PARTE II FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
CAPÍTULO 4 – ACONTECIMENTO PÚBLICO E MORTE COLETIVA
4.1 ACONTECIMENTO PÚBLICO
A qualidade de “público” atribuída a alguns acontecimentos está ligada, fundamentalmente, à inserção no registro específico dos problemas públicos, os quais exigem o tratamento pela ação pública, com a participação de movimentos sociais, associações e comissões de cidadãos, conforme a definição de Quéré (2011). Segundo o autor, os problemas públicos podem estar ligados a imperativos técnicos ou administrativos, a decisões políticas e a problemas da atualidade. Esta seria a fonte mais importante. Não são apenas acontecimentos
que estão na origem de problemas públicos, mas de acontecimentos que levados ao exame público, revelam campos problemáticos, onde são encontrados os sentidos para o acontecimento, cujos agentes e tipos de razão à ação estão relacionados a alternativas mais ou menos definidas.
Com potencial de visibilidade e de revelação, um acontecimento singular pode iluminar um campo problemático, não apenas por evidenciar lacunas e falhas, mas por proporcionar a reflexão sobre elas e a possibilidade de correção através da ação pública. Ainda, há situações em que o campo problemático não está bem definido, neste caso, depende da recepção pública do caso. Para Quéré (2011, p. 29),
[...] a passagem do acontecimento ao problema público implica, para além de um crescendo em generalidade, um apagamento da singularidade do acontecimento, uma mudança radical de contexto e a substituição de um problema, que é uma entidade discursiva formulada numa linguagem determinada, numa ocorrência mundana.
Do problema à ocorrência mundana está a formação do acontecimento em sua pluralidade, como público. O processo da experiência pública não se dá em fases sucessivas e desconexas, mas da relação entre as fases, das conexões entre os sentidos acionados para que sejam gerados novos quadros interpretativos e supridas as lacunas cognitivas provocadas pelo acontecimento. Ademais, esta dinâmica está estruturada em torno de temas fundados no interesse público, relativos aos princípios e às instituições do Estado Democrático de Direito (QUÈRÈ, 2011).
Na mesma direção, Babo-Lança (2007) diz que os problemas públicos são aqueles que em alguns de seus aspectos contrariam o interesse público, cuja solução depende da ação do Estado. São temas e situações que mobilizam movimentos sociais ou manifestações de indivíduos que, coletivamente, reagem, protestam, almejam o debate e providências do Estado. De acordo com Pedemonte (2010), nestes casos, para evitar a mobilização social e os conflitos desencadeados por calamidades, vinculados a problemas públicos, há um esforço dos responsáveis pelo quadro problemático em caracterizá-lo como catastrófico, inevitável ou imprevisível.
A visibilidade é um aspecto primordial do acontecimento público, que segundo a compreensão de Coelho (2013, p. 76),
[...] o é por ter uma grande visibilidade, ensejar problemas e temas fundados no interesse público, exigir ação pública. Ele demanda/provoca processos de comunicação pública, em que há a mobilização de arenas e a expectativa de regramento por princípios éticos e normativos. Em um acontecimento público, mídia, Estado e sociedade estão implicados.
Nisto, segundo a autora, o jornalismo tem um papel central, pela expectativa de que haja a correspondência da atividade com o interesse público, pela vigilância e cobrança ao Estado, trazendo elementos de interesse público ao debate. “As notícias contam, as arenas reagem, os atores alternam suas posições óticas, configurando a experiência pública” (COELHO, 2013, p. 76). Pode ser objeto de outras práticas da mídia, mas sua constituição pública exige a abordagem do jornalismo.
A qualidade de público não se restringe à visibilidade, portanto, ainda que esta seja uma premissa fundamental, vinculada, principalmente, ao jornalismo. Aciona outros sentidos do público, relevantes à sua compreensão, dada a sua especificidade e complexidade. Um deles está relacionado às implicações do acontecimento ao Estado, portanto, ao poder público, constituindo-se um problema público. Outro, à mobilização social, pois “a recepção dos acontecimentos no âmbito social, as operações e práticas de discussão e debates que engendra e seus desdobramentos em ações e reações na esfera pública, são parte intrínseca do fenômeno acontecimental” (JOHNSON, 2010, p.2), enquanto fenômeno social amplo e complexo, que transcende a análise da mídia.
