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2 O ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL VIRTUAL E O PAPEL DOS

2.3 Acessibilidade do estabelecimento empresarial virtual e os links

Quando discorremos sobre o estabelecimento virtual nos tópicos anteriores, aliamo-nos à corrente defendida pelo professor Fábio Ulhoa Coelho que o define a partir do critério de acessibilidade.

Por sua vez, a acessibilidade do estabelecimento virtual no ciberespaço se faz por meio da navegação do internauta na rede mediante o uso da World Wide Web, a qual se estrutura na característica hipertextual da Internet para localizar o conteúdo desejado pelo internauta.

Tanto o texto como o hipertexto são conjuntos de informações estruturadas por quem os criou. A diferença entre eles é que, no texto ordinário, a construção de sentido é feita de forma linear, pois o leitor lê as frases e lhes apreende o sentido da forma e na ordem que o escritor definiu. Diferentemente, no hipertexto, a informação está contida em diversos textos diferentes e sobrepostos, os quais se ligam uns aos outros por diferentes pontos de conexão que podem ser acessados livremente pelo leitor, de modo que a sequência da leitura e a formação de sentido é definida pelo leitor, à medida que ele passa de um texto para outro, como observam Roger Laufer e Domenico Scavetta67:

Um hipertexto é um conjunto de dados textuais, computadorizados num suporte eletrónico, que podem ser lidos de diversas maneiras. Os dados estão repartidos em elementos ou nós de informação, equivalentes a parágrafos. Estes elementos, em vez de estarem ligados uns aos outros como as carruagens de um comboio, estão marcados por elos semânticos que permitem passar de um para outro, sempre que o utilizador os activa. os elos estão fisicamente "ancorados" em zonas, por exemplo, numa palavra ou frase.

A Internet é considerada um hipertexto na medida em que os diferentes tipos de mídia que compõem o seu conteúdo (ex. texto, imagens, sons etc.) encontram-se dispersos na rede, cada um deles constituindo um "nó" independente, mas que se liga a outros e estes a outros ainda, a partir de uma rede de links estruturada de forma

67 LAUFER, Roger. SCAVETTA, Domenico. Texto, Hipertexto, Hipermedia. Porto: Rés Editora, 2001,

reticular (não linear), cujo trajeto é definido pelo próprio internauta durante a navegação, ao clicar neste ou noutros links para acessar os sites nos quais acredita encontrar o conteúdo desejado.

E é justamente a estruturação da informação na Internet como um hipertexto, composto por um interminável conjunto de nós conectados por links, que possibilita a existência de espaços concretos no ciberespaço na medida em que a informação – ou seja, o conteúdo existente na Rede e disponibilizado pelos websites que a compõem – pode ser localizado e acessado pelos internautas, como observa Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante68:

Assim, a identidade do hipertexto virtual se dá na presença e utilização de seus constituintes internos: os nós e os links. São eles que garantem a arquitetura textual assumindo um funcionamento dêitico extratextual, pois monitoram o leitor para um lugar "concreto", atualizável no espaço digital, isto é, o sítio indicado existe virtualmente, podendo ser acessado a qualquer momento.

Não é por outra razão que os links são considerados como o fundamento da Internet, pois "c'est grâce aux renvois vers les adresses URL qui leur correspondent

que les internautes peuvent surmonter l'immense dispersion des contenus accessible"69, como lembram os juristas Jean-Luc Lobet, Hélène Fortin e Nathalie Darbon.

Malgrado a informação existente na Internet seja de grande interesse público, ela só possui valor comercial na medida em que pode ser localizada pelo internauta, o que só é possível em razão da existência dos links, cuja funcionalidade veio a ser potencializada a partir do surgimento e da evolução dos motores de busca, pois “sans

ces liens et sans les moteurs de recherche dont le fonctionnement repose sur la technique des hyperliens, l’information mise sur le web perdrait de sa valeur à défaut de pouvoir être trouvée aisément”70, notam os juristas belgas Alain Strowel e Nicolas Ide.

68 CAVALCANTE, Marianne Carvalho Bezerra. Mapeamento e produção de sentido: os links no

hipertexto. In: XAVIER, Alberto Carlos. MARCUSCHI, Luiz Antônio. (Orgs.) Hipertexto e Gêneros

Digitais. Novas formas de construção de sentido. 3ª Ed. São Paulo: Cortez, 2010, p. 202.

69 “É graças aos direcionamentos através dos endereços URL a eles correspondentes que os

internautas podem alcançar a imensidão dispersa de conteúdo acessível” [tradução livre]. LOBET, Jean-Luc. FORTIN, Hélène. DARBON, Nathalie. "Les Liens Hypertextes et le Droit". 2003. Disponível em: http://www.enssib.fr/bibliotheque-numerique/ documents/827-les-liens-hypertextes- et-le-droit.pdf. Acesso em : 21/07/2018, p. 34.

70 “Sem esses links e sem os motores de busca cujo funcionamento se fundamenta na técnica das

Dentro da estrutura hipertextual da Internet, cada estabelecimento virtual é um "nó" de informação específico dentro da imensidão de informação disponível ao internauta e estará na Surface Web na medida em que o seu site se tornar visível aos internautas.

