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Como se viu em passagem anterior, o meio ambiente do trabalho saudável é um

direito fundamental assegurado ao trabalhador e não um simples direito decorrente do

contrato de trabalho.

Bem assim, viu-se que o meio ambiente do trabalho é o local em que são executadas

ou desenvolvidas as atividades laborais – habitat laboral –, onde o trabalhador passa boa parte

de sua vida.

coesão e interdependência social, que a prestação continuada dos serviços públicos assegura. 13. O argumento de que a Corte estaria então a legislar

o que se afiguraria inconcebível, por ferir a independência e harmonia entre os poderes [art. 2o da Constituição do Brasil] e a separação dos poderes [art. 60, § 4o, III]

é insubsistente. 14. O Poder Judiciário está vinculado pelo dever-poder de, no mandado de injunção, formular supletivamente a norma regulamentadora de que carece o ordenamento jurídico. 15. No mandado de injunção o Poder Judiciário não define norma de decisão, mas enuncia o texto normativo que faltava para, no caso, tornar viável o exercício do direito de greve dos servidores públicos. 16. Mandado de injunção julgado procedente, para remover o obstáculo decorrente da omissão legislativa e, supletivamente, tornar viável o exercício do direito consagrado no artigo 37, VII, da Constituição do Brasil” (BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de injunção n. 712/PA. Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário do Estado do Pará - SINJEP e Congresso Nacional.

Relator: Eros Grau. Brasília, 31 out. 2008. Disponível

em:<http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?incidente=2244628> Acesso em: 10 out. 2011). (grifou-se)

Ocorre que, como também se observou, muitas vezes o meio ambiente de trabalho

expõe o trabalhador a riscos – em muitos casos iminentes –, tanto aqueles aparentes que

comprometem a sua integridade física (agentes perigosos), ainda que em um simples setor,

atividade ou tarefa, quanto aqueles mais insidiosos que operam na linha do tempo, achacando

gradativamente sua saúde (agentes insalubres).

Nessa perspectiva mostram-se oportunas as investigações de Melo (2011, p.122):

Como então prevenir os danos ao meio ambiente do trabalho? O que fazer quando há grave risco iminente à incolumidade física e psíquica dos obreiros? É claro que há uma série de ações individuais e coletivas à disposição de legitimados ativos específicos que buscam fazer valer o referido direito fundamental, vg. a ação civil pública. Todavia, determinadas situações, pela iminência e gravidade do risco, demandam uma ação mais célere. É a aplicação do princípio ambiental da precaução. Nestas situações o jus resistentia pode se materializar em legítima abstenção ao trabalho enquanto perdurarem as condições nocivas ao trabalho: uma greve ambiental.

Entretanto, da dicção do art. 1° da Lei n. 7.783/89 permite-se extrair que o exercício

do direito de greve pode ser agitado ante a um imperativo de caráter trabalhista, social ou

ambiental, sendo no último caso para garantia da saúde, higiene e segurança do trabalho.

Trata-se daquilo que se convencionou chamar de greve ambiental, concebida,

consoante palavras de Fiorillo (2010, p. 503), como “um instrumento constitucional de

autodefesa conferido ao empregado, a fim de que possa reclamar a salubridade do seu

ambiente do trabalho e, portanto, garantir o direito à saúde”, caracterizando-se, conforme

evidencia, “como um instrumento de defesa da saúde do trabalhador, em face da sua atuação

no meio ambiente do trabalho”.

A opção pela designação greve ambiental mostra-se importante, ante a concretização

teórica do referido instrumento de garantia da saúde, higiene e segurança do trabalho, de

maneira especial em razão da viabilidade técnico-científica da ferramenta.

Nesse sentido apresentam-se valiosas as afirmações de Melo (2009, p. 102):

Com efeito, é preciso diferenciar esse tipo de greve da paralisação clássica do trabalho, com a qual estamos acostumados a lidar, permeada por preconceitos que sempre marcaram tal instituto no direito brasileiro. Ao diferenciá-la da greve comum, pode-se suplantar alguns obstáculos que são normais no dia-a-dia das relações clássicas de trabalho, que impendem a ampliação do conceito de greve como direito fundamental. Se se partir para uma construção nova do instituto, agora com outras finalidades, é possível haver um avanço na busca de implementação da verdadeira liberdade sindical no país, a partir da aceitação da greve com um direito a ser igualado aos demais direitos democráticos de tutela do cidadão, como é a nossa pretensão.