Os atores coletivos ou movimentos sociais definem os aspectos problemáticos, segundo referenciais éticos e políticos, e quadros jurídicos e institucionais. Combinada com estratégias de sedução e de persuasão, a argumentação visa sensibilizar e mobilizar a formação dos públicos e a ação destes nas arenas públicas, que são o lugar do debate e da deliberação. A partir da ocupação da agenda midiática, das arenas públicas e políticas, a visibilidade do caso provoca o desequilíbrio nas relações institucionais no poder público, e destes com os diversos públicos mobilizados.
De acordo com Babo-Lança (2007, p. 56), ao relatar o caso, a perspectiva do jornalista não é
[...] nem arbitrária nem pura construção jornalística, detém procedimentos de narração (actantes, lugares, papéis, uma intriga...), procedimentos retóricos (transformar o acontecimento em notícia, apoiando-se na retórica do anúncio, na dramatização, etc.), constrangimentos semânticos (exigência de fazer sentido...) e constrangimentos de produção (o agendamento, a paginação, as fotos...).
Em complemento, assinala que temas chocantes interessam à mídia, pois retêm a atenção pública, impondo-se por seu valor simbólico e moral. A midiatização do acontecimento leva à emergência de novas cenas e modalidades de ação coletiva dramatúrgica, em que a visibilidade é um pressuposto, na aliança entre os veículos de mídia e os públicos. Inscrito sob o prisma do interesse público, “o interesse geral” pode ser alcançado
“por uma subida de generalidade” (BABO LANÇA, 2007, p. 56). Porém, destaca Johnson (2010), há diferentes graus de complexidade e de afetação dos acontecimentos públicos.
Singular, provoca rupturas e, por isto, é incompreensível à partida, bem como são imprevisíveis as suas consequências. Ante a desordem ocasionada pela irrupção e, embora as pessoas saibam que algo está acontecendo, elas não sabem o quê e quais consequências, o que exige a criação de novos quadros de inteligibilidade. “É o que faz o acontecimento um fenômeno singular, ambíguo e complexo” (JOHNSON, 2010, p. 9).
Para Weber (2011b, p. 194), o acontecimento público é capaz de
[...] despertar paixões individuais ou coletivas e propicia a convergência da política e da mídia que ocorre a partir da identificação da sua estrutura vital, da sua natureza que contém qualidade, autonomia, passionalidade, identificação com ideais coletivos e vinculação com rituais de origem.
Neste sentido, vinculado ao poder político, a visibilidade midiática do acontecimento permite superar os limites do território para que a mobilização social vá além do local de origem, ou seja, como sinaliza Arquembourg (2011), uma coisa é pública quando relacionada a indivíduos ou coletividades que não são diretamente afetados por ela. A mobilização social e a formação dos públicos (ESTEVES, 2011) passam, portanto, pela ampliação de generalidade e a conciliação se dá, no plano valorativo, fundada no interesse público.
Assim, pode-se entender que a qualidade de público não está exclusivamente no acontecimento inicial, constituindo-se, também da dinâmica tensionada pelas reações que provoca. “Desde o momento em que as narrativas entram em ressonância com valores ou crenças comuns e que manifestações públicas de reacções colectivas sucedem, o acontecimento inicial percebido e vivido transforma-se em acontecimento público” (ARQUEMBOURG, 2011, p. 56). Diante desses aspectos, reúnem-se as três premissas da publicidade de um acontecimento, como referenciado por Coelho (2013): visível e disponível ao máximo de interessados para permitir a mobilização e o debate; vinculado ao interesse público e que pode ser solucionado pela ação do Estado; que mobiliza os públicos, enquanto atores sociais. Elas balizam o olhar sobre o acontecimento Tragédia Kiss.