• Nenhum resultado encontrado

4.1 Divisão de adjetivos temporais

ADJETIVOS TEMPORAIS

com o ponto da fala ora com outro ponto (dêitico/anafóricos).

ADJETIVOS TEMPORAIS

Relação temporal

dêiticos anafóricos dêitico/anafóricos

4.2. Adjetivos em função atributiva

Na literatura, são vários os fatores invocados para a seleção da posição do adjetivo em função atributiva: fonológicos, lexicais, sintáticos, morfológicos. Tradicionalmente, está estabelecido que o adjetivo posposto possui valor objetivo e que, anteposto, o valor é subjetivo (cf. Cunha & Cintra, 1984), e que razões estéticas ditam a anteposição. Bosque (2010) defende que só os adjetivos graduáveis costumam admitir variação na posição, alertando, porém, para algumas exceções (p. 990 e seguintes).

Em português, tal como no espanhol, a posposição do adjetivo é a posição não marcada. Quando ocorrem nas duas posições, sofrem, por vezes, alteração do seu significado. No caso dos adjetivos temporais, Demonte (1999) admite que alguns destes adjetivos, quando se antepõem ao nome, têm um sentido temporal, e que, quando estão pospostos, são qualificativos.

A propósito das opiniões destes dois autores, façamos algumas observações a respeito da questão da posição dos adjetivos temporais atributivos e da sua relação com o significado:

 Uns dependem do nome ao qual se aplicam, independentemente da posição como, por exemplo, distante e longínquo. Quer antepostos quer pospostos, estes adjetivos têm significado temporal e espacial.

 Outros, como atual62

, dependendo do nome, antepõem-se e pospõem-se com sentido temporal. Contudo, o sentido qualificativo só se obtém posposto.

 Outros ainda, como antigo, quer anteposto quer posposto, assumem a sua função temporal; no entanto, este adjetivo, posposto, modificado por um advérbio de grau, perde esse significado temporal, passando a atribuir uma propriedade ao nome.

 Alguns adjetivos temporais, como recente, não veem o seu significado alterado quer estejam pospostos quer antepostos.

4.3. Adjetivos em função predicativa

Vimos atrás que existem adjetivos temporais que participam em construções predicativas como, por exemplo, recente, outros que nunca exercem essa função predicativa, como passado, e outros que, fazendo parte dessas estruturas, perdem o seu estatuto temporal, como acontece com velho.

Considera-se tradicionalmente (cf. Borillo, 2001) que os adjetivos que se colocam em posposição ao nome são predicativos. No entanto, não se verifica sempre essa ligação com os adjetivos temporais. Exemplo desta constatação é o já referido adjetivo passado, que se pode pospor e não participa em construções predicativas63.

Os adjetivos temporais analisados64 permitiram-nos chegar a algumas conclusões a respeito da sua integração em estruturas predicativas. Recorremos, mais uma vez, a um quadro que torna mais visíveis as semelhanças e as diferenças entre eles.

62

A este respeito, ver Bosque (2010, p. 998).

63 Um exemplo que parece contrariar esta afirmação é “Esse tempo está passado”, no qual passado se

pode classificar como um particípio adjetival.

64

Admitimos que haja outros adjetivos temporais que apresentem características diferentes destes, mas só estes foram analisados.

Tabela 6: Adjetivos em posição predicativa

Dêiticos Anafóricos

Anterioridade Sobreposição Posterioridade subsequente anterior posterior contemporâneo iminente imediato recente antigo novo65 distante recuado longínquo atual contemporâneo próximo iminente

O quadro fornece alguns dados que poderão dar conta das circunstâncias em que adjetivos temporais participam em estruturas predicativas. As possíveis explicações estarão relacionadas com:

 relativamente aos adjetivos dêiticos

o facto de terem outras interpretações para além da temporal ( localização espacial e qualificativos), com exceção de recente.

Relativamente a iminente, outra exceção, consideramos que o seu significado se poderá aproximar de próximo também na sua aceção localizadora espacial.

Outro fator digno de nota é a seleção do verbo copulativo: nas frases nas quais os adjetivos também apresentam interpretações espaciais é utilizado o verbo “estar”, sendo então essas predicações stage-level. O adjetivo iminente constitui também uma exceção a este nível visto que nas predicações em que se integra são utilizados quer “ser” quer “estar”. Contudo, consultado o CETEMPúblico, verificámos que das cento e sessenta e seis ocorrências deste adjetivo, em cento e trinta nove usava-se o verbo “estar” e apenas vinte e sete o verbo “ser”, provando-se, assim, que iminente também parece possuir traços de localização espacial.

 relativamente aos adjetivos anafóricos

o facto de selecionarem complementos.

