A Região Nordeste do Estado do Pará não compõe o típico padrão amazônico de fronteira de expansão recente das relações ca- pitalistas, já que se trata de uma região de ocupação mais antiga, remontando à colonização portuguesa dos séculos XVII e XVIII, em certos casos, ou às políticas de colonização já no âmbito do Brasil independente, entre o final do século XIX e o início do século XX,
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atreladas aos interesses da economia da borracha, como será enfa- tizado mais adiante, não estando, portanto, inserida na lógica dos grandes projetos.
Nem por isso se assemelha às tradicionais cidades e redes de cidades umbilicalmente relacionadas ao rio, compondo a urbani- zação tradicional do Quadro 3, exposto no primeiro capítulo dessa obra. O Nordeste Paraense, mesmo sendo de colonização antiga, tem pouca ou quase nenhuma relação profunda com o rio, sendo, desse modo, mais um exemplar da urbanodiversidade amazônica (TRIN- DADE JÚNIOR, 2010), um dos mais negligenciados, já que, muito comumente, a diversidade amazônica é reconhecida nas diferenças entre as realidades ribeirinhas e aquelas assinaladas por grandes projetos minerais e energéticos.
A opção feita neste trabalho foi de entender a região como um espaço particular a uma totalidade, isto é, um espaço que, possuindo características particulares, acaba por se diferenciar de outros es- paços que integram a mesma totalidade. Na situação concreta aqui analisada, a totalidade é representada pela Amazônia e o Nordeste Paraense é o espaço particular, isto é, a região ou, na perspectiva de Santos (2008b), uma formação socioespacial (ou formação econô- mica, social e espacial), ressaltando a inseparabilidade entre espaço e sociedade em sua releitura da categoria de formação econômica e social, que se refere “[...] à evolução diferencial das sociedades, no seu quadro próprio e em relação com as forças externas de onde mais frequentemente lhes provém o impulso” (p.22).
O elemento aqui considerado central no estabelecimento da particularidade do Nordeste Paraense, na qualidade de formação socioespacial, é a rede urbana, que também é dotada de forte parti- cularidade diante de um contexto mais amplo, a rede urbana ama- zônica. Nesses moldes, o recorte espacial aqui denominado Região Nordeste do Estado do Pará (Figura 10), que não se conforma em regionalização oficial, foi estabelecido a partir da concepção da re- gião enquanto estruturada/estruturante por/de sua rede de cidades e tomou por base os dados do IBGE, nos estudos Regiões de In- fluência das Cidades 2007 (IBGE, 2008) e Divisão Urbano Regional
(IBGE, 2013), para o reconhecimento das centralidades e das áreas de influência dos centros urbanos.
A Região Nordeste do Pará, locus da pesquisa, abrange parte significativa do litoral paraense, estendendo-se, no sentido oeste- -leste, do município de São João da Ponta ao município de Viseu; e também parte da área não litorânea denominada Região Bragantina, isto é, a área compreendida entre as cidades de Belém, capital do Estado do Pará e a cidade de Bragança. Sendo que a extensão da Bragantina inclusa na região em questão vai de Castanhal às inter- mediações de Bragança e Viseu, já que a área entre Castanhal e Be- lém compõe o espaço metropolitano de Belém e seu entorno, sendo polarizado diretamente pela capital paraense, sem a intermediação de nenhum outro centro.
FIGURA 10: Região Nordeste do Estado do Pará. Municípios componentes e hierarquia urbana. 2013
A compreensão clássica da análise da região a partir da rede urbana está bastante atrelada às formulações de Walter Christaller, ou seja, de uma rede urbana vista apenas de um ponto de vista
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hierárquico, mesmo em autores que não possuem uma filiação tão explícita ao modelo das localidades centrais. A definição de região apresentada por Rochefort (1998) está em consonância com esse ce- nário: “[...] espaço delimitado pela influência de uma grande cidade, dotada de uma gama suficiente de serviços para que os habitantes da zona possam evitar qualquer recurso generalizado a outra cidade mais importante e mais bem equipada do que ela” (p.19). Da mes- ma forma, também se estabelece a concepção de região urbana em Beaujeu-Garnier e Chabot (1970, p.530): “[...] a região existente ao redor de cada cidade e que vive em simbiose com ela”5.
Todavia, a constatação da região apenas por intermédio da área de influência de uma grande cidade se demonstra um tanto quan- to reducionista diante dos múltiplos processos, dinâmicas e formas que compõem as redes urbanas na atualidade.
A proposta aqui realizada é a de entender a região a partir de suas particularidades e a rede urbana como um dos principais com- ponentes dessa particularidade. Assim, a Região Nordeste do Pará, que, do mesmo modo como todo o território paraense, é área de in- fluência da metrópole de Belém, não tem sua particularidade e seus contornos definidos pela metrópole, mas por uma série de caracte- rísticas que diferenciam esse espaço de outros que compõem a Ama- zônia, sendo a principal delas a rede urbana constituída a partir das principais cidades da região (Castanhal, Capanema e Bragança), que, isoladamente não conseguem polarizar toda a região, mas que compreendidas em conjunto atuam como importantes estruturado- ras de uma rede urbana e de uma região bastante particulares.
