CAPÍTULO III: REPRESENTAÇÕES SOBRE AS PRÁTICAS DOCENTES NAS
3.4 FATOS DA SALA DE AULA
3.4.6 A aluna superprotegida
O sexto episódio trata da interdição de uma aluna de 25 anos por parte da mãe, cujo comportamento impede a filha de passar por uma série de experiências cotidianas, o que provoca a sensação de que essa jovem não teve muitas experiências sociais, apenas convive em sua casa e na escola, sendo completamente dependente da mãe. Retrata, portanto, o medo que os pais têm em relação à liberdade de seus filhos deficientes, com atitudes de superproteção como se fosse uma eterna criança ou a tratando como se fosse uma pessoa doente que não pode sair de casa. Com essa atitude, a mãe acaba excluindo a filha de uma série de convívios outros que poderiam ser momentos de aprendizagem, de interação com outras pessoas. Passa-se ao episódio:
PE: Você acha que tem alguma forma de prisão na família (t. 23).
EV: Nã::o/ Eu olha, eu tenho uma aluna aqui, aqui. Ela está retornando agora no início de março, nós já voltamos no início de fevereiro. Eu achava que ela nem ia voltar, que a mãe segura essa menina, ela já tem 25 anos, como se ela fosse um bebê. Eu já conversei várias vezes com essa mãe: que ela não vai viver/ que ela já é uma senhora, já é bem velha, que ela não vai ter vida pra muitos anos, hum, aquela coisa toda. “E essa filha vai ficar com quem, mamãe?” “Ah! eu vou deixá-la com meu filho”. “Mais você acha que seu filho casado, que a nora vai cuidar dela como você cuida?” “Ah!, mais meu filho vai cuidar dela direitinho” “Mais o que que ela faz em casa? Ela passa roupa?” “Não.” “Faz comida?” “Não.” “É:: faz alguma coisa?” “Também não”. “Ela acorda, liga a televisão e fica comigo o tempo inteiro, não deixo ela fazer nada” “Mais vamos deixar ela vir pra escola sozinha, mora aqui pertinho. Um dia você vai vir com ela, você vai vir mostrando a/ o nome da rua, como é que chega até aqui. Olha os ônibus se chegasse a pegar ônibus, você mostrava qual é o ônibus que ela tem que vir. Todo dia/ outro dia você vai deixar ela vir sozinha. Você diz pra ela que ela vem sozinha, mas você vem atrás observando, se ela tá fazendo tudo direitinho, se ela já aprendeu a atravessar a rua, agora/” “De::us me livre, mais eu não vou fazer isso nunca com a minha filha”.”Então ela tá ai até hoje, sendo criada como bebê. E ela não tinha Língua de Sinais, ela chegou aqui sem nada. Porque essa mãe é ouvinte, o irmão é ouvinte, as tias que moram com ela são ouvinte, com quem que ela iria aprender Língua de Sinais? Não frequenta igreja, não frequenta lugar nenhum (EVA, t. 24).
Neste episódio o tratamento dispensado pela mãe é de tratar a filha como inválida: não a deixa ir sozinha para escola, não permite que faça nenhuma atividade doméstica, não confia nela, não a deixa sozinha, enfim, a mãe tem posicionamentos e atitudes que tornam inválida a moça de 25 anos. A atitude da mãe é de interditar a filha em função de ter em mente padrões de normalidade.
Pode-se interpretar esta situação como uma manifestação de capacitismo da parte da mãe para com a filha. O comportamento de superproteção da mãe torna a filha cada vez mais
à margem da sociedade, não permitindo que viva com independência e aprenda a desenvolver mecanismos de proteção próprios.
Sumariza-se a seguir estes seis episódios:
QUADRO 5:EPISÓDIOS DE INTERDIÇÃO, DE GENERALIZAÇÃO IDEOLÓGICA E DE INVISIBILIZAÇÃO
Discursos capacitistas Interdição Alvo (pessoa deficiente)
(1) [...] eu acho que desde quando, desde os nove anos ela estuda, ela estuda, ela estudava aqui e ela tá com:: cinquenta/ cinquenta e quatro se eu não me engano, então ela passou uma etapa da vida dela estudando aqui nessa escola [...] (RUTH, t. 14).
