A Constituição Federal de 1988 ao estabelecer no art. 225, caput, que cumpre à
coletividade a defesa do meio ambiente, é claro que se reporta à sociedade organizada, o que
permite coligir que, sob o prisma do meio ambiente do trabalho, referida tarefa incumbe
primeiramente aos sindicatos, que na dicção do art. 8°, inc. III, do texto constitucional, têm o
dever de defender os direitos e interesses coletivos e individuais da categoria, ensejando, via
de consequência, a afirmação do movimento sindical, já que, conforme ressalta Bruno (2003,
p. 87), citando Sandra Lia Simón, “o homem-trabalhador é a principal razão da existência dos
próprios sindicatos, cabendo também a este zelar pelo princípio da dignidade da pessoa
humana”.
Contudo, a toda evidência, o que se observam são meras reivindicações econômicas,
ante o temor de demissões e fechamento de fábricas, o que traduz fracasso do sindicalismo,
mormente no que se refere regionalmente às categorias profissionais dos metalúrgicos, dos
gráficos, dos estivadores, da fiação e tecelagem de juta e da construção civil, detentoras de
pouca consciência da realidade social, de capacidade de reivindicação e, sobretudo, de
educação ambiental, além do “peleguismo” praticado constantemente dentro das estruturas
empresariais, sem prejuízo de que no caso das categorias profissionais dos metalúrgicos e dos
gráficos, a própria formação antecede a ideia de direito a ambiente de trabalho saudável.
Ocorre que os dirigentes sindicais brasileiros, na sua maioria, não se conscientizaram ainda da importância do meio ambiente seguro, como forma de preservação da saúde e integridade física e psíquica dos trabalhadores, pois o principal pleito trabalhista ainda tem sido sobre aumentos salariais e outras cláusulas sociais; além disso, no geral, ainda continua incipiente a negociação coletiva, como forma mais importante e ágil de prevenção ambiental, principalmente em momentos de muito desemprego, porque os trabalhadores, e por consequência os sindicatos, por razões óbvias, têm como preocupação principal a manutenção dos postos de trabalho, mesmo que em condições inseguras.
Os sindicatos, que deveriam defender, resistir e lutar pelos interesses da classe
operária, especialmente pela defesa austera da saúde do trabalhador, apoiada, inclusive, pelo
direito de greve, de acordo com Arendt (2008, p. 228), “são responsáveis pela posterior
incorporação desta última na sociedade e, sobretudo, pela extraordinária melhoria da
segurança econômica, do prestígio social e do poder político da classe”, contudo, como
reconhece a autora, “jamais foram revolucionários no sentido de desejarem a transformação
simultânea da sociedade e das instituições políticas que a representam”.
Nessa perspectiva mostram-se oportunas as considerações de Fernandes (2009, p.
96):
Os sindicatos, cuja existência e atuação somente têm razão de ser em um ambiente democrático, precisam exercitar essa democracia no âmbito interno de suas relações. Ao mesmo tempo, precisam legitimar sua representatividade na defesa do direito fundamental à vida e à saúde dos trabalhadores, atribuição essa sempre relegada a uma atuação tímida e em segundo plano pelas entidades sindicais, mormente se considerarmos o impacto desestruturador do movimento sindical em função das profundas transformações econômicas advindas com a globalização com reflexos diretos no mundo do trabalho. A representação sindical é um dos meios de exercício do direito de participação social e democrática, previsto constitucionalmente, adstrito a um segmento populacional, haja vista a limitação na representação sindical; entre nós, como sabemos, cada sindicato representa uma categoria, em limitado território.
Importante transcrever relatos constantes de pesquisa acadêmica realizada pela
Médica do Trabalho Margarida Barreto, citada por Catadi (2002, p. 108-109), que revela a
ineficiência sindical na atuação e defesa da saúde do trabalhador:
A humilhação inesperada: o espaço sindical. É relativamente freqüente os trabalhadores demitidos, doentes ou que sofreram acidentes, procurarem o Sindicato a que pertencem em busca de ajuda, orientações e esclarecimentos dos seus representantes legais, do Departamento jurídico e assistência médica. Nestes momentos, querem resolução para seus problemas particulares e, algumas vezes, falam das condições de organização e ambiente de trabalho, esperando que providências sejam tomadas. Alguns vão à procura de “força para lutar por seus direitos”. Com ressentimentos, muitos relataram que raramente foram bem recebidos por seus representantes, havendo indiferença por suas histórias e dores.
“Esperava que eles me dessem esclarecimentos. Não esperava que eles fizessem cálculos (...) queria que me esclarecesse meu direito (...) o que a lei me protegia (...) o que me favorecia. Mas, a preocupação deles é que eu não era sócia, que eu não fazia parte” (Mulher, branca, LER, Ind. Plástica). “Eu procurei o Sindicato porque eu queria força. Força! Força para lutar e esclarecer aquilo que eu tenho direito. Eu sei que eu tenho direito. Eu sei. (Mulher, branca, LER, Ind. Farmacêutica.)”. “A preocupação do Sindicato é distribuir folheto e chamar pra votar (...) Só chama a gente para reunião que interessa a eles, porque quando o associado precisa do Sindicato, ele não existe” (Homem, negro, acidente do trabalho, Ind. Farmacêutica). Criticam o Sindicato, afirmando que os diretores se ausentaram das portas das fábricas e se concentraram nas salas vazias do Sindicato, muitas vezes conversando animadamente entre si e indiferentes aos que chegam, como afirmam: “Eu cheguei no Sindicato e tava todo mundo reunido (...) conversando (...) Conversando e rindo (...) E eu ali esperando! Esperei um tempão pra eles me atender e despachar bem rápido” (Homem, pardo, hérnia de disco, Ind. Química). “Quando eu fui ao Sindicato, não vi ninguém lá. Não vou mentir: nunca vi! Aí eu pensei: deve ser um Sindicato bem fraquinho. É um pessoal que não está nem aí” (Mulher, branca, LER, Ind. Farmacêutica).
No Brasil, em termos de inserção nos instrumentos normativos sobre condições
ambientais do trabalho, a atuação sindical se mostra acanhada, o que também ocorre na área
judicial, nada obstante a legitimação conferida pela Constituição Federal de 1988 (art. 8°, inc.
III e 129, § 1°) e pela Lei n. 7.347/85 (art. 5°), o que demanda a utilização de instrumentos
capazes de garantir a higidez do meio ambiente do trabalho, inclusive, se necessário parecer,
de forma individualizada.
3 GREVE
A expressão “greve” exprime o mesmo que strike (inglês), grève (francês), sciopero
(italiano) e huelga (castelhano), sendo o vocábulo francês assimilado pela língua portuguesa.
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, citado por Abramowicz (2006, p. 7), define
greve como “recusa, resultante de acordo, de operários, estudantes, funcionários etc., a
trabalhar ou comparecer onde o dever os chama, enquanto não sejam atendidos em certas
reivindicações”.
Oportunas, nesse contexto, as considerações de Hinz (2005, p. 11):
Foi principalmente em função da paralisação dos trabalhadores na busca de melhores condições de trabalho e de vida que surgiu o direito do trabalho. Afinal, foi em razão do recrudescimento dessas lutas e de todo o sangue derramado que o Estado passou a intervir nas relações entre trabalhadores e empregadores, no alvorecer da I Revolução Industrial. Mais que um direito, a greve é o mecanismo máximo de autodefesa dos trabalhadores em face daqueles que detêm os meios de produção. É por meio dela que os trabalhadores afetarão o ponto mais sensível do empregador, sua produção, suas atividades, de onde retira seu faturamento, seu lucro.