• Nenhum resultado encontrado

Como revelado alhures, o meio ambiente do trabalho saudável é um direito

fundamental da pessoa humana do trabalhador, não sendo um simples direito trabalhista

atrelado ao contrato de trabalho, na medida em que o arcabouço protetivo daquele não se

confunde com a proteção concebida ao meio ambiente do trabalho, pois visa esta a

preservação da saúde, higiene e segurança do trabalhador no ambiente em que executa suas

atividades, ensejando o entendimento de que a concepção de meio ambiente do trabalho não

pode ficar limitada a relação obrigacional, nem ao limite físico da planta das fábricas.

De conformidade com as normas constitucionais atuais, a proteção do meio ambiente do trabalho está vinculada diretamente à saúde do trabalhador enquanto cidadão, razão por que se trata de um direito de todos, a ser instrumentalizado pelas normas gerais que aludem à proteção dos interesses difusos e coletivos. O Direito do Trabalho, por sua vez, regula as relações diretas entre empregado e empregador, aquele considerado estritamente.

Não dissente é a posição de Figueiredo (2000, p. 239), para quem o inc. XXII do art.

7°, da Constituição Federal de 1988 tem caráter nitidamente ambiental e sanitário.

Comungando essa linha de entendimento, assim se manifesta Rocha (2002, p. 281):

Decerto que o requisito dos efeitos de possíveis danos podem atingir uma determinada categoria (coletivo) ou uma massa indefinida de trabalhadores de diversas categorias (difuso). Entretanto, o meio ambiente do trabalho deve ser sempre tomado como um bem difuso a ser tutelado. Em suma, o Direito Ambiental do Trabalho, quanto à sua natureza jurídica, nasce como disciplina que integra essa categoria de direitos; não se funda na titularidade de situação subjetiva meramente individual. As suas normas não têm natureza jurídica de Direito do Trabalho, como, aliás, decorre da própria CLT, cujo art. 154 diz que a observância, em todos os locais de trabalho, do disposto neste Capítulo, não desobriga as empresas do cumprimento de outras obrigações que, com relação à matéria, sejam incluídas em códigos de obras ou regulamentos sanitários dos Estados ou Municípios em que se situem os respectivos estabelecimentos. Como se observa do exposto [...], existe competência comum da União, Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para legislarem materialmente sobre o meio ambiente do trabalho (CF, art. 23, inc. VI), o que não ocorre com o direito do trabalho stricto sensu, cuja competência legislativa é exclusiva da União (CF, art. 22, inc. I). Com efeito, não é supérfluo mencionar que não se ambiciona a realização de um interesse particular; ao contrário, reconhece-se que existe necessidade de uma proteção metaindividual (tutela coletiva lato sensu). (grifou-se)

Considerando-se que o meio ambiente do trabalho é um dos aspectos do meio

ambiente em geral, concebe-se como difusa a sua natureza jurídica, sendo de direito

indisponível e patrimônio de todos, uma vez que transcende o direito individual, sendo

individualizáveis os titulares, pertencendo os interesses ou direitos difusos assim ao gênero de

interesses meta ou transindividuais, aí compreendidos os interesses que transpõem a linha do

individual (MELO, 2001, p. 32).

O Código de Defesa do Consumidor em seu art. 81, parágrafo único, define os

interesses difusos, coletivos e os individuais homogêneos nos seguintes termos:

Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo.

Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:

I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato;

II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou

classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base;

III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem comum.

Destarte, o meio ambiente do trabalho se constitui em um direito fundamental

próprio às normas sanitárias e de saúde do trabalhador, conforme disposto no art. 196 da

Constituição Federal de 1988, sendo difusa a sua natureza jurídica “porque as consequências

decorrentes da sua degradação, como, por exemplo, os acidentes de trabalho, embora com

repercussão imediata no campo individual, atingem, finalmente, toda a sociedade, que paga a

conta final” (MELO, 2010, p. 35).

A importância da identificação da natureza jurídica do meio ambiente de trabalho –

natureza difusa – reside tanto na elaboração das normas de proteção quanto na interpretação e

aplicação dessas normas.

Nesse sentido revelam-se adequadas as conclusões de Melo (2010, p. 35-36):

Quanto à elaboração, se se tratassem de normas de Direito do Trabalho no sentido estrito, somente a União poderia legislar a respeito (CF, art. 22, inc. I). Porém, como são normas de Direito Ambiental e sobre saúde, a competência legislativa é concorrente da União, dos Estados e do Distrito Federal (CF, art. 24, incs. VI, VII e XII) e comum da União, dos Estados e do Distrito Federal e dos Municípios cuidar da saúde e proteger o meio ambiente (CF, art. 23, incs. II e VI). No tocante à interpretação e aplicação, também haverá repercussões quando se considerar essas normas como de direitos difusos, na modalidade de direitos humanos. É o que ocorre, por exemplo, com a solução do controvertido tema da prescrição nas ações de reparação por danos material, moral, estético e pela perda de uma chance em razão de um acidente de trabalho. Quem considera as normas legais atinentes como de Direito do Trabalho, aplica a prescrição trabalhista. Quem, ao contrário, entende que a natureza dessas normas é de direitos humanos, em decorrência de danos à pessoa humana, ou considera imprescritíveis as pretensões ou aplica os prazos mais favoráveis às vítimas, a fim de que possam obter alguma compensação pelos danos sofridos [...].

Traz-se à colação, por harmônica, decisão prolatada pelo Supremo Tribunal Federal,

no julgamento do Mandado de Segurança n. 22.164, rel. Celso de Mello, Pleno, em

30.10.1995:

O direito à integridade do meio ambiente – típico direito de terceira geração constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais abrangente, à própria coletividade social. Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) que se identificam com as liberdades positivas, reais ou concretas acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade

coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade.3

Ao analisar a expressão constante do art. 225 da Carta Magna “de uso comum do

povo”, sustenta Fiorillo (2009, p. 39-35) que “ninguém no plano constitucional pode

estabelecer relação jurídica com o bem ambiental que venha a implicar a possibilidade do

exercício de outras prerrogativas individuais ou mesmo coletivas”, como gozar, dispor, fruir,

lucrar, destruir, ou seja, realizar com o bem ambiental de forma inteiramente livre tudo aquilo

que for da vontade, desejo, ambição da pessoa humana no plano individual ou metaindividual,

“além do direito de usar o bem ambiental”.

Em palavras outras, diante do comando constitucional que informa a natureza

jurídica do bem ambiental, não guarda ele essencialmente compatibilidade incondicional com

o direito de propriedade, vale dizer, não há autorização constitucional no sentido de que se

faça com o bem ambiental de forma vasta, geral e absoluta aquilo que é permitido fazer com

outros bens diante do direito de propriedade, que ilumina o capitalismo.

Deste modo, concebe-se que as normas de saúde, higiene e segurança não são

normas de direito privado referentes apenas ao contrato individual de trabalho, conquanto a

este se agreguem, mas essencialmente de normas de Direito Ambiental e sobre saúde, cuja

interpretação há de ser feita sob o prisma de normas de direitos difusos, na modalidade de

direitos humanos indisponíveis.