Como visto em tópico anterior do presente capítulo, o meio ambiente do trabalho
(saudável) detém natureza jurídica de direito difuso, indisponível e patrimônio de todos,
sendo cogentes as normas protetivas.
A toda evidência, constituem-se normas essencialmente de Direito Ambiental ou,
como se assentou designar atualmente, de Direito Ambiental do Trabalho, sendo equívoco
considerá-las simplesmente como de Direito do Trabalho.
Nesse sentido traz-se à colação escritos de Melo (2011, p. 121), mediante os quais
revela preocupação quanto à discussão em pauta:
Quando em discussão os meandros do que, atualmente, se convencionou denominar Direito Ambiental do Trabalho, questões controvertidas são recorrentes. Sobreleva-se em importância, todavia, uma questão: o meio ambiente do trabalho, aspecto do meio ambiente geral, está vinculado, em sua essência, ao Direito do Trabalho ou ao Direito Ambiental? A tendência de algumas abordagens é limitar o tratamento da matéria com subtema do Direito do Trabalho. A questão, todavia, não nos parece tão simples.
O Direito do Trabalho tem por escopo maior regulamentar uma relação privada,
cujas normas, ressalvadas aquelas de indisponibilidade absoluta, blindadas pelo princípio da
proteção, ante a disparidade de armas que caracteriza os contratantes, são disponíveis, ex-vi
do disposto nos incs. VI, XIII e XIV do art. 7° da Constituição Federal de 1988, segundo os
quais são direitos dos trabalhadores urbanos e rurais a irredutibilidade do salário, salvo o
disposto em convenção ou acordo coletivo, duração do trabalho normal não superior a oito
horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução,
também mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho, e jornada de seis horas para o
trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo, de igual forma, negociação
coletiva.
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15 Ao examinar-se a temática da relação existente entre Direito do Trabalho e o Direito Civil, defende-se a natureza contratual da relação de emprego: “São amplas e significativas as relações do Direito Civil com o Direito do Trabalho. A título de exemplo, prevalece o entendimento de que a relação de emprego apresenta natureza contratual, por ser negócio jurídico bilateral, uma vez que presente o elemento vontade, ainda que manifestado de forma tácita. Assim, o contrato de emprego, que é figura central do Direito do Trabalho, tem sua origem no Direito Civil. Por isso, este ramo do Direito, principalmente quanto à sua parte geral e ao direito das
Além disso, pronuncia-se atualmente sobre a flexibilização das referidas normas,
dando-se evidência à livre atuação dos sindicatos representativos das categorias profissional e
patronal e eficácia à norma do inc. XXVI do art. 7º da Constituição Federal de 1988, que
reconhece as convenções e acordos coletivos de trabalho, prestigiando a negociação coletiva
como forma de solução autônoma dos conflitos coletivos de trabalho.
Como ressalta Louro (1995, p. 31), “a concepção de meio ambiente do trabalho não
pode ficar restrita a relação obrigacional, nem ao limite físico da fábrica, já que a saúde é
tópico de direito de massa e o meio ambiente equilibrado, essencial à sadia qualidade de vida,
é direito constitucionalmente garantido”.
Abordado o tema e superada a preocupação inicial, conclui Melo (2008, p. 47):
Feitas essas considerações, entendo que o direito do trabalho e o direito ambiental não só se interceptam, quando tratamos de meio ambiente do trabalho, como comportam, com relação ao seu destinatário final – o homem, objetivos símiles. Buscam ambos a melhoria do bem-estar do homem-trabalhador e a estabilidade do processo produtivo. O que os diferencia é a abordagem dos diferentes textos normativos que os integram.
Tem-se que primeiramente coube ao Direito do Trabalho a promoção da proteção da
vida e da saúde do trabalhador. Em seguida, com a modernidade e o surgimento de uma
legislação particular, batizada “ambiental”, houve o Direito Ambiental por absorver tal
encargo.
Oportunos, nesse contexto, os esclarecimentos de Belfort (2003, p. 75):
Necessário se trona esclarecermos que os bens juridicamente tutelados pelo Direito do Trabalho e pelo Direito Ambiental são distintos. Enquanto o Direito do Trabalho visa às relações jurídicas havidas entre empregado e empregador, numa relação contratual privatística, o Direito Ambiental busca a proteção dos trabalhadores, seres vivos, com relação ao seu ambiente, nos locais onde o homem presta seu trabalho, velando para sua qualidade de vida.
