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Algumas considerações acerca da tradição manuscrita do texto de Aurélio Vítor

No documento O império romano de Aurélio Vítor (páginas 31-44)

CAPÍTULO 1 – História abreviada ou biografia dos Césares?

1.2 Algumas considerações acerca da tradição manuscrita do texto de Aurélio Vítor

No ano de 1892, foi publicada em Munique a primeira das várias edições da obra de Aurélio Vítor que a germânica Teubner lançaria nas últimas décadas. Organizada por Franz Pichlmayr, tal edição não se limitava, porém, ao livro efetivamente elaborado por Aurélio Vítor no início da década de 360. Com efeito, Pichlmayr havia lidado com quatro narrativas diferentes entre si. As três primeiras configuravam o corpus Aurelianum, uma compilação de textos tardo-antigos versados em história, formado pela Origo gentis Romanae, pelo De uiris

illustribus (urbis Romae) e, por fim, pelas Historiae abbreuiatae. A denominação “corpus Aurelianum” deriva do fato de que se atribuiu erroneamente a Aurélio Vítor a escritura de

Aurélio Vítor foi o responsável apenas pela composição das Historiae abbreuiatae, e não do

corpus tripartite em sua totalidade.

Quanto aos demais textos, porém, desconhecemos os seus autores. A Origo gentis

Romanae, ou “As origens do povo romano”, relatava os (míticos) primórdios da história de

Roma, desde a chegada de Saturno na península Itálica até o nascimento de Rômulo e Remo. Por seu turno, o De uiris illustribus (urbis Romae), ou “Sobre os homens ilustres (da cidade de Roma)”, apresenta uma sequência de curtas biografias que englobam desde o primeiro rei da Urbs, Rômulo, até Otaviano Augusto e outras personalidades relacionadas ao Triunvirado e às guerras civis dos últimos anos do período republicano da história romana.

No entanto, a edição que Pichlmayr havia organizado se encerra com uma obra que não concernia ao chamado corpus Aurelianum. Trata-se do Epitome de Caesaribus32, texto de

autoria igualmente incerta e que foi composto na segunda metade dos anos 390 ou no decênio seguinte.33 Contudo, durante o Medievo e a Renascença, o Epitome foi tomado como uma espécie de resumo formulado a partir do texto que Aurélio Vítor havia redigido, de modo que o nome de Aurélio Vítor acabou por ser vinculado, apocrifamente, a mais essa obra.34 Sendo assim, a grande maioria dos códices que contém o texto do Epitome se referem a ele por meio do título “Libellus de uita et moribus imperatorum breuiatus ex libris S. Aurelii Victoris”.35 Ainda na segunda metade do século VIII, a História romana escrita por Paulo Diácono mencionava um certo “Victor” como a fonte da informação relativa à criação da província dos Alpes Cotianos ao tempo do imperador Nero (54-68). A despeito disto, Paulo Diácono havia se servido amplamente do Epitome para redigir seu livro, ao passo que não se verificam vestígios indubitáveis, em sua História romana, de uma efetiva consulta ao texto das

Historiae abbreuiatae. Desta forma, o Epitome foi relacionado à pena de Aurélio Vítor desde,

ao menos, o século VIII, e assim viria a percorrer os séculos vindouros (D’ELIA, 1965, p. 30).

32 Doravante, nos referiremos às três obras da seguinte maneira: Origo gentis Romanae = OGR; De uiris illustribus = DVI; e o Epitome de Caesaribus simplesmente como Epitome.

33 Tradicionalmente, os estudiosos modernos argumentam que a composição do Epitome remontaria aos anos que se seguem à morte de Teodósio em 395 (cf. BONAMENTE, 2003, p. 85). Entretanto, Festy (apud CALLU, 1999, p. 607) advoga que a obra teria sido escrita no Ocidente entre os anos de 406 e 408, como indicamos na nota 28 do presente capítulo.

34 Hoje em dia não restam dúvidas quanto ao fato de que o Epitome não deve ter sua autoria vinculada ao nome de Aurélio Vítor. Por isso, causa-nos imensa surpresa constatar que González y González (1997, p. VII) afirmasse categoricamente que o Epitome deriva do labor de um outro Aurélio Vítor, “también historiador, de tiempos de Arcadio y Honorio, conocido como ‘el Menor’”, em contraposição a Aurélio Vítor, “el Mayor”, “autor del De Caesaribus”.

