As interações espaciais e a rede urbana essencialmente a elas vinculada não são criadas diretamente por processos abs- tratos ou pela ‘mão invisível do mercado’, mas a partir da ação de sujeitos sociais concretos, isto é, pessoas, instituições, em- presas etc., que desencadeiam processos a partir de suas dife- renciadas intencionalidades que, por sua vez, dão forma a rede urbana. Apesar da relevância da estrutura capitalista, como já visto, ela se manifesta nas práticas e ações de sujeitos sociais no desempenho de suas atividades e funções que conformam a vida de relações que marca a realidade social.
Essa realidade é muito bem interpretada por Camagni (2005) em sua avaliação da aplicabilidade do modelo de entropia à análise das interações espaciais. Valorizando a demanda de transporte e os diferenciais de localização, o autor destaca como as interações espa- ciais se associam diretamente às decisões do Estado, especialmente no atendimento às demandas de transporte e também à conduta dos demais agentes na geração dessas demandas, como se observa na passagem a seguir:
É importante notar como as decisões públicas sobre a disposição da rede de comunicações e transportes, se (por uma parte) dependem em grande medida da presença de uma demanda de transporte proveniente das atividades produtivas e residenciais, exercem, por outra parte, uma forte influência sobre a demanda mesmo enquanto influência no tempo ou no custo de transporte entre as distintas zonas e, portanto, sobre o elemento distância que aparece em qualquer formulação da interação espacial [...] (p.92)10.
10 No original: “Es importante notar cómo las decisiones públicas sobre la disposición de la red de
comunicaciones y transportes, si (por una parte) dependen en gran medida de la presencia de una demanda de transporte proveniente de las actividades productivas y residenciales, ejercen, por otra parte, una fuerte influencia sobre la demanda misma en cuando influyen en el tiempo o en el coste de transporte entre las distintas zonas y, por tanto, sobre el elemento distancia que aparece en cualquier formulación de la interacción espacial […]”.
A passagem do texto de Camagni também permite a reflexão so- bre a indispensabilidade de se considerar esses agentes no contexto da organização socioeconômica e espacial do capitalismo atual, isto é, as interações espaciais não podem ser apreendidas como simples deslocamentos de pessoas, mercadorias, capitais e informações, mas necessitam ser vistas como integrantes da existência, reprodu- ção e transformação social.
A mesma questão é enfrentada por Gottdiener (2010) ao con- siderar que “[...] as formas espaciais são produtos contingentes da articulação dialética entre ação e estrutura” (p.199). Para ele, a apreensão da organização socioespacial requer a consideração tanto de elementos mais gerais, estruturais ao funcionamento do sistema capitalista, quanto de elementos mais específicos, rela- tivos a conjunturas locais, a correlação de forças e a ação de determinados sujeitos, “as relações contextuais ou interativas” (p.198). A rede urbana, enquanto realidade socioespacial, está imersa nessa condição.
Gottdiener se opõe a desconsideração dos determinantes estru- turais da sociedade, como se as realidades locais fossem marcadas por uma profunda desconexão e como se não fosse possível reconhe- cer processos e características gerais conformadoras de uma estru- tura, a estrutura capitalista. Entretanto, também combate a visão reducionista que percebe uma relação direta entre os determinantes gerais, a estrutura e as realidades socioespaciais concretas. Segun- do este autor:
A natureza contingente das formas espaciais signi- fica que os padrões atuais nem são funcionais nem disfuncionais para o capitalismo – de fato, são ambas as coisas ao mesmo tempo, pois argumentos funcio- nais sempre se baseiam em perspectivas relativas. Mais importante, formas espaciais são produtos epi- fenomenais mas diretos de forças profundas, con- tenciosas, pertinentes a sistemas de organização só- cio-espacial. Superficialmente, são produzidas pelas articulações entre ação e estrutura [...] (GOTTDIE- NER, 2010, p.206).
E URB AN A E INTER AÇ Õ ES ES PA CI AIS N A REGI ÃO N O RD ES TE D O P AR Á
O que o autor propõe é uma abordagem que unifique, num mes- mo quadro explicativo, a estrutura e a ação, ou seja, que articule dialeticamente os determinantes gerais do sistema e as relações con- textuais. Na rede urbana, enquanto realidade socioespacial, signifi- caria considerar o quadro geral, as normas, o sistema de valores etc., que marcam a estrutura capitalista atual e os agentes e atores so- ciais que, mais diretamente, dinamizam a rede urbana, numa esca- la regional, promovendo interações espaciais entre os vários centros urbanos, construindo hierarquias entre estes centros, estabelecendo complementaridades, enfim, desenvolvendo as ações necessárias à viabilização de suas atividades e ao alcance de seus objetivos.
Buscando um maior rigor no tratamento da dinâmica social que anima as formas espaciais ou, dito de outra forma, dos sis- temas de ações indissociáveis dos sistemas de objetos na confor- mação do espaço (SANTOS, 2009a), Vasconcelos (2011) promove um amplo levantamento do uso dos termos ‘agente’ e ‘ator’ na sociologia, na história e na geografia, tomando a seguinte posição: “Apesar dos limites apontados sobre a noção de agente, prefiro sua utilização à da noção de ator, tendo em vista que esta última remete a papéis de representação, tanto na vida corrente quanto nas artes (teatro, cinema)” (p.76). O autor também aponta limi- tes à noção de agentes modeladores, por indicar uma restrição à análise das formas, e argumenta em favor da terminologia ‘agen- tes sociais’, por, segundo ele, permitir a inclusão de agentes não capitalistas na análise.
