nível nacional, regional ou local; (f) a utilização de standards abertos; e (g) a utilização de software Open Source (IDABC, 2004).
o desenvolvimento de serviços públicos assentes em “Ecossistemas de
Interoperabilidade”. Este termo engloba não só a interoperabilidade técnica, mas
também a troca de informação e colaboração entre pessoas, organizações e sistemas, ou interoperabilidade organizacional (IDABC, 2010). Desta forma, a EIF adiciona mais duas dimensões de interoperabilidade às três já existentes, a dimensão legal e a política (epSOS, 2010).
Em Portugal, a Agência para a Modernização Administrativa (AMA) é responsável por vários projetos relacionados com o desenvolvimento da Administração Eletrónica. A “Framework de Serviços Comuns” foi concebida para garantir a máxima integração e interoperabilidade entre os diferentes sistemas das instituições públicas, contribuindo para que os cidadãos tenham uma perspetiva integrada dos serviços disponibilizados pela Administração Pública (AMA, 2008). A plataforma proposta pela Framework de Serviços Comuns fornece, entre outros aspetos, mecanismos robustos de autenticação e gestão de identidades, que facilitam a autenticação segura perante os organismos públicos, e mecanismos de controlo transacional, que garantem a qualidade dos dados durante o processo de utilização dos serviços eletrónicos, para além de um gateway central para os processos de pagamento eletrónico. Em conformidade com a EIF (IDABC, 2004), na conceção da plataforma, os standards abertos impuseram-se sempre como opção estratégica, no sentido de assegurar o maior nível de interoperabilidade. Esta plataforma constitui a base de funcionamento de projetos tutelados pela AMA, como o Cartão de Cidadão, o Portal do Cidadão, o Balcão Intermunicipal, o Balcão Multiserviços, o Balcão Perdi a Carteira, as Lojas do Cidadão, o Portal da Empresa, etc. (AMA, 2008).
Dado que o objetivo deste estudo não está relacionado com o desenvolvimento de soluções tecnológicas, nem a análise de requisitos que estas devem comportar, ficam desta forma descartadas a utilização de um arquitetura ou de uma solução de interoperabilidade, focadas nas questões técnicas. Este é um estudo que pretende abordar um contexto de interoperabilidade já implementado, e em que a partilha de dados e de serviços são já uma prática comum, com o objetivo de estudar a questão da privacidade dos dados. Ou seja, contemplar os diferentes níveis de requisitos e exigências que surgem da heterogeneidade e preparação organizacional em relação à interoperabilidade, que apenas pode ser conseguido com o apoio de um modelo de interoperabilidade em detrimento de uma framework.