35 A expressão “breuiatus ex libris S. Aurelii Victoris” reflete, provavelmente, o fato de o livro de Aurélio Vítor ter sido intitulado no plural (Historiae abbreuiatae). Isto conduziu alguns estudiosos oitocentistas – como Monceaux em 1894 – a conceberem a existência de um “Aurélio Vítor plenior”, cujo texto teria se perdido (D’ELIA, 1965, p. 16). Tal hipótese, todavia, não possuí fundamento algum.

Por isto, embora a transmissão do texto do Epitome não se confunda com a tradição manuscrita referente ao corpus Aurelianum, Pichlmayr optou por integrá-lo à edição impressa em 1892. Pichlmayr, entretanto, não se limitou a isto. Foi ele quem, pela primeira vez, cunhou a expressão “De Caesaribus” (“Sobre os Césares”) como forma de intitular o livro escrito por Aurélio Vítor, ou seja, a terceira parte da compilação que se inicia com o OGR e o DVI, respectivamente.36 Pichlmayr assim procedeu a fim de enfatizar um paralelo entre a obra de Aurélio Vítor e o texto que a antecedia de imediato no interior do corpus (qual seja, o DVI), de modo que, ao relato acerca da vida das mais notáveis figuras da era republicana, seguir-se- ia uma narrativa dedicada a Augusto e os seus sucessores (C. ANDO, 1995). Portanto, Pichlmayr julgava o texto elaborado por Aurélio Vítor como uma série de biografias dos imperadores romanos.

Por ora, cabe salientar que o corpus Aurelianum nos foi legado por intermédio de dois manuscritos, datados do século XV e possivelmente derivados de um mesmo arquétipo. O primeiro deles, o Oxoniensis (O), foi redescoberto no interior do acervo da Bodleian Library em Oxford, ao final dos Oitocentos, por Hirsch Hildesheimer, um renomado hebraísta de origem austríaca. O manuscrito se misturava a outros códices que haviam sido anteriormente recolhidos na cidade de Veneza, por parte de eruditos ligados à Companhia de Jesus. O códice

O se divide em duas partes, das quais a primeira contém uma tradução latina dos Memoráveis

de Xenofonte, enquanto que a segunda traz o corpus Aurelianum.

O códice O, porém, remontava ao ano de 1453 e era proveniente da biblioteca de um grande humanista, o cardeal Basílio Bessarione, então legado papal em Bolonha. Já o segundo manuscrito remetia ao Norte da Europa e é identificado como Bruxellensis ou Pulmannianus (P). Fora encontrado na capital belga em 1850, pelo laureado Theodor Mommsen. A datação do mesmo, entretanto, se circunscreve provavelmente ao último quarto do século XV. Nos Seiscentos, passaria pelas mãos de Jean de Loemel, capelão da igreja de Saint-Denis de Liège, e posteriormente viria a ser adquirido por Theodor Poelman. Este, por sua vez, presenteou o jesuíta Andreas Schott com o códice P, o que explica porque a editio princeps do corpus tripartite, organizada pelo citado Schott e publicada na Antuérpia em 1579, se fundamentou sobremaneira em P e negligenciou o códice O (D’ELIA, 1965, p. 75).

Cabe destacar que Schott indicou no proêmio de sua edição de 1579 a existência de um terceiro e atualmente ignoto manuscrito, que teria pertencido ao jurista Jean Matal, do que

36 Momigliano (1958, p. 63) demonstra que o título Origo gentis Romanae se aplicava a compilação por inteiro e não apenas ao primeiro opúsculo que a integrava, que não apresentava título algum. Entretanto, por conveniência, designar-se-á a primeira parte do corpus pelo nome tradicional de OGR – tal como o próprio Momigliano o fizera.

resulta sua denominação de códice Metelli (M). Schott se referia àquele como “antiquíssimo” e julgava que o mesmo teria sido redigido oitocentos anos antes, ainda no século VIII (MOMIGLIANO, 1984, p. 178). Em uma nova edição do corpus tripartite publicada em 1609, Schott reproduziu integralmente uma epístola, sem data definida, que Matal, habitante da cidade de Colônia, havia endereçado ao filólogo Stephanus Pighi, na qual se teciam longas referências ao hoje perdido códice M, reiterando-se a potencial antiguidade do desconhecido manuscrito.

Resta saber, portanto, se M corresponderia ao arquétipo do qual tanto O quanto P dependeram. Não há dúvidas de que O não derivou de P, e vice-versa, visto que as lacunas que se observam no texto contido em P não são compartilhadas por O, do mesmo modo que não se encontram em P as omissões e supressões existentes em O. Por isto, Corbett (1949, p. 254) e D’Elia (1965, p. 58) concluíram que os códices Oxoniensis e Pulmannianus não poderiam senão resultar de uma mesma família. Logo, o códice Metelli, dada a antiguidade que Schott e Matal a ele conferiam, emerge como o provável exemplar em que os outros dois manuscritos teriam se fundamentado.

