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O ordenamento jurídico brasileiro anterior a 1988 discriminou a greve,

classificando-a, inclusive, como delito e instrumento antissocial, nocivo ao trabalho e ao

capital, além de inconciliável com os interesses da produção nacional.

Com a Constituição Federal de 1988, como registrado em passagem anterior,

implantou-se um novo padrão de relação de trabalho, vedando-se, inclusive, a intervenção

estatal na organização sindical.

Afirma Silva (2005, p. 465), nessa perspectiva, que o direito de greve é um

“direito-garantia”, na medida em que “ele não é uma vantagem, um bem, auferível em si pelos

grevistas, mas um meio utilizado pelos trabalhadores para conseguir a efetivação de seus

direitos e melhores condições de trabalho”.

Ressalta Melo (2009, p. 37), de outra parte, que a Constituição Federal de 1988

representou “uma verdadeira revolução com relação ao direito de manifestação operária,

considerando a greve como um direito fundamental do trabalhador”, ficando superada, assim,

especialmente diante do novo cenário jurídico, qualquer controvérsia prática acerca de sua

natureza jurídica: fato social, liberdade ou direito.

A Constituição Federal de 1988 trata do direito de greve em três passagens distintas.

Em um primeiro momento (art. 9°), dispensa tratamento ao exercício do direito de greve no

âmbito da iniciativa privada, nos seguintes termos:

Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

§ 1º - A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.

§ 2º - Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei.

Nesse contexto, mostra-se importante trazer à colação as afirmações de Melo (2009,

p. 38):

Como se observa, o Brasil viveu, até pouco tempo (1988) um regime de antiliberdade sindical. A liberdade sindical veio, embora relativamente, com a chamada Constituição Cidadã (art. 8° e incisos), que, como passo importante, vedou a intervenção e interferência do Estado na organização sindical e concedeu aos trabalhadores, como decorrência lógica, o direito de greve (art. 9°). Esta, que até então era praticamente proibida (de acordo com a Lei n. 4.330/64), além de ser considerada como prática anti-social e como delito, passou a ser considerada como um direito fundamental do cidadão trabalhador.

Em outra passagem, de acordo com o disposto no art. 37, inc. VII trata a

Constituição Federal de 1988 do exercício do direito de greve no âmbito da administração

pública, assim enunciando:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:

[...];

VII - o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica;

[...].

Finalmente, na forma do art. 142, § 3°, inc. IV veda aos militares a sindicalização e a

greve.

Da leitura atenta do art. 9° transcrito pode-se coligir pela ênfase à tipicidade fechada,

corolário do princípio da reserva legal, porquanto a lei a que alude o dispositivo constitucional

deveria dispor apenas sobre os serviços ou atividades essenciais e atendimento das

necessidades inadiáveis da comunidade.

Logo, a Lei n. 7.783/89, ao considerar no seu art. 2° como legítimo exercício do

direito de greve a “suspensão coletiva” de prestação pessoal de serviços a empregador, não só

excedeu o permissivo constitucional, conforme visto em linhas precedentes, como feriu o

disposto no art. 8°, inc. V, da Carta Magna, segundo o qual “ninguém será obrigado a filiar-se

ou a manter-se filiado a sindicato”, na medida em que, conforme dispõe o art. 4° da citada

Lei, caberá à entidade sindical correspondente convocar, na forma do seu estatuto, assembléia

geral que definirá as reivindicações da categoria e “deliberará sobre a paralisação coletiva da

prestação de serviços”.

Em outras palavras, a despeito da garantia constitucional de liberdade de

sindicalização, ao operário não sindicalizado, ainda que na ocorrência de riscos ambientais em

um setor, atividade ou tarefa que o coloquem em situação de grave e iminente perigo,

considerada a desproteção sindical – já que de acordo com o disposto no art. 513 da

Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), na perspectiva da defesa dos direitos individuais

do trabalhador, estaria o sindicato obrigado a defender exclusivamente aqueles inerentes aos

associados –, ser-lhe-ia vedada a suspensão da prestação pessoal de serviços, uma vez que, à

luz da interpretação gramatical da Lei n. Lei n. 7.783/89, caracterizado ilegítimo o exercício

individual da paralisação, por não constituir-se suspensão coletiva.

