A partir da década de 1990, quando o feminismo como movimento social, que ocupa as ruas e as manchetes, perde força no Brasil, e pode-se observar uma institucionalização dos feminismos por meio das Universidades, Organizações Não Governamentais (ONGs) e dentro da própria estrutura da política formal, a temática da domesticidade e do trabalho doméstico parece perder ainda mais força do que já havia perdido na década de 1980. Dentre discussões sobre mulheres e política, mulheres e ciências, trabalho formal, direitos reprodutivos, saúde, sexualidade e violência, o trabalho doméstico perde espaço no debate público e nas produções teóricas. Entretanto, não desaparece.
Podemos citar como exemplo teóricas dedicadas à temática do traba- lho que continuaram pensando sobre o trabalho doméstico nos anos 1990 e 2000, como Cristina Bruschini, Helena Hirata e Hildete Pereira de Melo; a preocupação teórica e política sobre as trabalhadoras rurais, que vinha discutindo também a domesticidade, como no caso de Maria Ignez Paulilo e na atuação de Luci Choinacki; e a articulação em ONGs focadas tanto no trabalho doméstico não remunerado quanto no remunerado, como na Sempreviva Organização Feminista (SOF), SOS Corpo e CFEMEA. Ou seja, se é um debate naquele momento publicamente reconhecido como antigo, ultrapassado, como era possível observar nas produções culturais de grande circulação,21 essa nunca foi questão totalmente abandonada pelos feminis- mos institucionalizados.
Em meados da década de 2010, quando da “explosão feminista” já brevemente comentada neste capítulo, essas pautas voltam com força, junto a uma articulação entre teorias materialistas e trabalho não pago das mulheres. Silvia Federicci, Cinzia Aruzza, Nancy Fraser e Jules Falquet são autoras materialistas publicadas em português que se popularizam, muitas obras já esgotadas sobre a temática são reeditadas. A questão do trabalho não remunerado das mulheres circula pelos textos de blogs, quadrinhos e redes sociais, fazendo-se presente também nos motes escritos nos muros, camisetas, cartazes e “pirulitos” dos feminismos nas ruas. Temos propostas de leis preocupadas em quantificar e valorizar o trabalho não pago que as mulheres prestam à sociedade, como o PL 638/2019, que está tramitando na Câmara dos Deputados, de Luizianne Lins, que “Dispõe sobre a inclusão da
economia do cuidado no sistema de contas nacionais, usado para aferição do desenvolvimento econômico e social do país para a definição e imple- mentação de políticas públicas.”22
Convivemos, então, com essa ascensão do ideário feminista concomi- tante à retomada de conservadorismos e crescimento de fundamentalis- mos religiosos, como também já foi brevemente comentado, que buscam demarcar o espaço doméstico como espaço naturalizado das mulheres. Foi nesse contexto que a pesquisa deste projeto foi realizada, e também nele que este capítulo foi construído. O capítulo se propôs a pensar sobre o debate promovido pelos feminismos e movimentos de mulheres acerca da domesticidade que emergiu entre 1960 e 1980 no Brasil como agente fundamental de significativo conflito social, que provocou reações enérgicas e discussões acaloradas nos grandes meios de comunicação e na esfera política, tanto autônoma quanto institucional.23 Esse caráter conflituoso do questionamento da associação entre mulheres e a chamada esfera privada pode ser percebido também nas preocupações do regime de exceção com a educação moral e cívica, ou na argumentação das feministas marxistas sobre o papel central da reprodução para o trabalho produtivo (uma resposta ao desdém e à desqualificação das lideranças das esquerdas a respeito das pautas feministas).
Também nos interessou, aqui, buscar compreender as articulações entre presente e passado na história da relação das mulheres com a domesticidade, e essa relação como foco de conflito social. Escrevemos lembrando que a história não se repete, que as conjunturas e contingências são múltiplas, que nosso contexto é particular e, apesar das semelhanças com o período estudado, não estamos buscando cometer anacronismos. Contudo existe sim um caráter de aprendizado político que podemos levar dessa história para a construção de um mundo em que a equidade de gênero em todas as esferas, e particularmente no mundo do trabalho (pago e não pago), seja uma realidade palpável, possível, e não um sonho impossível como questiona a animação institucional da ONU de 1983, “O sonho impossível”.24 Nela, após demonstrar a duríssima dupla jornada de trabalho de uma mãe de família (e sua filha pequena, que já vem aprendendo as tarefas socialmente atribuídas às mulheres desde muito cedo), a protagonista sonha com a possibilidade de uma divisão de trabalho mais igual, harmônica e empática com seu com-
22 Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2191678.
Acesso em: 25 maio 2019.
23 Lembramos, por exemplo, da CPI da Mulher publicada pelo Senado Federal em 1978, resultado dos
trabalhos que se desdobraram entre abril e setembro de 1977. Está disponível na íntegra em: http:// www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/84968. Acesso em: 26 maio 2019.
24 Roteiro de Tina Jorgenson e direção de Dagmar Doubkova. Disponível em: https://www.youtube.com/
panheiro e seu filho. Essa história, da luta pela construção da igualdade de gênero dentro e fora de casa, da luta feminista por democracia e das mulhe- res de luta, é a história que buscamos construir aqui, articulando o debate sobre historicidade (KOSELLECK, 2006; HARTOG, 2014) que integra passado, presente e nosso horizonte de expectativa para um futuro mais justo.
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