Os três agricultores agroecológicos do município possuem certificação e não veem desvantagens nesse tipo de processo. Ressaltam a importância da certificação para adquirir a confiança do consumidor, além de poder comprovar a sua produção orgânica. Outra vantagem em relação à certificação citada por A.L é a de fazer parte de um grupo regional como a Rede Ecovida e fazer contato com outros agricultores ecológicos
De acordo com Medaets e Fonseca (2005), existem três formas de garantia de qualidade ou certificação na produção orgânica brasileira: a garantia relacional, a garantia de terceira parte ou a certificação por auditoria externa e a garantia solidária.
A garantia relacional se refere à confiabilidade que o consumidor desenvolve em relação ao produtor orgânico. Esse tipo de relação é configurada a partir da comercialização direta, geralmente em feiras locais ou a domicílio, sem a utilização do selo de certificação. Tal garantia é caracterizada pelo relacionamento de longo
prazo entre o produtor e consumidor, envolvendo efeitos de reputação do produtor (MEDAETS E FONSECA, 2005).
No processo de garantia de terceiros, segundo Medaets e Fonseca (2005), há uma intermediação de confiança, através da certificação feita por auditoria externa. Nesse processo, o agricultor tem um período de conversão, no qual deve atender aos requisitos do padrão de produção orgânica. Para conseguir a certificação, o produtor é avaliado através de inspeções na propriedade e análises de laboratório.
Esse tipo de certificação tem um custo elevado para o produtor, dificultando o acesso à garantia de sua produção. Para superar esse obstáculo, adota-se, muitas vezes, a garantia solidária ou certificação participativa que teve início na região sul do Brasil, no âmbito da Rede Ecovida de Agroecologia. Nessa forma de certificação, “produtores, assessores técnicos e consumidores estabelecem um esquema de confiança no qual cada produtor, técnico e, algumas vezes, consumidores envolvidos, atestam solidariamente a responsabilidade do outro” (MEDAETS e FONSECA, 2005, p.24).
Assim, quem fiscaliza se a produção está de acordo com as normas da agricultura orgânica é todo o grupo que compõe a rede. Portanto, esse tipo de certificação envolve uma relação solidária entre os sujeitos, sendo que, se os acordos estabelecidos não forem cumpridos por determinado integrante, esse é excluído do grupo.
As principais diferenças entre a certificação por terceiros e a certificação participativa é mostrada no QUADRO 04.
Componentes do sistema de
garantia da qualidade Garantia solidária Garantia terceira parte Padrões Construção em processo de
revisão periódica Construção em processo de revisão periódica
Meios de verificação
a)Inspeção b)Registros c)Documentação
a)não existe inspetor externo b)realizados de maneira não- sistemática
c)Mantida descentralizada
a)Existe inspetor externo b)realizados de maneira sistemática c)Mantida centralizada Organismo certificador a)Funções de certificação e assessoria técnica b)Decisão de certificação c)Técnico a)Integrada b)descentralizada c) residente na comunidade a)Separada b)centralizada c)externo
Comunicação da Qualidade Selo, reputação do produtor e da assessoria técnica e da influencia do componentes de avaliação social da conformidade
Selo, reputação do produtor e do organismo certificador
QUADRO 04 - Sistemas de garantia da qualidade de produtos orgânicos Fonte: Medaets e Fonseca (2005, p.25)
Conforme as informações do QUADRO 04, o processo de certificação solidária ou participativa é a mais adequada para a Agroecologia, pois envolve a participação dos agricultores nas decisões, além de promover a descentralização do poder. A certificação participativa ainda cria uma rede de relações na comunidade, permitindo a troca de experiências e até mesmo uma organização para comercialização coletiva.
A Rede Ecovida é uma rede de certificação participativa que abrange agricultores, consumidores, técnicos reunidos em associações e grupos informais. A rede acredita que a certificação deve ser o resultado da confiabilidade que se inicia pela consciência do produtor e os consumidores atendidos por eles (CADERNO DE FORMAÇÃO, 2004).