Todavia, faz-se escusado sublinhar um ponto importante. A tradição manuscrita direta, tangente às narrativas da OGR e das Historiae abbreuiatae, se restringe tão somente aos códices O e P que reproduziram o corpus tripartite. O texto do DVI, no entanto, foi transmitido e preservado por meio de uma segunda tradição, completamente autônoma em relação aos manuscritos O e P, e que consiste em mais de setenta códices, o que demonstra que o DVI conheceu uma fortuna que se estendeu para muito além dos limites do próprio

corpus Aurelianum (SAGE, 1978, p. 217-218).37

Ora, a existência de uma tradição manuscrita independente, no tocante ao DVI, propiciou a oportunidade de se confrontar o texto do DVI contido em O e P – isto é, o corpus tripartite – com os demais códices. Momigliano (1984, p. 179) constata que a narrativa do

DVI exposta por O e P apresenta interpolações que não se verificam no outro ramo da

tradição manuscrita que concerne à referida obra. As passagens adicionadas foram extraídas, sobretudo, do Breviário de Eutrópio, da História Universal de Paulo Orósio (ca. 410-420) e da História Romana elaborada por Landolfo Sagaz por volta do ano de 1023. Por conseguinte,

37 Há algumas diferenças entre as duas tradições manuscritas do DVI. No interior do corpus tripartite, quase a totalidade do primeiro capítulo foi suprimida, pois o compilador do corpus pretendia eliminar a repetição de material já exposto anteriormente na OGR, referente a Rômulo. Para além, o capítulo 16, concernente à batalha do Lago Régilo no início do século V a.C., também foi removido. Por outro lado, somente o texto que integra o corpus Aurelianum apresenta nove capítulos adicionais, que finalizam a narrativa. Em que pesem tais diferenças, teriam derivado de um mesmo arquétipo tanto a narrativa relativa ao DVI incluída no corpus Aurelianum, quanto aqueles textos que se encontram em diversos outros manuscritos (SAGE, 1978, p. 218).

se deduz que o arquétipo de O e P foi escrito, provavelmente, em data posterior à década de 1020. Isto não significa que o “antiquíssimo” códice M deva ser categoricamente rejeitado como a raiz dos códices O e P, porém as parcas informações acerca de M tornam difícil reconhecê-lo enquanto tal (MOMIGLIANO, 1984, p. 183).

D’Elia (1965, p. 73), por sua vez, ao analisar o teor da carta que Matal havia enviado a Pighi, assegura que o códice M se enquadrava na mesma família a qual pertenciam O e P. Tal argumentação se pauta na constatação de que M partilharia certos elementos estruturais com

O e P, caso do acréscimo dos nove últimos capítulos ao texto do DVI e da “divisão” do corpus em duas partes, na medida em que os textos relativos à OGR e ao DVI conformariam

uma narrativa integrada, sem solução de continuidade, que se somava às Historiae

abbreuiatae de Aurélio Vítor. Ademais, análises paleográficas efetuadas nos códices O e P

fazem pensar em um arquétipo que remontaria ao período compreendido entre os séculos XI e XIV. Como visto anteriormente, os manuscritos O e P evidenciam sinais de interpolação que remontariam à obra escrita por Landolfo Sagaz nos anos 1020. Tal livro conheceu substancial fortuna durante o século XIII, em especial nas regiões renanas, algo que sustenta a hipótese de que o arquétipo a partir do qual O e P foram modelados adviria do Norte da Europa, tendo sido redigido nos Trezentos (D’ELIA, 1965, p. 113).

Vale recordar, por sinal, que foi justamente a partir da cidade de Colônia que Matal escreveu a carta em que relatava a Pighi certos elementos que concerniriam ao códice M. Assim, D’Elia (1965, p. 114) advoga que, diferentemente do que Schott, em sua primeira edição do corpus, o próprio Matal em sua epístola faziam crer, o códice M não seria “antiquíssimo”, mas antes teria sido elaborado no alvorecer do Humanismo e, pois, um predecessor recente de O e P. Nestes termos, seria “l’unica tesi possibile” considerar que M seria o arquétipo perdido dos manuscritos O e P, conclusão esta sustentada também por Schmidt (1995, p. 1602).