Reter uma aluna na escola especial.
A aluna ficou 36 anos na
escola especial supostamente porque não
conseguia aprender.
Discursos capacitistas Generalização Ideológica Alvo (pessoa deficiente) (2) [...] eu mesmo fui a primeira a chamar a mãe e
orientá-la pra que ela procurasse uma escola especializada pra surdez, pra que a aluna pelo menos pudesse ter o atendimento na educação infantil assim de forma/ de forma que ela pudesse aprender a Língua de Sinais. Só que no momento a mãe ficou ofendida e disse que a filha dela não era doente e que/ ai que não compreendeu, né? (LUNA, t. 10)
Supor que o aluno surdo deve estudar apenas com pessoas surdas, com professores exclusivos.
Supor que a escola regular é feita para pessoas normais, a especial para deficientes ou doentes.
A aluna não recebeu atenção da professora por não falar fluentemente a Língua Portuguesa.
(3) “Não sabia que você acreditou nisso. Como é que alguém vai viajar sem preparo!” (BIA, t. 18)
Supor que todas as pessoas têm que compreender o literal e o implícito dos discursos.
O aluno R. passa por uma situação constrangedora diante dos colegas por não interpretar a intencionalidade de um convite feito em sala.
Discursos Capacitistas Invisibilização Alvo (pessoa deficiente)
(4) “Pô que legal sua história foi boa”. Sabe aquela animação. E a turma olhou pra mim, toda, decepcionada, com os olhos enormes, assim, sabe, tipo assim: “Como que ela fala um negócio desse, o menino perdeu tudo!” (BIA, T. 18).
Não prever que para trabalhar com surdos a professora tem que saber Língua de sinais.
O relato do aluno surdo foi desvirtuado pela professora.
A professora só se deu conta da necessidade de aprender Libras diante da agonia e do choro da aluna.
(5) [...] teve uma vez que ela [a aluna] chorou agoniada e foi quando eu me senti em desespero e eu comecei a/ a buscar o quê/ é:: ir buscar essa/ essa/ essa/ uma ajuda, tá? Ai foi que eu paguei meu curso de libras (RAY, t. 10).
Discursos Capacitistas Interdição Alvo (pessoa deficiente)
(6) “Ela passa roupa?” “Não.” “Faz comida?” “Não.” “É:: faz alguma coisa?” “Também Não.” “Ela acorda, liga a televisão e fica comigo o tempo inteiro, não deixo ela fazer nada” (EVA, t. 24).
Impedir que a aluna surda fizesse as coisas e vivenciasse suas aprendizagens.
Uma moça de 25 anos é tratada como ‘bebê’.
Fonte: elaboração própria
Em uma possível síntese desses episódios, observa-se que predominaram os que tratam de problemas relacionados à aquisição da Língua Portuguesa pelo surdo e da Língua de Sinais por parte das professoras que trabalham na educação especial. Um dos casos, a ausência do conhecimento prévio em Língua de Sinais, por parte da professora, ocorreu no
episódio cinco (5) da aluna com deficiência múltipla em que os gestores não previram que para trabalhar com surdos a professora teria que saber a Língua de sinais. No episódio quatro (4) a professora faz uma interpretação diferente da do aluno, acarretando que ela felicite o aluno por ter passado por uma tragédia nas férias; Em outros extremos têm-se o episódio três (3) em que o aluno passa por uma situação constrangedora por interpretar literalmente um convite; e no episódio dois (2) em que se tem um conflito entre duas representações: a professora que acha que a escola especial é o lugar de surdos estudarem e a posição da mãe que acha que a escola especial é lugar de pessoas doentes. A situação de interdição ocorre no episódio seis (6), em que uma aluna de 25 anos é superprotegida e tratada como um bebê e no episódio um (1) o aluno fica repetindo a mesma série, na escola especial, sem ocorrência de aprendizagem.
Passa-se agora a relacionar os instrumentos didáticos propiciados pelas mudanças na forma de ensino da Língua Portuguesa.