Segundo o Caderno de Formação (2004), a Rede Ecovida está presente nos estados do sul do país e no estado de São Paulo, constituindo-se em uma rede descentralizada formada por 26 núcleos regionais. Os núcleos possuem autonomia para analisar a solicitação de obtenção de selo e são responsáveis pelo acompanhamento e monitoramento dos produtores associados. Esse monitoramento é realizado anualmente pelo comitê de ética de cada núcleo.
Entre as regras da certificação participativa definida pela Rede Ecovida estão: A Rede se pauta pelos princípios da Agroecologia por seus
méritos próprios (sustentabilidade, protagonismo do agricultor, etc) e não pela existência de um mercado diferenciado;
A soberania alimentar consiste num elemento básico para sustentabilidade;
A produção, industrialização e comercialização dos produtos deverão ser feitas sem exploração do trabalhador, consumidores e fornecedores, bem como da natureza;
Deve-se buscar a participação igualitária entre homens e mulheres, jovens e adultos na construção dos processos e nas tomadas de decisões;
A cooperação e a participação são elementos centrais em todos os processos gerados no âmbito da Rede;
A inclusão de novos associados, visando integrar um número crescente de parceiros, neste projeto de sociedade, deve ser uma preocupação constante dos integrantes da Rede (CADERNO DE FORMAÇÃO, 2004, p. 16).
De acordo com a citação, a Rede Ecovida estrutura-se em rede para oportunizar aos seus associados às trocas de experiências. Esse aspecto é um dos princípios da Agroecologia que tem como prioridade o envolvimento e autonomia por parte dos agricultores. Assim, as relações estabelecidas na produção agroecológica constituem-se pela rede local de sujeitos que mantêm relações através de comunicação direta no território.
Já a produção convencional promove uma centralização do poder nas mãos de grupos hegemônicos e se concentra no desenvolvimento de tecnologias homogeneizantes. As redes criadas pela produção convencional baseiam-se no unilateralismo, sendo que, os agricultores apenas absorvem as tecnologias e as decisões impostas a eles, sem poder participar e expor suas necessidades.
Baseado nas leituras realizadas e no trabalho de campo percebe-se que a agricultura convencional, baseada na Revolução Verde, concentra o desenvolvimento de tecnologias que são mais apropriadas à agricultura empresarial do que a produção familiar, no entanto, atualmente, é por esta que a maioria dos agricultores opta. A agricultura convencional conservou e agravou a concentração fundiária, expulsando muitas famílias de suas terras, já que elas não conseguem se sustentar no meio rural, através do cultivo de monoculturas e os custos na utilização de insumos externos.
A transição para uma produção agroecológica não é algo simples, requer a conscientização do agricultor e os rendimentos lhe vêm a longo prazo, diferentemente da produção convencional onde as respostas produtivas são imediatas. Além disso, precisam do incentivo das políticas públicas que garantam a continuidade da produção agroecológica pelos agricultores familiares.
A FIGURA 01 mostra as principais contradições entre a racionalidade produtiva convencional e a racionalidade Agroecológica.
FIGURA 1 - Em busca de uma agricultura sustentável
FONTE: Elaborada por Stasiak (2012) com base no texto de Mazoyer e Roudart (1997).
No entanto, o que se observa são ações e subsídios que estão voltados para a agricultura convencional: crédito rural, assistência técnica, tecnologias, pesquisas científicas, entre outros. Quando se busca informações em relação às ações e subsídios voltados para Agroecologia, encontram-se poucas ações, geralmente estão ligadas às entidades e às ONGs.
