2 MARCOS CONCEITUAIS E ANALÍTICOS
2.9 AGRICULTURA E SUSTENTABILIDADE: A BUSCA DO ELO PERDIDO
Ao se referir à ideia de sustentabilidade, deve-se inicialmente fazer referências ao movimento ambientalista e seu nascedouro na década de 1960. Emergiu primeiramente conectando o termo com a problemática ambiental, explicitando para o conjunto da sociedade contemporânea, especialmente, por meio da exposição dos conflitos e contradições, disparando o alarme sobre os limites físicos e biológicos do planeta. Os questionamentos foram direcionados aos impactos ambientais vis-à-vis o modelo desenvolvimento/crescimento econômico, expondo os desastres ambientais.
108 Tecnology (MIT) resultaram na elaboração da “Fase Um” do Projeto sobre o Dilema da Humanidade, e culminou com a publicação do relatório “Limites do Crescimento: um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade” (MEADOWS et al. 1972). O estudo trouxe à tona o recorte neomalthusiano para refletir sobre a questão (produção industrial, crescimento da população e uso dos recursos naturais), em que a finitude dos recursos naturais foi reintroduzida, ao apregoar a filosofia do crescimento zero. Essa opção foi duramente criticada pelos países do Terceiro Mundo, na crença de que isto representava a estagnação econômica imposta pelos países ricos, discurso recorrente nas discussões sobre clima. Em 1972, foi realizada a Conferência de Estocolmo, o Relatório Brundtland em 1987, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento em 1992 e também, a Rio+20, realizada no Rio de Janeiro em 2013.
Dessa forma, a temática ambiental vem sendo posta em um lugar visível na agenda e no discurso das organizações internacionais, estado-nações, empresas, partidos políticos, organizações não governamentais (ONG) e movimentos sociais. Além de cientistas e intelectuais (biólogos a cientistas sociais), que transformaram a temática em objeto de pesquisa. Isto potencializou a produção científica sobre o tema, que ampliou expressivamente. Bursztyn e Bursztyn (2012) defendem que o desenvolvimento sustentável (DS) é a mais moderna das utopias, ao centralizar foco sobre o imperativo ambiental, como atributo básico na busca de felicidade, perenidade da vida e o compromisso com as gerações futuras. O desenvolvimento sustentável é uma noção polissêmica, interdisciplinar, interinstitucional e interageracional, e ainda aguarda a chegada de um conceito mais clarificador e preciso. Contudo, é um tema que adquiriu expressiva convergência, pelo menos em termos de agenda e discursos acadêmicos, filosóficos e políticos.
A fim de minimizar as críticas ao relatório Limites do Crescimento do Clube de Roma, em 1975, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) buscou superar as divergências ao propor o conceito de “ecodesenvolvimento”, recomendado por Maurice Strong (BURSZTYN; BURSZTYN, 2012) o qual destacava a ideia de desenvolvimento regional e local, associado ao uso adequado e racional dos recursos naturais. Sachs (2007) se tornou o porta voz desse conceito, agregando o enfoque participativo (planejamento e gestão), conjugado com preceitos éticos (atendimento das necessidades humanas fundamentais), a promoção da autoconfiança das populações envolvidas e o cultivo da prudência ecológica. O conceito de “ecodesenvolvimento” não foi considerado apropriado e, devido à ausência e dificuldades de ações concretas, logo caiu no esquecimento. Leff (2006) ao refletir sobre as razões do fracasso, preconiza que: “O potencial do Ecodesenvolvimento foi se dissolvendo nas suas próprias estratégias teórico-práticas. As suas propostas esbarraram na dificuldade de flexibilizar as instituições e os instrumentos de planificação
109 para se romper com a lógica economicista” (LEFF, 2006, p.136).