Postura próxima a de Vasconcelos (2011) é encontrada em Ca- pel (2013), que também faz uma discussão sobre atores e agentes, porém, diferentemente do autor anterior, sem fazer opção por um deles, mas utilizando ambas as terminologias para se referir a sujei- tos com características distintas:
Adotaremos aqui uma distinção que parece útil, a de atores e agentes urbanos. Os primeiros são todos os in- divíduos e grupos sociais presentes na cidade, que vivem e se movem nela; enquanto que incluiremos no segundo grupo os que tem capacidade para intervir na constru- ção da cidade. Entre uns e outros, e no interior de cada
grupo, podem existir conflitos de interesses. Porém tam- bém transações e acordos (CAPEL, 2013, p.17).11
Assim, a concepção de ator possuiria uma amplitude maior, envol- vendo os cidadãos em geral, enquanto que o termo agentes se referiria a algo mais restrito, aqueles que produzem a cidade, que intervém nela. Em princípio, é possível inferir que os primeiros se referem aos grupos sociais em suas atividades cotidianas, em suas vivências e estratégias de sobrevivência, enquanto os segundos seriam, principalmente, mas não apenas, aqueles sujeitos interessados na acumulação de capital. Não apenas, porque existem casos de agentes que produzem a cidade sem ter a acumulação de capital como objetivo primordial. É o caso dos movimentos populares, que, para Capel (2013, p.17), “[...] tem deixado de ser simples atores e se convertido, de fato, em agentes urbanos”12,
apesar de não terem a acumulação de capital como meta fundamental. O Estado, em certa medida, se insere nessa exceção, já que muitas de suas ações, como implantação de infraestrutura, regula- ção do uso do solo e serviços de saúde, educação etc., não visam, diretamente, acumulação de capital, apesar de se relacionarem com ela. Já em sua atuação por meio de bancos e empresas públicas a dimensão da acumulação fica mais evidente.
Para Capel (2013), todos os cidadãos usam, desfrutam, sofrem, movem-se e atuam na cidade, porém pouco intervém nela ou a pro- duzem. De acordo com o autor, “em geral, os cidadãos são sim- plesmente atores que se movem na cidade, embora algumas vezes possam também influenciar no modelado da mesma”13 (p.18), isso
por meio, apenas como exemplo, da participação em associações de bairro ou de pressões eventuais junto ao poder público.
11 No original: “Adoptaremos aquí una distinción que parece útil, la de actores y agentes urbanos.
Los primeros son todos los individuos y grupos sociales presentes en la ciudad, que viven y se mueven en ella; mientras que incluiremos en el segundo grupo a los que tienen capacidad para intervenir en la construcción de la ciudad. Entre los unos y los otros, y en interior de cada grupo, pueden existir conflictos de intereses. Pero también transacciones y acuerdos”.
12 No original: “[…] han dejado de ser simples actores y se han podido convertir, de hecho, en agen-
tes urbanos”.
13 No original: “En general, los ciudadanos son simplemente actores que se mueven en la ciudad,
E URB AN A E INTER AÇ Õ ES ES PA CI AIS N A REGI ÃO N O RD ES TE D O P AR Á
Já os agentes são aqueles que de fato produzem a cidade e definem a sua morfologia. Capel (2013) inclui nesse conjunto: os proprietários do solo, os proprietários dos meios de produção, os promotores imobiliários, as empresas construtoras, os técnicos a serviço da promoção, da construção e da comercialização. O autor também trata de agentes estabelecidos no interior do Estado, ou seja, agentes públicos.
Corrêa (2011) desenvolve uma linha de argumentação que con- tribui com a visão anterior e concorda que a sociedade capitalista produz o espaço e o espaço urbano, fazendo com que o mesmo as- suma as características desse sistema, entretanto, faz a seguinte advertência:
A produção do espaço, seja o da rede urbana, seja o intraurbano, não é o resultado da “mão invisível do mercado”, nem de um Estado hegeliano, visto como entidade supraorgânica, ou de um capital abstrato que emerge de fora das relações sociais. É conse- quência da ação de agentes sociais concretos, his- tóricos, dotados de interesses, estratégias e práticas espaciais próprias [...] (2011, p.43).
E é motivado pela ânsia de compreender essa produção concre- ta do espaço urbano, que Corrêa (1995) estabelece uma proposta de classificação dos agentes de maior relevância na produção do espaço das cidades, que em muito se assemelha a de Capel (2013). Seriam eles: os proprietários dos meios de produção (especialmente grandes empresas industriais e comerciais), os proprietários fundiários, os promotores imobiliários, o Estado e os grupos sociais excluídos. Es- tes últimos somente seriam agentes da produção do espaço a partir das ocupações, que é a situação em que eles tem um certo controle e poder de decisão sobre o espaço. Como Corrêa (1995, 2011) se pren- de basicamente àqueles sujeitos sociais que intervém efetivamente na cidade, ele não trata dos demais, usando apenas a terminologia agentes e não discutindo os atores.
Para efeito deste trabalho, será adotada a proposta de Capel (2013), isto é, serão reconhecidos agentes e atores. Os primeiros se referindo àqueles que intervém na cidade e na rede urbana, normal-
mente, atrelando-se à busca de acumulação do capital. Os segundos dizendo respeito à sociedade em geral, no movimento de sua vida cotidiana e no desenvolver de suas estratégias de sobrevivência. As- sim, o Estado e as redes de comércio varejista serão identificados como agentes, e os indivíduos ou grupos, no movimento de busca por serviços de educação e por trabalho, serão tomados como atores.