No caso das instituições pesquisadas no município de Coronel Vivida (EMATER, CRESOL, STR e Departamento da Agricultura municipal), encontraram- se poucas ações e programas ligados à produção orgânica/agroecológica. A atuação das instituições serão abordadas no capítulo três. As únicas instituições que afirmam estar envolvidas, de alguma forma, é o Sindicato dos Trabalhadores Rurais
AGRICULTURA CONVENCIONAL I. MONOCULTURA;
II. AGRONEGÓCIO; III. REVOLUÇÃO VERDE; IV. LATIFÚNDIO;
V. ESVAZIAMENTO DO CAMPO E CONCENTRAÇÃO URBANO- INDUSTRIAL;
VI. EXPROPRIAÇÃO DOS
DIREITOS TERRITORIAIS E A PRIVATIZAÇÃO DO MEIO AMBIENTE;
VII. PATENTEAMENTO GENÉTICO; VIII. MERCADO MUNDIAL;
IX. EMPOBRECIMENTO DA DIETA ALIMENTAR
AGRICULTURA SUSTENTÁVEL I. DIVERSIFICAÇÃO;
II. PRODUÇÃO FAMILIAR OU CAMPONESA;
III. AGROECOLOGIA;
IV. REFORMA AGRÁRIA, LIMITE NO TAMANHO DA PROPRIEDADE; V. REEQUILÍBRIO ENTRE O
RURAL E URBANO, GRANDES E PEQUENAS CIDADES;
VI. RECONHECIMENTO DAS TERRAS DA POPULAÇÃO TRADICIONAL E DIREITO DE RETORNO;
VII. USOS SOCIAIS DA BIODIVERSIDADE; VIII. MERCADOS LOCAIS E
REGIONAIS;
que, junto com a prefeitura municipal, preparou três agricultores familiares para a implementação do projeto Tecnologias Ecológicas coordenado pela ASSESOAR.
A CRESOL de Coronel Vivida faz um trabalho de conscientização do agricultor familiar através do programa dos agentes comunitários de desenvolvimento e crédito. Esse programa tem por objetivo repassar informações ligadas à cooperativa e à produção agrícola em geral, mas, nas reuniões realizadas mensalmente, com 29 agentes comunitários, são abordados temas ligados à produção sustentável e Agroecologia.
Na questão de crédito, existe a linha PRONAF Agroecologia, que é disponibilizada para investimento da produção em sistemas orgânicos e agroecológicos. No entanto, a linha de crédito não é operacionalizada no município, devido a burocracia, exigindo notas de aquisição de insumos ou sementes, entre outros entraves.
Dessa forma, percebe-se que a produção agroecológica, no município, encontra-se desarticulada das instituições presentes nesse território. A EMATER, que é responsável pela extensão rural no município, não realiza trabalhos com a agricultura orgânica/agroecológica.
Nos próximos capítulos tratar-se-á da produção e comercialização da agricultura orgânica/agroecológica, além de acompanhar a implantação de três Sistemas Agroflorestais e verificar as dificuldades encontradas no município pelos agricultores para a produção agroecológica. Para tanto, far-se-á uma análise nas condições dos cinco agricultores que desistiram da prática, levantando quais foram os motivos que os levaram a voltar para a agricultura convencional.
Como foi visto, a Agroecologia abrange práticas produtivas complexas que visam à manutenção da diversidade biológica e o equilíbrio ecológico aproximando- se da dinâmica de ecossistemas naturais. Os Sistemas Agroflorestais (SAFs), na perspectiva agroecológica, baseiam-se nos sistemas florestais naturais para promover um sistema produtivo complexo onde haja as interações necessárias para manter o equilíbrio e constituir um agroecossistema sustentável.
Portanto, analisar-se-á, nessa pesquisa a constituição de três SAFs no município de Coronel Vivida sob a perspectiva agroecológica. Ações como essa possibilitam a constituição de uma racionalidade ambiental entre os agricultores familiares que adotam a prática.