Refira-se, porém, que seguinte, adjetivo anafórico que projeta as situações para o futuro, não seleciona complementos e não é predicativo.

Observando os dados, concluímos que, apesar de adverbiais, estes adjetivos partilham algumas propriedades com os qualificativos. Uma delas é justamente a possibilidade que alguns têm de participar em estruturas predicativas. Os exemplos apresentados parecem mostrar que, salvo algumas exceções, a possibilidade de serem predicativos está mais associada à propriedade da graduabilidade. A maior parte dos adjetivos do quadro 9 são graduáveis. Excetuam-se iminente e imediato por razões já anteriormente apontadas.

4.4. Graduabilidade

Em relação à graduabilidade, o comportamento destes adjetivos não é homogéneo: uns são graduáveis e outros não são. Alguns adjetivos, como presente, aceitam advérbios (“muito”, “mais”), mas alteram o seu significado, mudando, por isso, a sua interpretação e recategorizando-se como qualificativos ou como adverbiais espaciais; outros, como próximo, aceitam-nos sem que a sua integração afete a interpretação; e outros, como futuro ou precedente, não os admitem.

Não é fácil encontrar explicações plausíveis para a possibilidade de admissão ou rejeição de adverbiais de grau modificadores de adjetivos temporais. Verificámos que, quando aplicados a datas precisas ou a nomes que referem períodos de tempo (“*no dia um de maio muito próximo”,”*no mês de maio muito próximo”), estes adjetivos não são graduáveis, exatamente devido à natureza desses nomes e expressões. Por consequência, quando podem ser graduáveis, são-no com outros tipos de nomes. Há, porém, outros fatores que influem decisivamente a favor ou contra a presença de adverbiais de grau. Tomemos como exemplo o adjetivo próximo.

(170) a. A Europa vai ter algumas surpresas num futuro muito próximo. b. *Um futuro próximo vai trazer algumas surpresas à Europa. c. A Europa vai ter algumas surpresas no futuro (*muito) próximo. d. O futuro próximo vai trazer algumas surpresas à Europa.

e. *O futuro muito próximo vai trazer algumas surpresas à Europa.

Como podemos observar, a presença dos determinantes condiciona o emprego dos advérbios de grau ou de intensidade. Com efeito, a expressão “num futuro próximo”, com indefinido, só pode exercer a função de adjunto e só nessa condição é graduável.

Pelo contrário, a expressão definida pode desempenhar as funções de adjunto e de sujeito (cf. (170) c., d.), mas não é graduável (cf. (170) e.).

Referimos atrás que, com datas precisas, este adjetivo não é graduável, mas, em situação predicativa, num contexto no qual pode haver uma interpretação simultaneamente temporal e espacial, próximo admite advérbios de grau:

(171) O dia um de maio está muito próximo.

Afirmámos também que, em função predicativa, o adjetivo pode ter interpretações diferentes. Trata-se, na nossa opinião, de localizações temporais diferentes. No caso do exemplo (171), a situação localiza-se num ponto muito próximo do momento de enunciação. Contraste-se com “o próximo dia um de maio”, em que a duração do intervalo entre o momento de enunciação e a situação descrita não é de todo indefinida, mas podendo o intervalo ser mais curto ou mais longo conforme a distância temporal a que se encontre relativamente ao momento de enunciação.

Como vimos atrás, nem todos os adjetivos temporais são graduáveis. Já tivemos ocasião de referir em que circunstâncias os adjetivos graduáveis são de escala aberta ou de escala fechada. No ponto 3.3.8., defendemos que, entre os graduáveis, não se encontra nenhum que seja de escala fechada. O único adjetivo que aparentemente é de escala fechada – novo – não o é efetivamente. Aplicado o teste proposto por Kennedy & Levin (2008), verifica-se que este adjetivo admite ser modificado por “completamente”, mas não se trata, neste caso, de escala fechada. Admitindo este advérbio, o seu significado altera-se: não exprime temporalidade, mas propriedades do nome ao qual se aplica, como as de “ser inovador” ou de “não ser usado” como nas expressões “um filme completamente inesperado e novo” e “um casaco completamente novo”.