Na década de 1980, o debate sobre a problemática ambiental se ampliou superando a dicotomia entre desenvolvimentistas e preservacionistas, graças ao quadro otimista sobre o crescimento econômico das economias ocidentais. Acenava, dessa forma, com perspectiva do uso de instrumentos da economia de mercado como o regulador apropriado para tratar da problemática ambiental. Bastava alocar recursos financeiros, melhorar a tecnologia, que grande parte dos impactos seria resolvido. Obviamente, isto não ocorreu. Os fóruns globais multilaterais constituídos para a discussão da temática ambiental convergem para a urgência de impor limites sobre a expansão produtiva nos moldes da sociedade consumista e industrial dominante. Essa opção, todavia, revelou a real dimensão da questão: a dicotomia ou até mesmo a incompatibilidade entre o crescimento econômico e a urgência de preservação dos recursos naturais existentes. Essa demanda eleva o custo do sistema industrial e, apesar da constatação dos danos, ainda está longe de entrar em um círculo virtuoso de soluções. O modelo consumista e industrial se revelou vencedor, e mesmo contestado, é desejado e buscado pela maioria a fazer mais do mesmo.
O DS, por ser um conceito polissêmico, é afeito ao uso político, por ser excessivamente genérico e difícil de ser concretizado e avaliado. A proposta acolhida pela literatura expressa a definição mais comumente aceita foi elaborada pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), a Comissão Brundtland, ao definir que “O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991, p. 46). A solução encontrada contemplou as possibilidades de atender as demandas presentes no tocante à manutenção dos níveis de crescimento econômico. Ao mesmo tempo, não comprometer a disponibilidade de recursos em longo prazo, por meio do avanço científico e tecnológico, é equação ainda em busca de resolução. O debate obteve expressiva repercussão no desenvolvimento e condução dos sistemas produtivos agropecuários, dado que os impactos ambientais causados pela agricultura não são desprezíveis. Além disso, o modelo econômico pressiona constantemente por excedentes, por meio da ampliação da produção e a redução de custos que acenem com a oferta de alimentos e matéria prima a baixo custo para os outros setores.
Outro aspecto, no caso brasileiro, é a expressão que a agricultura representa na balança comercial por meio da pauta de exportações, contribuindo com as políticas de estabilização macroeconômica. É histórica a contribuição da agricultura brasileira e da mineração no comércio mundial como provedora de commodities (soja, algodão, carnes, celulose, açúcar, ferro, café, laranja, tabaco, alumínio, manganês e bauxita) nos últimos anos. Essa opção traz consequências deletérias ao reforçar a dependência externa, amplia
110 a fronteira agrícola, produz concentração fundiária e produtiva e promove a exclusão, além e obviamente os reflexos no uso dos recursos naturais (DELGADO, 2012). Dessa forma, os mecanismos legais de proteção ambiental se constituem em entraves que necessitam ser removidos ou readequados. Um exemplo foi o embate no Congresso Nacional entre ruralistas e ambientalistas, a respeito das alterações no Código Florestal e removeu parte expressiva da proteção legislativa para não criar empecilhos à expansão da agropecuária.
A relação entre agricultura e impactos ambientais, não é nova, contudo parece ter sido a partir da emergência da revolução agrícola após a II Guerra Mundial que a repercussão dos impactos se tornou evidente. O alerta foi dado com a publicação do livro “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, em 1962, mostrando as delicadas e complexas inter- relações ecológicas causadas pelo intensivo uso de pesticidas agrícolas e fertilizantes químicos (CARSON, 2010) utilizados nos sistemas sóciotécnicos, e possibilitou a ampliação do desenvolvimento capitalista na agricultura. A partir da publicação desse livro, se abriu espaços para a produção de estudos, visando desenvolver conhecimentos sobre a extensão dos pesticidas na saúde e no meio ambiente. O livro foi decisivo para outros estudos que levaram a proibição do diclorodifeniltricloroetano (DDT) nos Estados Unidos, no início dos anos 70, e em outros países, ainda na mesma década (CARNEIRO, 2015). Dessa forma, frente aos riscos das atividades agropecuárias, tem crescido igualmente as demandas de proteção e conservação dos ativos e os bens da natureza e se se tornando palco de riscos e conflitos ambientais, o tema da próxima subseção.
