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4. Violência e a construção de uma cultura de paz na escola

4.1. Algumas considerações acerca do tema violência

A violência está presente na sociedade desde tempos longínquos: poderíamos até pensá-la que ela sempre fez parte da história do homem. Talvez pelo que lembra Elias (1994), acerca das transformações sociais e culturais, explique-se que um conceito antes não problemático torne-se objeto do repúdio coletivo e mude sua acepção. Com a violência, esse é o caso: sua noção perpassa gerações e, mesmo sabendo o que ela significa, ao tentar conceituá-la encontramos certas dificuldades, pois seu valor muda ao longo do tempo. Uma definição bastante abrangente talvez seja uma forma de resolver esse impasse epistemológico, como faz Michaud:

Violência vem do latim violentia, que significa violência, caráter violento ou bravio, força. O verbo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. Tais termos devem se referir a vis, que quer dizer, força, vigor, potência, violência, emprego de força física, mas também quantidade, abundância, essência ou caráter essencial de alguma coisa. Michaud (1989,p.8)

Fenomenologicamente, a pesquisa sobre a violência caracteriza-a por vários tipos, entre os quais a violência física (a cujo grupo associa-se a sexual), a econômica (referente aos prejuízos causados ao patrimônio, como furtos e roubos), a moral ou simbólica (que se vale dos artefatos culturais para agredir o outro) e a psicológica (humilhar e manipular o indivíduo por suas características pessoais).

A violência física geralmente é a mais fácil de descrever e condenar, pois tem seu amparo nos códigos penais e há meios profissionais para detectá-la (a exemplo dos

exames de perícia médica já que é um tipo de violência que acarreta o risco de morte). Para Wailselfisz (2013), nem todas as agressões físicas acarretam em homicídios, mas são graves por elevarem gradualmente a violência elevada a seu grau extremo. Ainda para o autor, também são as violências mais persistentes, pois requerem a por vezes desacreditada (ou temida) assistência do Estado, por exemplo, através do registro das ocorrências nas delegacias de polícia.

Teoricamente, Andrade (2007) sintetizou o debate sobre as teorias científicas e filosóficas que envolvem o termo desta palavra. Algumas correntes teóricas advêm das ciências biológicas, que presumem o instinto e, em razão da cultura, sua necessidade de frustração individual; a psicologia, por sua vez, estuda a personalidade moral; teorias sociológicas enfocam a situação econômica como um derivado do funcionamento da violência; teorias filosóficas, por seu turno, discutem os termos éticos e morais da conduta do ser humano; a psicanálise, já a partir de Freud, associou a violência ao inconsciente e aos ataques pulsionais contra o ego.

Esses vários olhares são reconhecidos por Elias (1994a): esse autor entende o mérito delas, mas as critica, pois elas atribuem explicações que focam em relações e fatores menos evidentes, mais latentes, bem como nos significados que o sujeito trava com o nascimento, morte, saudade, raiva etc. Porém, da perspectiva sociológico- histórica, as dificuldades dessas teorias residem no seu caráter mais abstrato ou individualista com que a violência é considerada: os afetos e das relações humanas são explicados, na maioria das vezes, isoladamente e sem contextualização, dificultando um diálogo entre aquelas ciências.

Assim, Elias (1993; 1994a) parte de outra perspectiva: o dado histórico, enxergando na sucessão de fatos uma lógica progressiva dirigida para a constituição da civilização. Seu pressuposto, no tocante às emoções, é que o ser humano é um todo. Na complexidade das relações humanas o ser social liga-se a completude de si, biológico, psicológico e emocional. A estrutura dessa formação ainda é incerta, e não há dúvida de que ela é decisiva para o andamento da sociedade e das estruturas do pensar e agir.

Elias justifica essa fala quando analisando os padrões de formação das emoções humanas durante um período longo de tempo, a exemplo dos cavaleiros medievais, percebeu-se que os padrões de agressividade não são uniformes, varia com o continente em que o indivíduo estabelece relações e muda de acordo com o tempo histórico vivido. Partindo do exemplo do cavaleiro medieval, Elias comenta que a agressividade, o espírito de heroísmo, e a incerteza dos dias vindouros eram comuns à época, para estes

eram normais as guerras, a mutilação de pessoas e a destruição de vilarejos, pois simbolizava um espírito de heroísmo, as emoções individuais eram expostas de modo institivo. Essa emotividade era de certo modo necessária e condizia com as atitudes sociais da época. “É a estrutura da sociedade que exige e gera um padrão específico de controle emocional (ELIAS, 1994a, p. 199)”.

Um exemplo dessa agressividade se dá na Paris do Sec. XVI, em que uma das festividades (dia de São João) se dava em queimar gatos vivos em praça pública. Parece-nos impensável tal atitude a até soa animalesco, mas Elias mostra que hoje as emoções humanas de controle da agressividade vão sendo reconfiguradas. Os indivíduos possuem o seu lado animalesco, o que surge é que quanto mais civilizada a sociedade for, mais controlado se torna os impulsos humanos. O aumento da demanda de livros foi um dos processos que moldou a atitude institivamente agressiva do homem medieval.