Destarte, entende-se que o Capítulo V do Título II da Consolidação das Leis do
Trabalho, que trata da Segurança e da Medicina do Trabalho, foi recepcionado pela
Constituição Federal de 1988 como norma de Direito Ambiental do Trabalho, conclusão
encarecida com o disposto no art. 154 consolidado, segundo o qual a observância em todos os
locais de trabalho do disposto no referido Capítulo V, não desobriga as empresas do
cumprimento de outras disposições que, com relação à matéria, sejam incluídas em códigos de
obrigações, apresenta disposições subsidiariamente aplicáveis no âmbito trabalhista, conforme o art. 8.°, parágrafo único, da Consolidação das Leis do Trabalho” (GARCIA, 2009, p. 88).
obras ou regulamentos sanitários dos Estados ou Municípios em que se situem os respectivos
estabelecimentos, bem como daquelas oriundas de convenções coletivas de trabalho, sendo
diretamente aplicáveis, portanto, os princípios próprios do Direito Ambiental sobre o meio
ambiente do trabalho, mormente os princípios da precaução e prevenção.
Em apoio à ideia de interseção entre o direito ambiental e o direito do trabalho,
traz-se à colação o entendimento de Silva (2010, p. 22):
[...] a proteção de segurança do meio ambiente de trabalho significa proteção do meio ambiente e da saúde das populações externas aos estabelecimentos industriais, já que um meio ambiente interno poluído e inseguro expele poluição e insegurança externa
Cita-se abaixo instigante contribuição doutrinária de Machado (2009, p. 54):
O Direito Ambiental é um Direito sistematizador, que faz a articulação da legislação, da doutrina e da jurisprudência concernentes aos elementos que integram o ambiente. Procura evitar o isolamento dos temas ambientais e sua abordagem antagônica. Não se trata mais de construir um Direito das águas, um Direito da atmosfera, um Direito do solo, um Direito florestal, um Direito da fauna ou um Direito da biodiversidade. O Direto Ambiental não ignora o que cada matéria tem de específico, mas busca interligar estes temas com a argamassa da identidade dos instrumentos jurídicos de prevenção e de reparação, de informação, de monitoramento e de participação.
Encarece-se que a atividade normativa que se desenvolve com relação ao meio
ambiente, com o fim de proteção, preservação e, ainda, de recuperação, sempre que
necessário, não se confunde ou assemelha com o objeto de outros ramos do Direito.
Andrade (2003, p. 106), observa que não se pode conceber o meio ambiente do
trabalho a partir do rígido enquadramento que têm recebido outros ramos do Direito, pois
“basta verificar que as suas normas inserem-se nos mais variados diplomas legais, adentrando
os mais diversos ramos do Direito”.
Doutrina nacional fornece importante contribuição para a percepção desse
movimento peculiar do Direito Ambiental, classificando-o como “transversal”, asseverando
que ele “perpassa todo o ordenamento jurídico, não lhe cabendo uma delimitação rígida e
estática. A ele é característico o movimento próprio da sociedade que integra”, atribuindo-lhe
natureza reformadora e finalista, na medida em que estimula “ações e comportamentos, até o
momento de sua edição inéditos, alimentando uma dinâmica preventiva envolvida com
prognósticos e incentivos, recriando as teias de comportamento arraigadas na sociedade”
(DERANI, 2008, p. 64-66).