2.2. OS SISTEMAS AGROFLORESTAIS (SAFS) E A APROXIMAÇÃO COM A AGROECOLOGIA
Como foi exposto, esta pesquisa abrange três grupos diferentes de agricultores familiares que são: 1) três agricultores agroecológicos; 2) Cinco ex- agricultores agroecológicos e atualmente agricultores convencionais; 3) Três agricultores que estão implantando Sistemas Agroflorestais.
Essa delimitação no objeto de estudo compreende a três formas distintas da situação da agricultura agroecológica no município e proporciona três dimensões de análise a serem realizadas no decorrer deste capítulo.
A prática agroecológica como alternativa à modernização da agricultura no município de Coronel Vivida - PR é pouco expressiva em termos quantitativos, no entanto, fornece elementos para compreensão das contradições impostas pela racionalidade econômica disseminada pelo sistema capitalista. Além de fornecer subsídios para análise da abordagem de uma racionalidade ambiental nascida de movimentos sociais e protagonizada por agricultores familiares dispostos à implantação de práticas agrícolas mais sustentáveis.
Observa-se, neste capítulo, que a Agroecologia surge como uma teoria que embasa práticas alternativas na agricultura voltadas para a produção sustentável de alimentos. Isso se dá através da conservação dos elementos ecológicos do agroecossistema, assim como, da emancipação sociocultural dos sujeitos que compõem esse agroecossistema e da aplicação de princípios técnico-produtivos e comerciais para a sustentação econômica dos agricultores e dos agroecossistemas ecológicos.
Os princípios agroecológicos surgem em oposição aos sistemas agrícolas convencionais articulando a noção produtiva aos elementos ecológicos e sociais do agroecossistema. No entanto, são princípios que almejam uma ruptura com o atual paradigma produtivo dominante que, embora apresente algumas “anomalias”,não o torna tão ineficiente para que o paradigma produtivo proposto pelos teóricos da Agroecologia substitua a agricultura convencional que é predominante. Pelo contrário, entre os agricultores peszquisados, em Coronel Vivida, observa-se o predomínio da agricultura convencional e o declínio da agroecológica.
As exceções encontradas na agricultura, hoje, são formas de resistência e aprendizado da Agroecologia pelos agricultores familiares que participam de uma minoria que persiste em crer que a agricultura pode ser praticada com maior autonomia e com princípios ecológicos. Essa minoria praticante da Agroecologia faz parte desta pesquisa, além desses, há a implantação de três sistemas agroflorestais através do projeto “Tecnologias Ecológicas” desenvolvido pela ASSESOAR no município.
Os Sistemas Agroflorestais, na perspectiva agroecológica, compreendem uma alternativa ecológica em relação aos sistemas convencionais de produção. Embora seja uma pequena parcela dos estabelecimentos agropecuários que está inserida nesse projeto, são iniciativas que demonstram a possibilidade de produzir em sistemas complexos e com grande diversidade de espécies.
Segundo Farrel e Altieri (2012, p.281) Sistema Agroflorestal “é um nome genérico que se utiliza para descrever sistemas tradicionais de uso da terra amplamente utilizados, nos quais as árvores são associadas no espaço e/ou no tempo com espécies agrícolas anuais e/ ou animais”.
Os autores afirmam não existir uma definição universalmente aceita, no entanto, definem os Sistemas Agroflorestais como sistemas complexos compostos por sistemas agrícolas e florestais na mesma área, em vista de uma produção sustentável.
Gliessman (2001, p.490) conceitua os Sistemas Agroflorestais como sistemas que combinam elementos de cultura e de animais com elementos florestais. Para o autor,
O termo agrofloresta foi dado a práticas que intencionalmente retêm ou plantam árvores em terra usada para agricultura ou pastoreio (Wiersum, 1981; Nair, 1983). Tais sistemas combinam elementos de culturas e animais com elementos florestais, simultaneamente ou em sequência, desenvolvendo-se a partir da qualidade especial das árvores – produção e proteção. Existem muitas variações de práticas que caem na categoria de agrofloresta: na agrossilvicultura, árvores são combinadas com culturas; em sistemas silvo-pastoris, elas são combinadas com produção animal; e em sistemas agrossilvopastoris, o produtor maneja uma mescla complexa de árvores, culturas e animais.