O homem é um ser maleável, moldável, faz parte de um processo gradual de mudanças sociais e históricas, que parecem se perder num passado remoto, mas que traz consigo algumas dessas marcas. “O que muda no curso do processo que denominamos de história são as relações mútuas, as configurações de pessoas e a modelação que o indivíduo sofre através delas (ELIAS, 1993, p. 231)”.o controle das emoções e pulsões humanas não estão ausentes do indivíduo e o grau de controle destas se torna maior ou menor de acordo com função social que lhe pertence e que são travadas no cotidiano nas relações com a família, com o trabalho ou com outros homens. É o controle dos códigos sociais que permitem ao indivíduo a aproximação ou o afastamento dele com os demais.

O conceito de expressão nos permite compreender a função social dos movimentos e dos gestos do indivíduo, como afirma Elias:

O equilíbrio imputável entre os impulsos emocionais e os impulsos contrários do controle emocional se mostra nos movimentos de uma pessoa, e seus gestos e em suas expressões faciais que são sinais através dos quais pessoas comunicam involuntária ou intencionalmente, a condição de auto- regulação de suas emoções para outros seres humanos. (ELIAS,2009, p. 46) Com Elias, compreendemos que o ser humano é complexo, inclusive por suas vontades, emoções e impulsos. Da sua condição social e individual decorrem complicadores que ajudam a entender por que há tantos ângulos no tratamento de fenômenos como a violência. Por isso, também, muitos são os vieses epistemológicos

que tentam caracterizar a violência. Descobrimos, então, que a cada época e cultura, a sua violência e o valor que a ela se atribui.

Hoje, no contexto da modernidade (tardia ou não), a violência é detestada, como avessa à civilização. Ela é condenada moralmente, como mostra Todorov (1995), que defende dever ser a explicação para a violência ou a banalidade do mal investigada na sociedade e não nos indivíduos pertencentes a ela. Para ele a violência pode ser entendida por modelos de governos totalitários, cuja imposição privilegia uns em detrimento de outros; por serem governos em que a prevalência do poder político impõe normas e atitudes, dentro de um processo civilizador, muitas vezes não nos damos conta de que exercemos violência. O totalitarismo estatal determina a direção para que a sociedade evoluirá, o que parece manter o indivíduo isento de sua responsabilidade sobre a violência, alimentada, neste círculo vicioso, do geral para o individual e vice- versa.

Pensar nas origens da violência leva-nos a seguinte arguição:

Que tipo de formação é essa, esta “sociedade” que compomos juntamente, mas que não foi compreendida ou planejada, tal como agora se apresenta, por nenhum de nós, nem tampouco por todos nós juntos que só existe quando existe um grande número de pessoas, só continua a funcionar quando muitas pessoas, tomadas isoladamente, querem e fazem certas coisas, mas cuja estrutura e grandes transformações históricas claramente independem das intenções de qualquer pessoa em particular? (ELIAS, 1994b, p.63).

Tal citação faz-nos compreender que as relações em si não podem ser diretamente percebidas. Logo, são forjadas no grande tecido social e somente identificadas numa perspectiva mais abrangente. Assim, no que diz respeito à violência, Elias ensina-nos que é a estrutura de uma sociedade a condição instituidora tanto dos processos civilizadores quanto, concomitantemente, da violência.

Nesse sentido, no mundo (pós-)moderno, em que vivemos das redes sociais, nas quais as distâncias parecem se dissipar e dar lugar a uma movimentação de fluxos e diálogos de pessoas de diferentes contextos em tempo reais, espontâneos, a violência ganha novas expressões, já claramente atravessadas pela virtualidade tecnológica. Nem sempre ser diferente é sinal de ser bem visto ou bem aceito. Então:

Sinais, estilos, sistemas de comunicação rápida altamente convencionalizada são o sangue vital da cidade grande. É quando esses sistemas entram em colapso – quando perdemos o domínio da gramática da vida urbana – que [a violência] assume o controle. A cidade, nossa grande forma moderna, é suave, acessível à estonteante e libidinosa variedade de vidas, de sonhos, de interpretações. Mas as próprias qualidades plásticas que fazem da grande cidade o liberador da identidade humana também a tornam especialmente

vulnerável a psicose e ao pesadelo totalitário. (RABAN apud HARVEY, 2009, p. 18).

Na metáfora de Raban, a cidade pode ser um grande liberador de sonhos, plástica, fluida. É um teatro onde estamos constantemente representando, nela há espaço para os moçinhos e vilões, a sua identidade e a sua liberdade nesta cidade pós-moderna é garantida até certo ponto, pois, se você tem liberdade de expressar-se livremente o outro também possui, e a liberdade de expressão do outro pode não consentir com a minha. Embora possamos ter liberdade, ela não é absoluta. Há os códigos da cidade, que coloca o seu imperialismo do gosto.

Estendendo esta análise para o uso da internet, entendemos que ela tem criado novas identidades, subjetividades, formas de comportamento, inclusive violentas: entre elas podemos destacar o cyberbullying (GONÇALVES, 2010), muitas vezes associado à escola. O cyberbullying é uma prática agressiva diferente da agressão física direta já que tenta difamar o outro ou humilhá-lo publicamente em redes sociais digitais através do uso da internet, esse assédio alcança um número de pessoa mais rapidamente devido a velocidade com que os meios virtuais chegam as pessoas. Infelizmente, este é um tipo de manifestação que tem se tornado bastante frequente devido aos avanços dos aparelhos tecnológicos e sua acessibilidade.

Com as considerações sobre o cyberbullying, penetramos no universo da violência na escola e, em seguida, descrevemos o Programa EqP.

4.2. Violência nas escolas e mediação da tecnologia para a construção de