Inconcebível coligir que a Constituição Federal de 1988 tivesse assegurado o direito

de greve somente ao trabalhador sindicalizado e, ainda assim, apenas mediante suspensão

coletiva de prestação pessoal de serviços, à parte de ter garantido o direito de liberdade de

sindicalização.

Emana de princípio básico de Direito que ninguém por ser punido por exercitar

regularmente um direito.

Cumpre-se reiterar que a Constituição Federal de 1988, ao tratar sobre o direito de

greve na esfera da iniciativa privada não o restringe, confere aos trabalhadores, inversamente,

a livre decisão sobre a oportunidade de exercê-lo e os interesses que devam por meio dele

defender, não podendo a norma infraconstitucional, por isso mesmo, limitá-lo, senão

resguardá-lo, sendo constitucionalmente aceitáveis, por assim dizer, todos as espécies de

greve, aí compreendida a greve ambiental individual, especialmente enquanto desdobramento

da flexibilização do instituto, conforme visto em seção imediatamente anterior.

Nessa contextura, adverte Silva (2005, p. 304) que a Constituição assegura o direito

de greve “por si própria (art. 9°)”, isto é, não “o subordinou a eventual previsão em lei”.

Ressalta o referido constitucionalista que a lei não pode restringir o direito mesmo,

“nem quanto à oportunidade de exercê-lo nem sobre os interesses que, por meio dele, devam

ser defendidos”, pois tais decisões “competem aos trabalhadores, e só a eles (art. 9°)”, por

isso que “só cabe à lei definir quais serviços e atividades sejam essenciais e dispor sobre o

atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade (art. 9°, § 1°)” (SILVA, 2005, p.

305).

Diferente poderá ser o tratamento legislativo dispensado ao exercício do direito de

greve no âmbito da administração pública porque a própria Constituição Federal de 1988, de

forma expressa, remete à lei a sua regulamentação, isto é, nos termos e limites a serem

estabelecidos, autorizando, deste modo, a mitigação da plenitude do exercício do direito de

greve, em razão do princípio da continuidade da prestação do serviço público.

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42 Em relação ao exercício do direito de greve pelos servidores públicos, decidiu o Supremo Tribunal Federal pela aplicação, no que couber, da Lei n. 7.783/89, in casu, enquanto não for editada lei regulamentadora a que alude o inc. VII do art. 37 da CF/88, cuja ementa assim está vazada: “MANDADO DE INJUNÇÃO. ART. 5º, LXXI DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. CONCESSÃO DE EFETIVIDADE À NORMA VEICULADA PELO ARTIGO 37, INCISO VII, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. LEGITIMIDADE ATIVA DE ENTIDADE SINDICAL. GREVE DOS TRABALHADORES EM GERAL [ART. 9º DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL]. APLICAÇÃO DA LEI FEDERAL N. 7.783/89 À GREVE NO SERVIÇO PÚBLICO ATÉ QUE SOBREVENHA LEI REGULAMENTADORA. PARÂMETROS CONCERNENTES AO EXERCÍCIO DO DIREITO DE GREVE PELOS SERVIDORES PÚBLICOS DEFINIDOS POR ESTA CORTE. CONTINUIDADE DO SERVIÇO PÚBLICO. GREVE NO SERVIÇO PÚBLICO. ALTERAÇÃO DE ENTENDIMENTO ANTERIOR QUANTO À SUBSTÂNCIA DO MANDADO DE INJUNÇÃO. PREVALÊNCIA DO INTERESSE SOCIAL. INSUBSSISTÊNCIA DO ARGUMENTO SEGUNDO O QUAL DAR-SE-IA OFENSA À INDEPENDÊNCIA E HARMONIA ENTRE OS PODERES [ART. 2O DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL] E À SEPARAÇÃO DOS PODERES [art. 60, § 4o, III, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL]. INCUMBE AO PODER JUDICIÁRIO PRODUZIR A NORMA SUFICIENTE PARA TORNAR VIÁVEL O EXERCÍCIO DO DIREITO DE GREVE DOS SERVIDORES PÚBLICOS, CONSAGRADO NO ARTIGO 37, VII, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. 1. O acesso de entidades de classe à via do mandado de injunção coletivo é processualmente admissível, desde que legalmente constituídas e em funcionamento há pelo menos um ano. 2. A Constituição do Brasil reconhece expressamente possam os servidores públicos civis exercer o direito de greve

