5. CAPÍTULO 4 – O BEM E O MAL NA ENCRUZILHADA DO SERTÃO
5.3. Sétima sequência: a batalha no Tamanduá-Tão
5.3.1. Ambiguidade e errância – prelúdio ao grande combate final
Seguindo o curso dos acontecimentos vemos o bando prosseguir em direção ao combate contra o Hermógenes e Riobaldo se mantém confiante no seu comando: “Tomei mais certeza da minha chefia. Quer ver que eu tinha deixado de parte todas as minhas dúvidas de viver, e que apreciava o só-estar do corpo (...) (ROSA, 2001, p. 548). Enquanto o chefe estava cada vez mais cônscio e destinado ao propósito daquela guerra Diadorim, diferentemente, vai questionando o sentido e o rumo da mesma. A falta de linearidade no caminho de Riobaldo e até mesmo as oscilações nos traços de sua personalidade deixam Diadorim inseguro e desconfiado. Para Rosenfield esta errança justifica-se enquanto experiência da dimensão obscura da alma de Riobaldo:
A errança de Riobaldo assemelha-se, ao contrário, ao topos da descida ao inferno, à exploração das regiões mais obscuras da alma que se confundem com o “terreno do corpo”. Diadorim, o amigo que vive só um sentimento de cada vez, reprova as ambiguidades da busca riobaldiana e vê com maus olhos essa exploração sinuosa (ROSENFIELD, 2008, p. 117).
Observamos, contudo, que a chefia de Riobaldo, por ser ambígua e sinuosa, traz a marca não só da exploração da dimensão obscura da alma, mas também a possibilidade de um constante refazer-se no caminho: pois pode ir do obscuro à luminosidade; do bem ao mal; da dúvida à certeza; do medo à coragem. Esta disposição de estar em constante transitar errante, contudo, não tem a aprovação de Diadorim. O amigo chega, inclusive, a perguntar a Riobaldo se ele queria mesmo a guerra, como se desejasse mais objetividade e clareza para chegar até o inimigo. O chefe responde da seguinte maneira: “– ‘Uai, Diadorim, pois você mesmo não é que é o dono da empreita?!’ – e, mais, meio debiquei com estas: - ‘Que eu, vencendo vou, é menos feito Guy-de-Borgonha...’” (ROSA, 2001, p. 549). Rosenfield interpreta a menção ao Guy de Borgonha da seguinte maneira:
O que significa a menção do herói da epopeia de Carlos Magnus nesse contexto? Sua significação tem duas vertentes: de um lado, ela assinala que a guerra de Diadorim e de Urutu Branco nada tem a ver com a Guerra Santa que se tramava em nome de Deus contra os infiéis. Do outro, ela diz nas entre linhas, e sem que
o locutor perceba conscientemente esse sentido, que essa guerra não se encerrará como os combates do valente Guy, com uma vitória e uma derrota unívocas, nem com a conquista da única bem-amada (ROSENFIELD, 2008, p. 117-118).
A menção ao cavalheiro virtuoso da epopeia de Carlos Magno estaria, assim, assinalando que o final desta guerra não teria uma vitória unívoca: a vitória do bem sobre o mal, ou seja, a morte do inimigo e traidor Hermógenes, assim como planejado. Será que Riobaldo teria pressentido que a morte do inimigo poderia não se efetivar, ou ainda, de que a morte do inimigo lhe custaria mais caro do que imaginava? Ao que parece, Riobaldo, mesmo através de uma fala irônica, já havia intuído o resultado do combate no Tamanduá-Tão. A resposta de Diadorim, contudo, surpreende, pois ele diz que já não sabia mais se queria mesmo aquela guerra. O propósito de acabar com o inimigo e traidor havia sido até então uma certeza inabalável, mas agora ele já havia perdido o sentido do combate. Riobaldo lhe pede mais explicações e Diadorim responde da seguinte maneira: “– ‘Por vingar a morte de Joca Ramiro, vou, e vou e faço, consoante devo. Só, e Deus que me passe por esta, que indo vou não com meu coração que bate agora presente, mas com o coração de tempo passado...’” (ROSA, 2001, p. 549). Diadorim sente que o dever de vingar a morte de seu pai é muito mais uma obediência a um desejo antigo, pois tal desejo já não reverbera mais dentro dele.
No período de três dias de chuvas o bando se protege na Fazenda Carimã, onde são acolhidos pelo dono, uma figura avarenta chamada Zabudo. Estiada a chuva, o bando segue viagem e notamos Riobaldo muito seguro com o seu plano de acabar com o inimigo:
Acabar com o Hermógenes! Assim eu figurava o Hermógenes: feito um boi que bate. (...) eu carecendo de derrubar a dobradura dele, para remedir minha grandeza façanha! E perigo não vi, como não estava cismando incerteza. Tempo do verde! (...) que, o Hermógenes e eu, sem dilato, a gente ia se enfrentar, em algum trecho (...). Estrada-real, estrada do mal (ROSA, 2001, p. 556-557).
Observa-se, então, que a dúvida e o medo que haviam se instalado em Riobaldo logo após o contato com seo Ornelas dão lugar novamente à coragem, valentia e confiança no propósito de vencer o inimigo. “Tempo do verde” abre-se, então, como tempo fecundo, propício para o desfecho vitorioso, mas onde o mal irá, certamente, reger sua força.
No desenrolar da estória logo se tem notícia de que o bando do Hermógenes se aproxima dali. O bando de Riobaldo, por sua vez, ainda consegue arrecadar munição e o chefe se sente em plenas condições para o combate. Estima, ainda, seus jagunços, como se fossem seus irmãos ou filhos. Sente-se responsável por todos: “Como se fosse pela influência do “sistemático” e “moderativo” Ornelas, as andanças de Urutu Branco aparecem agora como planejadas e astuciosamente preparadas, como faria um pai que teme pelo bem dos seus
filhos” (ROSENFIELD, 2008, p. 119). Temos que concordar que Riobaldo, neste momento, encontra-se muito compenetrado e ponderado. E sem dúvida ele lança mão de planejamento e moderação naquela hora prestes a desencadear o grande combate. Mas não podemos circunscrever sua campanha, a partir de agora, com o traço da racionalidade e do planejamento. Estas são estratégias que ele usufrui, mas sem abrir mão de seu modo instintivo e errante de chefiar. Com entusiasmo e muita força, Riobaldo anuncia a guerra e ganha aprovação imediata do bando. Ao chegar aos campos do Tamanduá-tão a grande batalha tem início.
Observamos, então, que o caminho de Riobaldo até chegar ao combate propriamente revela-se um caminho errante. Sua chefia começa marcada pela desmedida conquistada no pacto com o diabo, experimentando os excessos de sua dimensão maligna. No encontro com seo Ornelas ganha limite e contornos necessários para manter sua coragem, ousadia e força, mas sem precisar de impor seus excessos gratuitamente. A falta de linearidade deste caminho coloca sua empreitada sob a suspeita de Diadorim. Ambiguidade e errância, características próprias a arte de chefiar de Riobaldo, dão o tom do prelúdio do grande combate final.