• Nenhum resultado encontrado

2. AUTODEFESA PROCESSUAL

2.3 Autodefesa processual no Código de Processo Penal

2.3.10 O acusado e seu defensor

O CPP fez a opção pela imprescindibilidade do advogado na defesa. Assim, é regra que nenhum acusado, ainda que ausente ou foragido, será processado sem defensor.321 É a defesa técnica que predomina em boa parte das

fases do processo.

O defensor pode ser particular, público ou dativo. O primeiro é aquele contratado pelo réu para o exercício da advocacia no processo. Antes da Lei nº. 11.719, de 2008, em geral era o defensor apresentado ao juiz no dia do interrogatório322, podendo ser indicado verbalmente323 pelo réu para que constasse em ata de audiência digitada e assinada pelos presentes, ou formalmente através de comunicação escrita seguida de procuração324 em que constava o réu como procurador e o advogado como procurado, com poderes para este representar aquele no processo.325

A Lei nº 11.719, de 2008, pela alteração feita no art. 396, o defensor tanto no procedimento ordinário quanto no sumário é convocado para responder à acusação, por escrito, no prazo de dez dias, em defesa do processado, após recebida a delatória.

O defensor público é aquele investido em função através de concurso público de provas e títulos. É membro da Defensoria Pública, instituição considerada pela CF como uma das funções essenciais à justiça – essencial à função jurisdicional do Estado –, incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, em todos os graus, dos necessitados, na forma do art. 5º, LXXIV da própria Constituição.

O defensor dativo é o advogado nomeado pelo juiz para o exercício da defesa no processo penal na forma do art. 263326 do CPP. Em geral, quando o réu

321 A doutrina processual penal brasileira entende por defensor uma das denominação do advogado

inscrito na Orem dos Advogados do Brasil, em geral usado para quem responde, na qualidade de réu, a processo penal (SOUZA, José Barcelos de, ibidem, p. 110).

322 BRASIL. CPP, art. 266. Ibidem.

323 O mandato pode ser expresso ou tácito, verbal ou escrito (Código Civil, art. 656).

324 Opera-se o mandato quando alguém recebe de outrem poderes para, em seu nome, praticar atos

ou administrar interesses. A procuração é o instrumento do mandato (Código Civil, art. 653). Todas as pessoas são aptas a dar procuração mediante instrumento particular que valerá desde que tenha a assinatura do outorgante (Código Civil, art. 654).

325 A procuração para o foro, em geral, habilita o advogado a praticar todos os atos judiciais em

qualquer juízo ou instância, salvo os que exijam poderes especiais (Lei 8.906, de 1994, art. 5º, § 2º).

326 BRASIL. CPP, art. 263, caput: “Se o acusado não o tiver, ser-lhe-á nomeado defensor pelo juiz,

alega que não tem condições econômicas de contratar advogado para sua defesa, o juiz deve nomear um que seja, obrigatoriamente, inscrito nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil.327

Também pode ser dado defensor dativo quando o réu é considerado indefeso pelo juiz, tanto em julgamento do júri328 quanto em qualquer outro momento de qualquer outro tipo de procedimento criminal, sempre em busca da efetividade da defesa processual, albergada pela garantia da ampla defesa.329 Além disso, há previsão de nomeação do dativo quando o defensor abandona o processo, podendo ser este último multado, sem prejuízo de outras sanções cabíveis.330

Excepcionalmente, quando erguida pelo advogado a afirmação de urgência, pode ele atuar sem procuração, obrigando-se a apresentá-la no prazo de quinze dias, prorrogável por igual período.331 Neste caso, a qualquer momento pode o juiz nomear dito causídico para atuar na defesa técnica até os termos finais do processo.

No exercício da defesa o defensor público ou dativo332 deve, sempre e necessariamente, atuar com manifestações fundamentadas.333 Esta regra também é aplicada ao defensor constituído pelo réu como corolário da garantia da ampla defesa. A defesa feita por advogado é chamada de defesa técnica, já que considera a pressuposição do uso de conhecimento científico específico no processo em favor do acusado, predominantemente jurídico, com contornos doutrinários e práticos.

A autodefesa pode conviver com a defesa técnica. Por óbvia consequência, a atuação do réu interessa mais a ele que ao seu causídico, uma vez que somente aquele está no processo como expectador do resultado, aguardando por uma decisão que o livre da reprimenda e da sanção social. Eventuais divergências entre acusado e seu advogado – sobre tática na condução dos atos defensórios – devem ser levadas ao juiz para que se possa adotar uma medida

se, caso tenha habilitação.” A parte final trata de caso de auto-representação.

327 BRASIL. Lei n. 8.906, de 1994, art. 3º, caput. Disponível em: <

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8906.htm >. Acesso em 25 maio 2008.

328 BRASIL. CPP, art. 497. Ibidem.

329 Neste caso é recomendável ouvir o próprio réu, uma vez que ele é o maior interessado no

sucesso da defesa no processo penal.

330 BRASIL. CPP, art. 265. Ibidem.

331 BRASIL. Lei n. 8.906, art. 5º, § 1º. Ibidem.

332 Se o réu não for considerado necessitado, o defensor dativo terá direito a remuneração pelos

serviço executados na defesa, conforme dispõe o art. 263, parágrafo único, do CPP, em valor fixado pelo juiz.

harmônica que impeça a fragilidade da defesa processual.

Nestor Eduardo Araruna Santiago334 enalte a defesa técnica em virtude da independência, indeclinabilidade, inafastabilidade e inamovibilidade como facetas das prerrogativas dos advogados, constitucionalmente previstas no art. 133 da CF. Para ele o estudo da defesa processual faz perquirir a existência de um importante princípio: do defensor natural, que assume o mesmo contexto dos princípios do juiz natural e do promotor natural, entendendo-se natural sob seu aspecto constitucional.

Santiago define, então:

A partir destes elementos, procuram-se fornecer os conceitos básicos para a elaboração teórica do princípio do defensor natural: é a presença da defesa técnica independente, indeclinável, inafastável, imparcial e inamovível em todos os momentos da persecução penal (informatio delicti, ação penal) e da execução penal, como forma de validar o ato persecutório estatal em desfavor do imputado.

Assim sendo, é fácil chegar a uma ilação irremediável: não há processo penal sem juiz, sem promotor e sem defensor. Todos estes órgãos de atuação têm suas funções bem identificadas, e a falta de um deles pode levar à nulidade de atos processuais.