8 ABUSO DE DIREITO NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL
8.2 Abuso de direito pelos credores
8.2.3 Abuso do fornecedor
Também se pode cogitar a hipótese de abuso por parte de fornecedor de produto ou serviço para a empresa em recuperação. A título exemplificativo, o fornecedor poderia bruscamente interromper o fornecimento e levar a empresa à paralização. Poderia, também, impor condições abusivas para o fornecimento e, assim, acarretar a retirada da empresa do mercado por aumento excessivo dos custos de produção.
Nessas hipóteses, há que se questionar a possibilidade de o juiz impor a manutenção do fornecimento nos termos anteriormente vigentes com fundamento na teoria do abuso de direito.
O artigo 49 da Lei 11.101/2005 dispõe que estão sujeitos à recuperação judicial todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos. No entanto, o crédito relativo a obrigações contraídas pelo devedor durante a recuperação judicial será considerado extraconcursal em caso de falência, nos termos do artigo 67 da Lei 11.101/2005. Além disso, os créditos quirografários de fornecedores que continuarem a prover normalmente bens ou serviços ao devedor após o pedido de recuperação judicial terão privilégio geral de recebimento no caso de falência, nos termos do parágrafo único do artigo 67.
228 Há decisão do Tribunal Federal de Justiça da Alemanha nesse sentido: recurso nº IX ZB 214/10, julgado em 19.5.2011.
Verifica-se que o próprio legislador antecipou o receio do fornecedor diante do pedido de recuperação judicial, buscando incentivá-lo a manter o fornecimento mediante a obtenção de privilégios em caso de falência. De fato, é de se esperar que qualquer fornecedor se sinta no mínimo intimidado pelo ajuizamento do pedido de recuperação judicial e tenha o legítimo receio de que os eventuais novos fornecimentos não sejam honrados pela recuperanda.
No entanto, a proteção conferida pelo acima citado artigo 67 da Lei 11.101/2005 é insuficiente para incentivar a manutenção do fornecimento de bens e serviços à recuperanda. A prioridade foi concedida ao fornecedor apenas no caso de falência, inexistindo proteção na própria recuperação judicial. Ainda que as partes possam acordar o pagamento prioritário dos fornecedores no plano de recuperação, até que isso ocorra é possível que o fornecedor já tenha decidido pela interrupção do fornecimento.
Assim, é de se esperar que a empresa em recuperação enfrente dificuldades em manter o fornecimento normal de bens e serviços necessários à continuação das suas atividades após o pedido de recuperação judicial, o que pode colocar em risco a chance de uma recuperação bem sucedida.
A atitude do fornecedor de alterar as condições do fornecimento após o pedido de recuperação judicial -- por exemplo, recusando-se à venda a prazo e exigindo o pagamento à vista -- seria legítima. Como exposto, o próprio legislador antecipou o receio dos fornecedores em continuar provendo bens e serviços após o pedido de recuperação, mas se limitou a criar incentivos insuficientes para a manutenção do fornecimento.
Em regra, seria inadmissível a imposição do fornecimento pelo juiz nos termos anteriormente vigentes, mesmo considerando o princípio da preservação da empresa expresso no artigo 47 da Lei 11.101/2005. Tal princípio deve ser ponderado pelos princípios da liberdade e da propriedade previstos no artigo 5º da Constituição Federal, ressaltando-se o postulado máximo de que ninguém pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei.
No entanto, poderia haver a imposição do fornecimento pelo juiz quando essa imposição decorresse de lei. Citam-se (i) os casos em que o Código de Proteção e Defesa do Consumidor é aplicável e a conduta do fornecedor caracteriza prática abusiva229; e (ii) os
229 O artigo 39 do Código de Proteção e Defesa do Consumidor proíbe o fornecedor de praticar as seguintes condutas, que define como abusivas: (i) recusar atendimento às demandas dos consumidores, na medida de
casos de recusa de fornecimento dentro das condições normais de pagamento, caracterizando infração à ordem econômica (artigo 36, parágrafo 3º, da Lei 12.529/2011).
Em relação ao último, poderia haver a imposição do fornecimento quando, por exemplo, a empresa em recuperação oferecesse pagamento à vista ou nos exatos termos constantes de oferta feita ao público pelo fornecedor ou as condições exigidas pelo fornecedor fossem manifestamente excessivas e destoantes do padrão de mercado.
Também poderia haver a imposição do fornecimento quando o serviço fosse considerado essencial à continuidade da empresa em recuperação (como luz, água, gás e telefonia) e o débito não pago fosse anterior ao pedido de recuperação judicial. Nesse sentido, a jurisprudência determina que os débitos anteriores ao pedido de recuperação judicial não autorizam o corte no fornecimento de serviços essenciais, já que tais débitos estão sujeitos aos efeitos da recuperação judicial, nos termos do artigo 49 da Lei 11.101/2005. Não fosse assim, a tentativa de superação da crise econômico-financeira seria inviável desde o início, considerando que a empresa seria privada de serviços essenciais à superação da crise.230
Nesses casos, a recusa de fornecimento seria abusiva por exceder os limites impostos pela boa-fé, pelos bons costumes e pela finalidade econômica e social do direito, na medida em que o fornecedor estaria negando o fornecimento com o intuito de forçar o devedor a fazer o pagamento de dívidas pretéritas, que deveriam se sujeitar à recuperação judicial.