Através dos conceitos apresentados pelos autores, conclui-se que os sistemas agroflorestais são sistemas complexos que combinam elementos agrícolas
(culturas) e animais (pecuária) com elementos florestais, sendo o último a base dos sistemas agroflorestais. Segundo Gliessman (2001), os sistemas agroflorestais possuem muitas variações, dependendo da combinação de elementos presentes na área.
Além das variações de SAFs destacadas pelo autor, Farrel e Altieri (2012, p.283) citam os sistemas de produção florestal de múltiplo uso, nos quais as árvores “são regeneradas e manejadas para produzir não somente madeira, mas folhas e/ou frutos adequados para alimentação e/ou forragem”.
Entre as classificações apresentadas pelos autores, os Sistemas Agrossilviculturais correspondem ao implantado nos três estabelecimentos familiares no município de Coronel Vivida, nos quais foram introduzidas árvores frutíferas e nativas madeiráveis para suprir as necessidades das famílias. Ao mesmo tempo, a ASSESOAR sugeriu aos agricultores que plantassem culturas anuais na mesma área, no entanto, verificou-se, em trabalho de campo, que, em apenas um Sistema Agroflorestal, no estabelecimento de J.Z, a área foi utilizada para cultivo, enquanto que, nos estabelecimentos de A.D. e G.V., a área da Agrofloresta permanece apenas com as mudas de árvores, podendo ser classificadas, no entanto, como um Sistema de produção florestal de múltiplo uso.
Farrell e Altieri (2012, p.281) afirmam que o objetivo da maioria dos sistemas agroflorestais “é otimizar os efeitos benéficos das interações entre os componentes arbóreos, agrícolas e animais a fim de obter uma produção comparável àquela obtida com o monocultivo”. Gliessman (2001) enfatiza que um dos objetivos dos sistemas agroflorestais é o de aproveitar as interações desses elementos, para diversificar a produção, diminuir a necessidade de insumos externos, além de reduzir a degradação ambiental.
Para Farrel e Altieri (2012,p.282), os sistemas agroflorestais apresentam quatro características principais: Estrutura (combinação de árvores, plantas anuais e animais); Sustentabilidade (a utilização de ecossistemas naturais como modelo, na busca da produtividade a longo prazo conservando a terra); Aumento da Produtividade (com o estímulo nas relações de complementariedade e o uso eficiente dos recursos naturais, espera-se que a produtividade seja maior do que nos sistemas convencionais); Adaptabilidade socioeconômica/cultural (adapta-se as condições dos pequenos agricultores de baixa renda localizados em áreas marginais dos trópicos e subtrópicos).
Segundo os autores, os SAFs buscam alcançar maior produtividade através da reprodução das interações encontradas nos ecossistemas naturais pelos agroecossistemas. Segundo Farrel e Altieri (2012), as árvores apresentam importante papel ecológico e social, fornecendo lenha, madeira e alimentos para os agroecossistemas produtivos. Dessa forma, associa-se os Sistemas Agroflorestais aos princípios da Agroecologia sintetizados neste capítulo. Entre os tais está o princípio da busca da complexidade natural e cultural dos agroecossistemas para proporcionar a sua estabilidade.
A busca pela estabilidade e a resiliência (capacidade de regeneração) dos agroecossistemas são princípios inerentes à concepção teórica da Agroecologia. Elas podem ser alcançadas através da constituição de Sistemas Agroflorestais que, na concepção de Farrel e Altieri (2012) e Gliessman (2001), esses sistemas, a longo prazo, possuem a capacidade de produção sustentável através da otimização dos recursos naturais, além de possuírem maior capacidade de regeneração ao sofrerem um processo de degradação se comparado aos sistemas convencionais.
