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1 DA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA AO COMÉRCIO ELETRÔNICO:

1.4 O desenvolvimento do comércio eletrônico

1.4.3 Os agentes econômicos do comércio eletrônico

A virtualidade do meio em que são desenvolvidos as atividades econômicas e os negócios a ela referentes, bem como a complexidade de sua estrutura, ensejam o surgimento de novos papeis a serem desempenhados pelos agentes econômicos nesse novo mercado.

Esses papeis, ou funções, recebem os nomes de: (1) Provedores de Acesso/Conexão à Internet; (2) Provedores de Aplicações/Serviços;

(3) Provedores de Conteúdo; (4) Motores de Busca.

O verbo prover, de acordo com o dicionário Léxico, tem o sentido de "adotar

medidas ou providências (de modo a resolver certa situação); regular, organizar ou providenciar; acudir, ajudar ou suprir”44.

Provedor, portanto, é "aquele que dá o sustento ou fornece algo", como define o dicionário Caldas Aulete45, podendo ser entendido ainda como aquele que atende a uma necessidade de outra pessoa, ou que lhe fornece algum tipo de utilidade de que ela necessite.

No que concerne aos agentes econômicos do comércio eletrônico, trata-se, obviamente, de um gênero que compreende os provedores de acesso, de serviços, de conteúdo e os motores de busca.

Os provedores de acesso são os agentes econômicos do comércio eletrônico que fornecem serviços de conexão à Internet, isto é, habilitam terminais para o envio e recebimento de pacotes de dados pela rede mundial de computadores mediante a atribuição ou autenticação de um endereço de IP.

Mais do que atribuir e autenticar endereços de IP, os provedores de acesso ou de conexão permitem a autenticação de um dado terminal nos gateways do

44 Disponível em: http://lexico.pet/prover/. Acesso em: 06/03/2018.

provedor, que são as portas de entrada e de saída que efetivamente permitem a ligação à rede, conforme pondera Victor Auilo Haikal46:

O mero recebimento de endereço à internet não assegura efetivamente o acesso aos endereços da rede, pois depende de autenticação perante os

gateways para que os demais IPs sejam alcançáveis. Tecnicamente existe

conexão à rede, mas de nada adiantará essa ligação se o mais importante da internet não será garantido, que é o acesso a outros terminais e ao conteúdo que eles disponibilizam.

Quando o terminal receber um endereço IP, mas não estiver autenticado no

gateway de acesso, somente conseguirá trocar pacotes de dados com ele

[...].

Essa liberação perante os gateways é a autenticação que por vezes é realizada pela contratação de SCMs (Terra, Universo Online, dentre outros), ou pela própria empresa de telecomunicação, com a atribuição de um nome de usuário e senha que identificarão o contratante do acesso e mapearão o registro de conexão do usuário com a rede.

Ao lado dos provedores de acesso que lidam diretamente com os usuários para ligá-los à rede, há também os chamados provedores de backbone, aos quais já nos referimos alhures.

O provedor de backbone atua na infraestrutura da rede e é ele quem fornece o serviço para os provedores de acesso propriamente ditos, que serão os agentes que revenderão parte da capacidade de conexão por eles adquirida dos provedores de

backbone para os demais.

Os provedores de aplicações são os agentes econômicos que disponibilizam os mais diversos serviços e funcionalidades existentes na Internet como portais, redes sociais, blogs, inclusive os websites que se destinam à aquisição e venda de mercadorias, devendo também ser incluídos entre eles os provedores de correio eletrônico e os de hospedagem.

Por sua vez, os provedores de conteúdo são os agentes econômicos - ou não - que armazenam e disponibilizam, na Internet, informações e dados de todo gênero, criando ou simplesmente reproduzindo informações nas mais variadas plataformas existentes.

46 HAIKAL, Victor Auilo. Da significação jurídica dos conceitos integrantes do art. 5º: internet, terminal,

administrador de sistema autônomo, endereço internet protocol – IP específicos e o respectivo sistema autônomo de roteamento, devidamente cadastrada no ente nacional responsável pelo registro e distribuição de endereços IP geograficamente referentes ao país; endereço IP; conexão à internet; registro de conexão; aplicações de internet; e registros de acesso a aplicações de internet.