Ao referir-se ao conteúdo das normas de Direito Ambiental, a doutrina em questão
atribui-lhes a tarefa de orientar as ações humanas com a finalidade de formar um
relacionamento conseqüente entre o ser humano e o meio ambiente em que vive. Acresce:
Que aqui fique bem claro que a produção social refere-se não apenas à produção de bens, mas a toda relação e comportamento do homem em sociedade, numa perspectiva de mediação com a natureza. Trabalho, lazer, produção, consumo são atividades em sociedade e com a natureza, e é nessa relação que se localiza o campo de ação do direito ambiental. (DERANI, 2008, p. 62-63)
A respeito do princípio da transversalidade, mostram-se relevantes as considerações
de Fernandes (2009, p. 100):
O princípio da transversalidade possui uma forte ligação com a transdisciplinaridade. Esta implica, por um lado, a multidimensionalidade do conhecimento humano e, por outro, a integração, ou melhor, a reintegração de estruturas de saber que se encontram isoladas em uma estrutura abrangente e coesa que reflita as diversas injunções culturais vindas de diversos ramos do saber. Significa, na prática, a constatação de que o saber não é construído a partir de uma práxis assente sobre o preconceito cultural nem sobre monolíticos esquemas ideativos. Num mundo heterogêneo e em rápida mudança, seria temerário, com obtenção de resultados a partir de processos estanques e fragmentados. A interdisciplinaridade surgiu pela necessidade de dar uma resposta à fragmentação causada por uma epistemologia de cunho positivista diante de suas visíveis insuficiências, fruto de análise do todo a partir de suas partes sem uma visão integradora.
A vontade popular traduzida pelo legislador constituinte, consoante Andrade (2003,
p. 107), içou “à condição de norma social fundamental a proteção do meio ambiente, como
corolário do direito à vida, em toda sua dignidade; a norma, por sua vez, passou a condicionar
a realidade, impondo obrigações e comportamentos à pessoa e ao Estado em suas relações
com o meio ambiente”. Acresce:
Assim sendo, destacamos a presença de normas ambientais, concernentes ao meio ambiente do trabalho, na Consolidação das Leis do Trabalho, que não tratam, entretanto, de direito do trabalho, mas de direito ambiental aplicado às relações entre o capital e trabalho em sentido estrito, no meio em que se desenvolvem, tendo como objeto essencial a pessoa e a saúde do trabalhador, ao proteger a higidez do local, dos métodos, das interações, influências e organização da atividade laborativa, para garantir a sadia qualidade de vida e dignidade da pessoa humana.
A própria definição de meio ambiente revela uma temática de natureza
interdisciplinar, sendo que, a despeito da existência de várias interpretações da expressão
meio ambiente, certamente em razão da imprecisão terminológica e pelo elevado número de
autores que abordam a temática sobre facetas científicas distintas, como ressalta Padilha
(2002, p. 20), “há uma concordância unânime quanto ao seu significado e amplitude, qual seja
sua abrangência e sua interdisciplinaridade”, exatamente em razão de que, nas palavras da
referida autora, no meio ambiente pode-se emoldurar praticamente tudo, ou seja, “o ambiente
físico, o social e o psicológico; na verdade, todo o meio exterior ao organismo que afeta o seu
integral desenvolvimento”. Explica:
Podemos afirmar que o meio ambiente é tudo aquilo que cerca um organismo (o homem é um organismo vivo), seja o físico (água, ar, terra, bens tangíveis pelo homem), seja o social (valores culturais, hábitos, costumes, crenças), seja o psíquico (sentimento do homem e suas expectativas, segurança, angústia, estabilidade), uma vez que os meios físico, social e psíquico são os que dão as condições interdependentes, necessárias e suficientes para que o organismo vivo (planta ou animal) se desenvolva na sua plenitude.
Diante da inegável intensidade que norteia o conceito de meio ambiente, pode-se
coligir, sem maiores dificuldades, que se trata de um conceito jurídico indeterminado,
associado que está ao vocábulo “sadia qualidade de vida”.
É nessa conjuntura que, revitalizado pelo novo padrão constitucional dado ao tema
do meio ambiente, consoante afirma Padilha (2002, p. 22), “deve atuar sobre toda e qualquer
área que envolva tal temática, impondo a reformulação de conceitos, institutos e princípios,
exigindo a adaptação e reestruturação do modelo socioeconômico atual com o necessário
equilíbrio do meio ambiente, tendo em vista a sadia qualidade de vida”.
Como afirma Derani (2008, p. 56), “o direito ambiental é em si reformador,
modificador, pois atinge toda a organização da sociedade atual, cuja trajetória conduziu à
ameaça da existência humana pela atividade do próprio homem”, e, ainda, de acordo com a
autora, “é um direito que surge para rever e redimensionar conceitos que dispõem sobre a
convivência das atividades sociais”.