Feito isto, voltemo-nos para mais um aspecto relativo à transmissão da obra de Aurélio Vítor. Em parte alguma do corpus Aurelianum, salientemos, se encontra a expressão ou o título De Caesaribus como forma de referência ao texto. Antes, verifica-se como entrada à narrativa a seguinte passagem: “Histórias abreviadas de Aurélio Vítor (Aurelii Victoris

Historiae abbreuiatae), desde Otaviano Augusto, isto é, a partir do final [do texto] de Tito

Lívio38, até o décimo consulado de Constâncio Augusto e o terceiro de Juliano César”.39

38 A frase “id est a fini Titi Livi” não passaria de uma interpolação, conforme D’Elia (1965, p. 16). 39

Na carta de Matal a Pighi, o título do livro de Aurélio Vítor é praticamente idêntico ao indicado acima. Nota- se, contudo, duas diferenças: Matal referia-se às Historiae abbreuiatae como obra de “Victoris Aurelii”, ao passo

Portanto, eis que nos deparamos com a locução Historiae abbreuiatae, e não De

Caesaribus. A diferença entre ambos os títulos é, em si, significativa, e carece ser investigada.

Em primeiro lugar, a natureza da tradição manuscrita direta relativa à obra de Aurélio Vítor impõe um série de obstáculos. Como apontado anteriormente, o texto foi legado aos pósteros como a última parte de uma compilação que incluía outros dois opúsculos, cuja estrutura narrativa e objetivos se distinguiam dos de Aurélio Vítor. Momigliano (1958, p. 58) defende que o responsável pela organização do corpus tripartite não se confunde com os autores de cada um dos textos singulares que o integram. No prólogo escrito pelo ignoto compilador, em que se enumeram os analistas e os historiadores romanos pretensamente consultados para a elaboração de todos os textos que formavam o corpus Aurelianum, se observa o emprego do vocábulo “neoterici” em referência a Tito Lívio e a Aurélio Vítor. A palavra “neotericus”, usada pelo compilador a fim de indicar os escritores da época de Augusto em diante, corresponderia a um vocábulo utilizado com certa frequência por parte de literatos do período imperial tardio, entre os séculos IV e VI.

Diante disto, Momigliano (1958, p. 59) conclui que o anônimo compilador teria efetuado sua tarefa pouco depois do aparecimento da obra de Aurélio Vítor, que havia finalizado o seu relato no começo dos anos 360. Tal argumentação se baseia na ideia de que resulta difícil compreender por qual razão uma peça literária tão ousada – que se quer passar como uma história total de Roma, iniciando-se com as origens da cidade – não avançou para além de 360, data esta que nem ao menos exprimia o ponto final de um reinado e sim apenas a baliza cronológica a partir da qual a narrativa das Historiae abbreuiatae foi encerrada.40 De maneira semelhante, Siniscalco (2003, p. 34) ratifica a proposta de que o agrupamento dos textos que deram forma ao corpus tripartite ocorreu na segunda metade do século IV, pois que a compilação apresentaria pontos de contato com o renascimento de motivos “clássicos” que teriam perpassado as décadas finais daquela centúria, traduzindo-se pela nostálgica remissão ao mos maiorum e à figura de Augusto.

Por seu turno, Puccioni (1958 apud D’ELIA, 1965, p. 21) levanta a hipótese que a junção da OGR, do DVI e das Historiae abbreuiatae, em uma narrativa que se queria contínua, pudesse ser creditada a Cassiodoro ou a alguma personagem ligada ao seu “círculo”, que mantinha grande contato com a corte ostrogoda de Teodorico (493-526). Figuras como

que suprimiu a menção feita ao César Juliano (D’ELIA, 1965, p. 61). No mais, o título apresentado por Matal equivale literalmente ao encontrado em O e P.

40 Todavia, soa intrigante pensarmos, seguindo essa linha de pensamento proposta por Momigliano, que o livro de Aurélio Vítor, poucos meses depois de concluído, teria passado a circular como parte integrante de uma obra ainda maior, cujo relato começava com os míticos tempos da fundação de Roma. Neste ensejo, o texto de Aurélio Vítor teria servido a outros propósitos e, logo, assumido outras feições aos olhos do público leitor.

Cassiodoro teriam estimulado uma espécie de “renascimento literário e cultural” na Itália sob o domínio dos ostrogodos, promovendo a correção de textos antigos, a tradução de autores gregos, bem como a composição de obras originais. Contudo, não há passagem alguma nos textos de Cassiodoro que possa confirmar a hipótese formulada por Puccioni, que não ultrapassa o plano da mera, ainda que engenhosa, especulação.