In LEMOS, Ronaldo. LEITE, George Salomão. (Coord.) Marco Civil da Internet. São Paulo: Atlas,

Para Tarcísio Teixeira, um provedor de conteúdo é "aquele que disponibiliza

informações na internet obtidas por meios próprios ou de terceiros, ou seja, explora os meios de informações ou de divulgação"47.

A partir da definição aqui adotada para o vocábulo provedor, compreendem- se os motores de busca também como tais, na medida em que também eles são agentes econômicos que visam atender às necessidades dos demais agentes da rede.

Enquanto provedores, os motores de busca prestam relevante serviço para todos os demais agentes que atuam concomitantemente no mercado, permitindo ao usuário encontrar as aplicações, serviços e o conteúdo que deseja, ao mesmo tempo em que permite que os provedores de tais aplicações, serviços e conteúdos sejam alcançados.

Aplicando tais conceitos para o Direito Comercial, na medida em que as suas atividades forem exercidas de forma profissional e organizada por um empresário, podemos considerar os provedores de aplicações e os provedores de conteúdo como fornecedores de mercadorias ou prestadores de serviço e os internautas como sendo os seus clientes.

Os motores de busca, por sua vez, são provedores de serviços especiais que assumem a função de intermediários entre os provedores de aplicações e de conteúdo e os internautas, dentro do efeito de intermediação a que aludiram Sendil Ethiraj, Isin Ulger e Harbir Singh, sobre o qual discorremos alhures, exercendo relevante função social de garantir o fluxo de informações e a materialização dos benefícios sociais da Rede.

É que a atividade empresarial exercida pelos provedores de aplicações e de conteúdo na Internet, só produzirá lucros para o empresário se o website onde os

47 TEIXEIRA, Tarcísio. Comércio Eletrônico: conforme o Marco Civil da Internet e a

regulamentação do e-commerce no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 133. Malgrado o douto

professor adote a distinção dos provedores em provedores de conexão, serviços e de conteúdo e explique o conceito de cada um em sua obra, poucos parágrafos após fazê-lo, passa a tratar os conceitos de provedor de serviços e de conteúdo como se fossem um só. Diz ele que: "o provedor

de conteúdo já foi conhecido como provedor de produtos ou serviços, pois é aquele que, na internet, coloca à disposição do usuário a possibilidade de adquirir diversos produtos (materiais, como equipamentos eletrônicos, ou imateriais, por exemplo software) e serviços (como o acesso a informações e cursos on-line)." Salvo melhor juízo, o professor acaba por rejeitar a distinção

proposta por ele mesmo parágrafos antes, tornando bastante confusa a compreensão de cada conceito. Nesta dissertação, partimos do pressuposto de que cada conceito apresenta contornos próprios quanto às atividades que são exercidas por cada provedor no comércio eletrônico, diferenciação esta que é relevante para a adequada verificação das responsabilidades de cada agente econômico segundo os limites de suas atividades.

seus produtos e serviços são disponibilizados ao público puderem, efetivamente, ser por eles localizados e acessados, pois o website representa a porta de entrada pela qual o cliente poderá acessar as dependências do seu estabelecimento empresarial virtual.

Entender as repercussões das novas tecnologias na economia e na sociedade é muito importante para a compreensão das características do comércio eletrônico e da forma como os agentes econômicos interagem entre si no ciberespaço, e os efeitos que essas mudanças exigem do operador do Direito no momento de aplicar as leis a problemas sequer antes imaginados, inclusive na reformulação de conceitos jurídicos tradicionais.

É o que acontece em relação ao conceito de estabelecimento empresarial, o qual, apesar de muito consagrado na doutrina, passa a exigir novas reflexões da parte da comunidade jurídica inclusive para se poder compreender como se dá a captação de clientela no ciberespaço e as relações de concorrência leal ou desleal entre os empresários, o que se reflete na análise que nos propomos a fazer nesta dissertação sobre o uso não autorizado de marcas de concorrentes nos serviços de links patrocinados.

Iniciaremos, então, pelo estudo do estabelecimento empresarial virtual no próximo capítulo.

2 O ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL VIRTUAL E O PAPEL DOS MOTORES