2.9.1 Os riscos e conflitos ambientais
Os riscos ambientais como expressão do desenvolvimento industrial-agrícola põem o planeta em perigo e tem se tornado objeto de preocupações da opinião pública, especialmente no tocante à busca de alimentos seguros e ambientalmente amigáveis, se insurgindo contra as monoculturas e sistemas produtivos que não asseguram bem estar animal e depredam o meio ambiente. Graziano da Silva (1999), ao refletir sobre as tendências do “novo mundo rural” defendia que a valorização das amenidades rurais, aumento das atividades não agrícolas ampliaria as possibilidades de geração de emprego e renda para além do tradicional calendário agrícola. O mundo rural seria o local de outro tipo de riqueza, baseado na produção de bens e serviços não materiais, Lefebvre (2001, p. 116) a esse propósito enfatiza que o rural “[...] torna-se o gueto dos lazeres, o lugar separado do gozo, a aposentadoria da criatividade”. Todavia, ao observar a realidade das regiões rurais brasileiras, o que se percebe é a notável exacerbação do modelo da “revolução verde” e a
111 ampliada expressão de suas contradições e dos conflitos conexos.
Houve, especialmente, esforço do Estado em promover políticas públicas de ajustamento para adequar as “[...] políticas trabalhista, fundiária e de crédito agrícola, consideradas responsáveis pelo atual predomínio, no setor agrícola brasileiro, de um padrão tecnológico concentrador, caracterizado pela produção em grande escala e pela mecanização” (REZENDE, 2006, p. 73). No contexto socioeconômico da agricultura brasileira, portanto, há um cenário de consecutivas mudanças, indicando ser essa uma atividade que rapidamente vai consolidando a predominância dos estabelecimentos mais modernizados, inclusive entre os agricultores familiares, em que a prudência ambiental não é necessariamente uma virtude adotada e esperada. Dessa forma, cabe a reflexão de como os pressupostos da sustentabilidade poderão ser incorporados aos sistemas produtivos e competitivos da agropecuária, especialmente a partir das influências vividas, sentidas e sacramentadas pela “modernização conservadora da agricultura” (GRAZIANO DA SILVA, 1987; DELGADO, 2001, 1985; BRUM, 1988; SANTOS; SILVEIRA, 2005).
A emergência dos conflitos ambientais e socioeconômicos e a agricultura tem sido exaustivamente explicitada pela literatura sobre o desenvolvimento rural. Começa pela delimitação entre o rural e o urbano de tal modo que Graziano da Silva (1999, p. 2) enfatiza que “A agricultura integrou-se no restante da economia a ponto de não mais poder ser separada dos setores que lhe fornecem insumos e/ou compram seus produtos”. Pode-se aludir que está cada vez mais difícil ser, se manter e viver como agricultor, resultante do amplo processo de mercantilização da agricultura e a consequente monetarização da vida social, regida pela necessidade de profissionalização imposta pelo regime concorrencial.
Agregado a essa dificuldade, há um cenário de imposição de exigência da proteção ambiental, como um valor social que os estabelecimentos rurais devem respeitar no curto prazo. Entretanto, essa demanda é passível de controvérsias e Fuks (1998), ao invocar a "vocação universalista" da proteção ao meio ambiente, afirma que, às vezes, essa questão se constitui apenas em um bem coletivo para um grupo seleto e restrito de pessoas.
Essa associação permite três tipos de consideração a respeito do caráter restrito dos interesses associados à proteção ambiental: 1) o meio ambiente não se apresenta como questão relevante para as classes sociais que ainda não têm asseguradas as condições básicas de sobrevivência; 2) ainda que o meio ambiente possa ser considerado um bem de uso comum, cuja proteção interessa ao conjunto da sociedade, os custos e os benefícios de sua proteção são desigualmente distribuídos, variando em função dos recursos de que dispõem os diversos grupos para atuar no contexto da política local; 3) a universalidade do meio ambiente expressa o projeto de um determinado grupo no sentido de tornar universais seus valores e interesses. (FUKS, 1998, p. 2, grifos nossos).