D’Elia propõe uma datação posterior para o surgimento da compilação envolvendo as três obras. Advoga que João Lídio, cujo De magistratibus foi escrito em Constantinopla por volta de 559, demonstrava conhecer o texto de Aurélio Vítor, mas parecia ignorar a OGR e o

DVI. Por outro lado, a Chronica maiora, composta por Isidoro de Sevilha após o ano de 615,

apresenta ecos do último capítulo presente no texto do DVI que integrava o corpus tripartite, porém não atesta influência alguma das Historiae abbreuiatae. Logo, conclui D’Elia (1965, p. 27) que “sembra si possa almeno legittimamente sospetare che fino a questo periodo le tre

opere non erano state raccolte in un solo corpus”. Ou seja, no entender de D’Elia, na

Constantinopla da época justiniana ainda circularam exemplares “independentes”, no que respeitava à narrativa de Aurélio Vítor41; por sua vez, no que tangia ao Mediterrâneo Ocidental, Isidoro de Sevilha comprovaria a existência, no primeiro quartel do século VII, de uma edição “não modificada” do DVI – quer dizer, que não teria sofrido alterações a fim de que se conectasse adequadamente ao conteúdo do livro que se seguiria no corpus tripartite, nada menos que as Historiae abbreuiatae de Aurélio Vítor.

A constituição do corpus Aurelianum, nestes termos, resultaria do labor de algum “homem de letras” posterior à época de Justiniano (527-565), na medida em que, entre o momento da composição da obra de João Lídio até o surgimento do arquétipo dos códices O e

P (provavelmente no século XIII), não se verificariam quaisquer vestígios do emprego da OGR e das Historiae abbreuiatae em meio às fontes literárias conhecidas (D’ELIA, 1965, p.

113). Por outro lado, a inserção, nos textos da OGR e do DVI que compunham o corpus

Aurelianum, de passagens retiradas das obras de Eutrópio, Paulo Orósio e Landolfo Sagaz,

somente poderia ter sido efetuada muito tempo depois da era justiniana. Nestes termos, a interpolação teria se dado em um ensejo em que a compilação tripartite já havia sido estabelecida, de modo que o compilador não se confundiria com o responsável pelas interpolações textuais que se notam no corpus Aurelianum.42

41 Sage (1978, p. 218) ajuíza como frágil o argumento formulado por D’Elia, na medida em que não se poderia apontar com exatidão de que maneira havia se desenrolado, entre os bizantinos, a transmissão dos textos que compõem o corpus Aurelianum, malgrado as referências apontadas no interior da obra de João Lídio.

42

Momigliano (1958, p. 60) também defende a ideia de que as interpolações observadas no corpus Aurelianum, tal como contidas no arquétipo de O e P, não foram efetuadas pelo literato que se encarregou da tarefa de

As Historiae abbreuiatae, em suma, foram transmitidas ao longo dos séculos por intermédio de uma compilação no interior da qual figurava como a terça e última parte de uma narrativa que almejava oferecer um relato totalizante acerca da história romana. Tal condicionante acabou por acentuar, inadvertidamente, os elementos biográficos que caracterizam a única obra que, de fato, Aurélio Vítor havia composto. Esta se inicia com uma referência à batalha de Ácio, evento a partir do qual o mundo romano passou a ser controlado por apenas um homem, conforme se lê em Hist. abbreu. 1.1. Neste sentido, Aurélio Vítor definiu um inequívoco recorte temporal a fim de esclarecer aos leitores qual o objeto contemplado em seu texto. Dito de outra maneira, o autor sinalizava o fato de que sua obra se limitaria apenas à história imperial. Por conseguinte, o passado republicano de Roma não seria (diretamente) relatado em sua narrativa, incluindo-se o Triunvirado ou tudo o mais que se referisse a Augusto antes do ano 722 ab urbe condita.

Entretanto, é preciso lembrar que o texto do DVI que se encontra nos códices O e P apresenta nove capítulos (cf. De uir. ill. 78-86) que não constam nos demais manuscritos por meio dos quais a obra igualmente foi transmitida no decorrer dos séculos. Os referidos capítulos se focam nas principais personalidades envolvidas nas guerras civis das décadas de 40 e 30 a.C., exceção feita a Pompeu Magno, abordado em um trecho anterior (cf. De uir. ill. 77). No que concerne aos nove capítulos mencionados, cabe destacar as referências feitas a Otaviano (cf. De uir. ill. 79; 85-86). Visto que as Historiae abbreuiatae não trazem informação alguma acerca da vida de Augusto, no que respeita ao período anterior à batalha

No documento O império romano de Aurélio Vítor (páginas 31-44)