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PARTE I O IMAGINÁRIO DA DROGA E A EXPERIÊNCIA

4.4 AIDS NO CIRCUITO DA COCAÍNA

No final dos anos 80, o uso de drogas injetáveis se tornou a principal categoria de transmissão do HIV no Estado de São Paulo, sendo um importante fator para o crescimento rápido da transmissão deste vírus entre os heterossexuais. A epidemiologia da AIDS lançou luz sobre um sujeito que tinha pouca visibilidade na população brasileira, pouca atenção da saúde pública e no campo de estudos sobre substâncias psicoativas: os usuários de drogas injetáveis. A droga injetável mais utilizada na época era a cocaína, mas também há inúmeros relatos de pessoas que consumiram anfetaminas e “artane” (opiáceos) num passado recente, na década de 70 e na primeira metade dos anos 80.

O livro de Fabio Mesquita (1992), como diz o título AIDS na rota da cocaína: um conto santista, relata a experiência de um médico sanitarista na cidade de Santos, então a cidade com maior número de casos do País e que tinha como principal via de transmissão do HIV o uso de drogas injetáveis. É um livro de contos semificcional que descreve uma série de histórias individuais, e as respostas coletivas da cidade no enfrentamento da epidemia do vírus, tanto por

parte da sociedade civil quanto da prefeitura e dos serviços de saúde28. O título

do livro faz uma associação interessante entre a rota do tráfico e a disseminação do HIV, a qual não é demonstrada em dados, apenas presumida. O trabalho de demonstração destes dados será, por sua vez, desenvolvido por Francisco Inácio Bastos e Barcellos, através de números relacionados a tais epidemias e informações a respeito das rotas do tráfico de cocaína, quando retoma essa

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Para maiores informações, ver: MESQUITA, F. Perspectivas das estratégias de redução de danos no Brasil. In: MESQUITA, F e BASTOS, F. I.. Drogas e AIDS: estratégias de redução de danos. São Paulo: Hucitec, 1994. p.169-180; BASTOS, F. I; MESQUITA, F. Troca de Seringas:

ciência, debate e Saúde Pública. Brasília: Ministério da Saúde, 1988; FERNANDEZ, O. Drogas e o

(des)controle social, In: PASSETI, E; SILVA, R.B. D. Conversações Abolicionistas:uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva. São Paulo: IBICRIM, 1997. p.117-127.

hipótese num importante artigo - A geografia da AIDS no Brasil (BASTOS; BARCELLOS, 1995).

Uma pesquisa de doutorado na área de patologia/medicina é a de Heráclito B. Carvalho, Dinâmica de transmissão do HIV entre UDIs, na cidade de Santos/ SP/ Brasil (1995), cujo objeto é a análise de soroprevalência para o HIV e de infecções com transmissão similar (parenteral e sexual). O objetivo foi realizar um levantamento de soroprevalência de usuários de drogas injetáveis, comparando com o encontrado em bancos de sangue para estimar a razão de “reprodutibilidade basal”, através do modelo clássico de infecções transmitidas por vetor adaptado para agulhas. A metodologia empregada por Carvalho foi quantitativa, apoiando-se em amostragens de “bola de neve”, com análise matemática e estatística; os critérios de inclusão exigiam que os participantes que tivessem feito uso de drogas injetáveis nos últimos seis meses tivessem mais de 18 anos e consentimento por escrito para a realização da entrevista. A hipótese era de que a transmissão do HIV, via uso de drogas injetáveis, estaria mais associada à transmissão parenteral. Foram estudados 197 usuários de drogas injetáveis santistas. O número estimado foi de 2% da população geral (10.000), sendo 118 masculinos e 79 femininos, contatados em ruas e clínicas de tratamento de 1991 a 1992. Os resultados revelaram, para usuários de drogas injetáveis, taxas de infecção de 622 para o HIV e, para outras patologias, de: 75% (Hepatite C), 34% (Hepatite B), 34% (Sífilis), 25% (HTLV I e II) se comparado com as taxas de banco de sangue: 0% (HIV), 2% (Hepatite C), 23% (Hepatite B), 12% (Sífilis) e 1% (HTLV I e II). Isto comprovou, matematicamente, o que já se sabia: que o fator de risco mais importante para os usuários de drogas injetáveis é o parenteral, mais do que a via sexual, embora esta deva ser também considerada para o controle. Na pesquisa, o perfil dos usuários de drogas injetáveis era formado por 60% de homens e 40% de mulheres; 81% residiam em Santos, 39% estavam associados a práticas ilegais, a grande maioria era de solteiros; 23% tinham parceiro regular; a faixa etária era de 28,3 anos. Entre os participantes, 77% relataram pelo menos uma prisão e 18% tinham, no momento da entrevista, emprego regular.

Uma outra pesquisa sobre o uso injetável de drogas é a tese de doutorado do médico psicanalista Tarcísio Andrade (1996), Condições psicossociais e exposição ao risco de infecção ao HIV entre usuários de drogas injetáveis em uma comunidade marginalizada de Salvador/Bahia. O objetivo foi verificar a existência de associações entre condições psicossociais e exposição ao HIV, o que não permitiu uma análise segura. Esta pesquisa representa uma combinação entre a metodologia quantitativa e a qualitativa, exploratória, do tipo epidemiológico, associada a um tipo de pesquisa etnográfica, com a seleção dos entrevistados realizada através da técnica da “bola de neve”. A amostra é formada por 100 entrevistas sistemáticas e 16 entrevistas não-estruturadas, assistemáticas. Os entrevistados pertencem, em sua maioria, ao sexo masculino, apresentando condições precárias de vida, sem qualificação profissional, com práticas ilegais associadas a histórias de abuso sexual e violência física no cotidiano.