A finalidade precípua da greve ambiental é a implementação de saudáveis condições

de trabalho, enquanto bem de uso comum do povo (art. 225, CF/88).

Nessa toada explana Figueiredo (2007, p. 191-192), para quem “essa paralisação tem

uma íntima relação com a vida do trabalhador, mas não necessariamente com o Direito

Privado”, observando-se, então, segundo concebe o referido autor, a maior intensidade dos

horizontes do Direito Ambiental, “que dispõe sobre a tutela da vida do ser humano e não

sobre a natureza jurídica das relações entre partes envolvidas no processo econômico de

produção de bens e serviços”.

É sabido que o reclamo por condições seguras do trabalho remonta à época da

Revolução Industrial, quando houve intenso clamor pela redução da jornada de trabalho, além

de ter servido de indução à criação e desenvolvimento do Direito do Trabalho.

Nessa contextura, mostra-se coerente o escólio de Figueiredo (2000, p. 21):

O modelo econômico inaugurado com a Revolução Industrial desencadeou tanto o surgimento do proletariado como o início do processo de degradação do meio ambiente natural e humano numa escala nunca dantes vista. Para a nova classe social que nascia, essa degradação ambiental significava sujeição a doenças ocupacionais e a acidentes do trabalho. Em outras palavras, verifica-se um súbito e violento decréscimo na qualidade de vida da população.

Ocorre que, influenciada pela doutrina capitalista mais avançada, nomeadamente em

razão das diretrizes delineada pela globalização financeira, a classe operária brasileira

habituou-se a privilegiar a luta por melhores condições econômicas, em detrimento da saúde e

segurança do trabalho, tema este debatido apenas lateralmente, que dirá no tocante ao

exercício do direito de greve com essa finalidade, a despeito das garantias inauguradas com o

advento da Constituição Federal de 1988, como destaca Romita (1991, p. 269):

A interpretação do art. 9° da Constituição deve observar, em plano sistemático, as diretrizes traçadas pelos textos constitucionais que: realçam os valores sociais do trabalho como um dos fundamentos em que esteia o Brasil constituído em Estado Democrático de Direito (art. 1°, IV); determinam que se construa uma sociedade livre, justa e solidária, como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3°, I); protegem o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (art. 5°); protegem o trabalho como um dos direitos sociais (art. 6°); asseguram a participação dos trabalhadores na criação do ordenamento jurídico que lhes diz respeito (art. 10) e bem assim na gestão da empresa (arts. 7°, XII e 11); preconizam a redução das desigualdades sociais, como um dos princípios a que obedece a ordem econômica (art. 170, inc. VII); exaltam a valorização humana, como um dos pilares de sustentação da mesma ordem econômica (art. 170); apontam o primado do trabalho com a base da ordem social (art. 193); consagram o bem-estar e justiça sociais como objetos colimados pela ordem social (art. 193). À luz desses princípios básicos, institucionais, deve ser atendido o preceito constitucional que assegura o exercício do direito de greve.

Qualquer interpretação que resulte em repressão ou restrição despropositada do exercício desse direito padecerá de inconstitucionalidade.

A jurisprudência, assim como a doutrina, tem reconhecido o direito ao exercício da

greve como instrumento de resistência, de natureza instrumental, com a finalidade de

autotutela, exercitável ante a um imperativo de caráter ambiental, prescindido inclusive do

cumprimento dos requisitos formais para a deflagração do movimento grevista em razão de

risco grave e iminente, conforme se extrai de decisão prolatada pelo Tribunal Regional do

Trabalho da 15ª Região, registrada por doutrina nacional como modelo pedagógico nas

relações de trabalho:

Não podemos acolher as alegações da suscitante, no sentido de declarar a greve abusiva, ainda que a norma que disciplina o exercício do direito de greve não tivesse sido cumprida literalmente. Ocorre que a paralisação coletiva do trabalho é um fenômeno tipicamente social, e a sua deflagração pode decorrer de circunstâncias tais que, sob o aspecto formal, o descumprimento da norma não implica em sua violação a ponto de permitir que se declare abusivo o movimento. A farta documentação apresentada pelo suscitado torna evidente que qualquer negociação prévia foi frustrada pela suscitante, o que tornou impossível qualquer diálogo conciliatório, dada à gravidade dos fatos ali documentados... Além de não cumprir as normas convencionais e as do estatuto consolidado, a suscitante resistiu às determinações do Ministério do Trabalho, não esboçando qualquer atitude no sentido de adequar o local de trabalho para que as atividades fossem exercidas com dignidade e segurança. Os documentos de fls.243/249, tornaram evidente que a empresa não tinha instalações elétricas adequadas, proteção em máquinas e equipamentos, armazenando produtos inflamáveis em local impróprio, além de outras, pondo em risco os seus trabalhadores, em profundo desrespeito ao ser humano... Assim sendo, consideradas todas as circunstâncias que envolveram a deflagração do movimento paredista, não podendo declará-lo abusivo com fundamento no descumprimento de normas legais. Tal é a gravidade dos fatos noticiados em relação ao suscitante, que a exigência do exato cumprimento da norma é suplantada pela necessidade imperiosa de medidas urgentes, eis que não se trata na hipótese dos autos de discutir meras reivindicações de ordem econômica e social, mas sim, da eliminação de risco de vida. Trata-se de cumprir o disposto no art. 5º., da Constituição Federal. Afasto, portanto, a abusividade da greve sob o aspecto formal. (MELO, 2009, p. 108)

Na mesma linha de concepção veiculada pela decisão colacionada anteriormente,

são as orientações encartadas nos arestos a seguir transcritos:

RECURSO DE REVISTA. NULIDADE DO V. ACÓRDÃO REGIONAL POR NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. Não se verifica a nulidade, bem como a alegada violação dos artigos 93, IX, da Constituição Federal, 832 da CLT e 458 do CPC, pois, mediante decisão amplamente fundamentada, foi entregue a prestação jurisdicional. Recurso de revista não conhecido. DISPENSA EM RAZÃO DE PARALISAÇÃO DOS TRABALHOS. REIVINDICAÇÃO DE MELHORES CONDIÇÕES DE TRABALHO. JUSTA CAUSA AFASTADA. MATÉRIA FÁTICA. NÃOCONHECIMENTO. A v. decisão regional, com base no depoimento da testemunha da reclamada, consignou que a paralisação com o fim de reivindicar melhores condições de trabalho, não denotou excesso por parte do empregado a determinar a despedida por justa causa, desse modo, revisar tal

questão é inviável, em face do óbice da Súmula nº 126 do c. TST. Recurso de revista não conhecido. [...].43 (grifou-se)

DISSÍDIO COLETIVO DE GREVE. ATUREZA INSTRUMENTAL.

SUPERVENIÊNCIA DE FATO NOVO OU ACONTECIMENTO IMPREVISTO. ARTIGO 14, PARÁGRAFO ÚNICO, INCISO II, DA LEI DE GREVE. NÃO ABUSIVIDADE DO MOVIMENTO PAREDISTA. ESTABILIDADE DE 60 (SESSENTA) DIAS AOS EMPREGADOS. Embora vigente a Convenção Coletiva de Trabalho 2005/2007, a greve foi deflagrada em razão da total ausência de empenho do Sindicato representante do setor econômico em atender às reivindicações dos trabalhadores, que se revelaram justas, necessárias e prementes em face das árduas condições laborais no setor de construção civil, não podendo ser consideradas extemporâneas as reivindicações por melhores condições de trabalho, especialmente no que tange ao fornecimento de alimentação suplementar (café-com-leite e pão-com-manteiga), sendo evidente que o movimento paredista em questão é não abusivo. O fato coletivo em questão amolda-se à hipótese prevista no inciso II do parágrafo único do artigo 14 da Lei de Greve, que afirma não constituir abuso do exercício do direito de greve a paralisação motivada pela superveniência de fato novo ou acontecimento imprevisto que modifique substancialmente a relação de trabalho. Frustrada a tentativa de solução do conflito pela via negocial e tendo sido cumpridas as formalidades legais exigidas quanto à comunicação prévia da empresa, é devido o pagamento dos dias parados, bem como a estabilidade de 60 (sessenta) dias aos empregados, a partir do retorno ao trabalho.44 (grifou-se)

JUSTA CAUSA. GREVE. Age com rigor excessivo o empregador que despede o empregado por justa causa, diante de sua participação em movimento grevista. A luta por melhores condições de trabalho não pode ser qualificada como ato de indisciplina ou insubordinação.45 (grifou-se)

Destarte, mostra-se irrefragável a relevância do instrumento processual da greve

ambiental na defesa e proteção da vida operária, porquanto se constitui na ferramenta de

maior eficácia de que dispõem os trabalhadores a ensejar melhores condições de trabalho,

tratando-se, como se viu em linhas anteriores, de direito fundamental de natureza

instrumental.