Por outro lado, entende-se que estaria autorizada a suspensão do fornecimento de serviços essenciais no caso de inadimplemento de contas relativas a serviços prestados após o pedido de recuperação judicial, visto que, apesar da essencialidade, (i) tais serviços não são gratuitos, não fazendo sentido impor o fornecimento sem contrapartida; e (ii) se a empresa em recuperação não consegue sequer pagar suas contas mensais de serviços essenciais, pode- se presumir que a tentativa de superação da crise não é séria.231
De outra parte, cabe investigar a existência de abuso por parte de instituição financeira na brusca interrupção do crédito após o pedido de recuperação judicial. Será visto nas seções suas disponibilidades de estoque e em conformidade com os usos e costumes; (ii) exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva; (iii) recusar a venda de bens ou a prestação de serviços a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento; (iv) elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços; entre outras.
230
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Agravo de Instrumento 1.010.200-0/8, 36ª Câmara de Direito Privado, Rel. Des. Romeu Ricupero, julgado em 20.7.2006.
231 Nesse sentido: Agravo de Instrumento 0043067-35.2011.8.26.0000, Câmara Reservada à Falência e Recuperação, Rel. Des. Romeu Ricupero, julgado em 26.7.2011.
11.2 e 11.5 que o reconhecimento de abuso de direito nessa situação é bastante comum na Itália e na França, apesar de ter sido recentemente mitigada por meio de alterações legislativas em tais jurisdições.
Sob a ótica do direito brasileiro, a instituição financeira não poderia vincular a manutenção do fornecimento ao pagamento do crédito já existente, já que tal crédito estaria sujeito à recuperação judicial e não poderia ser pago “por fora”. No entanto, não seria razoável impor a manutenção do fornecimento do crédito nos casos em que o devedor deixasse de cumprir as obrigações contraídas após a recuperação judicial. Nesses casos, estaria autorizada a interrupção do crédito com base na exceção do contrato não cumprido (artigo 476 do Código Civil).
Também se pode cogitar a interrupção do fornecimento do crédito fundamentada em cláusula autorizando a resolução contratual e o vencimento antecipado da dívida no caso de apresentação de pedido de recuperação judicial pelo devedor, mesmo sem ter havido o inadimplemento das obrigações contratuais.
Ainda que haja grande divergência doutrinária e jurisprudencial sobre a validade da cláusula prevendo o vencimento antecipado da dívida em decorrência do pedido de recuperação judicial232, entende-se que, em regra, seria lícita a interrupção do crédito com base em cláusula que autorizasse o credor a fazê-lo. Não seria razoável manter o fornecimento nessa situação, considerando que o próprio contrato autorizaria a interrupção do crédito e a situação financeira do devedor não mais seria a mesma que aquela existente à época da celebração do contrato. Nesse aspecto, a instituição financeira não estaria obrigada
232
Pela validade da cláusula: GUERRA, Luiz. Falências & Recuperações de Empresas: Crise Econômico- Financeira. Comentários à Lei de Recuperações e de Falências. v. 2, Brasília: Guerra, 2011, p. 133-135; REQUIÃO, Rubens, 1981, p. 84-85 (em relação à concordata); Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Agravo de Instrumento 994.09.321779-4, Câmara Reservada à Falência e Recuperação, Rel. Des. Elliot Akel, julgado em 6.4.2010; Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Agravo de Instrumento 0301554- 48.2010.8.26.0000, Câmara Reservada à Falência e Recuperação, Rel. Des. Romeu Ricupero, julgado em 1.2.2011; Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Agravo de Instrumento 7.274.820-0, 23ª Câmara de Direito Privado, Rel. Des. José Marcos Marrone, julgado em 24.9.2008; Superior Tribunal de Justiça, Recurso Especial 274.264-RJ, 4ª Turma, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJ 20.5.2002 (em relação à concordata), dentre outros. Pela invalidade da cláusula: LOBO, Jorge, 2010, p. 189; SALOMÃO, Luis Felipe; SANTOS, Paulo Penalva. Recuperação Judicial, Extrajudicial e Falência: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: Forense, 2012, p. 236-237; Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Agravo de Instrumento 641.776-4/0-00, Câmara Especial de Falências e Recuperações Judiciais, Rel. Des. Elliot Akel, julgado em 15.9.2009; Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Agravo de Instrumento 642.534-4/3-00, Câmara Especial de Falências e Recuperações Judiciais, Rel. Des. Elliot Akel, julgado em 18.8.2009; Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Apelação Cível 5309/2008, 9ª Câmara Cível, Rel. Des. Renato Simoni, julgado em 28.4.2009, dentre outros.
a continuar a fornecer crédito para uma empresa sabidamente em crise, cujo inadimplemento fosse previsível.