Os resultados da pesquisa revelaram que a maioria dos usuários de drogas injetáveis ainda compartilhava seringas, principalmente aqueles que mudaram de endereço nos últimos cinco anos; mostrou também que a maior parte deles não usava camisinha e tinham parceria única. Registra-se uma associação entre o compartilhamento de seringas e o não-uso de camisinhas, pois aqueles que não usavam preservativo eram os que mais compartilham seringas. A maioria (58%) dos usuários de drogas injetáveis estava infectada com HIV, e 40,8% infectados com HTLV-I e II. Os usuários deste tipo de substância que mais compartilhavam seringas tinham mais de 18 anos, eram do sexo masculino, com múltiplas mudanças de endereços, sendo que as taxas de infecção eram maiores entre os usuários contatados no Centro Histórico de Salvador (ANDRADE, 1996, p. 70-71). Em um outro estudo, escrito por Nappo e cols (1994), “Uso de crack em São Paulo: fenômeno emergente?”, procura-se traçar o perfil dos usuários de crack através da etnografia, a partir de entrevistas com 25 usuários e de seus depoimentos. Este trabalho mostra que os usuários são jovens menores de 20 anos, pertencentes a diferentes classes sociais. A droga é considerada anti-social pelos autores, “levando ao egoísmo, isolamento e à degradação física” (NAPPO, 1994, p.82), Geralmente, ela estaria associado ao descuido do próprio corpo e à

quebra de relacionamentos afetivos e familiares, produzindo “paranóia” e levando à marginalização.

Nos EUA, tanto a cocaína como o crack e a AIDS metamorfosearam-se em símbolos de uma verdadeira cruzada contra estas “ameaças” que assolam o continente americano. A associação da AIDS ao crack está presente em inúmeros trabalhos de pesquisa de epidemiologistas que realizam estudos de soroprevalência para o HIV. Neles, o crack é apresentado como um facilitador para a transmissão sexual, devido ao recurso à prostituição para se conseguir a droga, como apontado como fruto de uma tendência da migração nos modos de sua administração: de injetadores de cocaína para fumadores de crack.

Uma tese de doutorado em Psicobiologia defendida na UNIFESP, por Solange Nappo e denominada Baqueros e Crackeiros: um estudo etnográfico sobre o consumo de cocaína na cidade de São Paulo (1995) procura conhecer as relações culturais e os padrões de uso de crack e da cocaína injetável sob a ótica dos consumidores, ou seja, sob o ponto de vista do usuário sobre si, buscando também a construção de tipologias das amostras baseadas em características comuns dos consumidores. A metodologia empregada foi a qualitativa, recrutamento dos entrevistados através da técnica da “bola de neve” e o tratamento das respostas por intermédio da “saturação”. Foram entrevistadas 47

pessoas, 26 de crack e 17 de “baque”29, com experiência de, pelo menos, 25

vezes durante a vida, utilizando-se de uma das vias de administração do consumo. Os resultados mostram que os usuários de crack estão mais envolvidos com atividades ilícitas. Na pesquisa, foram constituídos alguns tipos de consumidores: “compulsivos, disfuncionais e exclusivos”; “compulsivos atípicos” “compulsivos disfuncionais mistos”. Os “baqueros” foram considerados consumidores “compulsivos”, tanto “funcionais”, como “disfuncionais” (três vezes por semana). Os usuários denominados “compulsivos-funcionais”, apesar de utilizarem de forma intensa a cocaína por via injetável, “mantiveram alguma ligação com a vida formal (trabalho, família, estudo, etc.)”. Este elo mostrou-se fundamental como fator impeditivo para o consumo descontrolado. Para a grande maioria dos usuários de crack e dos “baquêros”, a cocaína inalada foi a primeira

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via de administração de uso, passando mais tarde para as outras formas de consumo (NAPPO,1996, p.67-68).

Carlini e equipe para descrevem a trajetória da cocaína no Brasil se valeram por intermédio de diferentes fontes e indicadores indiretos de saúde, tais como: matérias publicadas em jornais, publicações científicas, quantidade de drogas apreendidas pela Polícia Federal, dados a respeito do consumo entre estudantes, assim como análises forenses realizadas pelos institutos de medicina legal da Cidade de São Paulo e de Santos sobre os materiais apreendidos pela polícia e em materiais cadavéricos. Buscaram conhecer o universo da cocaína na Cidade de São Paulo e constataram que a imprensa tem alardeado a existência de uma “epidemia de cocaína” no Brasil, afirmando ser esta droga “o maior perigo para a juventude”. Por intermédio da análise dessas várias fontes constataram que eles desmentem a percepção dos jornais brasileiros. Foi verificado um aumento no número de publicações científicas sobre o assunto no período de 1900 a 1992, particularmente entre os anos de 87 a 92. Constatou-se também, no período de 1980 a 1992, que o número de apreensões deste produto pela Polícia Federal – que fiscaliza as fronteiras e, portanto, pode fornecer indicações sobre o mercado de drogas ilícitas – cresceu dramaticamente de 100 quilos em 1980 para mais de três toneladas em 1991. As internações psiquiátricas utilizadas como recurso para o tratamento de dependentes no País, analisadas de 1989 a 1992, mostram que o número destas internações por causa da cocaína vem também aumentando gradativamente nos Estados do Sul/Sudeste (São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro), enquanto em Estados do Nordeste (Pernambuco e Ceará) as internações são praticamente inexistentes (CARLINI et al., 1993, p.122-127).

4.5 CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DA PRODUÇÃO BIOMÉDICA