artigo 37, inciso VII. A Lei n. 7.783/89 dispõe sobre o exercício do direito de greve dos trabalhadores em geral, afirmado pelo artigo 9º da Constituição do Brasil. Ato normativo de início inaplicável aos servidores públicos civis. 3. O preceito veiculado pelo artigo 37, inciso VII, da CB/88 exige a edição de ato normativo que integre sua eficácia. Reclama-se, para fins de plena incidência do preceito, atuação legislativa que dê concreção ao comando positivado no texto da Constituição. 4. Reconhecimento, por esta Corte, em diversas oportunidades, de omissão do Congresso Nacional no que respeita ao dever, que lhe incumbe, de dar concreção ao preceito constitucional. Precedentes. 5. Diante de mora legislativa, cumpre ao Supremo Tribunal Federal decidir no sentido de suprir omissão dessa ordem. Esta Corte não se presta, quando se trate da apreciação de mandados de injunção, a emitir decisões desnutridas de eficácia. 6. A greve, poder de fato, é a arma mais eficaz de que dispõem os trabalhadores visando à conquista de melhores condições de vida. Sua auto-aplicabilidade é inquestionável; trata-se de direito fundamental de caráter instrumental. 7. A Constituição, ao dispor sobre os trabalhadores em geral, não prevê limitação do direito de greve: a eles compete decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dela defender. Por isso a lei não pode restringi-lo, senão protegê-lo, sendo constitucionalmente admissíveis todos os tipos de greve. 8. Na relação estatutária do emprego público não se manifesta tensão entre trabalho e capital, tal como se realiza no campo da exploração da atividade econômica pelos particulares. Neste, o exercício do poder de fato, a greve, coloca em risco os interesses egoísticos do sujeito detentor de capital

indivíduo ou empresa

que, em face dela, suporta, em tese, potencial ou efetivamente redução de sua capacidade de acumulação de capital. Verifica-se, então, oposição direta entre os interesses dos trabalhadores e os interesses dos capitalistas. Como a greve pode conduzir à diminuição de ganhos do titular de capital, os trabalhadores podem em tese vir a obter, efetiva ou potencialmente, algumas vantagens mercê do seu exercício. O mesmo não se dá na relação estatutária, no âmbito da qual, em tese, aos interesses dos trabalhadores não correspondem, antagonicamente, interesses individuais, senão o interesse social. A greve no serviço público não compromete, diretamente, interesses egoísticos do detentor de capital, mas sim os interesses dos cidadãos que necessitam da prestação do serviço público. 9. A norma veiculada pelo artigo 37, VII, da Constituição do Brasil reclama regulamentação, a fim de que seja adequadamente assegurada a coesão social. 10. A regulamentação do exercício do direito de greve pelos servidores públicos há de ser peculiar, mesmo porque "serviços ou atividades essenciais" e "necessidades inadiáveis da coletividade" não se superpõem a "serviços públicos"; e vice-versa. 11. Daí porque não deve ser aplicado ao exercício do direito de greve no âmbito da Administração tão-somente o disposto na Lei n. 7.783/89. A esta Corte impõe-se traçar os parâmetros atinentes a esse exercício. 12. O que deve ser regulado, na hipótese dos autos, é a coerência entre o exercício do direito de greve pelo servidor público e as condições necessárias à

Evidencia-se, deste modo, no que se refere ao exercício do direito de greve no

âmbito da administração pública, que “o constituinte ainda não teve a coragem de admitir o

amplo direito de greve aos servidores públicos, pois, em relação a estes, submeteu o exercício

desse direito aos termos e limites definidos em lei específica (art. 37, VII)” (SILVA, 2005, p.

305).

Nessa perspectiva, a garantia de interrupção imediata da prestação pessoal de

serviços diante de riscos ambientais em um setor, atividade ou tarefa, independentemente da

natureza jurídica de direito difuso do meio ambiente do trabalho, deslocando o direito de

greve ambiental do âmbito do Direito do Trabalho para a seara do Direito Ambiental do

Trabalho, além da consagrada concepção doutrinária no sentido de que o direito de greve

constitui-se em um direito individual de exercício coletivo, manifestando-se como autodefesa,

como se verá ao se tratar da titularidade e do alcance da greve ambiental individual,

apresenta-se como sendo uma acepção consentânea com os princípios da dignidade operária,

proibição de retrocesso dos direitos sociais dos trabalhadores e, especialmente, com a garantia

constitucional de ampla liberdade do exercício do direito de greve.