Além disso, como demonstram os autores, a diversidade biológica proporciona uma estabilidade ecológica nos sistemas, reduzindo a utilização de recursos externos, como é o caso de fertilizantes e agrotóxicos.
Miller (2009) enfatiza que a diversidade nos SAFsé fundamental para a estabilidade biológica e econômica dos agroecossistemas e isto deve ser construído de forma consciente pelo agricultor. O autor afirma haver dois paradigmas ou linhas de pensamentos em relação aos Sistemas Agroflorestais no Brasil: a linha dos SAFs florestais chamada de agroecológica e a linha agronômica convencional. As principais diferenças entre as duas linhas apresentadas pelo autor podem ser verificadas no QUADRO 05.
Linha Agroecológica (Florestal) Linha Convencional (Agronômica)
Grande participação de técnicos jovens trabalhando para ONGs
Ênfase em repasse de tecnologias geradas nas estações de pesquisa
Trabalho realizado muitas vezes a partir da vivência no campo ( inserção no meio sociocultural local)
Pouca flexibilidade no desenho dos SAFs
Engajamento das comunidades na atividade
agroflorestal na forma de mutirões Poucas espécies utilizadas Ênfase na formação e capacitação dos
produtores
Metodologias da experimentação agronômica clássica para validar modelos
“Aprendendo com os produtores” como filosofia de trabalho (os produtores são fontes de informações e base para construção de um modelo de SAFs)
Ênfase em SAFs que geram produtos para agronegócio
Produtor define a composição e arranjo do SAF Produtor fica preso a um sistema rígido com trajetória predeterminada e poucas possibilidades de evolução
QUADRO 05 - Principais diferenças entre as duas linhas dos Sistemas Agroflorestais
Fonte: Miller (2009, p.541-542). Organizado por Stasiak (2013)
Em relação aos SAFs estudados em Coronel Vivida, que compõem o programa Tecnologias Ecológicas desenvolvido pela ASSESOAR, pode-se classificá-los na Linha Agroecológica, pois, segundo o Caderno de Agrofloresta elaborado pela ASSESOAR (2009, p. 5), os eixos estratégicos da instituição são: “Eixo 1: “Agroecologia, Gênero e Sustentabilidade”; Eixo 2: “Centro de Educação Popular”; Eixo 3. Articulação e Gestão Institucional”.
Ao implantar o programa dos SAFs, a ASSESOAR forneceu formação e capacitação aos agricultores para os mesmos compreenderem a constituição de um sistema agroflorestal. Além disso, na implantação do projeto, existiam alguns requisitos para o agricultor participar: possuir propriedade rural com área menor que 20 hectares, ser produtor agroecológico ou, se convencional, possuir a intenção de fazer uma transição para a Agroecologia.
Entretanto, verificou-se na presente pesquisa de campo que, devido à dificuldade de encontrar famílias disponíveis a participar do projeto no município, foram aceitos agricultores que possuíam estabelecimentos com área superior a 20 hectares, sendo que os agricultores possuem áreas de 26,6 ha (J.Z), 31 ha (G.V) e 30 ha (A.D). Os três participantes são agricultores convencionais, mas possuem algumas características ligadas à Agroecologia.
Os Sistemas Agroflorestais, na perspectiva Agroecológica, segundo Miller (2009), são sistemas diversificados com uma grande variedade de espécies que se constituem úteis ao agricultor. Segundo a ASSESOAR (2009, p.13), fazer agrofloresta é uma opção de vida, corresponde à capacidade do interagir com a natureza e compreender “que quanto mais diversidade de plantas, animais e microorganismos existem num ambiente, maiores são as possibilidades de proliferar e prolongar vida naquele ambiente”.
A Agrofloresta possui uma perspectiva agroecológica, tanto ao que corresponde aos fatores ecológicos como os socioeconômicos. As árvores dos SAFs possuem papel fundamental na regulação ecológica, proporcionando alimentação e