Para Machado (2009, p. 54), citando Michel Prieur, o Direito Ambiental converge a
adentrar em todos os diferentes ramos clássicos do Direito, exatamente em razão da sua
natureza horizontal e de sua capacidade de influência mútua, com o escopo de orientar todo o
ordenamento em um sentido ambientalista. Expõe:
Na medida em que o ambiente é a expressão de uma visão global das intenções e das relações dos seres vivos entre eles e com seu meio, não é surpreendente que o Direito do ambiente seja um Direito de caráter horizontal, que recubra os diferentes ramos clássicos do Direito (Direito Civil, Direito Administrativo, Direito Penal, Direito Internacional) e um Direito de interações, que se encontra disperso nas várias regulamentações. Mais do que um novo ramo do Direito com seu próprio corpo de regras, o Direito do ambiente tende a penetrar todos os sistemas jurídicos existentes para os orientar num sentido ambientalista. (MACHADO, 2009, p. 54)
Destarte, diante do Direito Constitucional, o Direito Ambiental se mostra nos termos
do Capítulo VI do Título VIII, dedicado ao meio ambiente, além dos diversos dispositivos
distribuídos ao longo do texto constitucional.
No que se refere ao Direito Administrativo, o Direito Ambiental se faz aparente
mediante o exercício do poder de polícia, que condiciona ou restringe o uso dos bens e a
realização das atividades pelos indivíduos em favor da coletividade ou do Estado.
Já no Direito Civil, a revelação do Direito Ambiental se faz diante dos dispositivos
encartados no Código Civil e na legislação esparsa que trata da função social da propriedade,
dos gravames ao direito de propriedade em função de questões ambientais e direito de
vizinhança, enquanto que no Direito Processual Civil a interseção se mostra evidente no
manejo dos instrumentos inerentes à defesa do meio ambiente, notadamente no que se refere
aos instrumentos de tutela coletiva como, v. g., a ação civil pública, a ação popular, o habeas
data, o mandado de injunção e o mandado de segurança coletivo.
Quanto ao Direito Penal, tem-se que, a toda evidência, as normas incriminadoras das
condutas lesivas ao meio ambiente denunciam a estreita relação mantida entre ambas as
ciências, cumprindo ao Direito Processual Penal a complementação de referida relação por
meio dos procedimentos específicos alusivos às ações penais ambientais.
A ênfase em um sistema fiscal reparador expõe uma aproximada relação entre o
Direito Tributário e o Direito Ambiental.
No tocante ao Direito do Trabalho, à vista das normas de proteção à saúde, higiene e
segurança do trabalho, conforme Capítulo V do Título II da Consolidação das Leis do
Trabalho e, sobretudo, do disposto no inc. VIII do art. 200 da Constituição Federal de 1988,
pode-se falar não apenas em uma relação, mas de uma nova ciência, denominada Direito
Ambiental do Trabalho.
O Direito Ambiental também mantém estreita relação com o Direito Internacional, o
que se vê diante da edição de convenções, tratados internacionais e de declarações de direitos,
ante a atuação da Organização das Nações Unidas e da Organização Internacional do
Trabalho.
No mesmo sentido da ideia de interação do Direito Ambiental com os demais ramos
do Direito, assevera Antunes (1998, p. 24) que “as normas ambientais tendem a se incrustar
em cada uma das demais normas jurídicas, obrigando a que se leve em conta a proteção
ambiental em cada um dos demais „ramos‟ do Direito”, e que, em verdade, o Direito
Ambiental “penetra em todos os demais ramos da Ciência Jurídica”.
O Direito Ambiental, como se pode observar, se constitui em um aglomerado de
normas e institutos jurídicos pertencentes a distintos ramos do Direito, agrupados em razão de
seu papel instrumental para a disciplina do procedimento humano em relação ao seu meio
ambiente, envolvendo conhecimentos transdiciplinares, ou seja, em movimento.
Pode-se discernir que se trata não só de um Direito autônomo, mas de um Direito
transversal, na medida em que além de penetrar todos os ramos do Direito, inúmeras áreas e
instrumentos jurídicos a ele se submetem.
Arlindo e Alves (2005, 24-25) ao tratarem da abrangência da interdisciplinaridade,
afirmam:
Trata-se de um enfrentamento que demanda o concurso do conhecimento de diversas disciplinas não isoladamente, mas articuladas, e que para isso exige o envolvimento de profissionais capacitados e abertos ao diálogo de saberes, formados em novas bases, em novos paradigmas, que colocam a interdisciplinaridade como fundamental para identificação, entendimento e compreensão dos problemas ambientais e seus rebatimentos econômicos e sociais, e, conseqüentemente, para a formulação, definição e implementação de suas soluções.