A particularidade da rede urbana e da Região Nordeste do Pará se expressa em três elementos (ou conjuntos de elementos) distin- tos: 1) características socioespaciais diferenciadoras; 2) a gênese e a estruturação da rede de cidades e da região enquanto um único processo; 3) as interações espaciais entre os diversos centros urba- nos. Interações essas não necessariamente hierárquicas, mas po- dendo possuir características de cooperação ou complementaridade
ou mesmo não obedecer a uma clara hierarquia e, assim, estabele- cer-se mediante relações heterárquicas (CATELAN, 2013).
Sobre o primeiro aspecto, as características socioespaciais dife- renciadoras, são vários os elementos que formam a particularidade da rede urbana e da Região Nordeste do Pará na totalidade amazô- nica. Cabe destacar:
a) A grande quantidade de centros urbanos e a proximida-
de entre eles. O Nordeste Paraense (Figura 10) possui 31
cidades, sendo 3 delas (Castanhal, Capanema e Bragança) classificadas pelo IBGE (2008) como Centros Subregionais, situadas em uma área razoavelmente restrita para os pa- drões amazônicos, tipificados pelas grandes extensões. A Figura 11 destaca o número expressivo de sedes municipais do Nordeste Paraense.
O grande número de cidades para os padrões amazônicos também se reflete na densidade populacional. A Região Nordeste do Pará tinha, em 2010, uma população total de 988.804 habitantes distribuídos em uma área de 29.363 km2 possuindo, desse modo, uma densidade em torno de
33,7 habitantes por km2, a qual, ressalte-se, é bastante su-
perior à média do Estado do Pará, que possuía, no mesmo período, uma densidade de 6 hab./ km2 (IBGE, 2014).
b) Os estratos intermediários da rede urbana. Segundo IBGE
(2008), o Nordeste Paraense possui 3 Centros Subregionais e, por si só, isso já configura uma outra particularidade, que diz respeito ao maior desenvolvimento da rede urbana do Nordeste Paraense se comparado à realidade da maior parte da Amazônia, que apresenta uma forte rarefação dos estratos intermediários da rede urbana.
c) A densidade da atual interligação rodoviária. Também
muito incomum na região amazônica, já que, apesar do pa- drão de organização do espaço amazônico estar hoje muito associado às rodovias (PORTO-GONÇALVES, 2008), a preca- riedade e a insuficiência das mesmas no espaço regional são
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quase uma regra, diante da concentração dos investimentos em rodovias voltadas à integração ao restante do país e da incompletude de muitos projetos. O Nordeste do Pará, parti- cularmente, dispõe de uma densa rede rodoviária, formada por importantes rodovias federais e estaduais (Quadro 6).
QUADRO 6: Nordeste Paraense. Principais rodovias. 2016
RODOVIAS DESCRIÇÃO DA FUNCIONALIDADE
BR-010
Inaugurada em 1960para ligar a nova capital brasileira, Brasília, à metropole mais ao Norte, Belém, constitui-se num dos maiores símbolos da integração nacional. Na atualidade, ainda é a principal via de interligação do Pará com o Centro-Sul do Brasil. A rodovia perpassa boa parte do Nordeste Paraense e em Santa Maria do Pará desembo- ca na BR-316, que faz a interligação com Castanhal, Be- lém e Capanema, entre outras cidades.
BR-316
Principal interligação rodoviária com o Nordeste do Brasil, a via perpassa por diversos Estados dessa região, como Alagoas, Piauí e Maranhão e chega ao Estado do Pará, onde desempenha a função de principal interligação rodo- viária do Nordeste Paraense com Belém.
BR-308
A BR-308 liga duas das mais importantes cidades do Nor- deste Paraense, Capanema e Bragança. Partindo da pri- meira chega até Viseu, no extremo leste do Pará e prosse- gue no Maranhão até Alcântara.
PA-242
Rodovia que coincide com o trajeto da antiga Estrada de Ferro de Bragança entre Castanhal e Capanema. Recen- temente pavimentada no trecho entre Igarapé-Açu e Pei- xe-Boi, essa rodovia liga diversas cidades da região e se constitui numa alternativa mais rápida para acessar as praias dos municípios de Salinópolis e Bragança. As me- lhorias na rodovia estiveram entre as principais ações do Projeto Rota Turística Belém-Bragança, do Governo do Es- tado do Pará, que busca incentivar o turismo na região. PA-324 Rodovia que dá acesso a partir da BR-316 e da PA-242 ao município de Salinópolis, onde estão algumas das praias
mais frequentadas da região. PA-136
Responsável por ligar, a partir de Castanhal, o restante do Estado, principalmente o espaço metropolitano de Belém, a municípios litorâneos como Marapanim (onde estão as praias de Crispim e Marudá) e Curuçá, importante entre- posto pesqueiro e para onde está planejada a construção do Porto de Espadarte pela Companhia Vale do Rio Doce.