112 O argumento de Fuks é relevante, e o ponto chave para compreender as possibilidades de que os pressupostos da sustentabilidade ambiental possam ser considerados relevantes pelos agricultores familiares, quando ainda há um enorme passivo de institucionalidade social a descoberto. Dessa forma, a demanda sobre o uso sustentável dos recursos disponíveis surge como um objeto de luxo, desconectado da realidade cotidiana dos estabelecimentos rurais que não consideram essa questão como um valor social e uma necessidade imediata. A prioridade e geração de excedentes traduzidos sob o amparo da acumulação econômica. Embora se admita que o processo nem de longe represente a homogeneização da cena rural. Os novos contornos e as narrativas são requerentes de uma nova expressão de sociabilidade (instrumental) a fim de captar as novas expressões da realidade das regiões rurais radicalmente transformadas, incluso a necessidade de observar o uso amigável dos recursos naturais que redunda na crise ambiental e os domínios da agricultura, tema a ser ampliado na próxima subseção.
2.9.2 A crise ambiental e os domínios errantes da agricultura
A agenda de discussões sobre o desenvolvimento no Brasil no tocante ao tema da sustentabilidade ambiental, transcende e extrapola o debate meramente da problemática das regiões rurais. Grande parte da literatura se ateve à crítica das consequências do modelo agrícola dominante. O mesmo ocorre com o desenvolvimento do debate buscando a inserção de modelos de produção agrícolas alternativos (ALMEIDA, 2009; EHLERS, 1996). Contudo, essa opção induz a refletir e problematizar se os instrumentos de política agrícola existente são adequados para financiar e potencializar tais empreendimentos. Além disso, deve-se averiguar qual o grau de adesão dos agricultores familiares, diante da crescente demanda por inserção socioeconômica no curto prazo.
Nos últimos cinquenta anos, o país passou de importador para um dos principais exportadores de produtos agrícolas do mundo. Entretanto, os preços socioeconômicos e ambientais foram e ainda estão sendo pagos, mas a produção agropecuária foi definitivamente transformada. Suas influências agiram sobre a sustentabilidade socioeconômica, e no uso dos recursos naturais e materiais e as decisões tomadas têm mantido o mesmo padrão de produção amplamente criticado (SACHS, 2000, 1986a). Há uma crença que o atual modelo de desenvolvimento seja capaz de controlar as ameaças de uma sociedade de risco (BECK, 2010), por meio do uso da tecnologia adequada.
Apesar das críticas ao modelo dominante, ele é buscado por um número expressivo de agricultores como estratégia de reprodução social e material, ainda em que pesem os
113 riscos e os conflitos pertinentes. Isso não significa afirmar a generalização, na medida em que existe outras formas alternativas, apesar de serem residuais de viver e de se reproduzir na agricultura. Nesse aspecto, cabe refletir sobre a real capacidade, interesse e viabilidade socioeconômica da agricultura familiar em responder à necessária transição agroambiental proposta por Veiga (1996). O dilema posto é que sob uma estratégia de desenvolvimento adotado pelos agricultores não poderá ignorar as prioridades ambientais e, ao mesmo tempo, gerar renda e produzir alimentos seguros em cenários cada vez competitivos.
Sen (2001), afirma que de forma geral, os processos de desenvolvimento vividos, desejados e adotados por determinados países, ou mesmo pelas comunidades, caminham em uma perspectiva em que a “modernização” expressa uma forma de ver a transformação social associada a uma suposta hegemonia econômica e à uniformização cultural. Apesar disso, diferentes comunidades buscam formas alternativas de preservar seus modos de vida, mesmo em situação de franca desvantagem a contestar a perpetuação do pensamento único (FORRESTER, 1997). A problemática posta é que elas representam de fato, uma alternativa consistente para transformar e competir com o padrão dominante da agricultura.
A poesia existente no cuidado do milharal e nos cultivos das zínias coloridas disfarçadas entre os jardins cultivados ao pé dos terreiros das casas rústicas, descrito lindamente por José de Souza Martins, vai esvanecendo na poeira do tempo, dia após dia, na medida em “A terra deixou de ser essencialmente referência de uma mística, que ainda sobrevive, para se tornar mera referência de cálculo” (MARTINS, 2014a). Este processo se amplia e se consolida diante das necessidades de aumentar o volume de produtos comercializáveis para cobrir as demandas de renda monetária. Essa opção, por vezes é a condição que fragiliza ainda mais as condições gerais de manutenção dos agricultores familiares. Esse tema será alvo de análise no capítulo a seguir.