Não fosse assaz, destaca-se presentemente a teoria do diálogo das fontes,
suplantando os critérios clássicos de solução das antinomias jurídicas, no sentido de que “as
normas jurídicas não se excluem – supostamente porque pertencentes a ramos jurídicos
distintos –, mas se complementam” (TARTUCE, 2011, p. 58).
Nesse contexto, mostram-se extremamente adequadas as declarações de Santos
(2008, p. 78), para quem a “interdisciplinaridade é importante para que o juiz possa decidir
adequadamente as novas questões complexas, que exigem mais conhecimentos de outras
áreas do que jurídicos”.
Trata-se da ideia de educação jurídica como uma educação intercultural,
interdisciplinar e acentuadamente voltada para a concepção de responsabilidade cidadã, a fim
de que sejam combatidas as três pilastras da cultura normativista técnico-burocrática, a saber:
a ideia da autonomia do direito, do excepcionalismo do direito e da concepção
burocrático-técnica dos processos (SANTOS, 2008, p. 76).
Reproduz-se abaixo um longo, mas importante trecho da obra de Rocha (2002, p.
284-285) em relação ao tema autonomia e conteúdo do Direito Ambiental do Trabalho em
foco:
A discussão sobre a autonomia das disciplinas jurídicas atende, especialmente, a pressupostos didáticos e metodológicos, por conseqüência, não é oportuno falar em
disciplina destacada do sistema científico, na medida em que seria oposto à própria construção da unidade sistemática do direito. Constitui-se, pois, um critério relativo. Em todo caso, cabe destacar que, tradicionalmente, são exigidas três condições para autonomia de uma disciplina jurídica: domínio suficiente vasto da matéria, possibilitando um estudo específico e particular; doutrina homogênea dominada por conceitos gerais comuns e distintos dos conceitos gerais informadores de outras disciplinas; e existência de método próprio, que possibilite a adoção de procedimentos especiais para que se conheça o objeto da indagação. Adverte-se que a autonomia não deve confundir-se com independência e isolamento. Em que pese a importância e engenhosidade da noção, deve-se compreender simplesmente que existem certas características peculiares de cada ramo da ciência jurídica, que correspondem a determinado objeto e foco em exame, conferindo elemento diferencial em relação a outras disciplinas jurídicas. Com efeito, observa-se que recentes legislações tutelam de forma sui generis o meio ambiente do trabalho; essa normatividade retorna em parte os interesses de proteção ao meio ambiente combinados aos interesses de garantia de qualidade de vida no trabalho, superando o paradigma de saúde, higiene e segurança ocupacional (como desenvolvido tradicionalmente pela legislação do trabalho); além disso, amplia-se a abordagem acerca do ambiente, superando a posição tradicional (naturalística) da legislação ambiental. Cabe entender aqui que, hoje, ainda é realmente prematuro afirmar a autonomia do Direito Ambiental do Trabalho, sobretudo porque a tutela ao meio ambiente do trabalho continua a ser estabelecida em face de a relação de trabalho e a legislação sobre a matéria serem ainda fragmentadas. Contudo, é importante deixar registrado que a elaboração dessa proteção sofre profunda influência do paradigma emergente que supera a forma tradicional de tutela à higiene e segurança dos trabalhadores. Mais do que isso, seus princípios inspiradores, inobstante muitos deles não serem exclusivos, parecem tomar uma dimensão específica e peculiarizante. Nota-se, ainda, que essa disciplina pode examinar, de forma mais acurada, as implicações jurídicas da proteção ao meio ambiente do trabalho.
Na mesma acepção são as considerações de Milaré e Coimbra (2004, p. 17):
Desde que apareceu com esta denominação, o Direito Ambiental, já no início dos anos 60, carrega a questão central de suas relações com outras ciências. Sua definição é funcional: a proteção do meio ambiente. Sob o ponto de vista material, ele tem um núcleo de disposições próprias, porém se apresenta como uma justaposição ou combinação de regras de Direito Público e do Direito Privado, com interferências em outros ramos da ciência jurídica. Na maior parte dos casos necessita do socorro de outras ciências para estabelecer não apenas parâmetros