Fonte: Elaboração própria.
Essas rodovias, principais meios de locomoção no Nordeste Pa- raense, constituem importantes entroncamentos em Castanhal e
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Capanema, conferindo a essas cidades boas condições para desem- penhar seus papéis centrais na região.
d) Área litorânea com importantes espaços de lazer e
turismo. Apenas uma reduzida parcela do Estado do Pará,
tendo em conta suas grandes dimensões, está junto ao Oceano Atlântico e a quase totalidade dessa área está si- tuada na Região Nordeste do Pará. Além disso, existem ao longo desse litoral um número razoável de praias oceânicas muito usadas para práticas de lazer e turismo. Entre elas, pode-se destacar as praias do Atalaia e Maçarico, no mu- nicípio de Salinópolis; as praias de Crispim e Marudá, em Marapanim; a Ilha de Algodoal, no município de Maracanã; e a praia de Ajuruteua, em Bragança.
As praias do Nordeste Paraense são utilizadas para diversas práticas de turismo, principalmente aquelas cujo desloca- mento ou a viagem realizada não ultrapassa os limites do próprio Estado do Pará. Desse modo, duas práticas ganham grande importância nas praias dessa região: as práticas tu- rísticas excursionistas e as de segunda residência, ambas estudadas e caracterizadas por Ribeiro (2007).
e) Pequena importância de grandes projetos minero-meta-
lúrgicos. Diferentemente de outras realidades amazônicas,
principalmente algumas de colonização mais recente, como o Sudeste do Pará, o Nordeste Paraense não tem sua econo- mia organizada em torno de grandes projetos minero-meta- lúrgicos, possuindo, assim, menor associação com grandes capitais nacionais e internacionais.
f) Menor importância dos rios como meio de locomoção,
de subsistência e como referência identitária. Diversas
espaços da Amazônia são fortemente marcados pelo rio, muitas vezes único meio de locomoção a maiores distâncias e indispensável à subsistência da população, bem como ele- mento central da cultura dos grupos sociais que habitam esses espaços. Exemplos dessa realidade são a denominada
Calha Norte Solimões-Amazonas, no Estado do Amazonas, estudada por Schor, Costa e Oliveira (2009) e o Baixo To- cantins, no Estado do Pará, com destaque à cidade de Ca- metá, objeto de pesquisa de Cruz (2004).
Apesar da existência de alguns rios navegáveis e de impor- tância econômica e cultural, como são os casos dos rios Guamá e Caeté, o Nordeste Paraense diverge muito de reali- dades estreitamente abalizadas pelo rio na Amazônia, como as áreas estudadas pelos autores citados anteriormente. Boa parte das cidades surgiram ao longo da Estrada de Ferro de Bragança e possuem apenas pequenos rios e sem grande expressão econômica.
g) Minifúndios e produção familiar. O Nordeste Paraense,
como discutido por diversos autores, como Egler (1961), Penteado (1967a, 1967b), Leandro (2010) e Miranda (2009), tem uma estrutura fundiária com predominância de peque- nas propriedades, os chamados minifúndios6. Essa estru-
tura advém das políticas de colonização empreendidas na passagem do século XIX para o século XX, que, objetivando o abastecimento de Belém, optaram por uma estrutura em pequenos lotes.
Segundo Miranda (2009), os lotes foram padronizados pelo governo paraense em 25 hectares no momento da coloni- zação e essa estrutura não sofreu grande alteração a partir do advento das rodovias, permanecendo até a atualidade baseada na pequena produção familiar e nos minifúndios. Essa realidade contrasta com boa parte do restante da Ama- zônia, caracterizada por uma estrutura fundiária muito con- centrada e por uma grande expressão dos conflitos pela pos- se da terra. Isso não quer dizer que na região em questão não
se manifestem problemáticas relativas a isso, apenas que são menos evidentes na maior parte da extensão regional.
6 Com exceção das áreas mais ao sul, ao longo da BR-010, espaço sob influência de Castanhal, que
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Esse conjunto de características socioespaciais do Nordeste Paraense, algumas inerentes à rede urbana, outras apenas a sua condição enquanto região, compõem o primeiro momento do reco- nhecimento da particularidade da rede urbana e da Região Nordeste do Pará. Duas outras etapas desse reconhecimento serão desen- volvidas a seguir: as particularidades das interações espaciais e do processo de formação da rede urbana e da região.
O processo de estruturação da rede urbana se confunde com a própria formação da região, por isso serão abordados como um só processo. A próxima seção se ocupa da tarefa de apresentar a for- mação da rede urbana e da própria Região Nordeste do Pará, de sua gênese até os dias atuais.