Diferentemente de uma página criada com propósitos informativos ou não econômicos, um estabelecimento virtual tem a finalidade de exercer uma atividade econômica em forma empresarial e auferir lucros para distribuí-los ao empresário que o explora, o que só acontecerá se o empresário conseguir atrair clientes que acessem o seu site e firmem contratos, para dele adquirir os produtos ou serviços negociados por ele.

Em se tratando de um empresário que possui market share consolidado no comércio tradicional (hipótese em que estaremos diante de um estabelecimento virtual derivado), possuindo uma clientela que já o conhece e que procura diretamente pelos seus produtos, caso ele deseje iniciar atividades também no comércio eletrônico e criar um estabelecimento virtual, a visibilidade de seu site estará garantida de per se, independentemente de qualquer esforço individual de marketing de sua parte para promovê-lo.

É que, naturalmente, a clientela moderna tem, por hábito, presumir que os fornecedores dos produtos e serviços de sua preferência também possuem uma plataforma eletrônica na Internet, o que os induz a buscá-los digitando a insígnia ou uma de suas marcas registradas no DNS ou inserindo-as como termo de pesquisa em um motor de busca.

A situação é, porém, diversa nos casos do empresário iniciante que já inicia suas atividades no mundo virtual (no caso de um estabelecimento empresarial virtual originário), ou daquele que, apesar de ser experiente no comércio tradicional, não possui um market share consolidado. Neste caso, a grande massa consumidora ainda não os conhece, nunca deles adquiriu quaisquer produtos ou serviços e desconhece outros consumidores que o tenham feito.

Além disso, diferentemente do estabelecimento clássico, o virtual não possui ponto comercial.

localizada” [tradução livre]. STROWEL, Alain. IDE, Nicolas. "La Responsabilité des

Intermediaries sur Internet: Actualités et Quetion des Hyperliens". 2001. Disponível em:

https://www.droit-technologie.org/wp-content/uploads/2016/11/annexes/dossier/35-1.pdf. Acesso em: 10/07/2018, p. 3.

Como já discutimos alhures, um estabelecimento clássico tem que estar fisicamente localizado em algum local, e a escolha desse local é um dos elementos mais importantes que são levados em conta na hora de iniciar um empreendimento novo, já que, a priori, a boa localização do estabelecimento empresarial confere-lhe a possibilidade de ao menos alcançar a freguesia, vale dizer, aquele conjunto de consumidores que passam pelo local, sem necessidade de grandes investimentos em publicidade logo no início.

Embora o estabelecimento virtual esteja abrigado em certo domínio e possa ser localizado a partir do seu endereço URL, o site não guarda qualquer semelhança com o ponto comercial de um estabelecimento clássico, pois não tem aptidão para atrair freguesia justamente pelo seu caráter imaterial, ou seja, desvinculado de um espaço físico.

Não se pode esquecer que a diferença essencial entre o estabelecimento clássico e o virtual, como já mencionado anterior, liga-se, especificamente, ao modo como o cliente pode acessá-los para conhecer os produtos e serviços disponíveis e, se o caso, fechar um negócio.

No estabelecimento clássico, o acesso é feito fisicamente: o cliente se desloca presencialmente até o ponto comercial e adentra na casa comercial. Para localizar esse tipo de estabelecimento empresarial, o cliente procurará pelo endereço de uma das lojas do empresário em locais próximos e se deslocará até lá, identificando-o a partir de sua insígnia ou pela simples localização do endereço. É possível também que o cliente não esteja procurando por um estabelecimento empresarial específico e, quando passa em frente a um e visualiza os produtos lá dispostos e os anúncios de suas ofertas, tenha despertado o seu interesse de entrar e verificá-las com maior atenção.

Por sua vez, no virtual, o acesso se faz pela estrutura de links em que se organiza a rede. Ou seja: o cliente se deparará com um link na Internet, clicará nele, e o link o remeterá ao endereço do site que ele deseja acessar, independentemente de o cliente o conhecer ou não.

No entanto, para que o cliente se depare com o link, é necessária uma postura ativa de sua parte no sentido de promover uma pesquisa na Internet, seja por meio do sistema de nomes de domínio ou por meio de um motor de busca, especialmente se ele não está procurando localizar um estabelecimento empresarial virtual específico,

mas sim uma categoria indiscriminada de produtos ou serviços para conhecer as suas características, as ofertas existentes ou os fornecedores de quem poderiam adquiri- los eventualmente.

Não dispondo de um endereço eletrônico ou de um nome de domínio, e nem tendo a possibilidade de simplesmente passar em frente ao estabelecimento virtual enquanto navega na Rede, o internauta utilizará as referências que possua sobre a necessidade material que procura atender, sobre o produto ou o serviço que conhece e que poderia atender àquela necessidade ou até mesmo sobre dados de identificação de um fornecedor, e realizará pesquisas visando encontrar links que o direcionem para conteúdo relevante.

A conclusão a que necessariamente se chega é a de que a visibilidade dos estabelecimentos virtuais, especialmente o originário, ou seja, aquele que é iniciado diretamente na Internet, depende da estrutura hipertextual da rede, ou seja, de links para referenciar os seus sites, e do funcionamento adequado e eficiente dos serviços de motores de busca, sob pena de não serem aptos a atrair cliente algum por não poderem ser localizados.

2.4 Os links e o princípio da liberdade de referências na Internet e o da liberdade de